Timpanoplastias pediátricas tipo 1 usando enxertos com fáscia e cartilagem

Timpanoplastias pediátricas tipo 1 usando enxertos com fáscia e cartilagem

Autores:

Zheng‐cai Lou

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694versão On-line ISSN 1808-8686

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.83 no.3 São Paulo mai./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2016.09.006

Cara Editora,

Apresentamos aqui alguns comentários sobre o artigo intitulado “Comparação de enxertos com fáscia do músculo temporal e cartilagem de espessura total em timpanoplastias pediátricas tipo 1”, de Yegin et al.1 O trabalho descrito no artigo foi interessante. Enxertos de cartilagem melhoraram a taxa de sucesso em longo prazo de timpanoplastias comparados com enxertos de fáscia temporal, devido à disfunção da tuba auditiva em crianças. No entanto, o desenho do estudo e o curto seguimento enfraqueceram as suas conclusões.

Os autores afirmam em seu Método1 que “Uma revisão retrospectiva de dados, coletados de janeiro de 2013 até setembro de 2014, foi feita em nosso hospital” e “Os pacientes foram aleatoriamente alocados para cirurgia com o uso de enxertos com fáscia do músculo temporal ou cartilagem tragal pelos cirurgiões”. Acreditamos que a “revisão retrospectiva” e “alocados aleatoriamente” são termos contraditórios. Um controle randomizado não pode ser feito em um estudo retrospectivo. Ensaios clínicos randomizados, considerados o padrão‐ouro do desenho de estudo, são estudos prospectivos. Eles podem fornecer evidências de relações de causa‐efeito e dar apoio a mudanças na prática clínica ou intervenções clínicas no local de trabalho. Em um estudo clínico randomizado controlado, os indivíduos são alocados de forma aleatória para receber a intervenção ou tratamento controle e os resultados são avaliados após o período de intervenção. O grupo controle é o que recebe o tratamento padrão, ou não recebe intervenção ou recebe placebo. Se os pacientes não foram randomizados, os resultados podem incluir algum viés. Assim, acreditamos que o estudo precisa ser prospectivo, com controle randomizado, com uma amostra maior e maior tempo de seguimento para chegar a conclusões válidas.

Os autores excluíram apenas os pacientes com defeitos na cadeia ossicular, colesteatoma, timpanosclerose, atelectasia e um histórico de cirurgia otológica prévia. Os autores não especificam se os pacientes com tecido de granulação na orelha média foram incluídos. O tecido de granulação pode afetar o sucesso de timpanoplastias pediátricas, especialmente com enxertos de fáscia temporal. Adicionalmente, eles relataram que a taxa de sucesso do enxerto foi de 92,1% para o grupo cartilagem contra 65,0% para o grupo fáscia temporal durante o primeiro ano do pós‐operatório.1 Sua taxa de sucesso no grupo de fáscia temporal parece muito baixa. Existem muitos relatos de taxas de sucesso > 80% em timpanoplastias tipo 1 com fáscia temporal.2,3 Embora Cabra e Monoux tenham relatado uma taxa de sucesso de 64,6% em um grupo com fáscia e 82,26% em um grupo com cartilagem, o seu tempo de seguimento foi de 24 meses.4 Estudos experimentais têm demonstrado que os enxertos com fáscia temporal podem sofrer degeneração e retração ao longo do tempo, o que resulta em reperfuração.5 Além disso, a tuba auditiva tem um papel significativo no sucesso da miringoplastia. Dois estudos exclusivamente em crianças mostraram melhores resultados morfológicos com o uso de cartilagem do que com enxertos de fáscia. Um dos efeitos da disfunção da trompa de Eustáquio na população pediátrica é a pressão negativa na cavidade da orelha média, o que pode causar a retração da membrana timpânica, resultando em insucesso da miringoplastia.2 Os autores devem avaliar a trompa de Eustáquio em estudos futuros.

Os autores afirmam que a cartilagem tragal foi coletada junto com o pericôndrio em ambos os lados. No Método, descrevem que foi feito um corte inferior tão baixo quanto possível para obter toda a cartilagem tragal. Embora timpanoplastias com enxerto de cartilagem possam obter uma taxa de sucesso mais elevada, a excisão de toda a cartilagem tragal teria efeitos estéticos nas orelhas das crianças. Timpanoplastias com pericôndrio tragal têm certas vantagens, inclusive maiores taxas de sucesso e nenhum efeito sobre a estética. Assim, os autores devem comparar as taxas de sucesso de timpanoplastias pediátricas tipo 1 com o uso de enxertos de fáscia, enxertos de cartilagem e enxertos com pericôndrio em trabalhos futuros.

REFERÊNCIAS

1 Yegin Y, Çelik M, Koç AK, Küfeciler L, Elbistanlı MS, Kayhan FT. Comparison of temporalis fascia muscle and full-thickness cartilage grafts in type 1 pediatric tympanoplasties. Braz J Otorhinolaryngol. 2016. S1808-8694(16)30011-8.
2 Iacovou E, Vlastarakos PV, Papacharalampous G, Kyrodimos E, Nikolopoulos TP. Is cartilage better than temporalis muscle fascia in type I tympanoplasty? Implications for current surgical practice. Eur Arch Otorhinolaryngol. 2013;270:2803-13.
3 Shishegar M, Faramarzi A, Taraghi A. A short-term comparison between result of palisade cartilage tympanoplasty and temporalis fascia technique. Iran J Otorhinolaryngol. 2012;24:105-12.
4 Cabra J, Monoux A. Efficacy of cartilage palisade tympanoplasty: randomised controlled trial. Otol Neurotol. 2010;31:589-95.
5 England RJ, Strachan DR, Buckley JG. Temporalis fascia grafts shrink. J Laryngol Otol. 1997;111:707-8.
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