Tradução, adaptação transcultural e confiabilidade do questionário Understanding COPD para uso no Brasil

Tradução, adaptação transcultural e confiabilidade do questionário Understanding COPD para uso no Brasil

Autores:

Anamaria Fleig Mayer,
Aline Almeida Gulart,
Karoliny dos Santos,
Katerine Cristhine Cani,
Manuela Karloh,
Brenda O’Neill

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.44 no.4 São Paulo jul./ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1806-37562017000000154

INTRODUÇÃO

A educação é um dos principais componentes dos programas de reabilitação pulmonar (PRP) para pacientes com DPOC. Nos últimos anos, tem recebido maior atenção porque pode ensinar os pacientes a lidar com sua doença e porque pode aumentar a probabilidade de que esses pacientes venham a adotar estratégias de autogestão.1

A educação engloba atividades que estimulam os pacientes e suas famílias a saber mais sobre a doença e, consequentemente, compreendê-la melhor, melhorando assim a autoeficácia dos pacientes.1,2 A educação é importante para promover mudanças comportamentais,2,3 que são necessárias porque os pacientes podem não adotar ativamente comportamentos apropriados que poderiam melhorar seus desfechos.4 É possível que isso ocorra em virtude da falta de compreensão da importância desses comportamentos ou da falta de autoeficácia em administrar a doença. Intervenções educacionais podem mudar esses desfechos e já se mostraram eficazes em pacientes com DPOC; há relação entre elas e a melhora da capacidade de autogestão,2 isto é melhor uso de medicamentos, maior capacidade de administrar as exacerbações da doença e maior capacidade de atingir as metas de controle da doença.5 No entanto, apesar de sua importância, a educação é raramente avaliada em PRP porque existem poucos instrumentos disponíveis para esse fim. O questionário Understanding COPD (UCOPD),4 o Bristol COPD Knowledge Questionnaire (BCKQ),6 o Lung Information Needs Questionnaire (LINQ)7 e o Mount Sinai Hospital Questionnaire8 foram elaborados para avaliar o que os pacientes com DPOC sabem sobre a doença. O questionário UCOPD se destaca porque, além de avaliar a compreensão que os pacientes têm da DPOC, avalia a autoeficácia, o uso de habilidades de autogestão e a satisfação dos pacientes com um determinado PRP.4 No entanto, ainda não há uma versão em português do Brasil do questionário UCOPD. Assim, em virtude da importância de um instrumento que possa avaliar o efeito do componente educacional dos PRP, o objetivo do presente estudo foi traduzir o questionário UCOPD para o português do Brasil e determinar a confiabilidade da versão brasileira do questionário.

MÉTODOS

Foram incluídos no estudo 50 pacientes com DPOC encaminhados ao Núcleo de Assistência, Ensino e Pesquisa em Reabilitação Pulmonar da Universidade do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis (SC). Os critérios de inclusão foram os seguintes: diagnóstico clínico de DPOC confirmado por espirometria de acordo com os critérios da Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD)9 e autorrelato de capacidade de ler em português do Brasil.

Pacientes incapazes de compreender o questionário ou de seguir as instruções foram excluídos (18/19 pontos no Miniexame do Estado Mental para pacientes sem educação formal anterior e 24/25 pontos para pacientes com educação formal anterior).10 Além disso, foram excluídos pacientes com qualquer outra doença respiratória ou não respiratória grave ou limitante. O comitê de ética em pesquisa da instituição aprovou o estudo (CAAE n. 11603112.1.0000.0118), e todos os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. As propriedades de medida relevantes do questionário UCOPD foram avaliadas em conformidade com as Consensus-based Standards for the Selection of Health Status Measurement Instruments.11 Os autores da versão original autorizaram a adaptação transcultural do questionário UCOPD.

O protocolo de adaptação transcultural usado foi o recomendado por Guillemin et al.12 Primeiro, a versão em inglês do questionário UCOPD4 foi traduzida para o português do Brasil por dois tradutores bilíngues independentes fluentes em inglês e falantes nativos do português do Brasil, um dos quais não tinha nenhum conhecimento específico da área de saúde. Um resumo das traduções foi feito por um comitê de revisão de tradução, composto pelo autor principal do questionário original e os tradutores e profissionais de saúde. Essa versão foi posteriormente retrotraduzida por um profissional de saúde falante nativo do inglês e fluente em português. O tradutor responsável pela retrotradução não havia tido contato com o questionário anteriormente.

Essa primeira versão foi testada em 8 pacientes com DPOC para que se identificassem dúvidas e dificuldades relativas ao texto. Depois disso, os problemas mencionados pelos pacientes foram discutidos pelo comitê de revisão, e o consenso foi obtido. A versão final do instrumento não exigiu adaptações transculturais ou alterações da estrutura original. Embora o nome do questionário tenha sido traduzido para o português, tomou-se a decisão de manter a abreviatura do nome em inglês (isto é, UCOPD) na versão em português do Brasil de modo a estabelecer facilitar o reconhecimento do instrumento. O Anexo 1 (http://jornaldepneumologia.com.br/detalhe_anexo.asp?id=56) mostra a versão final do questionário traduzido.

Foram testadas a confiabilidade interobservador e a confiabilidade teste-reteste da versão em português do Brasil do questionário UCOPD. No primeiro dia, o questionário foi aplicado duas vezes por dois observadores (O1 e O2) na seguinte ordem: primeiro pelo O1 e 10 min depois pelo O2. Após 15-20 dias, o questionário foi reaplicado pelo O2.13

O questionário UCOPD4 consiste em duas seções: a seção A possui 18 itens em três domínios: “Sobre a DPOC”, “Manejo dos Sintomas da DPOC” e “Acesso a Ajuda e Suporte”; a seção B possui cinco perguntas sobre a satisfação do paciente com o componente educacional do PRP. A resposta a cada pergunta é indicada em uma escala visual analógica de dez centímetros com intervalos numéricos por centímetro.

A pontuação obtida nos domínios e a pontuação total da seção A variam de 0 a 100%. Quanto maior a pontuação, melhor a compreensão, autoeficácia, uso de medicação e satisfação. Para calcular a pontuação obtida em cada domínio, a pontuação obtida em cada pergunta do domínio é somada, dividida pela pontuação máxima do domínio e multiplicada por 100. A pontuação máxima dos domínios e a pontuação total das seções A e B são as seguintes: domínio Sobre a DPOC (questões 1-7): 70; domínio Manejo dos Sintomas da DPOC (questões 8-14): 70; domínio Acesso a Ajuda e Suporte (questões 15-18): 40; pontuação total da seção A (questões 1-18): 180; pontuação total da seção B (questões 1-5): 50.4

Para a caracterização da amostra, os participantes foram submetidos a espirometria (espirômetro EasyOne®; ndd Medical Technologies, Zurique, Suíça) de acordo com as normas da American Thoracic Society/European Respiratory Society.14 Os valores previstos foram obtidos a partir das equações propostas por Pereira et al.15 As classificações espirométrica e multidimensional da GOLD9 foram usadas para estratificar a gravidade da DPOC. As versões em português do Brasil do Saint George’s Respiratory Questionnaire (SGRQ)16 e do COPD Assessment Test (CAT, Teste de Avaliação da DPOC)17 foram aplicadas em todos os participantes, que foram também avaliados quanto à atividade física na vida diária (AFVD) durante 12 h em dois dias consecutivos da semana.18

Os dados são apresentados em forma de média ± desvio-padrão e intervalo de confiança de 95%. Usamos o teste de Wilcoxon para comparar a pontuação obtida no questionário UCOPD nas duas aplicações. O coeficiente de correlação intraclasse (CCI) de duas vias, com efeitos mistos e medida única, e os respectivos IC95% foram usados para analisar a confiabilidade do questionário UCOPD, e o coeficiente alfa de Cronbach foi usado para analisar a consistência interna do questionário. A classificação usada para o CCI foi a seguinte: CCI < 0,40 = reprodutibilidade baixa; CCI ≤ 0,75 = reprodutibilidade moderada; CCI > 0,75 = reprodutibilidade alta.19

Os gráficos de dispersão de Bland-Altman foram usados para representar a concordância entre as pontuações obtidas no questionário UCOPD, ao passo que o coeficiente de correlação de Spearman foi usado para avaliar a correlação da pontuação obtida no questionário UCOPD com a obtida no SGRQ e no CAT, bem como com o nível de AFVD. O erro-padrão de medida e a diferença mínima detectável (DMD) foram calculados conforme descrito por Terwee et al.20 Para a análise dos efeitos de piso e teto, foi usada a proporção de ocorrência da pontuação mínima (0%) e máxima (100%) na seção A do questionário UCOPD.20 O nível de significância adotado foi de 5%. A análise dos dados foi realizada por meio do programa IBM SPSS Statistics, versão 20.0 (IBM Corporation, Armonk, NY, EUA), e os gráficos foram criados por meio do programa GraphPad Prism, versão 5.0 (GraphPad Inc., San Diego, CA, EUA). Para calcular o tamanho da amostra em conformidade com as recomendações das Consensus-based Standards for the Selection of Health Status Measurement Instruments,21 foram selecionados 50 pacientes (uma amostra de bom tamanho). O cálculo do tamanho da amostra baseou-se também em um CCI esperado de 0,50 para confiabilidade moderada,19 α = 0,05 e β = 0,10, resultando em uma amostra composta por 38 pacientes.22

RESULTADOS

Foram incluídos no estudo 55 pacientes com DPOC. Destes, 2 foram excluídos porque não completaram o protocolo e 3 foram excluídos em virtude de exacerbação da doença durante o protocolo. Portanto, 50 pacientes completaram o protocolo (35 homens). A Tabela 1 apresenta as características dos pacientes.

Tabela 1 Características dos pacientes com DPOC incluídos no presente estudo (N = 50).a 

Variável Resultado
Idade, anos 65,3 ± 7,91
IMC, kg/m2 25,5 ± 4,81
VEF1/CVF 0,45 ± 0,10
CVF, l 2,31 ± 0,73
CVF, % do previsto 61,1 ± 18,0
VEF1, l 1,07 ± 0,48
VEF1, % do previsto 36,4 ± 16,2
Pontuação no Miniexame do Estado Mental 27,3 ± 2,65
CAT 16,6 ± 7,79
GOLD, estágios II-III-IV, n (%)
II 12 (24)
III 18 (36)
IV 20 (40)
GOLD, estágios A-B-C-D, n (%)
A 02 (04)
B 10 (20)
C 06 (12)
D 32 (64)

IMC: índice de massa corporal; CAT: COPD Assessment Test (Teste de Avaliação da DPOC); e GOLD: Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. aValores expressos em forma de média ± dp, exceto onde indicado.

A escolaridade variou entre os pacientes: 7 (14%) concluíram o ensino superior; 4 (8%) não concluíram o ensino superior; 17 (34%) concluíram o ensino médio; 2 (4%) não concluíram o ensino médio; 4 (8%) concluíram o ensino fundamental; 15 (30%) não concluíram o ensino fundamental; 1 (2%) jamais frequentara a escola.

Não houve diferença na confiabilidade teste-reteste quanto à pontuação total da seção A e seus domínios. Houve diferenças significativas entre o O1 e o O2 quanto à pontuação no domínio Sobre a DPOC (Tabela 2). A Tabela 2 mostra a pontuação obtida na seção A e seus domínios, bem como os CCI teste-reteste e interobservador, que variaram de satisfatórios a excelentes. Nenhum dos pacientes obteve a pontuação mínima (0%) ou máxima (100%).

Tabela 2 Pontuação, coeficientes de correlação intraclasse teste-reteste e coeficientes de correlação intraclasse interobservador do questionário Entendendo a DPOC (pontuação total da seção A e pontuação obtida em cada domínio da seção).a 

Pontuação total da seção A e pontuação obtida em cada domínio da seção Observador 1 Teste do observador 2 Reteste do observador 2
Sobre a DPOC (%) 66,1 ± 18,9 71,0 ± 19,5 72,8 ± 18,9*
Manejo dos Sintomas da DPOC (%) 67,0 ± 19,0 63,4 ± 20,1 67,3 ± 18,1
Acesso a Ajuda e Suporte (%) 65,2 ± 28,9 64,9 ± 30,3 69,2 ± 27,8
Seção A, total (%) 62,3 ± 16,1 62,9 ± 18,4 66,0 ± 16,4
Pontuação total da seção A e pontuação obtida em cada domínio da seção CCI interobservador (IC95%) CCI teste-reteste (IC95%)
Sobre a DPOC 0,85 (0,70-0,92) 0,72 (0,56-0,83)
Manejo dos Sintomas da DPOC 0,70 (0,53-0,82) 0,61 (0,41-0,76)
Acesso a Ajuda e Suporte 0,89 (0,81-0,93) 0,77 (0,63-0,86)
Seção A, total 0,88 (0,79-0,93) 0,74 (0,59-0,88)

CCI: coeficiente de correlação intraclasse. aValores expressos em forma de média ± dp, exceto onde indicado. *p < 0,05 vs. observador 1.

Na análise de concordância, o coeficiente alfa de Cronbach interobservador referente à pontuação total da seção A e seus domínios (Sobre a DPOC, Manejo dos Sintomas da DPOC e Acesso a Ajuda e Suporte) foi de 0,93, 0,94, 0,83 e 0,94, respectivamente (p < 0,001 para todos). Em 11 dos 18 itens da seção A, o CCI foi superior a 0,75 (p < 0,001). Os itens 3, 7, 8, 9, 13, 14 e 15 apresentaram reprodutibilidade satisfatória (CCI = 0,54-0,68; p < 0,001). Desses itens, 4 pertenciam ao domínio Manejo dos Sintomas da DPOC.

No tocante à confiabilidade teste-reteste, o coeficiente alfa de Cronbach referente à pontuação total da seção A foi de 0,86 (p < 0,001), e os referentes à pontuação obtida nos domínios Sobre a DPOC, Manejo dos Sintomas da DPOC e Acesso a Ajuda e Suporte foram de 0,83, 0,76 e 0,87, respectivamente (p < 0,001). Os CCI foram superiores a 0,75 em 8 dos 18 itens (p < 0,001). No entanto, os CCI referentes aos itens 3, 4, 7, 8, 9, 10, 12, 14, 15 e 17 variaram de 0,43 a 0,70. Os CCI referentes a 5 dos 7 itens do domínio Manejo dos Sintomas da DPOC foram inferiores a 0,75. O erro-padrão de medida foi de 6, e a DMD foi de 16,6.

A Figura 1 mostra a concordância entre o O1 e o O2. Houve uma grande variabilidade entre as aplicações do questionário UCOPD, a qual foi mais pronunciada na análise teste-reteste (Figura 2).

Figura 1 Gráficos de dispersão de Bland-Altman da confiabilidade interobservador. Em A, pontuação total da seção A; em B, pontuação obtida no domínio “Sobre a DPOC”; em C, pontuação obtida no domínio “Manejo dos Sintomas da DPOC”; em D, pontuação obtida no domínio “Acesso a Ajuda e Suporte”.  

Figura 2 Gráficos de dispersão de Bland-Altman da confiabilidade teste-reteste. Em A, pontuação total da seção A; em B, pontuação obtida no domínio “Sobre a DPOC”; em C, pontuação obtida no domínio “Manejo dos Sintomas da DPOC”; em D, pontuação obtida no domínio “Acesso a Ajuda e Suporte”.  

A pontuação obtida nos domínios do questionário UCOPD apresentou correlação fraca com a pontuação obtida no CAT e no SGRQ, bem como com o nível de AFVD. A pontuação obtida na seção A do questionário UCOPD correlacionou-se com a pontuação total do SGRQ (r = −0,38; p = 0,007) e a pontuação obtida no domínio “impactos” do SGRQ (r = −0,46; p = 0,001), bem como com o tempo gasto sentado (r = −0,33; p = 0,024), o tempo gasto em pé (r = 0,33; p = 0,023) e o tempo de caminhada (r = 0,30; p = 0,04). A pontuação obtida no domínio Sobre a DPOC do questionário UCOPD correlacionou-se com a pontuação total do SGRQ (r = −0,30; p = 0,033) e a pontuação obtida no domínio impactos do SGRQ (r = −0,35; p = 0,014), bem como com o tempo gasto sentado (r = −0,32; p = 0,027). A pontuação obtida no domínio Manejo dos Sintomas da DPOC do questionário UCOPD correlacionou-se com a pontuação obtida no domínio impactos do SGRQ (r = −0,35; p = 0,014), ao passo que a pontuação obtida no domínio Acesso a Ajuda e Suporte do questionário UCOPD correlacionou-se com a pontuação obtida no CAT (r = −0,30; p = 0,042), a pontuação total do SGRQ (r = −0,42; p = 0,003), a pontuação obtida no domínio “atividade” do SGRQ (r = −0,33; p = 0,019), a pontuação obtida no domínio impactos do SGRQ (r = −0,48; p = 0,013), o tempo gasto sentado (r = −0,38; p = 0,004), o tempo gasto em pé (r = 0,42; p = 0,003) e o tempo de caminhada (r = 0,35; p = 0,013), bem como com um nível de AFVD ≥ 3 equivalentes metabólicos (r = 0,33; p = 0,021). Não foram encontradas correlações entre o VEF1 e a pontuação total do questionário UCOPD nem entre o VEF1 e a pontuação obtida nos domínios do questionário UCOPD (valores de p = 0,24-0,88).

DISCUSSÃO

O principal achado do presente estudo é que o questionário UCOPD é confiável e capaz de refletir a qualidade de vida, o estado de saúde e a AFVD de pacientes com DPOC no Brasil. A confiabilidade teste-reteste e a confiabilidade interobservador da pontuação total da seção A do questionário UCOPD foram excelentes. A confiabilidade dos domínios variou de satisfatória a excelente; os CCI mais baixos foram os referentes ao domínio Manejo dos Sintomas da DPOC e à análise de confiabilidade teste-reteste.

No estudo de elaboração e validação do questionário UCOPD,4 os autores observaram excelente confiabilidade dos domínios e da pontuação total da seção A. Curiosamente, o domínio Manejo dos Sintomas da DPOC apresentou o mais alto CCI de todos os domínios do questionário UCOPD (CCI = 0,92; IC95%: 0,81-0,97). Alguns fatores podem explicar por que os resultados do presente estudo diferiram dos resultados supracitados. O’Neill et al.4 incluíram apenas pacientes com boa compreensão do inglês escrito, e os próprios participantes completaram o questionário. Como a escolaridade da maioria dos idosos no Brasil é baixa,23 o questionário UCOPD foi preenchido por meio de entrevistas com os participantes. Embora isso seja permitido de acordo com as instruções de aplicação do questionário UCOPD, a baixa escolaridade da maioria dos participantes do estudo (32% dos quais não completaram o ensino fundamental) poderia ter afetado a compreensão dos itens do domínio Manejo dos Sintomas da DPOC e, consequentemente, contribuído para reduzir sua confiabilidade. No entanto, tomou-se a decisão de não excluir esses pacientes da amostra. Se tivessem sido excluídos, a amostra deixaria de ser representativa da população brasileira, e isso comprometeria a validade externa do instrumento.

A confiabilidade da seção B do questionário UCOPD não foi analisada nem no presente estudo nem no estudo original.4 Relatou-se que a seção B do questionário UCOPD apresenta alta consistência interna e concordância.4 No presente estudo, a seção B foi administrada a 7 pacientes, os quais haviam participado de um PRP completo, e as respostas foram as mesmas para todos os itens. Vale ressaltar que a seção B visa a avaliar a satisfação do paciente com as aulas; não faz parte da avaliação do conhecimento e da autoeficácia do paciente.

Como não havia um instrumento previamente validado para avaliar o conhecimento e a autoeficácia de pacientes com DPOC no Brasil, não foi possível testar a validade concorrente do questionário UCOPD. Obteve-se uma correlação de 0,303 (p = 0,002) entre a versão em inglês do questionário UCOPD e o BCKQ.4 No entanto, a relação com outros desfechos ainda não foi testada. Não obstante as correlações fracas, pacientes com conhecimento limitado da DPOC aparentemente apresentam prejuízo da qualidade de vida, aumento do tempo gasto sentado e redução do tempo gasto em posturas ativas (em pé e caminhando). Parece que quanto mais os pacientes sabem sobre sua doença e quanto mais se sentem seguros a respeito do quanto sabem sobre ela, mais ativos se tornam e melhor é sua qualidade de vida. No entanto, isso ainda precisa ser confirmado. Mesmo assim, isso reforça a hipótese de que aumentar o conhecimento e a autoeficácia do paciente é uma estratégia importante para promover a adesão em longo prazo a comportamentos ativos e saudáveis.1,24,25 Isso também sugere que o questionário UCOPD é capaz de refletir outros desfechos importantes, o que reforça sua validade.

Embora o componente educacional dos PPR esteja atualmente concentrado na promoção do conhecimento, autocuidado e autogestão e no aumento da autoeficácia, existem poucos instrumentos que podem ser usados para avaliar esses desfechos (ou alguns deles): o questionário UCOPD, o BCKQ6 e o LINQ.7 Esses instrumentos foram desenvolvidos na Inglaterra e são confiáveis e válidos; eles podem ser usados para avaliar a reação dos pacientes a programas educacionais6 e PRP.26 No entanto, pelo que sabemos, no momento não há dados sobre a tradução e adaptação transcultural desses instrumentos no Brasil. Além disso, nem o BCKQ nem o LINQ abordam a autoeficácia do paciente; eles são usados para avaliar o grau de conhecimento do paciente. Por outro lado, além de avaliar o grau de conhecimento do paciente, o questionário UCOPD avalia sua autoeficácia e satisfação com o componente educacional dos PRP.4

A autoeficácia é atualmente considerada um dos principais desfechos a serem avaliados em pacientes que participam de um PRP, porque parece estar relacionada com a adoção e manutenção de comportamentos ativos e saudáveis.1 A definição de autoeficácia é a confiança que um indivíduo tem em sua capacidade de lidar com uma tarefa específica,3 como administrar com sucesso sua doença, por exemplo. Ao contrário do BCKQ ou do LINQ, o questionário UCOPD inclui perguntas a respeito de quão seguros os pacientes estão de que sabem o que é a DPOC; de que são capazes de reconhecer uma exacerbação; de que sabem quando procurar assistência médica; de que sabem como usar a medicação para DPOC; de que sabem como se exercitar, entre outras. Portanto, trata-se de uma ferramenta interessante que pode auxiliar na identificação e elaboração de estratégias para pacientes que, apesar de conhecer bem sua doença, não estão seguros a respeito de como empregar o que sabem ou como administrar sua saúde, o que pode resultar em não adesão ao tratamento.

Apesar das diferenças culturais entre o Brasil e a Irlanda do Norte, a versão em português do Brasil do questionário UCOPD não exigiu grandes adaptações. A versão final do questionário é igual à primeira tradução, e sua retrotradução foi aprovada pela autora principal do questionário original. A versão em português do Brasil do questionário UCOPD foi considerada confiável, sem efeito de piso ou teto. Esse achado é importante porque o efeito de piso/teto poderia afetar a capacidade discriminatória do questionário ou a detecção de mudanças ao longo do tempo/após uma intervenção.20

Uma possível limitação do presente estudo é o tempo decorrido entre as duas aplicações do questionário (isto é, 10 min para análise da confiabilidade interobservador e 15-20 dias para análise da confiabilidade teste-reteste). Embora um dos pressupostos do procedimento de teste de confiabilidade seja que o intervalo entre as aplicações deve ser curto, porém longo o suficiente para evitar o viés de memória do participante,27 não encontramos recomendações específicas a respeito de quão longo deve ser esse intervalo. Embora os resultados do presente estudo tenham sido satisfatórios, nosso intervalo entre as aplicações foi maior do que o empregado no estudo original. Portanto, é possível que o estado clínico dos pacientes tenha mudado durante esse intervalo de tempo, o que pode ter influenciado suas respostas. Outra possível limitação é que não testamos a resposta da versão em português do Brasil do questionário UCOPD a PRP ou outras intervenções. Além disso, no momento não há dados como pontos de corte e diferença clinicamente importante mínima para auxiliar na interpretação dos resultados do questionário UCOPD. No entanto, isso estava fora do escopo do presente estudo, sendo, portanto, necessários mais estudos. Nosso achado de DMD = 16,6 reflete a menor variação intrapessoal; portanto, mudanças acima desse ponto com valor de p < 0,05 podem ser consideradas “reais”.20

Pelo que sabemos, este é o primeiro estudo cujo objetivo foi elaborar uma versão em português do Brasil do questionário UCOPD, um questionário confiável para avaliar o que os pacientes sabem sobre a DPOC e sua autoeficácia em administrar a doença. Nossos achados podem subsidiar a prática clínica, permitindo a avaliação dos desfechos supracitados e contribuindo para a elaboração de estratégias para melhorá-los. Além disso, permitem avaliar os resultados de programas educacionais.

Em suma, ao traduzir uma ferramenta de medida de desfecho para ser usada em um país diferente, é importante garantir que as propriedades permaneçam robustas. O presente estudo demonstrou que a versão em português do Brasil do questionário UCOPD é confiável, tem consistência interna e não apresenta efeitos de piso ou teto que possam dificultar seu uso em pacientes com DPOC no Brasil. Além disso, o questionário é capaz de refletir o estado de saúde, a qualidade de vida e a AFVD desses pacientes. São necessários mais estudos para determinar se a versão em português do Brasil do questionário UCOPD apresenta resposta a PRP.

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