TRATAMENTO CIRÚRGICO DE PEIXE IMPACTADO NO ESÔFAGO SUPERIOR

TRATAMENTO CIRÚRGICO DE PEIXE IMPACTADO NO ESÔFAGO SUPERIOR

Autores:

Gustavo Rêgo COÊLHO,
Silvio Melo TORRES,
Diego Costa de ALMEIDA,
Laiza Marques MOREIRA,
Thyago André Oliveira MENDES,
Tiago Araújo MONTEIRO

ARTIGO ORIGINAL

ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.29 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2016

https://doi.org/10.1590/0102-6720201600010018

INTRODUÇÃO

O atendimento à ingestão de corpo estranho é comum em serviços de emergência. Na maioria dos casos, passa através do trato gastrointestinal de forma espontânea e não causa qualquer dano considerável. Quando impacta, o nível mais comum é o terço superior do esôfago. Aproximadamente 10-20% dos casos, exige intervenção endoscópica e menos que 1% necessita de algum procedimento cirúrgico4,5. Normalmente, as crianças de seis meses a seis anos de idade são mais propensos tê-los3. Em adultos, é mais comum em indivíduos com transtornos psiquiátricos, usuários de drogas, alcoólatras ou indivíduos que se beneficiam de incidente, como prisioneiros.

RELATO DE CASO

Homem, 52, alcoólatra e usuário de crack, previamente saudável. Acidentalmente engoliu um peixe de aproximadamente 15 cm. Evoluiu rapidamente com hematêmese e insuficiência respiratória antes de cuidados médicos. Na sala de emergência, observou-se parada respiratória, sendo prontamente entubado e laringoscopia exibiu o corpo estranho empurrando-o para o esôfago cervical. Ele foi submetido à ventilação mecânica e manteve-se hemodinamicamente estável. Endoscopia foi realizada logo após a estabilização, mas sem sucesso devido ao processo inflamatório intenso e oclusão total da luz esofágica pelo corpo estranho. Tomografia computadorizada cervical e torácica mostrou o peixe inteiro no esôfago cervical (Figura 1). O paciente foi submetido ao tratamento cirúrgico com cervicotomia e esofagotomia, com retirada do peixe intacto e sutura primária do esôfago e drenagem com Penrose (Figura 2). Ele evoluiu sem complicações no aspecto cirúrgico, mas com mioclonia e mínima resposta ao déficit neurológico existente, resultante de um longo período de hipóxia cerebral pré-hospitalar.

FIGURA 1 - Tomografia computadorizada coronal do pescoço claramente mostrando o peixe inteiro impactado no esôfago cervical  

FIGURA 2 - Esofagotomia e remoção cirúrgica do peixe que estava intacto  

DISCUSSÃO

A maior parte de corpos estranhos (80%) passam através do trato gastrointestinal sem dificuldades, mas 20% podem obstruir a luz, o que requer a remoção endoscópica ou cirúrgica (1% dos casos). Como o esôfago é porção estreita do trato gastrointestinal, 28-68% dos objetos são encontrados nesta região5. Os sintomas dependem do local. Disfagia, odinofagia e salivação sugerem corpo estranho. Ele também pode apresentar dor torácica, tosse, dispnéia, sibilos ou estridor. Em casos mais graves, particularmente em corpos estranhos grandes ou pontiagudos, pode haver dor intensa, vômitos, recusa alimentar, saliva com sangue ou choque1.

A avaliação médica do banco de dados de vários acidentes com corpos estranhos, incluiem impactação alimentar, moedas, ossos de peixes, próteses dentárias, ossos de galinha, artefatos metálicos, isqueiros, escovas de dentes, agulhas e colheres5, mas há relatos envolvendo a ingestão de peixe inteiro. Eventos de impactação com ossos de peixes incluem 12,6% dos acidentes, o terceiro mais alto5. Como a maioria dos corpos são radiopacos, o diagnóstico pode ser feito facilmente com radiografia simples nas projeções posteroanterior e lateral. Endoscopia e estudo contrastado são necessários no caso de objetos radiotransparentes. Em todos os exames radiológicos devem ser procurado sinais de enfisema subcutâneo, o que indica perfuração3. O tratamento de escolha é a remoção endoscópica do corpo estranho, que é bem sucedida, com poucas ou nenhuma complicação ao paciente2. O tratamento cirúrgico deve ser executado quando a atuação endoscópica não é possível resolver o problema, ou se não houver progresso no trato gastrointestinal ou complicações, tais como perfuração, obstrução e sangramento2,3.

REFERÊNCIAS

1. Arana A, Hauser B, Hachimi-Idrissi S, Vandenplas Y. Management of ingested foreign bodies in childhood and review of the literature. Eur J Pediatr. 2001;160(8):468.
2. Brady PG. Esophageal foreign bodies. Gastroenterol Clin North Am 1991;20(4):691-701
3. Eisen GM, Baron TH, Dominitz JA, et al. Guideline for the management of ingested foreign bodies. Gastrointest Endosc 2002;55:802-6.
4. Hachimi-Idrissi S, Corne L, Vandenplas Y. Management of ingested foreign bodies in childhood: our experience and review of the literature. Eur J Emerg Med 1998;5:319-23.
5. Zhao-Shen Li, MD, Zhen-Xing Sun, MD, Duo-Wu Zou, MD, Guo-Ming Xu, MD, Ren-Pei Wu, MD, Zhuan Liao, MD. Endoscopic management of foreign bodies in the upper-GI tract: xperience with 1088 cases in China. Volume 64, No. 4: 2006 GASTROINTESTINAL ENDOSCOPY
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