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Terapia Hormonal para Tratamento da Remodelação Cardíaca: Existem Evidências?

Terapia Hormonal para Tratamento da Remodelação Cardíaca: Existem Evidências?

Autores:

Luís Alexandre F. Cicchetto,
Bertha F. Polegato,
Leonardo A. M. Zornoff

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.107 no.1 São Paulo jul. 2016

https://doi.org/10.5935/abc.20160106

A remodelação cardíaca pode ser definida como o conjunto de variações moleculares, celulares e intersticiais cardíacas, que vão se manifestar clinicamente por alterações no tamanho, massa, geometria e função do coração em resposta a determinada agressão. Esse processo resulta em mau prognóstico, pois está associado com progressão da disfunção ventricular e arritmias malignas.1 Nesse sentido, diferentes estratégias terapêuticas têm sido estudadas para a prevenção ou, pelo menos, atenuação desse processo.2,3 Alguns tratamentos já estão consolidados como, por exemplo, os inibidores da enzima conversora da angiotensina, os antagonistas dos receptores da angiotensina II, os betabloqueadores e os antagonistas da aldosterona. Outros tratamentos, apesar do potencial fisiopatológico, ainda estão em fase de estudos.4 Entre eles, destaca-se a terapia hormonal, particularmente testosterona, hormônio tireoidiano e hormônio de crescimento (GH).

A testosterona é um dos hormônios que têm recebido maior atenção nos últimos anos. Do ponto de vista fisiopatológico, na presença de disfunção ventricular, a testosterona pode modular o processo de remodelação cardíaca, fortalecer a musculatura esquelética, melhorar a capacidade de exercício e diminuir a atividade inflamatória.5,6 Devemos considerar que parcela significativa de pacientes com insuficiência cardíaca apresenta níveis de testosterona reduzidos. Adicionalmente, baixos níveis de testosterona foram fator de risco independente para a readmissão hospitalar dentro de 90 dias e para aumento de mortalidade em pacientes com insuficiência cardíaca.7 Assim, a suplementação de testosterona é uma estratégia atraente no cenário da insuficiência cardíaca.

Em diferentes estudos clínicos, a suplementação de testosterona melhorou a capacidade de exercício em pacientes com insuficiência cardíaca, independentemente dos níveis hormonais. No entanto, o tratamento hormonal não modificou parâmetros objetivos de remodelação cardíaca, como as dimensões do ventrículo esquerdo ou a função ventricular.8 Assim, as evidências disponíveis até o momento sugerem que os efeitos benéficos da suplementação de testosterona podem ser por ações preferencialmente na musculatura esquelética, e não na remodelação cardíaca.

Em relação ao hormônio tireoidiano, diferentes ações foram descritas, incluindo atividade inotrópica, cronotrópica e lusitrópica.9,10 Adicionalmente, ações relacionadas à remodelação também já foram documentadas, incluindo propriedades anti-apoptóticas, anti-inflamatórias e antifibróticas, promoção da angiogênese, regeneração cardíaca e indução de perfil benéfico de micro RNAs. Assim, alterações da função tireoidiana afetam a morfologia e a função cardíaca e são fatores de risco para o aparecimento de insuficiência cardíaca.11,12

Entre as alterações de função tireoidiana associadas ao processo de remodelação cardíaca, destaca-se a síndrome do T3 baixo, caracterizada principalmente por aumento da conversão de T4 a T3 reverso, uma forma inativa de hormônio tireoidiano. Essa síndrome pode estar presente em aproximadamente 30% dos pacientes com insuficiência cardíaca avançada e é um preditor independente de mortalidade cardiovascular. Adicionalmente, estudos experimentais mostram que baixos níveis de T3 cardíacos podem ser acompanhados por níveis séricos normais de hormônios tireoidianos. Importante, agressões cardíacas, como infarto do miocárdio, hipertensão arterial e diabetes, podem induzir a redução dos níveis tissulares cardíacos de T3.11-13

Os comentários anteriores fundamentaram o uso de hormônios tireoidianos para prevenção ou atenuação do processo de remodelação cardíaca. Nesse sentido, em diferentes modelos experimentais de agressão, a administração de hormônios tireoidianos foi acompanhada por melhora de variáveis celulares, morfológicas e funcionais cardíacas. No entanto, em humanos, as poucas informações disponíveis são resultado de estudos pequenos, que avaliaram apenas efeitos inconsistentes hemodinâmicos e funcionais.11-14

Apesar de o GH ter recebido especial atenção nos últimos anos pelo proclamado efeito de retardo de envelhecimento e potencial aumento do desempenho físico, aceita-se que seja um modulador da morfologia e da função cardíaca.15 Nesse sentido, tanto o excesso como a deficiência do GH e de seu mediador (fator de crescimento semelhante à insulina I - IGF-1) estão associados com a doença cardiovascular.

Em diferentes modelos experimentais, a administração de GH foi associada com atenuação da remodelação cardíaca secundária a diversos estímulos.16-18 Aproximadamente 30% dos pacientes com insuficiência cardíaca apresentam deficiência de GH, sendo valores baixos de IGF-1 preditores de mortalidade.8 Todas essas considerações fornecem embasamento para a suplementação de GH em pacientes com disfunção cardíaca. Apesar de os primeiros estudos clínicos suportarem efeitos benéficos do GH, dois estudos controlados com placebo apresentaram resultados neutros em pacientes com insuficiência cardíaca.19,20 Assim, o papel do GH em situações de remodelação cardíaca permanece por ser determinado.

Pelo exposto, apesar das sólidas evidências fisiopatológicas e dos resultados experimentais bastante consistentes, até o momento não existem evidências do benefício clínico da administração de testosterona, hormônio tireoidiano e GH, de forma rotineira, para pacientes com remodelação cardíaca.

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