Tradução e adaptação cultural de instrumentos de coleta de dados sobre construção de gênero na infância

Tradução e adaptação cultural de instrumentos de coleta de dados sobre construção de gênero na infância

Autores:

Julia Maricela Torres Esperón,
Ivone Evangelista Cabral,
Roberto José Leal,
Elisa da Conceição Rodrigues,
Marialda Moreira Christoffel,
Juliana Rezende Montenegro Medeiros de Moraes

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.3 Rio de Janeiro 2018 Epub 18-Jun-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0371

INTRODUÇÃO

A compreensão sobre gênero como um conceito socioculturalmente construído deve-se à crença ontológica de que estrutura-se em valores que caracterizam os padrões sociais de masculino e feminino determinadores do que é ou não permitido ao homem e à mulher desempenhar na sociedade.1,2 Tais valores são transmitidos intergeracionalmente e refletem-se tanto no processo de socialização da criança, como de escolarização. Nesse sentido, a escola pode promover rupturas e instaurar novas mentalidades, a partir do momento em que a criança tem a oportunidade de viver em pares sob a orientação de professores e projetos pedagógicos orientados por equidade de gênero e justiça social.3,4

Há necessidade de uma nova mirada sobre a escola como uma instituição capaz de alinhar novas coordenadas culturais, posto que as ideologias não surgem espontaneamente nas pessoas. Ela é uma das instituições da sociedade que promove e transmite políticas e práticas de inclusão social. A pesquisa e publicações sobre gênero e a escolarização indicam que a institucionalização das ideias e imagens relativas a gênero reforça os meios pelos quais as diferenças de gênero chegam a acreditar-se como certas. Esse processo pode ser identificado nas políticas, prioridades e práticas de escolarização, em diferentes níveis de formação.5,6

Diferentes instrumentos têm sido adotados para estudar preferências individuais de meninos e meninas por brinquedos e brincadeiras, e suas preferências por pares, refletindo melhor as relações e estereótipos de gênero7,8 do que papeis e identidade de gênero, os quais são mais bem capturados por meio de observação de interações sociais mediadas em ambientes naturais. Entrevista estruturada conduzida por meio de instrumento permitiu que as crianças classificassem suas preferências por brinquedos (masculinos, femininos e neutros), justificando a seleção de cada um disposto no catálogo de brinquedos.7 Em outro estudo conduzido por dois instrumentos, o Playmate and Play Style Preferences Structured Interview (PPPSI) (Preferências de Parcerias e Estilos de Brincadeiras) e o Desenho da Figura Humana, meninas e meninos entre 9 e 11 anos de idade apontaram suas preferências por pares e brincadeiras.8 Em ambos os estudos, o cenário foi uma sala (na escola ou fora dela) e cada criança sentada em sua cadeira fazia suas escolhas e respondia o instrumento. Estudos etnográficos produzem registros mais próximos do real em que as relações de gênero acontecem, sejam eles em salas de aula, nos clubinhos ou em momentos no recreio.7-10

Na observação etnográfica implementada pela pesquisa cubana sobre formação de promotores de equidade de gênero na infância,10 em escolas de ensino primário (equivalente ao ensino fundamental no Brasil), trouxe resultados favoráveis a utilização do instrumento adotado pela equipe pesquisadora daquele país. Os dois instrumentos, uma guia de observação e um questionário de auto-resposta para professores da versão cubana permitiu identificar a construção de gênero entre meninas e meninos. As diferenças linguísticas, culturais e de sistemas de ensino entre Brasil e Cuba exigem procedimento metodológico rigoroso para adequação de instrumentos, envolvendo "tradução" e "adaptação".

No entanto, tradução e adaptação são termos distintos, pois de um lado, incluem processos semânticos, de idioma e expressões relativas à adequação cultural, além da mera tradução;11 por outro, pode haver o risco de se criar novos instrumentos que sejam redundantes com aqueles existentes para investigar um mesmo tema.

Na área de saúde e enfermagem, o processo de adaptação transcultural é muito utilizado por reconhecer que os contextos socioculturais e linguísticos são diferentes. Sendo assim, adaptação transcultural é o processo de modificação de uma medida previamente validada em outro idioma, dando ênfase à necessidade de equiparar contextos sociais, culturais e estilos de vida da população alvo.12-14

A problemática apresentada aponta para a necessidade do uso de instrumentos de observação etnográfica para capturar interações de meninos e meninas em ambientes naturais. No entanto, se elaborados em outro país, esses instrumentos precisam ser traduzidos e culturalmente adaptados para o português brasileiro. Definiu-se como objetivos: traduzir e adaptar as versões cubanas da Encuesta de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar e do Cuestionário auto-administrado de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar.

MÉTODO

O presente artigo metodológico corresponde ao primeiro objetivo da pesquisa-ação extensionista de (des-) construção de gênero e promoção de saúde da criança na escola, que vem sendo desenvolvida em três municípios de três regiões brasileiras, a saber: sudeste (Rio de Janeiro-RJ), região centro-oeste (Jataí-GO) e sul (Porto Alegre-RS). Traduzir, retrotraduzir e adaptar culturamente os dois instrumentos do espanhol cubano para o português brasileiro foi a primeira etapa dessa pesquisa e extensão, implementada nos meses de novembro de 2016 a maio de 2017. Tais instrumentos serão adotados no trabalho de campo naturalístico, quando observar-se-á interações de crianças do ensino fundamental e serão implementadas as ações extensionistas.

A adaptação transcultural de instrumentos elaborados em outros idiomas e validados em outras culturas requer máxima equivalência semântica, de idioma e expressões, entre o texto original e sua versão traduzida. A utilização de um instrumento estrangeiro sem a sua devida adaptação pode colocar em risco a validade e a precisão de investigações desenvolvidas.11,13

Versão de instrumentos elaborados em outros idiomas, países e culturas envolve um processo desenvolvido em quatro etapas: tradução, retrotradução, comissão de revisão e pré-teste.11 Embora não haja consenso, as estratégias de execução, aspectos culturais, idiomáticos, linguísticos e contextuais relativos à sua tradução devem ser considerados na síntese operacional do mosaico de procedimentos oriundos de diversas fontes.12-14

Nesse sentido, a versão espanhol cubana dos instrumentos Encuesta de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar e Cuestionário auto-administrado de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar, para o português brasileiro foi operacionalizada em quatro etapas, esquematicamente, representadas na Figura 1. As três primeiras etapas foram implementadas antes da aprovação do projeto de pesquisa ação-extensionista, pois era necessário encaminhar a primeira versão do instrumento no idioma português para análise pelo Comitê de Ética. Por essa razão, ela transcorreu nos meses de novembro e dezembro de 2016.

Figura 1 Etapas (1 a 3) de tradução e adaptação cultural das versões originais (VO) em espanhol cubano para o português brasileiro do questionário de auto-resposta (QAR, V5) e observação (V1 e V2; V3, V4, V6). 

A primeira correspondeu à tradução da versão original (VO) em espanhol cubano, de ambos os instrumentos, para o português por dois estudantes brasileiros do curso de medicina de uma Universidade em Cuba, que residiam naquele país há quatro e seis anos. Ambos possuíam domínio linguístico e cultural dos dois idiomas (V1 e V2) e conhecimento sobre o tema, mas não foram informados dos propósitos de uso do material traduzido, para o desenvolvimento da pesquisa anteriormente mencionada. Em seguida, realizou-se a análise de consenso dos dois instrumentos traduzidos, em um encontro único com três outros estudantes de medicina brasileiros para a primeira validação qualitativa, quando opinaram sobre a adequação cultural dos termos linguísticos adotados. Como resultado desse consenso, emergiu a versão 3 (V3).

A segunda etapa, da retrotradução, consistiu na tradução reversa por dois profissionais de saúde (V3-1 e V3-2), com domínio em ambos os idiomas, sendo um brasileiro e uma peruana.

As versões originais (VO), traduzidas (V1 e V2= V3) e retrotraduzidas (V3-1 e V3-2) foram consolidadas em um quadro comparativo, para ser avaliado pelo Comitê de Juízes avaliadores, na terceira etapa. Esse Comitê foi integrado por 10 pessoas para analisar a clareza da linguagem, adequação dos termos ao idioma, ao conceito de gênero e à cultura brasileira. Como resultado dessa intervenção textual do Comitê de Juízes produziu-se, além da versão em espanhol (tradução reversa - V4), a primeira versão em português (V5 e V6) de ambos os instrumentos.

Aplicou-se também a versão da tradução reversa, do português brasileiro para o espanhol cubano, da Guia de Observação em uma Escola de ensino primário na cidade de Havana (Cuba), envolvendo três duplas de observadores, com seis turnos de observação, sendo três no recreio e três em sala de aula, no mês de dezembro de 2016. A sistemática de concordância qualitativa interobservador ocorreu em três momentos diferentes e cada vez que se concluía uma observação, as necessidades de mudanças foram revisadas pelo Comitê de Juízes. O resultado final dessa etapa gerou o QAR em espanhol (V4), o QAR em português (V5) e o Guia de Observação (V6).

Na quarta etapa foi realizado o pré-teste do questionário de auto-resposta (QAR) e do Guia de Observação (Figura 2). O QAR foi respondido por cinco professores de escolas (3) localizadas em três cidades brasileiras - Macaé (RJ), Jataí (GO) e Porto Alegre (RS) - nos meses de fevereiro a março de 2017, totalizando 15 pessoas. Já o Guia de Observação foi aplicado no início do ano escolar, por um total de 12 observadores que atuaram em duplas, com um tempo médio de 30 minutos de observação.

Figura 2 Etapa 4 de tradução e adaptação cultural das versões em espanhol cubano para o português brasileiro do questionário de auto-resposta (QAR) e do Guia de observação. 

A aplicação simultânea e independente do Guia de Observação por duplas de observadores ocorreu em uma escola do ensino fundamental pública da cidade do Rio de Janeiro, totalizando 12 eventos observados na sala de aula e no recreio, em três dias diferentes, nos turnos da manhã e tarde. Após cada turno de observação, os pesquisadores de campo reuniam-se para, item a item, buscar a concordância interobservador e propor mudanças qualitativas no registro estruturado que orientava a observação. Observaram-se crianças em interação, que apresentavam as mesmas características de idade, inserção no ensino fundamental, sexo e condições socioeconômicas, para quem os instrumentos na versão original foram primeiramente aplicados.

Nos intervalos interobservação os quadros comparativos retornavam ao Comité de Juízes (Figura 2), anteriormente mencionados, para os ajustes textuais e linguísticos (V6 a V12), até que na quarta rodada não houve mais necessidades de alterações. Todo esse processo estendeu-se entre os meses de fevereiro e maio de 2017.

Os instrumentos abordam três dimensões (D), a saber: interações alunos e alunas (D1), professores/as e alunos/as (D2), e alunos/as e professores/as (D3). Essas dimensões evidenciaram distribuição e ocupação espacial, preferência por brinquedos, comportamento social, atitudes diferenciadas por sexo, linguagem sexista e relações afetivas, para apreender identidade, papeis, estereótipos e relações de gênero.

Quanto aos aspectos éticos da pesquisa ação-extensionista, o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery/Instituto de Atenção São Francisco de Assis (EEAN/HESFA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos termos da Resolução nº 510 de 7 de abril de 2016, de pesquisa em ciências sociais e saúde, Parecer nº 1.866.131, de 11 de dezembro de 2016.

Como a atuação dos professores foi para pré-teste e os membros do Comitê de Juízes atuaram como experts para emissão de juízos baseados em conhecimentos científicos e não em experiências e manifestações pessoais, nessa etapa não foi aplicado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme previsto no projeto aprovado.

RESULTADOS

Os 10 membros do Comitê de Juízes possuíam as seguintes qualificações: avaliação de instrumentos de aferição (1), experiência em estudos sobre gênero (1), tradutor e revisor técnico do espanhol para o português (2); enfermeiro pediatra (3); professor do ensino fundamental (1); pesquisadora do projeto Gênero compreende o português brasileiro (2). Juntaram-se ao Comitê, mais 12 observadores, que atuaram no trabalho de campo, todos da área de saúde da criança.

A tradução, retrotradução e adaptação cultural dos instrumentos Encuesta de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar e Cuestionario auto-administrado de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar (Anexo 1) foi um processo operacionalizado em etapas sucessivas e comuns nas três primeiras etapas. A partir da quarta etapa, ocorreu a validação qualitativa pelos membros do Comitê de Juizes, da versão traduzida do Cuestionario auto-administrado de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar, que passou a denominar-se Questionário de Auto-Resposta de Professores para Avaliação de Sexismo no Espaço escolar - versão português brasileiro (Anexo 1).

Houve convergências textuais das traduções do guia de observação e do QAR (V1 e V2), pelos dois tradutores, na maioria dos domínios, excetuando-se três palavras em três perguntas. Na retrotradução, também se observa congruência entre os tradutores, pois mantiveram o mesmo padrão de perguntas, exceto o uso de dois termos. Nesse sentido, a primeira versão do instrumento para o português brasileiro (Quadro 1), apresentadas ao Comitê de Juízes, demandou modificações de palavras e expressões (croquis, mapa, pátio de recreação, recreio, precisar, observar) em três perguntas (I.1, I.3, II. 2). Essas modificações basearam-se na opinião de experts, justificadas no fato de que se pode fazer a pergunta sem usar os termos, croquis ou mapa, mudando para 'só desenhe a distribuição. Outro disse, é comum aqui no Brasil, usar a expressão recreio, porque, nesse momento, as crianças podem estar no pátio, no refeitório. Outro ainda propôs os verbos, observar/avaliar, porque na realidade se vai fazer as duas ações, ao invés de precisar e observar proposto pelos tradutores.

Quadro 1 Rodadas de Avaliação Qualitativa no Comitê de Juízes da Encuesta de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar e Cuestionario auto-administrado de constatación y reflexión del sexismo en el ámbito escolar, de Noralidys Washington (2015). Rio de Janeiro, 2017. 

1ª rodada do Comité de Juízes (Após V1-1 e V1-2) 2ª rodada - Após 1º pré-teste Tradução reversa do português brasileiro para o espanhol cubano
A. Relação entre alunos e alunas
1. Desenhar a distribuição de meninas e meninos na sala de aula (...) Desenhar a distribuição de meninas e meninos na sala de aula (...) Dibuja la distribución de niñas y niños en el aula. Puede utilizar A para las niñas y O para los niños.
3. Observação das interações no recreio Observação das interações no recreio Observe las interacciones en el recreo
3-g) Há observado demonstrações afetivas concretas entre:
1. Presente A/O: S N
2. Intensidade: M P (*a, b, c, d, e)
Observam-se demonstrações afetivas concretas entre:
1. (...)
2. Intensidade: (...)
N (*... f, g)
¿Has observado muestras afectivas concretas entre:
1. Presente A/O: S N
2. Intensidad: M P (*a, b, c, d, e, f, g)
3-j) Que tipo de agressões acontecem nas brigas: verbais ou físicas.
A-O, O-O, A-A. Outras observações
Que tipo de agressões acontece nas brigas: verbais2 ou físicas3.
A-O, O-O, A-A. Outras observações. 2Insultos, xingamento, apelido perjorativo ou outro. 3Golpe, empurrão, beliscão, mordidas, chute, soco ou outro.
Qué tipo de agresiones ocurren en las riñas: verbales2 o físicas3.
A-O, O-O, A-A. Otras observaciones. 2Ofensas, insultos, apodos u otra). 3Golpe, empujones, pellizcos, mordidas, patadas, u otras.
B. Atitude dos(as) professores(as) para com os(as) alunos(as)
1. Com relação ao tom de voz que usam ao dirigir-se aos seus alunos e alunasO/A ___ Forte ___ Suave Com relação ao tom de voz4 (...) D/S
4Mudança da entonação da voz para cima [forte] e para baixo [suave]
Con relación al tono de voz4 que usan para dirigirse a los alumnos y alumnas
O/A -Fuerte - Suave
Cambios en la entonación de la voz para encima [fuerte] y para abajo [suave]
2. (observar) se as respostas afetivas respostas afetivas (caricias, palavras amáveis, expressões positivas) são mais abundantes quando são dirigidas:
__ O ___ A __ Am
Avaliar/observar se as respostas (...) Sobre las respuestas afectivas (abrazos, palabras amables, expresiones positivas) de niños y niñas. Son más expresivas cuando se dirigen:

__ O ___ A __ Am
4. Quando se dirigem a seus alunos(as) utilizam o gênero:
___ masculino genérico
___ masculino e feminino
Quando se dirigem ao grupo, utiliza a expressão:
Menino, menina, crianças, Outros (especificar)
Cuándo se dirigen al grupo, utiliza la expresión:
Niño, Niña, Otros (especificar)
5. Existe diferenças nos castigos que se aplicam aos seus alunos(as)? S N N/A Observe se há aplicação de medidas disciplinares aos/as alunos/as? S N
(Caso a resposta seja SIM, responda o item a).
a) Existe diferença nas medidas disciplinares aplicadas a meninos e meninas? S N (Caso a resposta seja SIM, responda: Quais?
¿Observe si hay aplicación de medidas disciplinarias a los/as alumnos/as? S N
En caso a respuesta sea SI, observar las diferencia en las medidas disciplinares aplicadas entre A/O
C. Atitude dos(as) alunos(as) para com os(as) professores(as)
1. São mais comunicativos quando se dirigem ao(a) professor(ra):
__ O ___ A __ Am
Sem modificação Sem modificação
4. O reforço positivo é mais efetivo com: __ O ___ A __ Am. Observaçoes finais Sem modificação Sem modificação
Observações finais: Sem modificação Sem modificação
Legenda
Os textos em itálico foram acréscimos ao instrumento
Presente: S – Si/Sim
N – No/Não
N/O – Não Observado/No Observado
Intensidad/Intensidade:
M – Mucha/Muita(o)
P – Poca/Pouca/o
N – Nenhuma
NA – No se aplica/Não se aplica
Códigos:1 A=abraços, PA=palavras amáveis, EP= expressões positivas, TS=toque suave, TF=toque forte, O=outras. D/S= Depende da situação
(*a, b, c, d, e, f, g)
a. Niños y niñas/Meninos e meninas
b. Niños y niños/Meninos e meninos
c. Niñas y niñas/Meninas e meninas
d. Niños y profesor(a) Meninos e professor(a)
e. Niñas y profesor(a)/ Meninas e professor(a)
f. Meninos e outras pessoas da escola (Inspetor, coordenador, diretor y outras)/(Niños y otras persona de la escuela (Director, subdirector y otras)
g. Meninas e outras pessoas da escola (Inspetor, coordenador, diretor y outras)/(Niña y otras persona de la escuela (Director, subdirector y otras)

As outras propostas de mudanças em quatro perguntas incluíram clarificar alguns termos para melhorar a compreensão textual adequando-as à cultura brasileira. As escolas no Brasil têm outras figuras que interagem com as crianças, como o/a inspetor/a, coordenador/a, diretor/a. Portanto, a questão I.3-g incorporou itens que abordam as relações de meninos e meninas com outras pessoas nas escolas.

A dinâmica de funcionamento das escolas no Brasil também levou a modificação da pergunta I.3-j, daí os experts sugeriram termos mais específicos para designar manifestações agressivas, tanto fisicas como verbais. Disse um deles: se houver necessidade de especificar os tipos de agressões, esses termos verbais ou física são muito inespecíficos. Houve concordância para agregar uma nota explicativa com os seguintes termos: Insultos, xingamento, apelido pejorativo ou outra - para agressão verbal; e Golpe, empurrão, beliscão, mordidas, chute, soco ou outra - para agressão física.

No item II.1, os experts incluíram nota explicativa para designar o tom de voz, pois não é compreensível o que significa o tom de voz. Acresceu-se a frase Mudança da entonação da voz para cima [forte] e para baixo [suave].

Na pergunta do item II.5, substituiu-se a palavra castigo pela expressão medidas disciplinares. Segundo os experts a palavra castigo tem um sentido punitivo, com um significado socialmente construído de associação a violência dos professores contra alunos, podendo impedir uma resposta que atenda o critério de validade científica.

Somente um pré-teste do Questionário de Auto-Resposta dos professores foi suficiente para atingir a versão final e nenhuma alteração foi proposta pelo Comitê de Juízes.

Quanto a Guia de Observação, houve consenso entre os juízes que as alterações foram substanciais em seu conteúdo semântico e que uma nova tradução reversa deveria ser realizada, com aplicação no país de origem e aprovação dos autores da versão original do instrumento.

As mudanças, após aplicação em uma escola cubana e consensualmente analisada pelos autores e observadores, concluindo que los instrumentos se ajustan a los objetivos de la investigación. Si considero que fue factible aplicarlo por separado al receso en las clases Ahora con más especificidad mejora la observación.

A tradução dessa versão do espanhol cubano da Guia de Observação para o português brasileiro foi aplicada novamente em uma escola brasileira, obtendo-se os seguintes aperfeiçoamentos redacionais em mais três rodadas de avaliação dos expert. Para alguns itens agregaram-se as expressões não observado, demonstrações afetivas. O item II.5 foi restruturado para incluir outros tipos de medidas disciplinares como advertência, chama atenção e castigo.

Na última rodada do Comitê de Juízes, propôs-se mudanças na pergunta III.1, para incluir a palavra ambos e a expressão não observado, no item que trata da demanda de atenção e interação comunicacional entre aluno/a - professor/a. Na pergunta III.4, sobre a reação ao reforço positivo de professor/a, para a resposta e sim, além de ambos e não observado, incluiu-se nota explicativa com os seguintes termos: obrigada(o), muito obrigada(o), legal, que legal, bacana, expressões não verbais como sorrisos ou outras. Para a resposta negativa, termos como não concordo, que chato, expressões não verbais como caretas ou outras, conferiram mais especificidade qualitativa à resposta.

A observação de meninos e meninas interagindo entre pares e com o professor na aula de educação física gerou a necessidade de incluir respostas positivas e negativas quando observado aspectos relativos a reforço positivo. Disseram os observadores no Comitê de Juízes: Eu pude observar respostas variadas, tanto positivas, como negativas. Sim também há respostas verbais e não verbais.

Por último, se incorporou nas observações finais a possibilidade de registrar Impressões sobre o ambiente e a decoração do espaço. Sendo assim, justificado por um dos juízes: o ambiente permite visualizar imagens que podem transmitir estereótipos de gênero.

Houve modificação de nove questões da versão original do Guia de Observação em quatro rodadas de avaliação qualitativa pelo Comitê de Juízes até se obter a versão final do guia culturalmente traduzido e adaptado ao português brasileiro. Além disso, na versão brasileira, os dois instrumentos da versão original (QAR e Guia de Observação) converteram-se em três instrumentos: o questionário de auto-resposta de professores/as, e duas guias de observação, uma para sala de aula e outra para recreio. O instrumento completo encontra-se em Anexo (1 e 2) ao presente artigo.

DISCUSSÃO

A tradução, retrotradução e adaptação cultural de instrumentos produzidos em outro idioma e outros contextos culturais foram processos complexos que exigiram quatro rodadas de avaliação no Comitê de Juízes e aplicação de três pré-testes; além de leitura pelo autor do instrumento para que as modificações fossem mais adaptativas que estruturais. Particularmente, instrumentos que buscam apreender as dimensões identidade, relações, papéis e estereótipos de gênero, exigem validade qualitativa e adequação cultural.

É frequente encontrar, na literatura científica brasileira, estudos que utilizam esses procedimentos para obter instrumentos de pesquisa confiáveis para aplicar em escolas, com crianças, nos campos da saúde, da enfermagem e da educação. Em sua maioria, eles utilizam abordagens quantitativas com aplicação de testes estatísticos para alcançar uma versão final.11-16 A particularidade do processo desenvolvido nesse artigo, foi a validade científica dos instrumentos baseando-se em rodadas de avaliação qualitativa, pois os observadores integraram o Comitê de Juízes e puderam trazer do ambiente natural do pré-teste suas impressões e experiências com o momento da observação.

No questionário de auto-resposta para professores, uma única aplicação foi suficiente para validá-lo qualitativamente, com pequenos ajustes semânticos e não de conteúdo. No entanto, a aplicação do Guia de Observação, em dois instrumentos separados, representou uma mudança substancial no formato do instrumento, com pequenos ajustes de conteúdo retrotraduzido para o espanhol cubano e aprovado pelas autoras do instrumento.

Todo este processo assegurou consistência qualitativa aos instrumentos e respondeu ao fundamento metodológico de uma nova versão pré-teste. Após sucessivas correções, as alterações sugeridas com o pré-teste, obteve-se a versão final do instrumento.14 Destaca-se que avaliações qualitativas por experts, acompanhadas por um movimento de aproximação-distanciamento do campo de aplicação do pré-teste e a participação dos observadores no Comitê de Juízes, é fundamental para a produção de instrumentos cientificamente válidos, até que não sejam mais necessárias quaisquer mudanças.

A aceitação das modificações nos instrumentos foi discutida e aprovada pelo Comité de Juízes, em todas as rodadas, com base nos conhecimentos e experiências dos experts, as caraterísticas culturais das escolas brasileiras e a concordância das interobservações.

A expressão, castigo, foi substituída por medidas disciplinares, pois no Brasil esse termo está implicado com o uso de castigos corporais15 e em pesquisas que declaram o castigo como ação punitiva e vinculada à violência.15,16

Outro exemplo foi com a pergunta III.1 que aborda o tema comunicação, resultando em dois itens, um sobre as demandas de atenção e outro sobre a interação. Os experts resgataram a dimensão relacional da comunicação que marca as pautas da interação e tipo de vínculo que se estabelece entre pares.17

Os resultados das etapas, tradução e retrotradução, mostram congruência entre as versões produzidas. No entanto, nas versões após revisões nas rodadas, pelo Comitê, observam-se transformações que são pertinentes à adaptação cultural.

CONCLUSÕES IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

A pesquisa de natureza metodológica permitiu obter três instrumentos culturalmente adaptados para diagnóstico de construção de gênero na infância em escolas de ensino fundamental no Brasil e primária em países de língua espanhola. A profundidade dos itens modificados permitiu obter resultados que podem ser utilizados no contexto brasileiro, mas também podem ser analisados para introduzir mudanças na versão original de língua espanhola para sua aplicação futura.

O estudo em tela pode ser uma possibilidade de validação metodológica de instrumentos elaborados em outros idiomas e culturas, no cruzamento dos conhecimentos de experts com as aproximações e distanciamentos dos interobservadores no campo de observação. É possível utilizar instrumentos adaptados culturalmente e validados, utilizando-se de abordagens qualitativas, como aconteceu com o Guia de Observação. As mudanças melhoraram a profundidade, consistência das observações por diferentes observadores e introduziram mais especificidades às versões para aplicação em futuras pesquisas de enfermagem e educação.

As versões finais de ambos os instrumentos podem facilitar sua aplicação em pesquisas sobre gênero na infância para diagnósticos de situações interacionais e contribuir para o desenvolvimento de ações de promoção da saúde no contexto da escola. Além disso, eles poderão ser utilizados com essas variantes em outros países na perspectiva de estudos multicêntricos.

Os limites do estudo metodológico referem-se à validade quantitativa, considerando a natureza do tema gênero em sua complexidade para quantificá-lo.

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