Transportabilidade mucociliar nasal de homens e mulheres tabagistas

Transportabilidade mucociliar nasal de homens e mulheres tabagistas

Autores:

Juliana Souza Uzeloto,
Dionei Ramos,
Ana Paula C.F. Freire,
Diego G.D. Christofaro,
Ercy Mara C. Ramos

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694versão On-line ISSN 1808-8686

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.84 no.3 São Paulo maio/jun. 2018

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2017.03.006

Introdução

Mulheres fumantes apresentam maior susceptibilidade a várias doenças quando comparadas com o sexo oposto, são mais propensas a desenvolver câncer, doença isquêmica cardíaca e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). As mulheres são mais propensas a desenvolver DPOC mais rapidamente, com menor exposição ao fumo, e com maior gravidade, sendo assim, apresentamum aumento da taxa de mortalidade.1

Langhammer et al.2 relatam que mulheres fumantes apresentam estreitamento das vias aéreas e aumento da hiperresponsividade brônquica, com intensidade superior à encontrada nos homens. Isso pode ser explicado pelos níveis hormonais, já que o estrogênio aumenta a bioativação de muitos compostos no tabaco.3,4 Esse achado é preocupante, pois estimativas de gerações futuras indicam aproximadamente 500 milhões de fumantes.5

Em relação ao transporte mucociliar nasal, principal mecanismo de defesa do sistema respiratório, não há evidências de diferenças entre homens e mulheres fumantes. No entanto, estudos feitos em não fumantes mostram algumas diferenças; alguns relatam que as mulheres apresentam melhor transportabilidade do que os homens,6-8 enquanto outros 9,10 relatam que não há relação entre sexo e transportabilidade mucociliar. Além disso, é necessário considerar algumas variáveis que podem interferir na análise dessa relação, como fatores sociodemográficos, antropométricos e de estilo de vida.

Em vista do exposto acima, é necessário avaliar a influência do sexo na transportabilidade mucociliar nasal em fumantes, para intensificar e tornar as campanhas e os programas contra o tabagismo mais específicas, na população que apresenta maior dano.

Assim, o objetivo deste estudo foi comparar a transportabilidade mucociliar nasal em fumantes e não fumantes de ambos os sexos, levando em consideração idade, dados antropométricos, carga tabágica e função pulmonar.

Método

Este é estudo transversal e a amostra é composta por fumantes, recrutados de acordo com a disponibilidade dos indivíduos que participam do grupo de cessação tabágica da Universidade e não fumantes. Todos os participantes foram informados sobre a finalidade e os procedimentos do estudo e assinaram um formulário de consentimento livre e informado.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição proponente do estudo (Protocolo n° 18/2011).

Os critérios de inclusão foram definidos como: idade entre 30-50 anos; ambos os sexos; função pulmonar normal (avaliada por espirometria); nenhum diagnóstico de doença pulmonar; nenhum histórico de cirurgia ou trauma nasal, desvio do septo nasal, infecção ou inflamação no sistema respiratório observado na avaliação clínica durante a entrevista e o protocolo experimental; e ser fumante por pelo menos um ano (grupo fumante). Foram excluídos os indivíduos que não compreenderam ou cooperaram com os procedimentos do estudo ou que não participaram dos dias de avaliação.

As avaliações foram feitas ao longo de dois dias. O primeiro incluiu entrevistas para obtenção de dados pessoais, medidas antropométricas, perguntas sobre hábitos tabágicos e dependência de nicotina e avaliação da função pulmonar. O segundo dia incluiu medidas do nível de monóxido de carbono no ar expirado e transportabilidade mucociliar nasal. Todas as avaliações foram feitas de manhã.

Durante os dois dias, os voluntários foram instruídos a não ingerir álcool, substâncias à base de cafeína, drogas (como anestésicos, analgésicos, barbitúricos, tranquilizantes e antidepressivos) e não fumar durante as 12 horas anteriores às avaliações, por que essas substâncias alteram a transportabilidade mucociliar nasal e dilatação dos brônquios.11,12

Avaliação inicial

Após inclusão no estudo, todos os participantes forneceram informações sobre: data de nascimento, nível de escolaridade, histórico de tabagismo (cigarros fumados por dia, número de anos de tabagismo; a partir desses dados, foi calculado o índice de maços/ano, que é o número de cigarros fumados por dia, dividido por 20 e multiplicado pelo número de anos em que o indivíduo fumou)13 e história clínica de eventos respiratórios (cirurgia ou trauma nasal, doenças respiratórias crônicas, infecções nas últimas semanas). O peso e altura foram determinados com uma balança e um estadiômetro (Sanny®, Brasil) e o índice de massa corporal (IMC) foi calculado. Esses dados foram obtidos durante o primeiro dia de avaliação.

Dependência de nicotina

O nível de dependência de nicotina foi avaliado com o teste de Fagerström.14 O instrumento consiste em um questionário com seis itens fáceis de entender. Os escores obtidos no teste permitem classificar a dependência de nicotina em cinco níveis: muito baixa (0-2 pontos); baixa (3-4); moderada (5); alta (6-7); e muito alta (8-10pontos).15 Essa avaliação foi realizada no primeiro dia.

Função pulmonar (espirometria)

Para mensuração da função pulmonar, a espirometria foi realizada com espirômetro (MIR-Spirobank, versão 3.6) acoplado a um computador, de acordo com as diretrizes e os critérios estabelecidos pela European Respiratory Society.16 Os valores da normalidade foram aqueles da população brasileira.17 Essa avaliação foi realizada em todos os participantes durante o primeiro dia.

Monóxido de carbono no ar expirado (COex)

A mensuração do monóxido de carbono no ar expirado (COex) foi usada para verificar o período de abstinência de tabaco de 12 horas. A aplicação dessa técnica foi padronizada como se segue: o voluntário foi instruído a inspirar profundamente e, em seguida, permanecer em apneia por 20 segundos. Depois disso, o dispositivo (Micro Medical Ltda., Rochester, Kent, Inglaterra) foi colocado na boca do indivíduo e foi pedido ao voluntário que fizesse uma expiração completa, lenta e suavemente.18 Essa avaliação foi realizadano segundo dia.

Transporte mucociliar nasal (teste da sacarina)

A avaliação do transporte mucociliar foi feita por meio do teste de tempo de trânsito de sacarina (TTS). O teste foi conduzido a uma temperatura ambiente de 25 °C e umidade relativa entre 50% e 60%. Os participantes ficaram sentados com a cabeça estendida a 10°. O TTS foi iniciado com a introdução de aproximadamente 2,5 mg de sacarina sódica granulada através de um canudo de plástico, sob controle visual, a aproximadamente 2 cm na narina direita. A partir desse momento, o cronômetro foi ativado e os indivíduos foram aconselhados a não andar, falar, tossir, espirrar, arranhar ou assoar o nariz e foram instruídos a engolir a saliva algumas vezes por minuto até sentir algum sabor na garganta; quando o participante alertou o examinador com um gesto, o tempo foi registrado.19 Todos os voluntários realizaram essa avaliação durante o segundo dia.

Análise estatística

A amostra final foi calculada considerando-se um teste de hipótese bicaudal que usou uma equação baseada em um nível de confiança de 5%, 80% de poder de teste e desvio padrão de 4,1 (baseado em um estudo anterior),20 que indicou a necessidade de 33 voluntários por grupo. A distribuição normal dos dados foi avaliada com o teste de Kolmogorov-Smirnov e porque a normalidade não foi detectada o teste de Mann-Whitney foi usado para comparar dados entre homens e mulheres. Para comparar os valores de TTS entre homens e mulheres, a estratificação foi feita em todas as variáveis independentes (sociodemográficas, tabágicas e respiratórias) em duas categorias: abaixo e acima dos valores medianos.

Os dados são expressos como mediana e intervalo interquartil. A análise de regressão linear múltipla avaliou a influência das variáveis múltiplas (idade, IMC, escolaridade, anos de tabagismo, cigarros por dia, maços/ano, dependência de nicotina, COex e variáveis respiratórias) sobre os valores do TTS. Todas as análises estatísticas foram feitas com o software SPSS (versão 17.0) e a significância estatística (p-valor) foi estabelecida em 0,05.

Resultados

Foram analisados 139 indivíduos divididos em quatro grupos de acordo com sexo e tabagismo: 70 fumantes (33 homens e 37 mulheres) e 69 não fumantes (32 homens e 37 mulheres).

As características dos grupos são mostradas na tabela 1. Não houve diferenças significativas para idade, IMC ou nível de escolaridade entre fumantes e não fumantes. Quanto aos hábitos tabágicos, os valores foram semelhantes em relação ao número de anos de tabagismo, número de cigarros por dia e maços/ano entre fumantes. Os escores do questionário de Fagerström foram semelhantes entre os grupos de fumantes e indicaram alta dependência de nicotina. O nível de monóxido de carbono no ar expirado foi significativamente maior entre os fumantes.

Tabela 1 Caracterização da amostra por grupos. Os dados são expressos em mediana e intervalo interquartil 

Variáveis Fumantes Não fumantes p-valor
Homens (n = 33) Mulheres (n = 37) Homens (n = 32) Mulheres (n = 37)
Idade (anos) 42,00 (15,00) 40,00 (10,00) 40,00 (11,00) 39,00 (9,00) 0,99
Peso (kg) 84,00 (21,75) 65,20 (21,40) 82,00 (12,58) 64,60 (17,00) < 0,0001a
Altura (m) 1,74 (0,09) 1,63 (0,01) 1,74 (0,10) 1,62 (0,09) < 0,0001a
IMC (kg/m2) 27,17 (6,22) 25,48 (5,85) 27,17 (4,00) 25,10 (4,40) 0,07
Escolaridade (anos) 11,00 (7,00) 11,00 (3,00) 11,00 (7,00) 11,00 (2,25) 0,17
Anos de tabagismo 20,00 (14,00) 23,00 (12,00) - - 0,89
Cigarros por dia 20,00 (22,00) 20,00 (9,00) - - 0,06
Maços/ano 24,00 (29,40) 20,00 (15,38) - - 0,36
Dependência de nicotina 7,00 (4,00) 7,00 (3,00) - - 0,95
COex (%Hb) 1,60 (1,36) 0,96 (0,96) 0,16 (0,48) 0,16 (0,48) < 0,0001a

Hb, hemoglobina, IMC, índice de massa corporal.

ap < 0,05.

A tabela 2 apresenta os valores médios de TTS de acordo com idade, IMC, nível de escolaridade, anos de tabagismo, número de cigarros por dia, anos/maço, dependência de nicotina e valores de monóxido de carbono no ar expirado. Observou-se que, mesmo considerando variáveis sociodemográficas (número de anos de tabagismo, número de cigarros por dia, anos/maço e dependência de nicotina) e níveis de monóxido de carbono, não houve diferença significativa na comparação do TTS em homens e mulheres fumantes e não fumantes (p > 0,05).

Tabela 2 Comparação dos valores do teste de tempo de trânsito de sacarina (minutos) entre fumantes e não fumantes de acordo com variáveis sociodemográficas e tabágicas e monóxido de carbono no ar exalado. Os dados são expressos em mediana e intervalo interquartil 

Variáveis Fumantes Não fumantes p-valor
Homens (n = 33) Mulheres (n = 37) Homens (n = 32) Mulheres (n = 37)
Idade (anos) < 41 10,55 (7,31) 10,09 (8,12) 7,03 (15,23) 8,05 (6,69) 0,33
≥ 41 10,23 (9,00) 7,93 (6,03) 10,83 (10,27) 10,67 (11,69) 0,35
IMC (kg/m2) < 25,87 10,37 (7,22) 11,4 (8,78) 6,73 (14,21) 8,58 (8,20) 0,32
≥ 25,87 9,76 (8,41) 7,93 (4,62) 10,83 (13,31) 9,13 (7,25) 0,12
Escolaridade (anos) < 11 12,30 (13,03) 10,79 (9,86) 8,53 (6,61) 9,51 (7,09) 0,86
≥ 11 9,86 (5,91) 8,05 (7,05) 8,58 (15,26) 6,83 (8,16) 0,35
Anos de tabagismo < 21 10,28 (5,97) 8,00 (9,61) - - 0,08
≥ 21 10,55 (7,31) 9,22 (9,00) - - 0,54
Cigarros por dia < 20 10,30 (3,54) 10,78 (10,32) - - 0,73
≥ 20 9,61 (5,85) 10,30 (10,22) - - 0,30
Anos/maço < 20,87 10,33 (8,73) 9,85 (8,87) - - 0,50
≥ 20,87 9,84 (8,29) 9,09 (4,44) - - 0,64
Dependência de nicotina (pontos) < 7 10,23 (6,62) 11,15 (10,35) - - 0,74
≥ 7 10,87 (11,78) 8,63 (4,95) - - 0,19
COex (%Hb) < 1,12 10,55 (11,74) 11,14 (6,38) 8,58 (11,67) 8,59 (6,84) 0,46
≥ 1,12 10,30 (4,95) 8,63 (5,08) - 3,55 (0,00) 0,22

Hb, hemoglobina; IMC, índice de massa corporal.

A tabela 3 mostra as variáveis da função pulmonar. Mesmo considerando os valores de acordo com a mediana para cada variável, uma diferença significativa foi observada entre não fumantes. Entre aqueles com valores menores de capacidade vital forçada (< 97,37% do previsto), as mulheres apresentaram transporte mucociliar mais rápido do que os homens.

Tabela 3 Comparação dos valores do teste de tempo de trânsito de sacarina (minutos) entre fumantes e não fumantes de acordo com variáveis de função pulmonar. Os dados são expressos em mediana e intervalo interquartil 

Variáveis Fumantes Não fumantes p-valor
Homens (n = 33) Mulheres (n = 37) Homens (n = 32) Mulheres (n = 37)
CVF (% do previsto) < 97,37 10,37 (8,49) 13,16 (9,31) 15,46 (14,84) 6,17 (5,54) 0,0352a
≥ 97,37 8,73 (6,12) 8,63 (5,03) 7,05 (5,99) 9,45 (9,24) 0,7544
VEF1 (% do previsto) < 93,40 10,59 (10,33) 11,8 (9,53) 15,57 (21,41) 8,6 (8,55) 0,0613
≥ 93,40 9,48 (5,38) 9,55 (4,80) 7,05 (5,89) 8,32 (7,78) 0,7543
VEF1/CVF (%) < 80,55 8,25 (10,00) 8,28 (6,21) 9,25 (8,53) 8,6 (8,22) 0,6892
≥ 80,55 10,55 (6,77) 10,78 (6,45) 7,9 (17,44) 8,3 (9,99) 0,5509
PFE (% do previsto) < 96,25 10,3 (11,16) 10,78 (8,17) 11,49 (15,59) 7,44 (8,06) 0,2173
≥ 96,25 10,3 (7,24) 9,09 (5,74) 7,05 (10,47) 8,67 (7,61) 0,9521
FEF25%-75% (% do previsto) < 89,10 8,11 (7,16) 6,05 (9,00) 10,55 (10,64) 4,82 (6,71) 0,0981
≥ 89,10 11,38 (6,69) 10,56 (5,49) 7,47 (16,29) 9,45 (9,41) 0,5813

CVF, capacidade vital forçada; FEF 25%-75%, Fluxo expiratório forçado entre 25% e 75%; PFE, Pico do fluxo expiratório; VEF1, volume expiratório forçado no primeiro segundo.

ap < 0,05.

As análises de regressão mostraram influência do IMC e COex (mulheres fumantes), CVF e VEF1 (homens não fumantes) e FEF25%-75% (mulheres não fumantes) nos valores de TTS (tabela 4).

Tabela 4 Análise de regressão múltipla entre variáveis múltiplas (idade, índice de massa corporal, escolaridade, anos de tabagismo, cigarros por dia, maços/ano, dependência de nicotina, monóxido de carbono no ar expirado e variáveis respiratórias) e teste do tempo de trânsito de sacarina (minutos) 

Fumantes Não fumantes
Homens (n = 33) Mulheres (n = 37) Homens (n = 32) Mulheres (n = 37)
β IC 95% p β IC 95% p β IC 95% p β IC 95% p
Limite inferior Limite superior Limite inferior Limite superior Limite inferior Limite superior Limite inferior Limite superior
Idade 0,07 -0,22 0,36 0,63 -0,01 -0,28 0,26 0,94 0,41 -0,17 0,99 0,16 0,07 -0,31 0,45 0,73
IMC 0,03 -0,48 0,43 0,90 -0,40 -0,74 -0,06 0,02a 0,38 -0,64 1,40 0,45 -0,00 -0,41 0,40 0,98
Escolaridade 0,20 -0,69 0,29 0,41 -0,29 -0,64 0,05 0,09 0,11 -0,97 1,18 0,84 -0,63 -1,29 0,03 0,06
Anos de tabagismo 0,02 -0,24 0,28 0,87 0,16 -0,05 0,37 0,14 - - - - - - - -
Cigarros por dia 0,07 -0,10 0,23 0,40 -0,02 -0,17 0,12 0,74 - - - - - - - -
Maços/ano 0,03 -0,08 0,14 0,57 0,01 -0,12 0,15 0,85 - - - - - - - -
Dependência de nicotina 0,20 -0,61 1,02 0,61 -0,27 -1,02 0,47 0,46 - - - - - - - -
COex (% Hb) 1,18 -3,6 1,26 0,33 -2,47 -4,75 -0,19 0,04a 4,40 -8,47 17,27 0,49 -1,03 -6,80 4,75 0,72
CVF (% do previsto) 0,14 -0,38 0,10 0,25 -0,04 -0,18 0,11 0,59 -0,29 -0,50 -0,09 0,01a 0,08 -0,07 0,23 0,30
VEF1 (% do previsto) 0,11 -0,35 0,13 0,37 0,00 -0,14 0,15 0,98 -0,31 -0,55 -0,08 0,01a 0,13 -0,02 0,28 0,09
VEF1/CVF 0,06 -0,31 0,43 0,76 0,25 -0,13 0,63 0,19 0,28 -0,29 0,84 0,32 0,42 -0,05 0,88 0,08
PFE (% do previsto) 0,09 -0,23 0,05 0,21 -0,06 -0,16 0,05 0,27 -0,14 -0,37 0,08 0,20 0,08 -0,04 0,20 0,18
FEF25%-75% (% do previsto) 0,01 -0,11 0,12 0,92 0,03 -0,04 0,10 0,37 0,01 -0,13 0,15 0,87 0,09 0,01 0,16 0,03a

CVF, capacidade vital forçada; FEF 25%-75%, Fluxo expiratório forçado entre 25% e 75%; Hb, hemoglobina; PFE, Pico do fluxo expiratório; VEF1, volume expiratório forçado no primeirosegundo.

ap < 0,05.

Discussão

Os achados deste estudo demonstraram que o sexo não influenciou o mecanismo principal de defesa do sistema respiratório, o transporte mucociliar, apresentando respostas semelhantes em homens e mulheres fumantes, mesmo após estratificação para idade, IMC, escolaridade, carga tabágica e função pulmonar.

Vários estudos com fumantes analisaram a influência do sexo em diferentes variáveis e sistemas (ansiedade,21 estresse,22,23 sarcoidose,24 câncer de pulmão,25 câncer oral26 e DPOC,27 entre outros). Entretanto, este é o primeiro estudo a analisar a influência do sexo na transportabilidade mucociliar nasal em fumantes.

Estudos que envolvem indivíduos saudáveis, não fumantes, foram realizados para investigar a influência do sexo na transportabilidade mucociliar, mas há discrepâncias nos achados. Oliveira-Maul et al.10 analisaram a transportabilidade mucociliar nasal de 79 indivíduos, entre 18 e 94 anos, não fumantes, e não observaram diferenças significativas na associação entre transportabilidade e sexo; os pesquisadores usaram o TTS para avaliar o transporte mucociliar, semelhantemente ao presente estudo. No entanto, foi observado em outros estudos6-8 que mulheres não fumantes apresentavam melhor transportabilidade mucociliar quando comparados com os homens. No presente estudo, a única diferença observada foi em relação à transportabilidade em não fumantes com capacidade vital forçada inferior a 97,37% do previsto. As mulheres apresentaram valores mais baixos no TTS do que os homens, o que corrobora os resultados de Armengot et al.,6 Gerrard et al.7 e Bennett et al.8 Uma possível explicação para essa diferença é que as mulheres podem ter brônquios proximais mais curtos28 e, consequentemente, tempos de trânsito e clearance de partículas menores.

Uma possível explicação para a ausência de diferenças no presente estudo é a idade jovem da população estudada (30 a 50 anos). Mesmo classificados como fumantes moderados29 (20 cigarros por dia em ambos os grupos), o transporte mucociliar dos participantes pode não ter sido afetado negativamente ainda, já que na literatura o TTS de não fumantes (8 min), com uma idade média similar,29 não apresenta discrepância com os valores dos fumantes no presente estudo.

Vários fatores externos podem influenciar o transporte mucociliar.11 Durante o presente estudo, avaliou-se o efeito de variáveis internas. Entre as mulheres fumantes, valores mais elevados de IMC e COex podem influenciar negativamente o TTS. Entre os não fumantes, as variáveis respiratórias podem influenciar o TTS: nos homens o índice FEF25%-75%, e nas mulheres os valores de CVF e VEF1.

Sabe-se que as mulheres fumantes são mais vulneráveis ao desenvolvimento de DPOC quando comparadas com os homens1 e se considerarmos os achados deste estudo, sugerimos que estudos futuros, com populações mais velhas, investiguem se há diferenças na transportabilidade entre homens e mulheres em diferentes faixas etárias, uma vez que as mulheres podem sofrer danos mais intensos causados pelo tabagismo.

Um fator que não pode ser descartado é a influência dos hormônios sexuais sobre a transportabilidade mucociliar. Jain et al.30 sugeriram que os receptores de progesterona nas vias aéreas têm um papel importante na inibição do movimento ciliar e as mulheres têm um movimento ciliar mais lento do que os homens devido às diferenças na concentração de progesterona. Por outro lado, há diferentes concentrações de hormônios sexuais durante diferentes períodos do ciclo menstrual, de modo que o transporte mucociliar depende do período menstrual.31 Portanto, essa limitação deve ser abordada porque esse fator não foi avaliado. Outra limitação do estudo é seu desenho transversal, o que não permite a análise das relações causais. No entanto, aspectos positivos desse estudo incluem a originalidade da investigação (influência do sexo na transportabilidade mucociliar nasal em fumantes), a qual não foi investigada anteriormente, e, além disso, verificamos também diferença da transportabilidade entre os sexos, considerando fatores de confusão, como características sociodemográficas, carga tabágica e função pulmonar.

Conclusão

O transporte mucociliar nasal é semelhante em fumantes adultos do sexo masculino e feminino (sem condições anteriores de saúde relacionadas ao tabagismo).

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