Teste de fala comprimida em idosos

Teste de fala comprimida em idosos

Autores:

Rayana Silva Arceno,
Renata Coelho Scharlach

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.29 no.5 São Paulo 2017 Epub 28-Set-2017

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20172016243

INTRODUÇÃO

O envelhecimento é um processo inerente aos indivíduos. Variáveis como o estilo de vida, doenças crônicas e condições socioeconômicas podem acelerar ou diminuir a velocidade desse processo(1,2). Por conta do envelhecimento, a capacidade de autonomia da vida diária muitas vezes é reduzida, ou seja, há uma maior dependência do meio familiar(3).

A habilidade para se comunicar, além de ter uma importância vital, está relacionada à capacidade de trabalho e equilíbrio psicológico do ser humano(4). Os fatores psicológicos estão relacionados também com algumas habilidades auditivas, que, por conta do envelhecimento, sofrem alterações(1,5).

O sistema auditivo é formado por componentes sensoriais e centrais e está dividido em sistema auditivo periférico e central. O sistema periférico, responsável pelas sensações diante de diferentes estímulos sonoros, é composto pelas orelhas externa, média e interna e o nervo auditivo. O sistema auditivo central, responsável pela decodificação da mensagem recebida e, ao mesmo tempo, pela recodificação, está intimamente ligado ao processamento da linguagem e de outras funções cognitivas e emocionais(6). Este sistema envolve as vias auditivas do tronco encefálico e áreas corticais. Além da comunicação, a audição é um meio de segurança, alerta de alguma situação de risco. O declínio da audição por conta do envelhecimento, ou seja, a presbiacusia ocorre devido a alterações no sistema auditivo periférico e/ou central(7).

O processamento auditivo central caracteriza-se pela capacidade do cérebro do indivíduo em reconhecer e interpretar os sons. É uma atividade mental, ou seja, uma função cerebral. Uma falha neste mecanismo neural dará origem a uma Desordem de Processamento Auditivo Central – DPAC(8-10). Com o passar dos anos, as dificuldades aumentam e as habilidades auditivas ficam prejudicadas, sendo que a perda da capacidade de realizar o processamento temporal do som geral é a principal queixa entre os idosos: ouvir, mas não entender(11).

Dentre as habilidades auditivas, salienta-se o fechamento auditivo o qual se refere à capacidade do ouvinte normal em utilizar redundâncias intrínsecas ou extrínsecas para preencher as partes ausentes ou distorcidas de um sinal auditivo e reconhecer a mensagem completa(4). Esta habilidade tem um importante papel nas atividades cotidianas do ouvinte, pois raramente o ambiente acústico pode ser considerado ideal(4). Uma alteração nesta habilidade pode interferir na capacidade de decodificar os aspectos fonêmicos de um sinal de fala, ou seja, talvez possa acarretar ao ouvinte dificuldades de entendimento da fala em um ambiente acústico ruidoso; sem prejuízos na percepção da fala em um ambiente acústico ideal(4).

Para analisar essa habilidade, existem diferentes testes, dentre eles, o teste de fala comprimida, que faz parte do grupo de testes monoaurais de baixa redundância. Os estímulos do teste são degradados por compressão de tempo eletromecânico. Este teste existe há mais de 30 anos, porém, somente em 2007, foi traduzido e adaptado para o português brasileiro para a população adulta(12).

De acordo com a padronização americana, são considerados resultados normais para adultos pontuações acima de 82% de acertos para cada orelha. Em um estudo brasileiro, o padrão de normalidade encontrado para adultos foi de 90%(13).

Até o momento, no Brasil, existem pesquisas sobre o desempenho neste teste com adultos, no entanto nada foi encontrado com a população idosa(12). Já na literatura internacional, encontrou-se um estudo abordando o teste de fala comprimida no idoso, no qual os resultados sugerem que os idosos estão em desvantagem em relação aos jovens para ouvir uma fala mais rápida(14).

Em virtude do aumento contínuo da população idosa, observa-se também um aumento da expectativa de vida. Desta forma, torna-se necessário maior conhecimento sobre esta população para que os profissionais da saúde possam oferecer tratamentos e/ou reabilitações adequados para proporcionar melhor qualidade de vida aos idosos(15). Tendo conhecimento dessas dificuldades, dos locais comprometidos, percebe-se a grande necessidade de uma intervenção fonoaudiológica.

Diante disso, o presente estudo teve como objetivo avaliar o desempenho de idosos no teste de fala comprimida segundo as variáveis orelha, ordem de apresentação e idade, além de analisar a ocorrência de erros.

MÉTODO

Trata-se de um estudo observacional, descritivo, quantitativo, analítico do tipo transversal primário realizado na Clínica Escola de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis. Inicialmente o projeto foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos, sob o número 870.664.

Participaram do estudo 22 idosos com idade entre 60 e 80 anos que cumpriram os seguintes critérios de inclusão: apresentar limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade ou perda auditiva neurossensorial de grau leve bilateralmente(16,17), curva timpanométrica do tipo A e reflexos acústicos no modo contralateral presentes bilateralmente, ter o português como primeira língua, apresentar pontuação mínima de 36 pontos no questionário Scale of Auditory Behaviors – SAB(18) e sem alterações neurológicas e/ou cognitivas evidentes. Foram considerados critérios de exclusão idosos analfabetos, com trocas na fala e usuários de aparelho de amplificação sonora individual. Aqueles que aceitaram participar receberam esclarecimentos a respeito do estudo e, ao concordarem, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O Teste de Fala Comprimida pode ser realizado com dois tipos de estímulos: monossílabos ou dissílabos. No presente estudo, utilizou-se uma lista de 50 dissílabos comprimidos pelo método de tempo eletromecânico com taxa de compressão de 60%, que apresenta padrão de duração modificado. A lista de 50 dissílabos selecionada está disponível nas faixas 8 e 9 do compact disc (CD) Testes Auditivos Comportamentais para Avaliação do Processamento Auditivo Central. As faixas 8 e 9 foram aplicadas às orelhas direita e esquerda, respectivamente. Utilizou-se intensidade para teste de 40 dBNS(13).

O desempenho no teste foi registrado em protocolo próprio, no qual foi anotado o tipo de resposta do paciente (acerto ou erro), a orelha de início e a porcentagem de acertos por orelha. Vale ressaltar que metade da amostra iniciou o teste pela orelha direita.

Para realizar a pesquisa, utilizou-se o audiômetro modelo AC40 da Interacoustics, fones TDH39. Todos os exames foram realizados em cabine acústica. Para a aplicação do teste de fala comprimida, utilizou-se um notebook acoplado ao audiômetro e o CD(13).

Os dados obtidos foram analisados quanto ao desempenho no teste, considerando as seguintes variáveis: orelha, influência da ordem de apresentação e idade, além das ocorrências de erros. Para realizar a análise estatística do estudo, foram utilizadas medidas descritivas, o teste não paramétrico Teste Mann-Whitney e o Teste de Correlação de Spearman. O nível de significância foi estabelecido em 5% (p < 0,05). Os valores significantes foram assinalados com asterisco (*).

RESULTADOS

A população inicial deste estudo foi composta por 50 indivíduos, dos quais 28 foram excluídos por não contemplarem todos os critérios de inclusão. Desta forma, a população final do estudo foi composta por um total de 22 idosos, sendo 16 do gênero feminino (72,72%) e seis do gênero masculino (27,27%).

A média de idade dos participantes foi de 66,5 anos (dp = 4,31), com idade mínima de 61 e máxima de 75 anos. A pontuação média do questionário SAB foi de 44,77 (dp = 6,97), com mínima de 36 e máxima de 58 pontos.

Quanto às características audiológicas, 10 indivíduos apresentaram limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade bilateralmente; em 10 indivíduos, verificou-se perda auditiva do tipo neurossensorial de grau leve e, em dois indivíduos, audição assimétrica, apresentando normalidade à orelha esquerda e perda auditiva do tipo neurossensorial de grau leve à orelha direita.

Na Tabela 1, são apresentadas as medidas descritivas dos valores da média quadritonal (500, 1000, 2000 e 4000Hz) dos limiares tonais e do índice de reconhecimento de fala (IRF), por orelha, em idosos (n = 22). Os idosos apresentaram bom desempenho no IRF e médias quadritonais simétricas entre as orelhas.

Tabela 1 Medidas descritivas dos valores da média quadritonal (500, 1000, 2000 e 4000Hz) dos limiares tonais e do índice de reconhecimento de fala, por orelha, em idosos (n = 22) 

IRF (%) Média quadritonal (dBNA)
OD OE OD OE
Média 96,36 96,18 21,81 22,89
Mediana 96 96 27,5 25
Desvio padrão 3,88 3,99 11,27 11,44
Mínimo 88 88 -5 3,75
Máximo 100 100 36,25 38,75

Legenda: OD = Orelha direita; OE = Orelha esquerda; % = porcentagem; IRF = índice de reconhecimento de fala; dBNA = Decibel nível de audição

Na Tabela 2, é apresentada a análise do desempenho dos idosos no teste de fala comprimida por orelha. Ao comparar os resultados da orelha direita com os da orelha esquerda, verificou-se que não houve diferença entre as orelhas (p = 0,742).

Tabela 2 Resultados (%) do teste de fala comprimida, por orelha, em idosos (n = 22) 

Desempenho no Teste de Fala Comprimida (%)
TFC OD OE p – valor
Média 73,81 72,36 0,742
Desvio Padrão 10,77 13,36
Mediana 76 76
Mínimo 44 42
Máximo 86 92

Teste Mann-Whitney (nível de significância p < 0,05)

Legenda: OD = Orelha direita; OE = Orelha esquerda; TFC = Teste de fala comprimida; % = porcentagem

Com o objetivo de analisar se houve influência da ordem de apresentação do teste, na Tabela 3, é apresentada a análise do teste de fala comprimida em relação à orelha inicial de teste. Vale ressaltar que ora o teste foi iniciado pela orelha direita, ora pela esquerda. Independentemente da orelha, observou-se significância estatística de melhor resposta da segunda orelha (p = 0,029).

Tabela 3 Resultados (%) do teste de fala comprimida, considerando a ordem de apresentação (n = 22) 

Ordem de Apresentação
TFC(%) 1ª Orelha 2ª Orelha p – valor
Média 69,09 77,09 0,029*
Desvio Padrão 2,90 2,03
Mediana 72 80
Mínimo 42 52
Máximo 92 92

Teste Mann-Whitney (nível de significância p < 0,05)

Legenda: TFC = Teste de fala comprimida; % = porcentagem;

*= valor estatisticamente significante

Com o intuito de verificar se o desempenho no teste é influenciado pela variável idade, aplicou-se o teste de Correlação de Spearman. A análise mostrou uma correlação negativa e significante (r = -0,412, p = 0,005).

Com o objetivo de averiguar quais foram as palavras que apresentaram maior ocorrência de erros no teste de fala comprimida, na Figura 1, são apresentadas as palavras que apresentaram mais de 50% de ocorrência de erro. Enfatiza-se que, para esta análise, considerou-se que cada palavra foi apresentada duas vezes para cada indivíduo.

Figura 1 Porcentagem de erros das palavras utilizadas no Teste de Fala Comprimida em idosos (n = 22) 

DISCUSSÃO

Sabe-se que o processamento auditivo central se define como o que acontece com o cérebro do indivíduo ao reconhecer e interpretar os sons(8-10). Na prática diária, os indivíduos necessitam preencher as partes ausentes ou distorcidas do sinal auditivo para reconhecer a mensagem completa, sendo fundamental o bom desempenho da habilidade auditiva de fechamento auditivo(4).

Os resultados encontrados na Tabela 1 mostram que, apesar de os critérios de inclusão definirem idosos normais ou com perda de até grau leve, os participantes do estudo apresentaram um bom desempenho no IRF, pois o menor resultado encontrado foi de 88%. Observa-se que os resultados são semelhantes entre os lados.

Resultados do IRF de 92% a 100% sugerem que o indivíduo não apresenta nenhuma dificuldade para compreender a fala, já resultados entre 80% e 88% sugerem discreta dificuldade para compreender a fala(19). Vale ressaltar que, na prática clínica, o IRF é realizado em uma situação de maior redundância, pois o teste é apresentado a 40dBNS e no silêncio, auxiliando o indivíduo na tarefa a ser desempenhada, principalmente para o idoso, mesmo com a presença de uma perda auditiva de grau leve.

A média encontrada no teste de fala comprimida (73,81% para a direita e 72,36% para a esquerda) nos idosos desta pesquisa ficou abaixo da encontrada segundo a padronização para adultos brasileiros (90% de acertos independentemente da orelha)(12).

Em estudo internacional utilizando teste de fala comprimida em escuta favorável com monossílabos realizado com 30 jovens (18 a 30 anos) e 32 idosos (65 a 80 anos) com limiares dentro dos padrões de normalidade, os autores puderam observar que a habilidade de reconhecimento de fala rápida em idosos estava afetada em relação aos jovens(20). Estas diferenças observadas nos estudos entre adultos e idosos podem ser decorrentes do próprio processo de envelhecimento, o qual afeta não só o reconhecimento de fala mas também o processamento do discurso mais rápido(20). Neste mesmo estudo, os autores relataram que a maior queixa dos idosos era quando o discurso era comprimido ou temporariamente alterado, porém quando era apresentado em fraca intensidade não havia dificuldade.

A partir desses achados literários e dos achados no presente estudo, percebe-se que o processamento é mais lento no sistema auditivo dos idosos. Além da percepção de fala, outros fatores podem influenciar o reconhecimento da fala mais rápida, tais como a memória, atenção e a redução da capacidade cognitiva(20,21).

Ao comparar os resultados do teste de fala comprimida da orelha direita (73,81%) com os da orelha esquerda (72,36%) (Tabela 2), observou-se que não houve diferença significante entre as orelhas (p = 0,742), porém nota-se que a orelha direita apresenta levemente melhor desempenho em relação à orelha esquerda. Apesar de o hemisfério esquerdo ser preferencial para linguagem, o teste de fala comprimida é um teste monótico, sendo assim, as vias ipsilaterais e contralaterais do sistema auditivo central atingem ambos os hemisférios, compensando a preferência da orelha direita em relação à orelha esquerda(12). Desta forma, justifica-se a ausência de diferença entre as orelhas.

Em estudo anterior realizado com adultos, comportamento semelhante foi observado, pois, mesmo não apresentando diferença estatisticamente significante entre as orelhas, a orelha direita apresentou, em média, valores maiores que os obtidos na orelha esquerda. No estudo, as autoras encontraram, para o mesmo material de fala e com a mesma taxa de compressão utilizada nesta pesquisa, 92,4% para a orelha direita e 91,8% para a esquerda(12).

Em pesquisa anterior, com diferentes testes monóticos, avaliou-se a habilidade de fechamento auditivo de indivíduos com idade entre 13 e 59 anos com perda auditiva neurossensorial bilateral simétrica de grau leve a moderado, submetidos ao teste de reconhecimento de fala com palavras em diferentes modalidades e ao teste de fala com ruído branco com figuras. As autoras observaram que também não houve diferença significante entre as orelhas direita e esquerda para qualquer um dos testes. A média de acertos no teste de reconhecimento de fala com figuras, viva voz e monossílabos gravados foi 97,1%; 85,9%; e 76,1%, respectivamente, e 72,6% de acertos no teste com ruído(22).

Segundo a variável orelha inicial (Tabela 3), decidiu-se iniciar a avaliação da amostra de forma aleatória, para que pudesse ser observado se a segunda orelha testada (independentemente de ser a direita ou a esquerda) apresentaria desempenho diferente no teste. A análise revelou diferença estatisticamente significante (p = 0,029) com vantagem para a segunda orelha.

Sabe-se que a segunda orelha tende a ser levemente melhor devido à maior utilização da habilidade de fechamento auditivo. Isto mostra que a experiência prévia provoca aprendizagem na fala comprimida por parte dos participantes, como já observado em estudos anteriores(12,23,24).

Em outro estudo, usando a mesma taxa de compressão (60%), as autoras observaram tendência de melhor resposta para a segunda orelha. No teste de fala comprimida para monossílabos, a primeira orelha obteve média de acertos de 87,8%, e a segunda orelha de 88,4%. Para dissílabos, a média de acertos da primeira orelha foi de 91,6% e da segunda orelha, de 92,6%(12).

Os resultados do presente estudo mostram que, apesar de os idosos apresentarem um desempenho aquém do observado em adultos, o comportamento foi o mesmo. Ou seja, assim como nos outros estudos, não houve diferença entre as orelhas, e a segunda orelha avaliada apresentou melhor desempenho. Isso sugere que o idoso se beneficiou da exposição ao teste para ter melhor desempenho no decorrer da avaliação.

A idade biológica contribui para um baixo desempenho em tarefas auditivas que envolvem estímulos de fala, por isso, indivíduos mais jovens apresentam melhor reconhecimento de fala, ou seja, o envelhecimento interfere na identificação da fala degradada, mesmo quando o indivíduo não apresenta perda auditiva(25). Este comportamento também foi observado dentro do grupo de idosos. Além de apresentarem um desempenho inferior ao dos adultos, os idosos mais velhos apresentaram um desempenho inferior.

Outro fator importante de ser ressaltado foi que, apesar de o teste ser longo, uma vez que foram apresentadas 50 palavras para cada lado, isto não influenciou o desempenho no teste. Sabe-se que cansaço é um fator importante a ser considerado em testes que avaliam as habilidades do processamento auditivo(12).

O envelhecimento acarreta prejuízo no sistema auditivo como um todo(8,26,27). A DPAC está relacionada com o envelhecimento, independentemente da perda na sensibilidade auditiva(8,26), pois a idade avançada pode trazer alguns comprometimentos, como é o caso do declínio cognitivo, que pode influenciar os resultados dos testes de processamento auditivo. Por isso, a grande maioria dos idosos apresenta queixa no processamento temporal do som “ouvir, mas não entender”(8,26,28).

Uma vez que não foi observada diferença de desempenho entre as orelhas, para analisar os erros e acertos apresentados pelos participantes durante o teste, optou-se por unir os resultados entre as duas orelhas testadas (n = 22) (Figura 1).

Ao serem apresentadas as palavras /data/ e /pago/, os idosos apresentaram, respectivamente, 61,36% e 52,27% de erros. Por iniciarem com /d/ e /p/, tornaram-se, para alguns indivíduos, imperceptíveis, isso porque são sons plosivos e, com a compressão, tornam-se rápidos demais, dificultando a discriminação(12). Assim como neste estudo, pesquisa anterior com adultos também verificou que estes fonemas foram os mais afetados pelo efeito da compressão, além de /b/ e /t/, tanto para monossílabos quanto para dissílabos(12).

Observou-se também alta ocorrência de erros para as palavras com encontro consonantal: /grito/ (70,45%), /zebra/ (65,90%) e /flauta/ (54,54%) (Figura 1). Isto pode ter ocorrido uma vez que, após a compressão, os encontros consonantais praticamente desaparecem, tornando difícil sua discriminação(12). Os erros apresentados pelos idosos podem estar associados com a coarticulação, que produz sobreposição de segmentos da fala, em que há dificuldade em atingir o alvo fonêmico(14). Além disso, sabe-se que, a partir dos 60 anos, os processos degenerativos surgem, presentes no envelhecimento normal, e diminuem a inteligibilidade da fala, principalmente quando a fala torna-se mais rápida ou em outro idioma(25).

Diante dos resultados desta pesquisa, ressaltam-se achados importantes, como: não encontrar diferenças significantes entre o desempenho da orelha direita e da orelha esquerda para o Teste de Fala Comprimida com dissílabos e a vantagem da segunda orelha no teste. Estes achados, assim como os tipos de erros apresentados, mostram que o idoso apresentou o mesmo comportamento que os adultos na avaliação, com exceção do desempenho no teste, evidenciando uma dificuldade na habilidade de fechamento. A fala mais rápida interfere no reconhecimento e processamento da informação.

Na prática diária, este prejuízo na habilidade de fechamento auditivo poderá causar danos no processamento e na percepção de fala, ou seja, afetará a comunicação como um todo, aumentará assim as restrições de participação do idoso e limitará suas atividades, independentemente de apresentar ou não uma perda auditiva. Por isso, estratégias que facilitem a comunicação devem sempre ser utilizadas com os idosos a fim de aumentar as redundâncias extrínsecas, uma vez que a internas se mostram reduzidas. Dentre elas, destacam-se: cuidados com o ambiente acústico (ruído, reverberação, iluminação), com a fala do interlocutor (articulação, intensidade, velocidade), uso de pistas visuais, domínio do conteúdo linguístico, número de falantes, trocas de turno(29).

Quanto aos critérios de inclusão estabelecidos para a pesquisa, o tamanho da amostra ficou limitado. No entanto, dados importantes foram obtidos que permitem levantar novos questionamentos para pesquisas futuras.

CONCLUSÃO

Os idosos apresentam pior desempenho na habilidade de fechamento auditivo, quando esta é avaliada por meio do teste de fala comprimida, em comparação aos indivíduos adultos. Não há diferença de desempenho entre as orelhas. A ordem de apresentação das listas, independentemente da orelha de início, influencia o desempenho do teste, sendo que a segunda orelha apresenta melhor desempenho. Os fonemas plosivos e os encontros consonantais com /r/ e /l/ são mais difíceis de serem reconhecidos com o aumento da velocidade da fala.

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