Tratamento atual da anemia aplástica adquirida grave

Tratamento atual da anemia aplástica adquirida grave

Autores:

Phillip Scheinberg

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.9 no.2 São Paulo abr./jun. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082011rw2156

INTRODUÇÃO

A anemia aplástica grave (AAG) tem se transformado de doença com alto índice de mortalidade, na década que se iniciou em 1960, em uma doença na qual é possível obter longas sobrevidas na maior parte dos pacientes após o diagnóstico(1). Caracteristicamente ocorre pancitopenia e a medula óssea classicamente aparenta estar vazia pela diminuição significante de células-tronco hematológicas e células hematológicas progenitoras. Evidências clínicas e experimentais suportam uma fisiopatologia imunológica para a doença, na qual células efetoras e citocinas relacionadas destroem os elementos mais jovens da medula óssea(2). A hematopoiese pode ser restaurada na AAG pelo transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) ou por terapia imunossupressora(2). A maior parte dos pacientes não é candidata a TCTH por falta de doador aparentado HLA compatível, idade, comorbidades ou impossibilidade em seu meio de conseguir transplante. Isso faz com que o tratamento mais empregado em todo o mundo no tratamento da AAG seja a imunossupressão.

Os esquemas imunossupressores mais bem estudados em AAG se baseiam no uso de globulina antitimocítica (ATG). Hoje contamos com duas preparações comercialmente disponíveis de ATG: uma obtida em cavalos e outra em coelhos. Ambas são produzidas imunizando cavalos ou coelhos com células do timo humanas ou linhagens celulares de células T, o que resulta na produção de anticorpos policlonais xenogênicos, que reconhecem várias moléculas expressas na superfície de linfócitos T. O soro dos animais é purificado para remover células vermelhas contaminantes e o complexo complemento é desativado. Embora o sistema de obtenção de ambos os produtos seja substancialmente igual, eles têm importantes diferenças biológicas em sua atividade, tanto in vivo como in vitro, sugerindo que eles tenham ação diversa no sistema imune humano(3,4).

O tratamento padrão na AAG é com a antitimoglobulina de cavalo mais ciclosporina (CsA), o que leva à recuperação hematológica de 60 a 70% dos casos e excelente possibilidade de sobrevida a longo prazo, especialmente entre os respondedores(2). No entanto, recaídas ocorrem em 30 a 40% dos que respondem, e 10 a 15% evoluem clonalmente para mielodisplasia(5). Esses dois fatos limitam o sucesso do esquema ATG/ CsA. Várias tentativas foram feitas para melhorar esses resultados, mas até hoje nenhuma se revelou melhor. A adição de um terceiro agente a ATG de cavalo/CsA - G-CSF, andrógenos, micofenolato mofetil ou sirolimos não resultou em melhor resposta hematológica ou melhor sobrevida(69). Além disso, terapias com agentes mais potentes linfocitotóxicos, como ATG de coelho e alemtuzumabe, não foram melhores que ATG de cavalo/CsA em trabalhos controlados e randomizados(1012). Apesar de esforços para encontrar melhores terapias, ATG de cavalo/CsA continua sendo o tratamento de escolha para AAG.

Nesta revisão breve, discutiremos alguns aspectos práticos do tratamento da AAG, além de dados recentes da literatura.

APRESENTAÇÃO E DIAGNÓSTICO DA AAG

Pacientes com AAG em geral procuram assistência médica por complicações da pancitopenia. São sintomas derivados, a anemia, que leva à fadiga, fraqueza, dor de cabeça e dispneia. Plaquetopenia produz sangramentos mucocutâneos, e queixas comuns são petéquias, epistaxe e sangramento gengival. Uma complicação rara, mas que pode ser catastrófica, é o sangramento intracraniano. Infecções bacterianas e fúngicas, no contexto de neutropenia, são causa importante de morbidade e mortalidade, além de constituírem emergências médicas. Sintomas sistêmicos, adenopatia ou organomegalias não são parte do quadro clínico da AAG e, se presentes, sugerem outro diagnóstico. Sintomas podem estar presentes dias ou semanas antes que um hemograma seja colhido e sugira o diagnóstico. Pancitopenia grave é geralmente definida naqueles pacientes que apresentam dois dos seguintes três achados no hemograma: contagem absoluta de neutrófilos menor que 500//mL, plaquetas abaixo de 20.000//mL e contagem de reticulócitos inferior a 60.000//mL(13).

O diagnóstico de AAG é de exclusão e o diagnóstico diferencial é com outras doenças primárias da medula óssea. Na AAG, a celularidade da medula está sempre diminuída para a idade (abaixo de 30%), mas áreas focais de hipercelularidade (chamadas de hot spots) podem estar presentes. Causas secundárias de pancitopenia (doenças autoimunes, deficiências vitamínicas, hiperesplenismo, alcoolismo e alguns quadros infecciosos) podem frequentemente ser excluídas com dados de história clínica, exame físico e testes laboratoriais. Citopenias de uma só linhagem com deficiência no mielograma das células progenitoras dessa linhagem sugerem aplasia pura da série vermelha (anemia, reticulopenia e ausência dos precursores da série vermelha da medula), agranulocitose (neutropenia, exposição a drogas e ausência dos precursores granulocíticos no mielograma) ou púrpura trombocitopênica amegacariocítica (plaquetopenia e ausência dos megacariócitos no mielograma). Fibrose medular, organomegalia e quadro periférico de leucoeritroblastose sugerem mielofibrose. Em raros casos, leucemias agudas podem aparecer com medula hipocelular, e é importante a inspeção cuidadosa das espículas ósseas para avaliar a presença de blastos, na biópsia de medula. Nos casos com uma evolução mais indolente de citopenias e medula com mais celularidade, estudos de citometria de fluxo e análise do rearranjo dos genes nas células T podem revelar uma população clonal sugestiva de uma leucemia linfocítica com células grandes granuladas.

O diagnóstico diferencial mais difícil é entre AAG e mielodisplasia, que pode aparecer ao diagnóstico com medula hipocelular em 20% dos casos(14). Existem alterações displásicas na AAG, mas modestas, se comparadas às alterações bem mais evidentes da mielodisplasia ao mielograma. Na AAG, muito raramente são encontradas alterações citogenéticas, que são comuns em mielodisplasia. Um clone de hemoglobinúria paroxística noturna (HPN), caracterizado por hemácias e neutrófilos deficientes em proteínas aderentes glicosilpfosfatidilinositol (por exemplo: CD 55 e CD 59), pode ser percebido no momento do diagnóstico por citometria de fluxo em 40% das AAG, AAG/HPN e em 20% dos pacientes com mielodisplasia. Nesses casos, esse clone não é grande na população hematopoiética total e a hemólise pode não ser detectável, especialmente em pacientes transfundidos; a trombocitose não é usual. O tamanho dessa população clonal pode se expandir no tempo e levar à hemólise significativa. HPN primária ocorre quando o grau de citopenia não é intensa e o quadro clínico é dominado por hemólise grave, cujos comemorativos clínicos são anemia, aumento da deidrogenase lática sérica, urina escura, espasmos esofágicos, dor abdominal e complicações trombóticas, como síndrome de Budd Chiari, trombose venosa profunda ou acidentes vasculares cerebrais.

Em um subgrupo de pacientes, mutações nos genes das telomerases foram identificadas(15,16). O complexo telormerase é essencial para prevenir a erosão constante das pontas dos cromossomos (telômeros) que ocorre naturalmente a cada divisão celular. Células com potencial proliferativo muito alto, como linfócitos e células-tronco hematopoiéticas, precisam que haja elongação das pontas dos cromossomos, dos telômeros, pelo complexo da telomerase, para prevenir encurtamento crítico dos telômeros e sua consequência, senescência replicativa e morte celular. Mutações no componente RNA (codificado por TERC) e a subunidade catalítica (codificada por TERT) desse complexo têm sido classicamente associadas a formas hereditárias de falência medular, como na disqueratose congênita(17). Os estigmas dessa doença (pequena estatura, distrofia de unhas e leucoplaquia oral) não estão presentes em pacientes com AAG “adquirida”(16). Nesses casos, o tamanho dos telômeros é diminuído em 10% até do normal(18). O impacto desse achado em clínica para esse subgrupo de pacientes ainda não está claro. Telômeros menores do que o esperado para a idade não estão associados à resistência a imunossupressão, mas há uma clara correlação entre esse achado e a recaída hematológica ou evolução clonal(18). Adicionalmente, respostas à imunossupressão podem ser obtidas em pacientes com mutações nos genes da telomerasa. Desse modo, a incorporação desses dados na prática clínica precisa aguardar validação em estudos prospectivos.

CONDUTA NA AAG

Modalidades de tratamento

Uma vez estabelecido o diagnóstico de AAG, o tratamento inicial pode ser TCTH ou tratamento imunossupressivo. Ambos são considerados tratamentos efetivos com resultados equivalentes quanto à sobrevida a longo prazo(2). Em crianças e adultos jovens com doador HLA compatível aparentado, TCTH é a modalidade de tratamento preferida. Em pacientes mais velhos (acima de 30 a 40 anos de idade) ou nos que não têm um doador aparentado HLA compatível, a imunossupressão é o tratamento de escolha. Doadores alternativos para TCTH só devem ser considerados se houver falha terapêutica da imunossupressão, recaídas tardias ou evolução clonal.

Embora a sobrevida após TCTH com doadores HLA compatíveis não relacionados tenha melhorado nos estudos mais recentes(19,20), observações mostram que ela é pior que os TCTH feitos com doadores HLA compatíveis aparentados(2123). Doença do enxerto contra o hospedeiro, pega das células-tronco (em pacientes mais velhos) e infecções ainda são sérios problemas(24). Estudos recentes mostram que, para pacientes pediátricos que têm AAG e são submetidos à imunossupressão com ATG de cavalo/ CsA, a sobrevida de todos pacientes é de 80% e de 90% para os que respondem bem a imunossupressão(25). Portanto, crianças que não têm doador aparentado disponível devem receber imunossupressão como terapia inicial de escolha.

Transplantes utilizando células CD 34+ de sangue periférico, após mobilização, têm sido cada vez mais usados em quase todos os centros transplantadores a partir da década de 1990, pela menor invasividade do processo de coleta. No entanto, evidências nos últimos 5 anos apontam aumento da incidência da doença do transplante contra o hospedeiro, comparadas às séries históricas utilizando medula óssea(26). Esses resultados foram recentemente confirmados por estudos no registro norte-americano(27) de transplantes de células hematopoiéticas, confirmando a noção de que a doença do transplante contra o hospedeiro é pior quando se usam células derivadas do sangue periférico mobilizadas com G-CSF, do que quando se usam células aspiradas da medula óssea para transplante. Como não há, no caso da AAG, nenhum benefício da doença do transplante contra o hospedeiro, ao contrário das doenças malignas, transplantes em AAG devem ser feitos utilizando medula óssea em pacientes com AAG submetidos à TCTH.

TERAPIA IMUNOSSUPRESSIVA INICIAL

O tratamento padrão recomendado é com ATG de cavalo mais ciclosporina. Essa associação foi definida como superior somente à ATG de cavalo, num estudo randomizado realizado há cerca de 20 anos(28). Desde essa época, há uma vasta experiência com esse esquema, com estudos grandes nos Estados Unidos, Japão e Europa (Tabela 1). Nas últimas duas décadas, vários esquemas alternativos foram experimentados para tentar melhorar os resultados de ATG de cavalo/CsA, com sucesso muito limitado. Um dos mais estudados foi a adição de G-CSF a ATG/CsA(8,9,29,30), o que apenas melhorou o tempo de neutropenia e resultou em menos infecções, mas não houve nenhuma melhora em resposta hematológica ou sobrevida. Num estudo recente, randomizado, que incluiu 192 pacientes, novamente não se evidenciou diferença quando G-CSF foi adicionada ao tratamento com ATG de cavalo/CsA(9). Portanto, dados de estudos prospectivos não suportam o uso de G-CSF em adição a ATG de cavalo/CsA.

Tabela 1 Immunosuppression studies based on horse antitimic globulin/ciclosporin in severe aplastic anemia 

Estudos Anos n Mediana de idade (anos) Resposta (%) Recaída (%) Evolução clonal (%) Sobrevida
Alemanha(28) 1986-1989 84 32 65 19 8 58% at 11 years
NIH(5) 1991-1998 122 35 61 35 11 55% at 7 years
EGBMT(42) 1991-1998 100 16 77 12 11 87% at 5 years
Japão(8) 1992-1997 119 9 68 22 6 88% at 3 years
Alemanha/Austria(43) 1993-1997 114 9 77 12 6 87% at 4 years
Japão(30) 1996-2000 101 54 74 42 8 88% at 4 years
NIH(6) 1999-2003 104 30 62 37 9 80% at 4 years
EGBMT(9) 2002-2008 192 46 70 33 4 76% at 6 years
NIH(7) 2003-2005 77 26 57 26 10 93% at 3 years
NIH(11) 2005-2010 120 28 68 28 21 96% at 3 years

NIH: National Institutes of Health; EGBMT: European Group for Blood & Marrow Transplantation.

A adição de um terceiro imunossupressor ao ATG de cavalo/CsA seria algo racional, mas também não mostrou evidências de melhor resultado clínico na AAG.

Num estudo de mais de cem pacientes, a adição de micofenolato mofetil à ATG de cavalo/CsA não melhorou a resposta(6), o número de recaídas nem a evolução clonal, quando comparados com controles históricos e, num tratamento prospectivo randomizado, a adição de sirolimus à ATG de cavalo/CsA não foi superior a um esquema sem sirolimus(7). O uso de ciclofosfamida em AAG é mais controverso. A atividade desse agente em AAG foi descrita há mais ou menos 40 anos(31), mas maior experiência com ele data dos últimos 10 a 15 anos(32). Comparada diretamente ao esquema clássico de ATG de cavalo/CsA, num estudo randomizado, a ciclofosfamida foi bem mais tóxica, levou a mais infecções fúngicas graves e mortes, e o estudo foi interrompido precocemente(10). Até hoje, resultados favoráveis com ciclofosfamida não foram reproduzidos, exceto num único local, o que torna duvidoso esse uso. É muito difícil excluir viés na seleção dos pacientes no estudo que foi favorável a esse uso na experiência Hopkins (exclusão dos que poderiam ter pior resposta, os que tinham mau prognóstico, os mais velhos, os sem seguro saúde etc.), o que provavelmente pode explicar as diferenças obtidas com esse esquema lá e em outros lugares. Dessa forma, a ciclofosfamida para tratamento da AAG é experimental e só deve ser usada no contexto de um protocolo de pesquisa clínica.

A adição de mais elementos linfotóxicos tem sido desapontadora. O alemtuzumabe usado como terapêutica inicial foi inferior a ATG de cavalo/CsA num estudo randomizado, e esse uso foi descontinuado no tratamento de AAG(12). Um ponto mais importante: ATG de coelho/CsA, que pode ser bem sucedida como terapêutica de resgate, mostrou-se inferior a ATG de cavalo/ CsA em estudo prospectivo randomizado(11). A resposta a ATG de coelho foi 30% inferior à ATG de cavalo e resultou numa sobrevida 20% inferior(11). É importante notar que o estudo foi realizado há 6 anos para mostrar o oposto, isto é, que a ATG de coelho seria superior à ATG de cavalo.

Portanto, ATG de cavalo/CsA é o tratamento imunossupressor de escolha para o tratamento inicial da AAG. Os achados desse estudo não foram previstos e tiveram impacto imediato no cuidados aos pacientes da Europa, Ásia e América do Sul, onde a ATG de cavalo não é disponível.

TERAPÊUTICA DE RESGATE

AAG refratária

Em pacientes que não respondem à terapia inicial com ATG de cavalo/CsA, opções de resgate incluem uma repetição da imunossupressão ou TCTH em candidatos que tenham doador compatível. Em crianças e adultos jovens com doador não relacionado HLA compatível 10/10, TCTH é uma opção viável. Para todos os outros pacientes, uma segunda série de imunossupressão é recomendada. Há boa experiência com ATG de coelho nesse contexto, que dá remissões que variam de 30 a 77%(12,33,34). Recentemente, a monoterapia com alemtuzumabe, sem ciclosporina, mostrou atividade comparável em AAG refratária, e é uma alternativa nos que toleram mal ATG e/ou ciclosporina, ou em pacientes mais velhos(12). Em pacientes que se mantêm refratários a dois cursos de imunossupressão, uma terceira série provavelmente também não vai funcionar, a menos que tenha havido pelo menos remissão parcial nas séries anteriores(35). Nesses casos, terapias não imunossupressoras podem ser tentadas, como uma série de hormônio masculino e fatores de crescimento, por 3 meses. Em pacientes persistentemente refratários com contagens neutrofílicas muito baixas, podem ser tentadas alternativas mais arriscadas de transplante, com doadores não relacionados com compatibilidades inferiores a 10/10, doadores de sangue de cordão ou até doadores haploidênticos. É importante notar que, na ausência de neutropenia grave e de infecções que impliquem risco de vida, a maior parte dos pacientes refratários pode ser mantida à base de transfusões e fatores de crescimento por anos, mas com uma qualidade de vida prejudicada. Em pacientes politransfundidos, deve haver esquemas de quelação para prevenir as complicações de depósitos de ferro a longo prazo. Com os avanços nas terapias antifúngicas e melhores cuidados de suporte na última década, a sobrevida dos pacientes refratários melhorou muito(1). O tratamento desses pacientes não responsivos à imunossupressão deve ser individualizado, levando em consideração idade, comorbidades, contagem de neutrófilos, disponibilidade e qualidade dos doadores para TCTH, história de infecções, necessidade de transfusões e preferência do paciente.

AAG recaída

Em pacientes que recaem, melhoras podem ser obtidas com mais imunossupressão. Apesar da necessidade de mais tratamento, a recaída não está associada a pior sobrevida em AAG(5). Nesses casos, a introdução de ciclosporina oral por 3 meses pode ser efetiva. ATG de coelho e CsA conseguem respostas em 50 a 60% dos casos nesse contexto, como determinado em vários estudos(33,36). Numa experiência mais recente, alemtuzumabe sem ciclosporina demonstrou 55% de resposta em recaída de AAG, sugerindo ser essa opção viável nesse contexto(12).

Evolução clonal

A aquisição de alterações cariotípicas é a complicação tardia mais preocupante. Assim, ATG de cavalo/CsA é o tratamento imunossupressor de escolha para o tratamento inicial da AAG.

Nem todas as alterações cromossômicas têm essa implicação devastadora. Particularmente, a monossomia 7 se associa à refratariedade, à imunossupressão, a contagens em queda e à progressão para leucemia(37). A trissomia 8 não se associa com sobrevida pior, e um grau maior de resposta à imunossupressão é provável nesses pacientes(37). Assim, a interpretação de alterações citogenéticas tem que ser feita no contexto clínico. Por exemplo, num paciente em que aparece nova alteração citogenética com quedas das contagens no sangue periférico e novas alterações displásicas no mielograma, a evolução para mielodisplasia franca é mais provável. Quando uma alteração citogenética é detectada num quadro clínico estável, sem alterações displásicas no mielograma, fica mais difícil de interpretá-la. Nesse caso, o seguimento cuidadoso das alterações do hemograma e do mielograma, e os novos estudos citogenéticos evolutivos devem ser feitos. Às vezes, as alterações citogenéticas são transitórias e não progridem para mielodisplasia. Uma exceção é do cariótipo da monossomia 7, que quase sempre se correlaciona a alterações displásicas na medula óssea e à doença progressiva.

Infelizmente, não existem boas opções de tratamento nos pacientes que evoluem para mielodisplasia: a única terapêutica efetiva é o TCTH. Nos que são candidatos a essa modalidade terapêutica, a preferência, se possível, é para doador aparentado HLA compatível; depois, um doador não relacionado. Drogas hipometilantes podem ser uma opção terapêutica, mas a experiência com essas drogas em AAG que evoluiu para mielodisplasia é muito limitada. Provavelmente isso não será uma terapêutica definitiva para a maior parte dos casos. Casos que não respondem a drogas hipometilantes só têm a opção de entrar em estudos clínicos com novos agentes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Hoje em dia, a maior parte dos pacientes com AAG pode esperar estar viva anos depois do diagnóstico(1). Com um ou dois cursos de terapêutica imunossupressora, a resposta hematológica pode ser obtida em 75 a 90% dos casos, e a resposta se correlaciona claramente à sobrevivência a longo prazo. Como a ATG de cavalo não se acha disponível fora dos Estados Unidos, a comunidade hematológica deve trabalhar com agências reguladoras na Europa, Ásia e América do Sul para enfatizar a falta de um regime imunossupressor superior no cuidado a esses pacientes nesses mercados.

O momento de se realizar o TCTH e o papel alternativo do doador de CTH estão evoluindo e necessitarão de validação prospectiva. Parâmetros preditivos de resposta e sobrevivência, como a contagem de reticulócitos antes do tratamento, contribuem para a avaliação individualizada de risco em AAG(3841). Provavelmente, futuros algoritmos, no contexto da AAG, incluirão previsores de resultados que melhor estratifiquem os riscos do paciente, possibilitando terapêuticas mais individualizadas.

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