Treinamento de punção ecoguiada em modelo de gelatina

Treinamento de punção ecoguiada em modelo de gelatina

Autores:

Alexandre Campos Moraes Amato,
Stephanie Lopes de Freitas,
Patrícia Maquinêz Veloso,
Tamara Cristine Vieira Correia,
Ricardo Virginio dos Santos,
Salvador José de Toledo Arruda Amato

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.14 no.3 Porto Alegre jul./set. 2015 Epub 15-Set-2015

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.0088

INTRODUÇÃO

O acesso vascular é usado na administração de fluidos e drogas durante o suporte avançado de vida, porém seu alcance pode ser difícil no paciente gravemente doente, portanto é imprescindível a capacitação técnica da classe médica para a obtenção de um acesso vascular rápido e eficiente1.

Nos EUA são realizados cerca de 5 milhões de punções venosas centrais por ano, sendo que sua taxa de complicação é de cerca de 15%. Pela alta incidência da adoção desse procedimento, é de extrema importância a prevenção de suas possíveis complicações, que chegam a cerca de 750.000 eventos adversos por ano conforme dados americanos. Dentre as complicações, podemos elencar: pneumotórax, punção arterial; hematomas; lesão do nervo frênico e do gânglio estrelado, que podem levar o paciente a um quadro grave2 - 4.

Um dos principais fatores que influenciam no sucesso desse procedimento está relacionado à experiência do profissional envolvido que, tradicionalmente, utiliza marcos anatômicos para realizar a punção venosa central, além das variações anatômicas que podem dificultar sua execução. Desde 2001, a Agency for Healthcare Research and Quality recomenda 11 práticas para melhorar a segurança nos cuidados de pacientes submetidos a cirurgias e/ou internados, entre elas está a utilização do ultrassom para guiar as punções venosas centrais com a intenção de aumentar a segurança do procedimento e, com isso, minimizar os riscos2 - 6.

Procedimentos de treinamento devem ser usados sabiamente como forma de familiarizar o aluno à técnica, porém os modelos existentes são de alto custo ou não são eficientes, uma vez que um modelo ideal de treinamento deve ser semelhante ao que será presenciado em um paciente. O objetivo desse trabalho de desenvolver um modelo capaz de simular um procedimento cotidiano, econômico e realista é um verdadeiro desafio7 , 8.

MATERIAL E MÉTODO

Para realização do modelo proposto foram necessários os seguintes materiais (Tabela 1): 300g de gelatina incolor e sem sabor; 1200ml de água quente; recipiente de plástico de 1,8 litro; recipiente de plástico perfurado; furadeira; 2 serras copo de tamanhos diferentes; 2 canos de plástico de diâmetros semelhantes aos das serras copo; batedeira; uma batedeira; cola quente; colher; e refrigerador.

Tabela 1. Lista de materiais utilizados. 

Material
• 300g de gelatina incolor e sem sabor;
• 1200ml de água quente;
• recipiente de plástico de 1,8 litro;
• recipiente de plástico perfurado;
• furadeira;
• 2 serras copo de tamanhos diferentes;
• 2 canos de plástico de diâmetros semelhantes aos das serras copo;
• batedeira;
• cola quente;
• colher;
• refrigerador.

Para preparação do modelo, seguimos as seguintes etapas: Em um recipiente de plástico, fazer dois orifícios de tamanhos diferentes dos dois lados (no total serão quatro orifícios) com a serra copo (Figura 1A) e introduzir, nesses orifícios, dois canos plásticos de forma que atravessem o recipiente (Figura 1B). Com a cola quente, vedar os orifícios já com os canos para evitar vazamentos. Aquecer a água e misturar a gelatina delicadamente; para facilitar a dissolução usar a batedeira (Figura 1C). Com a colher retirar todas as bolhas de ar antes que haja o endurecimento da gelatina. Despejar o conteúdo, levando-o em seguida para o refrigerador até seu endurecimento (Figura 1D). Com o auxílio de uma colher retirar as bolhas remanescentes enquanto o conteúdo endurece. Após o endurecimento da gelatina, retirar com cuidado os canos e desenformar. Em outro recipiente também plástico, mas sem os orifícios, colocar o molde de gelatina e preencher com água. Os orifícios presentes no molde ficarão preenchidos por água simulando o sangue dentro dos vasos (Figura 2)9.

Figura 1. Criação do modelo: A) recipiente com dois orifícios contralaterais, no exemplo acima foram feitos quatro orifícios para passagem de dois tubos; B) dois tubos passando pelos orifícios do recipiente; C) ingredientes sendo misturados; D) gelatina preparada sendo colocada no recipiente. 

Figura 2. Resultado final: Modelo de gelatina de vasos. 

RESULTADO

O modelo criado apresentou consistência adequada para a representação mais realista dos tecidos humanos durante o ensino de punções ecoguiadas. O formato sugerido para o modelo acrescido da consistência permitiu que as imagens formadas ao ultrassom fossem semelhantes à anatomia normal simplificada, identificando-se claramente os tecidos adjacentes, o lúmen do vaso, seu conteúdo líquido e sua parede ecorrefringente. A transparência parcial do material, possibilitou a visualização externa do procedimento de punção, auxiliando na compreensão da técnica de Seldinger (Figuras 2, 3 e 4).

Figura 3. Resultado ultrassonográfico: Imagem transversal do modelo. A) sem compressão; B) com compressão semelhante à arterial. 

Figura 4. Modelo em uso: Imagem ultrassonográfica em modo B evidenciando: A) imagem transversal evidenciando agulha no centro do vaso; B) imagem longitudinal mostrando trajeto percorrido pela agulha até o centro do vaso. 

DISCUSSÃO

O acesso venoso central é um procedimento de grande importância na prática médica, que requer habilidade e conhecimento anatômico de seu executor, e potencial causador de graves complicações. O uso do ultrassom no acesso venoso central possibilita avaliar a localização e o diâmetro dos vasos, facilitando a inserção e/ou a escolha do sítio de punção devido à visualização direta da progressão da agulha e fio-guia. Tal recurso às imagens, igualmente diminui as tentativas de punção, melhora as taxas de sucesso de inserção, minimiza as complicações relacionadas ao catéter e reduz o tempo de inserção, principalmente em pacientes com dificuldade de acesso vascular10.

Diversos modelos são confeccionados com o intuito de simular procedimentos médicos, contudo a maioria deles pouco se aproxima ao que se encontra no paciente real11 , 12. Motivados em melhorar e aproximar da realidade os modelos disponíveis, a presente pesquisa busca a criação de um modelo de gelatina que permita a realização de treinamento de punções ecoguiadas, transversais e longitudinais.

Constatou-se que esse modelo se aproxima da realidade do procedimento médico (Figuras 3 e 4), pois a consistência da gelatina é próxima aos tecidos humanos, além da sensação tátil ser mais fiel ao momento real de alcance ao interior do vaso e aspiração do seu conteúdo. Por meio da imagem do ultrassom observa-se as diferentes estruturas principais, como o lúmen e os tecidos adjacentes, tanto no modo transversal como longitudinal. Entretanto, para o ensino da técnica de punção ecoguiada é necessário atenção em alguns pontos principais, que podem ser ensinados com o modelo, tais como: punção com visualização transversal, punção com visualização longitudinal, visualização da agulha no ecodoppler, visualização da mudança estrutural e transmissão da vibração à passagem da agulha. O que não pode ser adequadamente ensinado com o modelo proposto são os pontos anatômicos de referência, a visualização do fluxo sanguíneo, o colabamento venoso e a pulsatilidade arterial. Ademais, a ecogenicidade da gelatina aproxima-se a dos tecidos humanos, porém não há diferenciação de estruturas adjacentes ao vaso, como as artérias, os nervos e os músculos (Figuras 3 e 4).

CONCLUSÃO

O método proposto permite criar, para treino de punção ecoguiada básica em larga escala, um modelo de baixo custo (aproximadamente R$55,00) e fácil confecção, por meio de materiais de uso cotidiano, tornando possível a simulação de um procedimento corriqueiro, porém de extrema importância para a prática médica.

REFERÊNCIAS

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