The 4th World Conference on Research Integrity. Research Integrity and Rewards: Improving Systems to Promote Responsible Research

The 4th World Conference on Research Integrity. Research Integrity and Rewards: Improving Systems to Promote Responsible Research

Autores:

Sonia M. R. Vasconcelos

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.31 no.5 Rio de Janeiro maio 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XED010515

O sistema de recompensas [rewards] na ciência é uma questão importante na comunidade científica e os rewards estão associados a noções de originalidade, de prioridade da descoberta e de atribuição de crédito, entre outros fatores. Em seu olhar sobre esse sistema, Robert K. Merton (1910-2003) nos lembra que, embora talento e esforço sejam preciosos na atividade de pesquisa, é a conquista de objetivos e de vantagens cumulativas que direcionam os rewards 1. Nesse contexto, Merton 2 aponta que não é sem disputas sobre alocação de crédito que a instituição da ciência evolui. Ele se refere, por exemplo, a Galileu, que com “plena consciência da importância de suas invenções e descobertas... defendeu vigorosamente os seus direitos pela prioridade em primeiro lugar, em sua defesa contra as Calúnias e Imposturas de Baldassar Capar, em que ele mostrou como sua invenção da ‘bússola geométrica e militar’ tinha sido tirada dele...” 2 (p. 635). Merton 3 (p. 60) acrescenta que “grandes talentos na ciência são tipicamente envolvidos em muitas múltiplas descobertas”, o que “vale para Galileu e Newton: para Faraday e Clerk Maxwell... Gauss e Laplace; para Lavoisier, Priestley... e para a maioria dos laureados com o Nobel”.

Os tempos mudaram, mas o sistema de recompensas e, por conseguinte, a alocação de crédito são preocupações para os sistemas de pesquisa nos mais variados países e vêm sendo manifestadas por instituições, pesquisadores e gestores, incluindo os brasileiros 4,5,6,7. Essas preocupações vêm sendo fomentadas por fatores relacionados a indicadores de avaliação de desempenho e de pesquisa e foram recentemente expressas no Manifesto de Leiden sobre Métricas na Pesquisa 8. Esse Manifesto estabelece alguns princípios baseados na ideia já bem difundida na academia de que as avaliações na pesquisa não devem ser baseadas exclusivamente em métricas – mas sim em avaliações mais abrangentes, com mais espaço para a apreciação dos pares.

De fato, a importância da apreciação dos pares nas avaliações de pesquisa e também de mecanismos para melhorar a qualidade das contribuições e alocação de crédito vem recebendo uma atenção considerável. Iniciativas como a Faculty of 1000 (http://f1000.com), uma rede de mais de 5 mil cientistas e especialistas em todas as áreas da biologia e da medicina que fazem recomendações sobre a literatura científica, podem ilustrar essa tendência 4. A Faculty of 1000, sem estar isenta de críticas 9, está harmonizada com diferentes tipos de peer review pós-publicação, como o Pub Peer e o PubMed Commons 10,11. O cenário que se vislumbra é o de um escrutínio cada vez maior dos pares sobre resultados de pesquisa. Como recentemente salientado por Francis Collins, diretor dos National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos, “considera-se que a ciência se auto-regula/corrige, uma vez que ela se baseia na replicação de trabalhos anteriores. Em longo prazo, esse princípio mantém-se fiel. Em curto prazo, porém, os freios e contrapesos que uma vez asseguraram a fidelidade científica estão prejudicados. Isso tem comprometido a capacidade dos pesquisadores para reproduzir achados de outros12 (p. 612).

Essa atitude pró-ativa poderá reforçar não só os mecanismos de auto-regulação/correção, mas também a confiança pública na ciência. Satyanarayana 13 (p. 4) considera que o sistema de comunicação científica “engasgou com o volume interminável de publicações”, o que impõe alguns desafios para esses mecanismos e, consequentemente, para a correção da literatura – muito relacionada com percepções sobre integridade em pesquisa. Quando se trata de integridade em pesquisa, a conduta responsável de financiadores, autores, revisores, editores e editoras é crucial para definir a forma como os sistemas de ciência e tecnologia legitimarão contribuições genuínas e como será o sucesso em lidar com os rewards 14.

Integridade em pesquisa, incentivos e recompensas estão inevitavelmente conectados e ganharam enorme atenção nos últimos anos. Essa atenção generalizada está refletida no tema da 4th World Conference on Research Integrity (4th WCRI; http://www.wcri2015.org), que será realizada no Brasil (31 maio a 3 junho, 2015): Research Integrity and Rewards: Improving Systems to Promote Responsible Research.

É possivelmente devido a uma convergência de diálogos e preocupações sobre esse tema que as principais agências de fomento à pesquisa, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), estão entre os principais apoiadores desse evento mundial. Além dessas agências federais e estaduais, juntam-se aos esforços brasileiros o US Office of Research Integrity (US ORI), o International Council for Science (ICSU) e The Wellcome Trust, dentre vários outros.

A 4th WCRI terá, portanto, um papel singular na abordagem internacional de questões éticas subjacentes ao sistema de recompensas da ciência e de noções de qualidade e excelência para uma comunidade que parece ter começado a revisitar seu próprio modus operandi de financiar e avaliar a pesquisa e distribuir os rewards para instituições e indivíduos. O que virá a partir dessas ações dependerá do nível de engajamento dos participantes que estarão envolvidos nas articulações propostas.

Sonia M. R. Vasconcelos
Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. soniamrvasconcelos@gmail.com

REFERÊNCIAS

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Bladeck M. DORA: San Francisco Declaration on Research Assessment (May 2013). College Research Library News 2014; 75:191-6.
Camargo Jr. KR. Produção científica: avaliação da qualidade ou ficção contábil? Cad Saúde Pública 2013; 29:1707-11.
International Council for Science. International Workshop “Science Assessment and Research Integrity”.
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Satyanarayana K. Journal publishing: the changing landscape. Indian J Med Res 2013; 138:4-7.
Committee on Assessing Integrity in Research Environments, National Research Council, Institute of Medicine. Integrity in scientifc research: creating an environment that promotes responsible conduct. Washington DC: National Academies Press; 2002.
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