Transdisciplinaridade dá um Barato

Transdisciplinaridade dá um Barato

Autores:

José da Rocha Carvalheiro

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.2 no.1-2 Rio de Janeiro 1997

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812319972101892014

Embora reconhecendo seu fascínio, tive sempre dificuldade em acompanhar os meandros das abstrações herméticas. Também, sempre tive um olhar de profundo desdém para as generalizações vulgares e as incursões profanas por terrenos especializados. Um advogado nisei, num dos governos militares, foi ministro da Agricultura. Nada de mais, se não invadisse o terreno técnico dos indicadores econômicos, imputando o chuchu como causa da inflação. A imprensa diária, da mesma forma, comete delitos com tal freqüência e gravidade que a tornam quase inimputável. Associar a queda ou, mais raramente, a subida dos índices da Bolsa de Valores a fatos políticos pontuais é apenas um exemplo. Brandir o erro amostral como prova do caráter científico de seus levantamentos de opinião, um outro.

Não deve ser ocasional a popularidade de que goza, nas Escolas de Jornalismo, o debate sobre a crise dos paradigmas. São estes profissionais os que mais de aproximam do "ideal" de livre trânsito por um amplo conjunto de disciplinas científicas, sem fronteiras. A superficialidade com que o fazem conduz a resultados equivocados, responsáveis maiores pela inundação das Colunas dos Leitores por queixumes dos prejudicados, dos injuriados ou, simplesmente, dos afrontados pela impertinência.

Os jornalistas não estão escoteiros. Seguem-nos, de perto, profissionais de outras categorias, fonte freqüente de notícias. Basta ler as barbaridades que se falam sobre saúde, doença, organização dos serviços e políticas de saúde, para ficarmos apenas em nosso terreno. Generalizações vulgares são o que mais se vê. A falta de perspicácia na avaliação da complexa relação entre a clínica e a epidemiologia, sobre a qual Naomar de Almeida Filho tem sido um dos mais lúcidos investigadores, tem conduzido a verdadeiras aberrações apresentadas com credenciais de conhecimento científico. A recente proposta de banalizar a Investigação em Serviços de Saúde, sobre o qual escrevemos anteriormente (Carvalheiro, 1994), é uma iniciativa simultaneamente instigante e preocupante. Uma de nossas citações, nesse trabalho, é especialmente relevante, ao assinalar o descompasso entre o tempo das investigações e o das tomadas de decisão (Omram, 1990). O conhecimento para a decisão é acumulado e consolidado através de redes complexas, incorpora contribuições de origens variadas (Callon, 1989).

Foram estas idéias que me vieram à mente pela leitura do artigo de Naomar de Almeida Filho (1997), posto em debate. Pensei menos nas abstrações, na fruição intelectual, no conhecimento potencial, e mais na sua atualização ou operacionalização. Pensei nas idéias de Boaventura Souza Santos e em sua dupla ruptura epistemológica (Santos, 1989). Senti-me credenciado a contribuir neste debate, sobretudo pela afirmação vestibular de Naomar que se propõe a "definir mais precisamente o conceito de transdisciplinaridade, em uma perspectiva pragmática, explorando suas possibilidades de aplicação no campo da Saúde Coletiva". Não creio que tenha feito outra coisa em minha carreira a não ser transitar por diversas disciplinas científicas, sempre com perspectiva pragmática. Creio, mesmo, que caibo na categoria de operador transdisciplinar, contribuindo modestamente para "uma síntese transdisciplinar construída na prática transitiva dos agentes científicos...".

Cabe, aqui, uma contribuição, derivada de uma história de vida particular, ao esboço dos "anfíbios", proposto por Naomar. Parasitologista de laboratório e de campo, na origem, transitei pela estatística matemática e seu desenvolvimento axiomático, antes de desembocar na clareira da Epidemiologia (diria Social, se não soubesse das idéias de Naomar a respeito). Mantive, em meu arcabouço de pensamento, a fidelidade às origens. O "perfil epistemológico" (no sentido da Filosofia do Não, de Bachelard, 1973) dos conceitos com que trabalho está impregnado pela minha trajetória pessoal. Porém, há anfíbios contemporâneos e fósseis. Acredito que, no momento de transição da água para o solo, fui de fato anfíbio. Hoje, não mais. Pelo menos no mesmo sentido anterior. Não sei quase nada do desenvolvimento recente da Parasitologia de laboratório e sua biologia molecular. Conservo-me atento aos desdobramentos das idéias da Estatística, porém cada vez mais como mero usuário. Esta dinâmica deve ser incluída na idéia dos operadores transdisciplinares, seu devir acompanha o dos objetos construídos.

Não tivesse eu próprio me incluído como exemplar dessa nova espécie, não resistiria à tentação de mudar a metáfora de Naomar. Talvez uma "metamorfose kafkiana" pudesse transformar o anfíbio num inseto, transitando entre múltiplos objetos de desejo. Sorvendo fluidos, deixando ovos. Mas, também, dejetos. Veiculando germes de um sítio a outro de maneira mecânica, propagativa ou ciclopropagativa (não perdi meu vezo de parasitologista). Talvez o caráter ciclopropagativo, do pensamento transformado a partir de sua origem até chegar a novo sítio, esteja na raiz do "longo processo de socialização no estilo de pensamento de sua comunidade" (a comunidade dos cientistas, segundo Fleck, apud Löwy, 1994). Estas idéias deveriam ser mais bem exploradas, especialmente quanto à apropriação de um fato científico por pensadores diferentes dos que o produziram. A tradução imperfeita não é necessariamente prejudicial, modifica os estilos de pensamento de ambos os grupos (Löwy, 1994). Ao contrário do que se poderia pensar, uma "imperfeição" no uso de conceitos não é obrigatoriamente inútil. Ao contrário, pode residir exatamente aí seu maior potencial, sua fecundidade.

Goldberg (1990), num texto de larga circulação entre nós, ao cuidar, no plano epistemológico, do que chama epidemiologia sócio-econômica, apresenta idéias que se aproximam do modelo de interdisciplinaridade auxiliar do artigo de Naomar. As relações desiguais de poder, nos diversos centros de produção do conhecimento, configuram hegemonias disciplinares transformando em auxiliares, ou subordinadas, as disciplinas migrantes. No campo da saúde, a sociologia esforça-se por ampliar seu espaço e sua importância. Seria um exercício fascinante descrever as mesmas relações em outro contexto: um epidemiologista, ou um clínico, trabalhando num departamento de Sociologia, por exemplo. Tenho uma experiência pessoal: ao aceitar-me, um médico, em seus quadros, o Instituto de Estudos Avançados (IEA/USP), através de decisão de seu Conselho, não vacilou: incluiu-me no grupo de Biologia Molecular! Ao apresentar seus "contra-postulados", Naomar incorpora o pensamento de Testa (1992) quanto à "natureza e às determinações do poder político" e sua distinção do poder técnico, mesmo na "arena científica".

Uma derradeira observação, para manter a coerência de que apenas uma perspectiva pragmática me deu alento nesta empresa de comentar o magnífico artigo de Naomar.

Em outra oportunidade, já mencionada acima (Carvalheiro, 1994), analisei a Investigação em Serviços de Saúde, realizada nos próprios serviços e pelo pessoal dos serviços. Concluía propondo abordar a questão numa perspectiva que incorporasse três aspectos essenciais: a moderna Teoria das Redes, na gênese e circulação dos fatos científicos (Callon, 1989); as Matrizes de Dados e o nível de ancoragem (Samaja, 1995); o Postulado de Coerência e a questão do Poder (Testa, 1992). Posteriormente, por comentários críticos de diversos companheiros, especialmente Everardo Duarte Nunes, fui instigado a agregar a idéia da dupla ruptura epistemológica de Santos (1989). Do reencontro da ciência com o senso comum, ou "a ruptura com a ruptura epistemológica". Ultrapassando assim, o "paradigma que pressupõe o conhecimento científico como único conhecimento válido". Transformei o terno numa quadra. A leitura deste artigo de Naomar conduz a uma quina: a maneira como é concebida a transdisciplinaridade, "um processo práxico... de pesquisadores em trânsito", é (ou dá?) um barato, numa das mais singulares acepções do léxico: aquilo que proporciona prazer.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA FILHO, N. (1997) - Transdisciplinaridade e Saúde Coletiva (neste volume).
BACHELARD, G. (1973) - La Filosofia del No. Buenos Aires: Amorrortu Editores.
CALLON, M. (1989) - La Science et ses Réseaux; Genèse et Circulation des Faits Scientifiques. Paris: Ed. La Dècouverte.
CARVALHEIRO, J.R. (1994) - Investigação em Serviços de Saúde: Qual é o seu Problema? Saúde e Sociedade 3(2):64-111.
GOLDBERG, M. (1990) - Este Obscuro Objeto da Epidemiologia. In: Costa, D.C. (Org.) - Epidemiologia; Teoria e Objeto. São Paulo: Hucitec/Abrasco.
LÖWY, I. (1994) - Fleck e a Historiografia Recente da Pesquisa Biomédica. In: Portocarrero, V. (Org.) - Filosofia, História e Sociologia das Ciências; Abordagens Contemporâneas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.
SANTOS, B.S. (1989) - Introdução a uma Ciência Pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal.
TESTA, M. (1992) - Pensar em Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas.
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