Transdisciplinaridade em Saúde Coletiva: Tópicos Filosóficos Complementares

Transdisciplinaridade em Saúde Coletiva: Tópicos Filosóficos Complementares

Autores:

Vera Portocarrero

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.2 no.1-2 Rio de Janeiro 1997

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812319972102052014

I. Problemas de Transdisciplinaridade

Sem dúvida, quando se trata de estabelecer relações entre disciplinas, a partir da exigência de uma reunião, de uma síntese, justamente aí, onde há esquizofrenia, esfacelamento, o espaço "entre", aquele das interferências, está ainda relativamente pouco explorado. Podemos observar que, em certos meios mais intelectualizados, está na moda a palavra "interface", que supõe a possibilidade da junção entre dois ou mais conceitos, ou entre duas ou mais ciências, ou entre ciências e práticas - pelo menos teoricamente. Modismos a parte, convenhamos, estes espaços "entre" são muito mais complicados do que imaginamos. É o que Almeida Filho se apressa em analisar, e com toda a pertinência, uma vez que aquilo a que se propõe pensar - saúde-doença-cuidado - é complexo.

A partir de uma breve história, conceitualmente bem cuidada, Almeida Filho afirma estarmos diante de um novo objeto, que corresponde a um apagamento de fronteiras, à desinsularização das disciplinas. Tal objeto é não-linear, múltiplo, plural, emergente, enfim multifacetado, e exige um tratamento sintético e totalizante, onde cada campo disciplinar dispõe de um ponto de observação privilegiado em relação a cada faceta.

Segundo ele, em Saúde Coletiva, a comunicação se estabelece não entre campos científicos, mas entre agentes, através da circulação não de discursos, mas dos sujeitos dos discursos. Estes agentes devem ser capazes de fazer deslocamentos de um campo para outro, com o objetivo de produzir um discurso coordenado eficiente, até certo ponto válido como objeto-modelo-sintético, resultante de operações de produção de conhecimentos de diversas naturezas. Tais sínteses serão, necessariamente, totalizações provisórias, construídas paradigmaticamente na prática cotidiana e concreta dos agentes, através de operadores mutantes de formação "anfíbia", para responder a novas demandas provenientes do atual estado de dispersão, proliferação e parcelamento de conhecimentos. Daí a indicação de um método enciclopédico no processo de produção científica que será social, político, institucional, matricial, amplificado.

Transdisciplinaridade e Saúde Coletivaremete-nos, indubitavelmente, a questões caras à filosofia: métodos, objetos e suas muitas implicações presentes na história da filosofia. Contudo, Almeida Filho escapa das visões tradicionais de ciência, instauradas a partir da modernidade, tais como as fundadas na noção de adequatio rei et intellectus, e outras mais, driblando as infindáveis elocubrações a respeito da objetividade e da verdade em ciências.

A rejeição de binômios que separam local/global, poder/saber, ciência/tecnologia, sujeito/objeto, normalmente subsumidos quando analisamos os processos de produção científica, contextualiza seu trabalho diante das respostas, implementadas na década de 70 e complexificadas nos anos 90, contrárias à fragmentação do saber. Trata-se de uma abordagem profunda, que sintetiza novas dificuldades da Saúde Coletiva, que como tal têm de ser enfrentadas.

Limito-me, aqui, a apresentar alguns tópicos de natureza filosófica que talvez possam contribuir nessa empreitada, supostamente voltada para a tarefa de recompor simetricamente o mundo e a vida, através de uma nova mistura; apenas aponto certos aspectos constitutivos da temática em debate.

II. Tópicos Complementares

Cabe, antes de mais nada perguntar, como Serres em Éclaircissements: Como aconteceu de as ciências humanas ou sociais não falarem jamais sobre o mundo, como se os grupos permanecessem suspensos no vazio? Como as ciências ditas duras deixam os homens de lado? E ainda. Como nossos saberes se perpetuam hemiplégicos? Fazê-los aprender a caminhar com os dois pés, a utilizar as duas mãos, me parece ser um dos deveres da Filosofia. Trata-se do elogio dos mestiços e das misturas, que causam horror aos filósofos da pureza.

A idéia de que, em história das ciências, nenhuma explicação escapa à análise das relações de forças, leva-nos a repensar sua crítica à visão de ciência como mito fundado numa cisão que precisa ser ultrapassada: relações de razão X relações de forças, isto é, ciência X sociedade. Ao propor um método que tenta recompor as forças, sem reduzi-las nem hierarquizá-las, trava-se uma luta contra a Razão, por vezes considerada a maior fonte de patologia e de mortalidade do século XX.

Ao fazê-lo, Latour apresenta o modelo político da batalha, inspirado em Tolstoi, que inclui uma multidão de aliados, estudando os ângulos dos deslocamentos tanto das grandes multidões envolvidas, quanto dos personagens particulares que dão ordens às massas. Ordens que são mal compreendidas, mal transmitidas, traídas, ocasionando movimentos de regimentos, e, em troca, fazendo com que se obtenham informações diferentes das originais. Para Latour, deste ponto de vista, a ciência deve ser estudada como uma multidão de aliados heterogêneos que compõem a forma dos objetos ditos científicos. Convém ressaltar que, nesta multidão, incluem-se tropas humanas e não humanas, sábias e não sábias.

Sua análise baseia-se na denúncia do caráter arbitrário da Razão dicotômica que institui tal cisão, a ela opondo o princípio da multiplicidade de forças, segundo o qual é necessário criar um princípio de projeção que permita seguir os múltiplos e imprevisíveis contornos do mundo. Para tanto, o projeto de uma genealogia nietzscheana parece ganhar cada vez mais sentido: recuar, através da Filosofia, ao momento de origem em que se separaram saber e poder. Neste sentido, as noções de estado de natureza e de estado de sociedade são duas conseqüências simétricas da ação dos pesquisadores para alinhar humanos e não humanos. Assim sendo, resta perseguir, com o ponto de vista das irreduções, os atores, os deslocamentos por eles operados, as cadeias de traduções, as alianças, enfim, as forças.

A ênfase dada ao papel dos atores/agentes na proposta de definição da transdisciplinaridade em detrimento de suas bases na circulação dos discursos, - é claro que nenhuma idéia se desloca sozinha! - parece ser fruto de um receio sociologizante das atuais estratégias de oposição que, apesar da proposta de um recurso ao enciclopedismo, são empregadas para estudar o discurso científico, afirmando-se como crítica construtivista, e que terminam por explicar a natureza (derivada tanto das teorias, como dos fatos empíricos), através de uma análise de interesses e forças como determinantes de sua construção.

Nesta perspectiva, podemos compreender as afirmações de Bruno Latour, em 1992, quando proclama que para determinar se um enunciado - que define o grau de eficácia e perfeição de um mecanismo - é objetivo ou subjetivo, não adianta buscar respostas em suas qualidades intrínsecas, mas reconstituir historicamente o conjunto das transformações que sofre mais tarde nas mãos dos outros. Dito de outro modo, é a natureza da força coercitiva dos enunciados que convence a validade de sua própria posição. Se considerarmos esta abordagem, o que está em jogo é o familiar problema da legitimação científica - seus métodos, seu objeto.

Entretanto, segundo Foucault, ao dirigir-se ao domínio do saber, não podemos nos restringir à descrição de disciplinas ou ciências, mas à descrição de positividades, o que abrange os documentos literários, filosóficos ou políticos, bem como as práticas (discursivas e não discursivas). Analisar as positividades é apontar as regras segundo as quais uma prática discursiva pode formar grupos de objetos, conjuntos de enunciações, jogos de conceitos, séries de escolhas teóricas.

O objetivo de Foucault é estabelecer relações entre os saberes, todos considerados como possuindo uma positividade específica - a positividade do que foi efetivamente dito e deve ser aceito como tal - para que destas relações surjam, em uma mesma época ou em épocas diferentes, compatibilidades e incompatibilidades que permitam individualizar formações discursivas e traçar as diversas configurações dos campos de saber. A articulação entre os saberes é possível devido à relação de imanência entre os discursos e certos princípios de organização dos saberes que podem ser situados como elementos de um dispositivo essencialmente político.

Para Latour, a questão dos enunciados formulada por Foucault mostra o impasse do neo-Kantismo: como assegurar, passo a passo, que as mesmas estruturas se encontram em toda parte, que as mesmas categorias formam todos os conhecimentos produzidos num dado momento? Em lugar da análise de categorias que se impõem para todos, Foucault propõe o estudo da distribuição dos enunciados possíveis, que são perfeitamente localizáveis e observáveis. É o regime do discurso e não o discurso em si mesmo que possui uma estrutura e uma organização que tornam possíveis certos enunciados, certos encadeamentos e interditam outros, através de uma economia dos enunciados - em sua rarefação e proliferação organizadas - fazendo com que certas coisas possam ser ditas e outras não, certas deduções sejam admitidas e outras proibidas. Este regime se estabiliza em vastas configurações que fazem seu tempo e fabricam sua história.

Na prática, evidenciar estes regimes não é fácil. Porém, afirma Latour, falta explicar o que produz estes enunciados e a maneira pela qual são produzidos. Para ele, ao tomar esta questão, Foucault rompe com todas as respostas antes imaginadas: o enunciado -esta é a grande lição de Vigiar e Punir - éindissociável de todas as técnicas, de todos os dispositivos, materiais e institucionais, pelos quais os atores humanos se entredefinem.

A lição é geral: um enunciado se produz ao mesmo tempo que o objeto que o qualifica, e sua produção é instrumentalizada em toda uma série de operações que fazem falar o objeto de conhecimento e o obrigam a reconhecer que ele é realmente aquilo que o enunciado diz que ele é.

Estamos, portanto, diante de várias séries entrecruzadas de elementos que constituem uma rede de práticas e conhecimentos, que devem ser lembrados ao pensarmos a interdisciplinaridade em Saúde Coletiva. Séries de relações lógicas e metodológicas, séries de relações de sujeitos e objetos. Atualmente já não se fala mais "objeto" simplesmente; o objeto é recente e ainda carece de adjetivos: objeto fronteiriço, objeto híbrido, objeto-mundo, quase-objeto, objeto complexo. A essa atividade de adjetivação dos conteúdos das ciências da saúde corresponde uma reflexão sobre as formas de abordá-los. Tantos adjetivos dizem respeito ao esforço de lidar com um real esfacelado que se quer unidade, totalidade, com a garantia das especificidades que os constituem como objetos de pesquisa, que precisam receber um novo tratamento.

A pesquisa biomédica freqüentemente combina uma forte auto-imagem da ciência fundamental com uma ligação com a prática médica igualmente forte. Ela é legitimada pela sua contribuição para a compreensão fundamental dos fenômenos da vida e para a solução de problemas práticos de detecção, cura e prevenção de doenças. Os estudiosos das práticas de laboratórios biomédicos esbarram em tais articulações, e, cada vez mais, as incluem em suas investigações. Terminam por deparar-se com a questão da gênese e desenvolvimento dos "fatos científicos". Um fato científico pode ser concebido como uma regra desenvolvida por um pensamento coletivo, isto é, por um grupo de pessoas ligadas por um estilo de pensamento comum, que formula não só o conhecimento que é considerado como garantido por um pensamento coletivo dado, mas também seu corpo de práticas: métodos e ferramentas usados no exame da evidência e critérios para julgar seus resultados.

A "tradução" da medicina para a pesquisa biomédica nem sempre apresenta unidade. A "biologia dura" depende das articulações bem sucedidas com as demandas médicas, os interesses criadores dos políticos e dos capitalistas especuladores e dos industriais. Em suma, os pesquisadores e práticos biomédicos trabalham na interseção do "bio" mundo das ciências com o mundo médico composto por médicos, industriais, administradores da saúde e pacientes. As demandas da área médica e da indústria muitas vezes interagem com a pesquisa biomédica, e as traduções multidirecionais podem moldar tanto a pesquisa quanto as práticas médicas e industriais.

Um exemplo de liana Löwy: os oncogenes (genes celulares considerados implicados na transformação maligna da célula) foram descritos primeiramente pelos oncologistas e foram vinculados à transformação das células pelos vírus oncogênicos; depois, foram feitos estudos dos "oncogenes celulares" - esta transição foi moldada por circunstâncias materiais, como a difusão da engenharia genética, além de outros acontecimentos como o fracasso do Programa Vírus-Câncer do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, e a crescente importância das conexões entre os laboratórios biomédicos e as empresas de biotecnologia.

A estabilização dos oncogenes como fenômenos biológicos, e sua difusão nos diversos mundos sociais (biólogos moleculares, biólogos celulares, pesquisadores do câncer, oncologistas clínicos), estava vinculada à generalização de métodos padronizados de pesquisa em biologia molecular e de reagentes padronizados (investigações sobre o DNA, anticorpos monoclonais).

Os grupos profissionais, que se esforçam para manter sua autonomia e seu prestígio, precisam ter o controle do acesso ao conhecimento padronizado e transmissível que lhes permite competir com a incerteza, mas, ao mesmo tempo, precisam assegurar-se de que seus métodos e habilidades não sejam reduzidos a rotinas das quais qualquer pessoa possa se apoderar. Tentam encontrar um ponto intermediário que lhes permita codificar os padrões de comportamento profissional, deixando-lhes espaço suficiente para o conhecimento especializado.

O termo "objeto fronteiriço" foi usado pelos sociólogos da ciência para descrever entidades que apresentam estruturas frágeis no uso comum, e são fortemente estruturadas no uso local individual. Estes "objetos fronteiriços" facilitam interações heterogêneas entre "mundos sociais" distintos. Um "objeto fronteiriço" é constituído de um núcleo rígido - uma zona de acordo entre os grupos profissionais que interagem - e a partir de uma "periferia difusa", indistinta, que é diferente para cada grupo. A transposição e assimilação de elementos de um estilo de pensamento diferente (geralmente mais prestigiado) por um grupo diverso podem acarretar benefícios concretos para o grupo que assimila estes elementos de estilo.

Os "objetos fronteiriços" e as transposições e assimilações podem ser tomados como artifícios que possibilitam o desenvolvimento da interação entre mundos heterogêneos, permitindo a coordenação local das práticas e dos atores distintos, que continuam ligados aos seus diferentes estilos de pensamento, coletivos, gerais.

Fala-se que há coisas que são do domínio do coletivo e do domínio da natureza. A noção de "objetos híbridos" não faz esta disjuntiva. Tomarei um exemplo de Serres: um carro percorre um espaço (domínio da natureza), e concorre para a vaidade de seu proprietário (cultura); juntos, estes dois veículos, que são um só, nos permitem, no fim-de-semana ou nas férias melhorar nossa sede interminável de sacrifícios humanos, que oferecemos, nas datas exatas e oficiais, solenes das festas, a deuses que acreditamos ter esquecido: máquina - objeto técnico, que acentua nosso domínio - que regula algumas relações de grupos ou de psicologia viscosa, mas desce nas profundezas de uma antropologia formidável.

Através deste exemplo, vemos como passamos, sem ruptura, da ciência (a termodinâmica e a resistência dos materiais) à técnica, e desta à sociologia, depois à história das religiões... Para Serres, as ciências são formações culturais entre outras, e o utensílio é ao mesmo tempo um objeto-mundo e um objeto-sociedade. Cada técnica transforma nossa relação com as coisas e, ao mesmo tempo, as relações entre nós, pois assegura a publicidade das nações que a lançam.

Contudo, os cientistas ignoram a cultura, e prendem-se à ordem das disciplinas estruturadas em termos de conteúdos e de instituições, de jogos organizados de ensino, de laboratórios e patrões, revistas e editores...

Fala-se que há "quase-objetos": com este enfoque é preciso recompor as forças. O destino dos fatos e das máquinas está nas mãos de longas cadeias de atores que os transformam. Enfocados a partir do princípio de simetria (da irredução de uma força à outra), torna-se necessário identificar os vários estados de força: resistência, dominação, enfraquecimento, desdobramento, reforço etc. O que importa é observar as indecisões dos diferentes atores (por exemplo: Pasteur, os micróbios, os doentes, os medicamentos, as provas "irrefutáveis", os médicos da Academia de Medicina, os reagentes, instrumentos e métodos no laboratório etc.), na composição exata das tecnociências; dada a simetria, o que resta é aquilo que se conserva através das transformações, afinal nunca nos defrontamos com uma ciência, mas com uma gama de associações mais ou menos fortes ou fracas de humanos e não-humanos.

Na simetria entre humanos e não-humanos, natureza e sociedade, ciência e tecnologia há séries constantes de competências e de propriedades. A ilusão moderna de que a distância entre natureza e sociedade e subjetividade e objetividade aumentaria progressivamente está em descrédito. Objetividade e subjetividade sequer se opõem, pois surgiram juntas. Os artefatos não são mais coisas, são atores que intermediam nossas ações. O desafio é inventar instituições políticas que possam absorver a idéia de que todos estes objetos não são coisas apenas, são também agentes culturais. Deste modo, não podem ser concebidos como entidades fixas, mas como fluxos.

III. Misturar para Recompor o Mundo

O problema é como lidar com todos estes objetos e criar um método para fazê-lo concretamente. A idéia de um saber enciclopédico no final do século XX parece bastante interessante, pois pertence à ordem da sabedoria, onde não se perde a perspectiva da totalidade ativa do saber do mundo e da vida; ao tentar tudo incluir (ciências, mito, literatura), permite-nos pensar as circunstâncias da história: a morte, o amor, os outros, a violência, a dor, o mal.

O grande obstáculo, justamente, reside nas divisões impostas nas instituições de ensino e pesquisa que cristalizaram o conhecimento em dicotomias e subdivisões das dicotomias, até as especialidades díspares e incomensuráveis entre si, incomunicáveis. De fato, resta-nos, agora, reunir, recompor o mundo, misturar. Como fazê-lo? Eis aí o desafio.

Transportes, transferências, traduções serão necessários. Todas as dificuldades, todos os obstáculos, todas as condições destes transportes de método, de práticas, de objetos, incluindo os micróbios, os artefatos, os "quase-objetos", os "objetos fronteriços", os atores que permitem as passagens, mediando a comunicação alcançada, ou, ao contrário, as interceptações que a tornam difícil ou impossível.

A nova enciclopédia assume o papel paradoxal de acumulação máxima de todos os saberes e de todas as experiências, onde, evidentemente, as mediações se multiplicam e, ao mesmo tempo se anulam. Para chegarmos à convivência destes dois pólos - acumulação máxima e supressão total - certamente uma única resposta a todas as questões parece pouco provável.

Os bons métodos são extraídos do problema a ser resolvido; as melhores soluções são locais, singulares, específicas, adaptadas, originais, regionais, como já afirmava Foucault. Daí este trabalho que não é econômico: a cada problema, recomeçar do zero. A melhor síntese só aparece num campo de diferenças máximas, num campo misturado. Do contrário, a síntese se resume à repetição. Uma metalinguagem, neste caso, seria a repetição de uma mesma chave para abrir todas as portas, diria Michel Serres. Cada vez que se procura abrir uma fechadura diferente, é necessário forjar a chave específica, portanto, é claro, sem equivalente no mercado dos métodos.

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