Teste de Esforço Cardiopulmonar em Portadores de Bloqueio do Ramo Esquerdo e Fração de Ejeção Preservada

Teste de Esforço Cardiopulmonar em Portadores de Bloqueio do Ramo Esquerdo e Fração de Ejeção Preservada

Autores:

Milena dos Santos Barros,
Rívia Siqueira Amorim,
Romerito Oliveira Rocha,
Enaldo Vieira de Melo,
José Augusto Barreto-Filho,
Antônio Carlos Sobral Sousa,
Romeu Sérgio Meneghelo,
Joselina Luzia Menezes Oliveira

ARTIGO ORIGINAL

International Journal of Cardiovascular Sciences

versão impressa ISSN 2359-4802versão On-line ISSN 2359-5647

Int. J. Cardiovasc. Sci. vol.30 no.1 Rio de Janeiro jan./fev. 2017

http://dx.doi.org/10.5935/2359-4802.20170018

Introdução

A presença do BRE isolado, independentemente da concomitância de cardiopatia, parece ser um marcador de progressão lenta das doenças cardíacas degenerativas, isquêmicas ou não, afetando o sistema de condução e o desempenho contrátil do miocárdio.1 O BRE pode induzir cardiomiopatia, já que os seus portadores, quando submetidos à terapia de ressincronização cardíaca, podem apresentar remodelamento reverso do ventrículo esquerdo (VE).2,3 Dessa forma, não deve ser considerado apenas um achado eletrocardiográfico, mas sim, "uma entidade clínica cardíaca", conforme sugeriram Kumar et al.4

Apesar do relato da ocorrência de alterações estruturais do VE provocadas pelo BRE, existe, na literatura, escassez da existência de fatores preditores na redução do desempenho cardiovascular nesses pacientes. O TECP é um método, não invasivo, utilizado para o diagnóstico e estratificação prognóstica dos portadores de insuficiência cardíaca congestiva (ICC), por meio da análise de gases expirados durante o teste de esforço. As principais variáveis avaliadas mediante essa metodologia são: o consumo de oxigênio pico (VO2 pico), o VO2 no limiar anaeróbico, o pulso de oxigênio (PO2), ΔVO2/Δcarga , a relação ventilação minuto/produção de dióxido de carbono (VE/VCO2 slope) e a cinética de recuperação do VO2. Por outro lado, já está documentado que a FEVE avaliada por meio do ecocardiograma não exibe correlação satisfatória com o VO2,5,6 não constituindo, portanto, bom preditor da capacidade funcional.

Podemos hipotetizar, então, que o TECP poderá evidenciar, em portadores assintomáticos de BRE, alterações do comportamento cardiovascular que antecedem o comprometimento da FEVE. A presente pesquisa investigou se o BRE isolado em pacientes com FEVE normal interfere no desempenho cardiovascular avaliado por meio do TECP.

Métodos

Delineamento e população de estudo

Trata-se de estudo observacional, transversal e analítico, no qual foram avaliados 26 portadores de BRE (grupo BRE) e 23 indivíduos sem BRE (grupo controle). O BRE foi definido de acordo com os seguintes critérios eletrocardiográficos: presença de QRS alargado (com duração ≥ 120 ms); ondas S amplas e entalhadas em V1 e V2 com ausência de ondas R, ou a sua ocorrência de forma embrionária; e ondas R predominantes nas derivações D1, AVL, V5 e V6.7 Todos os voluntários exibiam FEVE, obtida mediante ecocardiograma transtorácico, superior a 0,50 e foram submetidos ao TECP. A isquemia miocárdica foi excluída por meio do ecocardiograma sob estresse físico. Todos os exames foram realizados no setor de métodos gráficos de um hospital, referência em cardiologia, possuidor de acreditação nível 3(IQG- Instituto Qualisa de Gestão).

Critérios de exclusão

Foram excluídos aqueles com: FEVE < 0,50 calculada pelo método Simpson, doença arterial coronariana (DAC) prévia, valvulopatia moderada a grave, arritmia cardíaca que prejudicasse a análise do PO2, doença pulmonar e anemia (hemoglobina < 10 mg/dl).

Protocolo do teste de esforço cardiopulmonar

A análise da ventilação minuto (VE), VO2 e produção de gás carbônico (VCO2) foi realizada a cada 10 segundos por intermédio do analisador de gases Córtex Metalyser 3B, da marca Micromed, acoplado ao computador, equipado com o software Elite. Foram utilizados: eletrocardiógrafo digital Micromed para registro e análise do eletrocardiograma durante esforço e esteira ergométrica marca Inbrasport, modelo Super ATL. Os medicamentos cronotrópicos negativos foram suspensos três dias antes do TECP.

Os pacientes foram encorajados a se exercitarem até a exaustão, segundo o protocolo em rampa, que se caracteriza pela duração entre 8 e 12 minutos, com aumento constante e gradual de velocidade e inclinação. O teste era considerado máximo quando se atingia o RER > 1,05. Preconizou-se interromper a prova conforme critérios estabelecidos pela III Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Teste Ergométrico.8

Foram avaliadas as seguintes variáveis do TECP:

  1. VO2 pico é o valor mais alto do VO2, atingido nos últimos 30 segundos do esforço e expresso em ml.kg1.min1. O VO2 pico predito foi calculado baseado na idade, gênero, peso e nível de atividade física utilizando-se a equação de Wasserman.9,10 Avaliou-se a percentagem atingida do VO2 pico predito pelo paciente.

  2. O VO2 no limiar anaeróbico foi determinado pelo método do "V slope". Caso não fosse possível, era realizado por meio da análise do gráfico da plotagem dos equivalentes ventilatórios. Avaliou-se, também, a percentagem do VO2 predito no limiar anaeróbico.8,9,11,12

  3. O PO2 pico era o maior valor atingido nos últimos 30 segundos e foi expresso em ml/batimento. Analisou-se a percentagem do PO2 pico predito, obtido pela divisão do VO2 máximo predito pela frequência cardíaca máxima predita pela idade.8,9,11,12

  4. A relação Δ VO2/Δ carga foi calculada por meio da diferença entre o VO2 máximo e o repouso, dividido pela carga máxima e expressa em ml.min-1.watts-1. Para propósito prático, foi considerado VO2 em repouso como 3,5 ml.kg-1.min-1.8,9,11,12 Como o exame foi realizado em esteira ergométrica, houve adaptação da carga para Watts. O cálculo de potência na esteira: W (kgm/minuto) = Massa (peso do paciente - Kg) x Velocidade (metros/minuto) x seno do ângulo alfa (que é o ângulo que a esteira faz com o chão). A relação entre kilogrâmetros e watts é: 1 watt corresponde a 6,1 kilogrâmetros/minuto, sendo feita a transformação da carga de Kgm/min para Watts.

  5. O VE/VCO2 slope corresponde à inclinação da reta de regressão representativa entre VE e VCO2. 8,9,11,12

  6. O T1/2VO2, tempo necessário para queda de 50% do VO2 pico no período de recuperação, foi quantificado em segundos.8,9,11,12

Análise estatística

As análises estatísticas foram processadas utilizando-se o programa SPSS Statistic 19.0 (IBM Corporation, 2010). As variáveis quantitativas foram descritas como médi ± desvio padrão, atenderam ao pressuposto da normalidade, e a comparação entre os grupos foi realizada por meio do teste t de Student não pareado. As variáveis categóricas foram sumarizadas como percentagens e comparadas entre os grupos mediante os testes qui quadrado (X2) ou exato de Fisher, quando apropriado. Foi adotado o nível de significância de 5% para o erro a e os testes foram bicaudais. Riscos relativos com intervalos de confiança [IC] de 95% foram estimados. Para a análise multivariada de covariância (MANCOVA), utilizou-se o Traço de Pillai, o poder (≥ 0,8) e o ETA2 parcial (dimensão do efeito) como testes estatísticos. O ETA2 parcial foi aplicado com o intuito de inferir acerca da significância clínica, considerando-se a dimensão do efeito muito elevada se valores forem > 0,5 e pequena se forem ≤ 0,05.

Aspectos éticos

O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e aprovado com o nº 0770.0.000.107-11. Todos os pacientes que participaram da pesquisa assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.

Resultados

A amostra constou de 49 indivíduos consecutivos (18 homens e 31 mulheres; média de idade de 59,8 ± 7,7 anos) submetidos ao TECP, distribuídos em: grupo BRE (26 pacientes) e grupo controle (23 pacientes).

Os portadores de BRE apresentaram maior frequência de hipertensão arterial sistêmica (HAS), quando comparados ao grupo controle (73,1% vs. 30,4%; p = 0,007). Não se verificou diferença substancial entre os grupos quanto à idade (p = 0,13), gênero (p = 0,36), índice de massa corpórea (IMC) (p = 0,79), sedentarismo (p = 0,13), tabagismo (p = 0,93), diabetes mellitus (p = 0,1) e dislipidemia (p = 0,72), conforme pode ser apreciado na Tabela 1.

Tabela 1 Características clínicas dos pacientes portadores de BRE e grupo controle 

Variáveis Grupo BRE (n = 26) Grupo controle (n = 23) Total (n = 49) p
Idade (anos) 61,3 ± 8,2 58,0 ± 6,8 59,8 ± 7,7 0,13
Gênero feminino, n (%) 18 (69,2) 13 (56,5) 31(63,0) 0,36
Peso (kg) 70,7 ± 11,2 73,7 ± 16,2 72,1 ± 13,7 0,46
IMC (Kg/m2) 26,9 ± 3,6 26,7 ± 3,8 26,8 ± 3,7 0,79
Sedentarismo, n (%) 18 (69,2) 11 (47,8) 29 (59,2) 0,13
Tabagismo, n (%) 01 (3,8) 01 (04,3) 02 (04,1) 0,93
HAS, n (%) 18 (73,1) 07 (30,4) 26 (53,1) 0,007
Diabetes Mellitus, n (%) 07 (26,9) 02 (08,7) 09 (18,4) 0,10
Dislipidemia, n (%) 08 (30,8) 06 (26,1) 14 (28,6) 0,72

Variáveis categóricas expressas em frequência absoluta - n (frequência relativa - %); variáveis contínuas expressas em média ± DP; Teste de qui-quadrado; teste t de Student; nível de significância p ≤ 0,05; DP: desvio-padrão; BRE: bloqueio do ramo esquerdo; IMC: índice de massa corpórea; HAS: hipertensão arterial sistêmica.

O grupo BRE apresentou valores significativamente maiores dos diâmetros sistólico e diastólico do VE comparativamente ao grupo controle, com diferença média de 0,34 ± 0,11 cm e 0,39 ± 0,13 cm, respectivamente. O índice de massa ventricular esquerda (IMVE) foi também significativamente maior no grupo BRE, com diferença média de 13,19 ± 6,18 g/m2 (p = 0,039). A FEVE foi menor no grupo BRE, com diferença média significativa de 0,12 ± 0,02% (p < 0,0001) (Tabela 2). Não houve diferença significativa entre os grupos quanto à ocorrência de disfunção diastólica (Tabela 3).

Tabela 2 Variáveis ecocardiográficas dos portadores de BRE e do grupo controle 

Variáveis Grupo BRE n = 26 Controle n = 23 p
Átrio esquerdo (cm) 3,76 ± 0,37 3,58 ± 0,40 0,11
Espessura do septo (cm) 0,84 ± 0,11 0,89 ± 0,15 0,21
Parede posterior (cm) 0,85 ± 0,11 0,81 ± 0,10 0,19
Espessura relativa do VE (%) 33,07 ± 5,15 33,24 ± 4,09 0,91
Diâmetro diastólico VE (cm) 5,26 ± 0,51 4,87 ± 0,41 0,005
Diâmetro sistólico VE (cm) 3,22 ± 0,41 2,89 ± 0,37 0,004
Fração de ejeção (%) 59,00 ± 7,00 71,00 ± 6,00 < 0,0001
Índice de massa do VE (g/m2) 96,10 ± 22,9 82,9 ± 17,90 0,039

Variáveis contínuas expressas em média ± DP. Teste t de Student; nível de significância p ≤ 0,05. DP: desvio-padrão; BRE: bloqueio do ramo esquerdo; VE: ventrículo esquerdo.

Tabela 3 Função diastólica entre os portadores de BRE e grupo controle (p = 0,47) 

Função Diastólica Grupo BRE n = 26 Controle n = 23
Normal 18(69,2%) 18(78,3%)
Disfunção leve 6(23,1%) 5(21,7%)
Disfunção moderada 2(7,7%) 0

Variáveis categóricas expressas em frequência absoluta = n (frequência relativa = %). Teste de qui-quadrado; nível de significância p ≤ 0,05. BRE: bloqueio do ramo esquerdo.

Na Tabela 4, estão demonstradas as variáveis hemodinâmicas e ventilatórias TECP entre portadores de BRE e grupo controle. Verificou-se por meio da MANCOVA, associação significativa entre o BRE e o conjunto das seis variáveis do teste cardiopulmonar, sendo a dimensão do efeito muito elevada (η2BRE = 0,578) e o poder acima do preconizado (βBRE = 0,997). Foi realizado ajuste para a presença do sedentarismo e das seguintes co-variáveis: idade, gênero, IMC, hipertensão arterial, IMVE e FEVE (Tabela 5).

Tabela 4 Variáveis hemodinâmicas e ventilatórias do TECP entre portadores de BRE e grupo controle 

Variáveis Grupo BRE (n=26) Grupo controle (n=23) p
Frequência cardíaca pico, % do predito 94,8 ± 9,0 98,6 ± 6,3 0,10
Ventilação máxima, % do predito 59,0 ± 13,0 63,2 ± 11,0 0,23
Quociente respiratório 1,08 ±0,07 1,10 ± 0,08 0,30
VO2 pico (ml.kg-1.min-¹) 21,7 ± 5,4 29,07 ± 6,7 < 0,0001
VO2 pico, % do predito 87,2 ± 15,0 105,0 ± 15,6 < 0,0001
VO2 no limiar anaeróbio (ml.kg-1.min-¹) 15,5 ± 2,1 18,7 ± 4,4 0,002
Limiar anaeróbio, % do VO2 predito 67,9 ± 13,6 70,2 ± 12,8 0,55
Pulso de O2 pico (ml/bat) 10,3 ± 2,6 13,54 ± 4,6 0,003
Pulso de O2 pico, % do predito 98,6 ± 18,6 109,9 ± 13,5 0,02
∆ VO2/∆ carga (ml.min-1.watts-1) 15,5 ± 5,5 20,7 ± 7,3 0,006
T ½ VO2 (segundos) 85,2 ± 11,8 71,5 ± 11,0 0,0001
VE/VCO2 slope 29,8 ± 2,9 26,2 ± 2,9 0,0001

Variáveis contínuas expressas em média ± DP; Teste t de Student; nível de significância p ≤ 0,05; DP: desvio-padrão; VO2: consumo de oxigênio; O2: oxigênio; Ve: ventilação; VCO2: produção de dióxido de carbono.

Tabela 5 Análise multivariada para avaliação da influência do BRE e sedentarismo nas variáveis do TECP, ajustados para as co-variáveis 

Variáveis Traço de Pillai p ETA2 parcial Poder
BRE 0,578 0,0001 0,578 0,997
Sedentarismo 0,324 0,052 0,324 0,727
BRE x sedentarismo 0,318 0,058 0,318 0,713
Covariáveis
Idade 0,365 0,079 0,298 0,666
Gênero 0,174 0,413 0,174 0,348
IMC 0,281 0,104 0,281 0,622
HAS 0,143 0,554 0,143 0,277
IMVE 0,163 0,460 0,163 0,322
FEVE 0,472 0,002 0,472 0,959

MANCOVA: Análise multivariada de covariância. Fatores fixos: BRE e sedentarismo. Covariáveis: idade, gênero, IMC,HAS, IMVE e FEVE. Nível de significância p ≤ 0,05; poder ≥ 0,80. BRE: bloqueio do ramo esquerdo; HAS: hipertensão arterial sistêmica; IMC: índice da massa corpórea; IMVE: índice de massa do ventrículo esquerdo; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo.

Procedeu-se a uma segunda análise multivariada, a fim de se identificar se o BRE teve efeito sobre uma ou mais das seis variáveis de desfechos do TECP (Tabela 6). Verificou-se que o BRE interferiu apenas na análise do VE/VCO2 slope, com a dimensão do efeito elevada (η2BRE = 0,504) e poder elevado (β > 0,80).

Tabela 6 Análise multivariada para identificação das variáveis de desfecho, influenciadas pelos fatores fixos e covariáveis, em função da significância, dimensão do efeito e poder 

Variáveis p ETA2 parcial Poder
BRE
% VO2 pico predito 0,37 0,024 0,145
% VO2 predito limiar anaeróbico 0,13 0,063 0,320
% pulso de O2 pico predito 0,94 < 0,0001 0,051
∆VO2/∆carga 0,39 0,021 0,136
T ½ VO2 0,21 0,045 0,237
VE/VCO2 slope < 0,0001 0,504 1,000

MANCOVA: análise multivariada de covariância. Fatores fixos BRE e sedentarismo, covariáveis: idade, gênero, HAS, IMC, IMVE e FEVE. Nível de significância p ≤ 0,05; poder ≥ 0,80. BRE: bloqueio do ramo esquerdo; HAS: hipertensão arterial sistêmica, IMC: índice da massa corpórea, IMVE: índice de massa do ventrículo esquerdo, FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo, VO2: consumo de oxigênio; O2: oxigênio; VE: ventilação; VCO2: produção de dióxido de carbono.

A Figura 1 ilustra a análise de sensibilidade do estudo, considerando a dimensão da amostra (n), α = 0,05 e poder de 0,80 (1-β). Com o tamanho da amostra (considerou-se um n = 48, valor múltiplo de 4, correspondente ao número de grupos a serem comparados: BRE e HAS) e o poder e a significância estatística assumidos, observou-se que o estudo foi capaz de detectar através da MANOVA dimensões de efeito acima de 0,18.

Figura 1 Análise de sensibilidade do estudo. 

Discussão

Em nossa população estudada, o VE/VCO2 aumentou significativamente no grupo BRE em relação ao controle. O equivalente ventilatório de gás carbônico representa o quanto é necessário ventilar para eliminar determinada quantidade de gás carbônico produzido. Essa relação é analisada por regressão linear, que reflete a inclinação da reta. O VE/VCO2 slope já está estabelecido na literatura como marcador de mau prognóstico em portadores de ICC, quando atinge valor > 34.13 Existe relação entre o aumento do VE/VCO2 slope e a presença de BRE em portadores de miocardiopatia dilatada, independentemente da existência de DAC.14 Porém, a literatura ainda é escassa na análise dessa variável naqueles sem disfunção ventricular.

Nos pacientes com ICC, o aumento do VE/VCO2 slope ocorre geralmente por comprometimento hemodinâmico, causado pela redução do débito cardíaco e consequente hipoperfusão pulmonar, demonstrando estágio avançado da ICC e pior prognóstico.15 Mas há evidências de que o aumento do VE/VCO2 slope pode ocorrer desde a fase inicial da ICC por desequilíbrio autonômico. O sistema nervoso autônomo permite ao organismo ajustar sua circulação e ventilação para manter o aporte de oxigênio para os tecidos. O equilíbrio autonômico é mantido pela complexa interação do barorreflexo arterial, quimiorreflexo central e periférico, ergorreflexo e reflexo de estiramento pulmonar.16

Os quimiorreflexos são os principais mecanismos de controle e regulação das respostas ventilatórias às mudanças de concentração do oxigênio e gás carbônico arterial. Os quimiorreceptores periféricos localizados nos corpos carotídeos respondem primariamente à hipóxia, e os quimiorreceptores centrais, localizados na superfície ventral da medula espinhal, respondem primariamente à hipercapnia. Foi comprovado existir uma seleção potencial da quimiosensibilidade central em pacientes portadores de ICC classe funcional I e II.17

Ponikowski et al.18 estudaram pacientes portadores de ICC com tolerância ao exercício preservada e observaram que o aumento anormal da resposta ventilatória ao exercício ocorreu em virtude da hipersensibilidade do reflexo controle do sistema cardiorrespiratório. Comprovaram o aumento da quimiosensibilidade central e periférica, o comprometimento do sistema simpatovagal com predomínio do simpático, a hiperatividade dos ergorreceptores dos músculos periféricos e a redução do controle barorreflexo da circulação.

O presente trabalho mostrou aumento do VE/VCO2 slope no grupo portador de BRE com FEVE preservada. É mais provável que o mecanismo responsável por essa alteração seja o desequilíbrio inicial do sistema autonômico, em virtude de essa população não apresentar comprometimento hemodinâmico.

Os resultados ecocardiográficos sugerem que a presença do BRE pode desencadear o remodelamento do VE. Esses dados também foram apresentados em estudos, como o de Melek et al.,19 que avaliaram portadores de BRE sem miocardiopatia por meio da ecodopplercardiografia e observaram que o diâmetro sistólico final era maior e a FEVE era menor no grupo BRE (54 ± 7%) em relação ao grupo controle (61 ± 6%, p < 0,001). Valenti et al.20 estudaram os diâmetros do VE e FEVE mediante ressonância magnética cardíaca e demonstraram que os portadores de BRE apresentavam maiores volumes do VE e IMVE e menor FEVE em relação controle.

Está estabelecido na literatura que não existe uma boa correlação entre VO2 pico e função ventricular.5,6 O VO2 durante o exercício fornece um parâmetro objetivo da capacidade funcional e, indiretamente, reflete a função cardiovascular. O comprometimento da capacidade de exercício é preditor independente de prognóstico adverso. No nosso trabalho, avaliamos as principais variáveis do TECP relacionadas ao desempenho cardiovascular. Os portadores de BRE atingiram menor percentagem do VO2 pico predito, mas na análise multivariada, demonstrou-se que o fator preditor da referida redução foi o sedentarismo e não o BRE. Duncan et al.14 estudaram os preditores da capacidade funcional em pacientes portadores de miocardiopatia dilatada, e o BRE também não foi preditor independente da percentagem do VO2 pico predito na análise multivariada.

O PO2 é representativo do volume sistólico do VE e da diferença arteriovenosa de O2 ao esforço, reflete a oferta de O2 ao miocárdio e a reserva funcional cardíaca sob estresse fisiológico. Normalmente, aumenta de forma gradativa e linearmente com o aumento da carga até atingir o valor mais alto. Em pacientes com disfunção ventricular, o PO2 pode apresentar descenso, apesar do aumento da carga, ou atingir um platô precoce, mesmo antes de alcançar a exaustão do esforço.11,12 Em pacientes portadores de BRE, o formato do VE é distorcido durante a pré-ejeção, como resultado do achatamento da curvatura septal e alongamento simultâneo da parede lateral ativada tardiamente.21 O presente trabalho evidenciou que o grupo BRE atingiu PO2 pico > 85% do predito e apresentou comportamento da curva do PO2 ascendente durante esforço. Apesar de existirem alterações estruturais do VE, a FEVE estava preservada, não havendo prejuízo do desempenho cardiovascular.

Ficou demonstrado que o BRE isolado não interveio no ΔVO2/Δcarga, o VO2 foi adequado para carga de trabalho aplicada. Não houve intervenção do BRE também no T1/2 VO2. O T1/2 do VO2 é marcador prognóstico, seu valor aumenta de acordo com a gravidade da ICC. Foi demonstrado que a associação do T1/2 VO2 ao VO2 pico melhora a avaliação prognóstica e identifica grupos de risco mais elevado.22 Os grupos obtiveram T1/2 VO2 menor do que 90 segundos, tempo considerado dentro da normalidade.

Nossos resultados mostram que o TECP é um método não invasivo, fisiológico e de custo financeiro acessível, que poderá contribuir no acompanhamento dos portadores de BRE. Ficou demonstrado que apesar do grupo BRE com FEVE preservada apresentar alterações estruturais do VE, mas ainda dentro dos limites considerados normais, o desempenho cardiovascular não se mostrou prejudicado na análise das variáveis metabólicas do TECP, mas houve aumento do VE/VCO2 slope em relação ao grupo controle. Ainda não é possível identificar qual portador de BRE isolado desenvolverá disfunção ventricular. Outros estudos deverão avaliar o impacto do aumento VE/VCO2 slope com o acompanhamento dessa amostra da população.

Durante esta pesquisa, houve dificuldade na seleção de portadores de BRE, pela concomitância desta patologia com HAS, disfunção ventricular e/ou isquemia miocárdica. A HAS não foi considerada critério de exclusão em virtude da alta prevalência nessa população, sendo necessária ajustar sua influência por meio da análise estatística. Outra limitação foi a exclusão de isquemia miocárdica por meio da ecocardiografia sob estresse físico, cujo exame ideal seria a angiotomografia coronária ou cinenagiocoronariografia, em virtude da assincronia entre o septo interventricular e contração do VE provocadas pelo BRE.

Conclusões

A presença de BRE em indivíduos com FEVE preservada não comprometeu o desempenho cardiovascular. O BRE não interferiu na percentagem do VO2 pico predito, percentagem do VO2 predito no limiar anaeróbico, pulso de oxigênio, ΔVO2/Δcarga e T1/2 VO2.

O BRE foi marcador independente para o aumento do VE/VCO2 slope, podendo representar um marcador precoce no curso da disfunção ventricular.

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