Um corpo de cartógrafo

Um corpo de cartógrafo

Autores:

Flavia Liberman,
Elizabeth Maria Freire de Araújo Lima

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.19 no.52 Botucatu jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622014.0284

ABSTRACT

Cartography has been discussed in Brazil as a research method that makes the assumption of methodological reversal, in which the research path is set prior to the goals that are to be attained. This text seeks to contribute to the discussions on the education for cartographers, considering that to conduct research from a cartographic perspective requires a body that mobilizes certain qualities such as attention, presence, availability and sensitivity, among others. By bringing our experience of theory and practice closer to the thinking of authors with links to the philosophy of difference and Keleman and Favre’s ideas on topics involving the body, it was sought to systematize some guides for constructing a body for cartographers, which could guide research, professional practice and the teaching-learning process. Over the course of this text, we have sought to consider the construction of devices that can promote meetings formed by affections and events.

Key words: Body; Cartography; Education

RESUMEN

La cartografía se ha discutido en Brasil como un método en investigación que presupone una reversión metodológica en la cual el caminar en la investigación antecede la definición de metas a alcanzar. Este texto busca contribuir para las discusiones sobre la formación del cartógrafo, considerando que para realizar una investigación en la perspectiva cartográfica es necesario un cuerpo que movilice algunas cualidades tales como atención, presencia, disponibilidad, sensibilidad y otras. Al aproximar nuestra experiencia teórico-práctica del peensamiento de autores vinculados a la filosofía de la diferencia y de las ideas de Keleman y Favre sobre temáticas que envuelven el cuerpo, se buscó la sistematiación de algunas guías para la construcción de un cuerpo de cartógrafo que pudieran servir de orientación en la investigación, en la práctica profesional y en los procesos de enseñanza-aprendizaje. Durante el texto, buscamos pensar en la construcción de dispositivos que puedan promover encuentros plasmados por afectos y acontecimientos

Palabras-clave: Cuerpo; Cartografía; Formación

A cartografia tem se insinuado nos meios acadêmicos como método de pesquisa, entre a miríade de métodos em pesquisa qualitativa1-8. Porém, os pesquisadores que trabalham nessa perspectiva insistem: a cartografia só pode ser pensada como método se entendermos método como aquilo que nos faz compreender a nossa potência de conhecer9.

A cartografia implicaria, então, disposição para afirmar uma potência da própria vida. Quem se lança a essa aventura é convidado a conectar-se com o pulsar da vida em seu corpo e com caminhos para os quais esse pulsar aponta. Para Rolnik10, a matéria-prima da cartografia são as marcas feitas num corpo. A violência vivida no encontro entre um corpo e outros desestabiliza-o, colocando a exigência de invenção de algo que venha a dar sentido e corporificar essa marca: um novo corpo, outro modo de sentir, pensar, um objeto estético ou conceitual.

A pesquisa faz-se assim como cartografia do meio em que o pesquisador está mergulhado na produção de mapas referentes aos encontros vividos nesses trajetos e aos afetos e sensações ali produzidas.

Deleuze e Guattari1 1 opõem dois procedimentos científicos: um consiste em ‘reproduzir’; outro, em ‘seguir’. Um seria de reprodução, iteração e reiteração; o outro, de itineração, seria o conjunto das ciências itinerantes, ambulantes. Mas

[...] seguir não é o mesmo que reproduzir, e nunca se segue a fim de reproduzir. [...] Reproduzir implica a permanência de um ponto de vista fixo, exterior ao reproduzido: ver fluir, estando na margem. Mas seguir é coisa diferente [...]. Somos de fato forçados a seguir quando estamos a procura das ‘singularidades’ de uma matéria ou material e não tentando descobrir uma forma; [...] quando nos engajamos na variação contínua das variáveis, em vez de extrair delas constantes.11 (p. 39)

Da mesma forma que para os geógrafos, nesta acepção a cartografia difere do mapa. Enquanto este representa um plano estático, a cartografia “é um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem [...] o desmanchamento de certos mundos – e sua perda de sentido – e a formação de outros”3 (p. 23).

Segundo Kastrup4, o uso do método cartográfico no estudo da subjetividade afasta-se do objetivo de definir um conjunto de regras abstratas; não se busca estabelecer um caminho linear. A cartografia é um método ad hoc, construído quando se pretende não representar processos, mas acompanhá-los. A atenção volta-se à detecção de signos e forças circulantes, das pontas do processo, e não de atos ligados à focalização que visam à representação dos objetos.

O trabalho do cartógrafo exige um tipo de presença para delinear processos sempre em curso, pois os caminhos são construídos ao mesmo tempo em que se transita por eles, uma experiência cuja tarefa não é apenas produção individual, mas, também, coletiva12.

Considerando que o trabalho do cartógrafo diz respeito às marcas feitas num corpo, é necessário perguntar: que tipo de corpo é este que se deixa afetar pelo mundo? Que tipo de sensibilidade percorre este corpo para dar conta das intensidades vividas? Tal sensibilidade e abertura surgiriam espontaneamente para todos ou alguns, ou poderíamos provocá-las e exercitá-las? Seria possível, ao cartógrafo, construir um corpo – mesmo por alguns “segundos” – que embarque em seu intento exploratório-inventivo? Que práticas de si seriam possíveis criar para instaurar tal corpo? Como fazer para sustentar a experiência de um corpo “que vibra em todas as frequências possíveis”3 (p. 66)?

Tomadas por estas questões, propomos este texto para contribuir com pistas para a formação de um cartógrafo, buscando pensar linhas de produção e mobilização de um corpo que se deixa vibrar. Considerando que todos podem experimentar um corpo de cartógrafo , já que o ato de pesquisar é inerente a vida, focalizaremos aqui as discussões no exercício de pesquisa, docência e clínica.

Ao aproximarmos nossa experiência teórico-prática – como professoras/ terapeutas ocupacionais e pesquisadoras – ao pensamento de autores ligados à filosofia da diferença e das ideias de Keleman13 e Favre14,15 (c) sobre temáticas que envolvem o corpo, sistematizamos algumas guias para servirem de orientação na pesquisa, na prática profissional e nos processos de ensino-aprendizagem. As desenvolvidas aqui são aquelas que mereceram nossa atenção e podem se desdobrar em outras.

Utilizamos a noção de guia, e não de direção, como se diz de um cão-guia16. Durante a condução, o cão deve ter a capacidade de acompanhar o caminho a ser traçado pelo cego sem, no entanto, determinar o percurso, salvo quando perceber algum obstáculo que possa colocar o cego em risco de vida. Podemos pensar a guia como uma “proteção conectiva”, uma prudência para viver os encontros de modo a tornar a experiência assimilável àquele corpo.

Primeira guia: o que pode um corpo?

Estamos num grupo de mulheres na ONG Arte no Dique na Zona Noroeste de Santos. Nossas ferramentas são artes plásticas, práticas corporais, trabalho com fotografias, poemas e conversas.

As mulheres estão acostumadas a ir aos serviços de saúde para buscar uma medicação, expressar uma queixa. Temos outro desafio: não falar apenas das queixas, mas tratar da vida, olhar fotografias, produzir textos, experimentar o corpo em movimento e meditação. Ampliar o conceito de saúde e falar de arte em vez de prescrever medicação para depressão, diabetes, hipertensão. Não somos contra os remédios, mas a vida nos pede mais17 (d).

Ao trabalharmos com o nosso corpo e o do outro, nas práticas e/ou na formação, insistimos na pergunta espinosana: O que pode um corpo? Instalamo-nos no terreno das sensibilidades produzidas nos processos de subjetivação que definem modos de olhar, viver e se relacionar com a intenção de deslocar, problematizar, criar pequenas e potentes possibilidades de aproximação com o campo da corporeidade.

Nesta direção afirma-se o corpo em sua capacidade de afetar e ser afetado por outros. Na perspectiva de Spinoza18, os bons encontros são aqueles em que os corpos entram em relação de composição e aumentam sua potência de ser, agir e pensar. Para o corpo, portanto, é bom aquilo que o dispõe de tal maneira que possa ser afetado por um maior número de modos. Isso, por sua vez, aumenta a possibilidade de que aconteçam bons encontros com outros corpos (humanos ou não). Nosso corpo é continuamente restaurado por esses corpos, e pode se apresentar sob novas relações.

Certamente, estamos tocando um campo delicado. Há uma infinidade de técnicas e propostas relacionadas ao corpo. Um dos desafios é resistir à tentação de um novo adestramento, agora efetuado pelas chamadas intervenções clínicas na construção de um corpo hipercriativo, superexpressivo, que responda, rapidamente, às velocidades impostas pelos modos de subjetivação contemporâneos.

Procurando romper com essa tendência, parece-nos que a questão de Spinoza, o que pode o corpo18, em resistência àquilo que ele deve, é bastante inspiradora. Spinoza problematiza, justamente, os modos de existir construídos com matrizes modelizadoras, prescritivas e automatizadas. Ao sermos capturados por esses movimentos, a vida esteriliza-se, acabando por fazer-nos funcionar num regime de baixa potência.

Refletindo sobre o que o corpo pode e tomando-o como modelo, Spinoza abre mundos em que o desejo e a potência podem circular, sobretudo porque a pergunta não nos permite chegar a uma única resposta, mas a um terreno no qual é possível respirar.

Não existe nenhuma fórmula para esta invenção, mas alguns fins norteiam a preparação de um corpo para entrar num estado de concentração aberta, de prontidão, de presença, o que o torna suficientemente poroso para que algo aconteça. Esta preparação busca um grau justo de porosidade: um corpo pode estar excessivamente poroso de modo a deixar o mundo atravessá-lo sem, necessariamente, ser tocado por ele. Neste caso, trata-se de criar e densificar contornos, membrana, molduras para uma aventura errante19. Trata-se de um exercício permanente de sensibilidade, de vitalização de corpos e relações, com aproximações e afastamentos que ampliam e redimensionam repertórios pessoais, existenciais e profissionais, para que o corpo amplie sua capacidade de afetação.

Em relação a processos de subjetivação, trata-se do encontro com o outro em sua alteridade, e as perturbações provocadas por esse outro como presença viva em mim, a partir da permeabilidade, disponibilidade e da possibilidade de suportar as turbulências produzidas, de engendrar novos modos que pedem passagem, expressão e invenção.

Com base nisso, podemos compreender o mundo como um lugar plural, palco de acontecimentos no próprio corpo, a partir das relações que se engendram no contexto espaço/tempo, permeado pelas afetações e modos de relação produzidos nos encontros. Vislumbra-se o corpo como um ambiente dentro de um ambiente, que, por sua vez, se encontra dentro de outro – camadas infinitamente entrelaçadas em redes de comunicação15.

Segunda guia: o corpo como pulso

Por meio de um enrijecimento da musculatura entre as escápulas e atrás da nuca, e levando os ombros em direção um ao outro pela frente, o corpo se encolhe e fecha, produzindo uma dor nas costas insuportável. Acompanhando essa posição de “certo esmagamento de si”, as mãos apertam o rosto, os joelhos aproximam-se como se quisessem ocultar algo da intimidade. Vemos um braço procurando apertar as vísceras, num traço de agressividade contra o corpo e a vida que quer se expressar, falar de si, tornar-se presença(e).

O corpo é foco de estudos e intervenções. Alguns paradigmas concebem-no apenas em seu aspecto sensório-motor, enquanto outros transitam prioritariamente por uma dimensão psicológica. Procurando contribuir para a formulação de outras perspectivas no campo, pensamos o corpo como pulso, multimídia, multifacetado, que se (des)constrói permanentemente nos encontros entre corpos.

Keleman13 alia o estudo da biologia, do corpo-matéria, às questões da vida – do unicelular ao multicelular, um organismo é compreendido como vivo e afetado continuamente por outro, que o obriga, continuamente, a alterar os mapas que orientam as formas do viver, fazer coisas, relacionar-se, criando outros modos e repertórios que constituem outros mapas novamente afetados, desmanchados, reconfigurados.

Nesse contexto, podemos afirmar que os estudos anatômicos tendem a utilizar imagens bidimensionais, perdendo o vivido. Em contrapartida, é comum faltar à psicologia a compreensão anatômica. Sem anatomia não há afetos.

Os acontecimentos têm uma arquitetura somática. “Portanto, pensar o corpo significa tentar tocá-lo em suas mais diferentes dimensões, entendê-lo como processos que procuram dar forma (sempre transitórias) às intensidades, corporificando as experiências”12 (p. 25). Todo o viver é um ato corporal. Os corpos se constroem e reconstroem refinadamente em cada experiência.

Para Keleman,13 o corpo estabelece uma relação com o mundo num movimento pulsátil de contração e expansão. Saímos em direção ao mundo, voltamos e, nesse movimento, trocamos com o ambiente elementos químicos e afetos, células germinais e experiências.

A construção da anatomia acontece a partir dos tipos de vínculos e graus de azeitamento das relações que produzem os mais variados corpos por meio das experiências no mundo. A construção desses corpos e seus modos de funcionamento são efeitos: da cultura, da genética, dos acontecimentos vividos, dos tipos de vínculos estabelecidos ao longo de uma existência, e da subjetividade que acompanha, molda e orienta certos modos de funcionamento dos corpos em determinado tempo/espaço.

Terceira guia: afirmar a potência da materialidade dos corpos

Numa reunião de docentes, o tema do desconhecimento dos alunos em relação aos seus corpos é recorrente. Alguns dizem da falta de experiências corporais e da necessidade em oferecermos oportunidades para que o aluno entre em contato com o seu corpo, sinta seus músculos, seus ossos, sua pele.

Professores e estudantes, passamos, muitas vezes, tempo excessivo diante do computador, sem atentar ao que se passa em nosso corpo, que fica como que anestesiado. No dia seguinte, as costas doem, a nuca está rígida e a mente inundada de excitação20 (f).

Afirmar a materialidade do corpo é cada vez mais necessário num mundo onde saberes hegemônicos, como a tecnociência, apresentam o corpo como um obstáculo a ser ultrapassado na busca de um ideal ascético, artificial, virtual, imortal21. Segundo Gomes21, existem, hoje, estudos voltados para o poder de manipulação inerente às novas tecnologias de visualização e à tendência da imagem digital de separar o observador de sua corporeidade, compreendida como empecilho para uma expansão ilimitada no tempo e no espaço.

Na contramão dessa tendência, nossa proposta seria explorar as condições que atravessam a materialidade finita dos corpos e sua potência para produzir conexões, experimentar encontros, compor-se com o ambiente, conhecer e produzir mundos.

Fabião22, em seu texto, Corpo cênico, Estado cênico, apresenta-nos aspectos sobre o corpo em suas diferentes potências. A autora define o corpo constituído de densidades cambiantes, sólido, pastoso, líquido, gasoso, elétrico e gelatinoso. Essas qualidades fazem com que estejamos permanentemente vibrando, uma vibração mínima, radicalmente permeável. Contra a ideia de corpos rígidos, autônomos e acabados, a autora fala de um “corpo-campo performático, dialógico, provisório” (p. 322). Contra a certeza das formas inteiras e fechadas, o corpo é visto como sistema relacional em estado de geração permanente, cuja condição denominada corpo-cênico acentua sua participação no mundo, amplificando a sua metamorfose pela intensa fricção entre corpos, entre corpo e mundo, entre mundos.

Os corpos estão em constante autoprodução. A forma humana, herdeira da evolução, da embriogênese e da experiência, é o suporte desta autoprodução, “constituindo formas somáticas [... operadoras] de condições ambientais, físicas e afetivas”14 (p. 13).

Favre14 ressalta a necessidade de se apreender o mundo como uma ecologia relacional, pautada pelos vínculos e pela afetividade. É necessário lembrar que o vínculo está relacionado à capacidade conectiva do sujeito e seu entorno. Ela se estende em várias direções, caminhos e modos, produzindo corpos que são expressões vivas de um contínuo desses processos.

Para Deleuze23, “O certo é que crer não significa mais crer em outro mundo, nem num mundo transformado. É [...] crer no corpo. Restituir o discurso ao corpo, e [...] atingir o corpo antes dos discursos, antes das palavras, antes de serem nomeadas as coisas” (p. 209).

Quarta guia: colocar-se à espreita

Caminhar pelas ruas do Bairro dos Morros, em Sorocaba, olhar as casas, o mercado, conversar com as pessoas, observar, perscrutar um ambiente desconhecido, deixar-se impregnar por tudo aquilo que está acontecendo visível e invisível a olho nu. Criar estratégias de aproximação com o outro, de torná-lo presença viva em nós. Nossa presença ali mobilizava, fazia acontecer, nos corpos, sensações, ideias, contrações e retrações, pulsos dinâmicos e diversos24 (g).

Em termos metodológicos, clínica e práticas de pesquisa envolvem corpos que devem se colocar à espreita dos acontecimentos que emergem, realizar pousos no movimento incessante, ativar memórias no/do corpo, pensamentos, sensações25 (h)– colocar-se à espreita de acontecimentos que abram o corpo para que possamos exercitar a arte dos encontros; fazer como os animais sabem, relaciona-se à construção de um estado de presença. Como organizar então um estado de presença?

Para Favre26, as ações criam presença e constroem a forma de maneira conectiva. Isso sustenta a produção dos tecidos e das interações.

São processos denominados por Keleman e Favre de co-corpar com/no acontecimento. Os corpos estão em rede e são atravessados por substâncias, acontecimentos e intensidades.

O acontecimento dá-se por um encontro que desestabiliza um estado de coisas, desterritorializa uma organização subjetiva, uma corporeidade, uma teia de sentidos. Para acompanhá-lo, é preciso ir além do momento de desestabilização ou crise e poder criar novos corpos, ritmos, mundos à altura do acontecimento feito de simultaneidades. Muitas camadas estão implicadas: ecologias físicas, afetivas, sociais, antropológicas, culturais, históricas, tecnológicas, políticas, de poderes e valores… A incorporação do acontecimento dá-se num campo corpante (bodying-field)13,26, no qual os diversos corpos presentes ao acontecimento se encontram, afetam-se e põem-se em devir. Estar presente ao acontecimento, colocar-se à espreita envolve um trabalho para que se possam alcançar os limiares da própria percepção.

Para Gil27, esse deslocamento da percepção implica uma atitude na qual nos colocamos não apenas em posição de ver ou observar, mas numa com-posição com aquilo para o qual nos dirigimos: participamos do espetáculo total da paisagem e relacionamo-nos ativamente com cada um de seus elementos.

Olhar e perceber são pensados aqui como laços enlaçando-nos às coisas, por meio de uma percepção pequena, molecular, enraizada na corporeidade enquanto sensibilidade e motricidade, que envolve atos que, além de perceptivos, são expressivos. Ao acessarem estados e acontecimentos que ainda não podem ser nomeados, esses atos refletem-se numa linguagem não verbal, apta a lançar e captar forças, sinais ínfimos, quase invisíveis. Trata-se de uma linguagem das percepções sutis que procuram seu caminho para a expressão.

Integrando-se ao ambiente, o olhar e as pequenas percepções atravessam o campo de perceptibilidade em direção às suas margens, captando as cintilações do invisível. Essas micropercepções estão em relação com o imperceptível, os movimentos da ordem do devir, puros afetos que se inscrevem nos limiares da percepção.

Tornar a percepção molecular é o próprio princípio de composição: “É que a percepção não estará mais na relação entre um sujeito e um objeto, mas no movimento que serve de limite a essa relação”28 (p. 76).

Quinta guia: a invenção de práticas e dispositivos de produção de um corpo de cartógrafo

Em sala de aula, as fotos eram passadas de mão em mão, percorriam uma roda que exalava silêncios, palavras, agitações e leves turbulências, que, às vezes, dava lugar a um turbilhão. Algumas pessoas não se continham e começavam a conversar, contavam histórias, comentavam as fotografias, mostravam, por meio de seu corpo, que a proposta causou um motim interno20(i).

Permeando todas as guias, interessam-nos dispositivos que favoreçam a instauração de um corpo de cartógrafo. São necessárias práticas que abram o corpo ao campo dos afetos e ao plano das intensidades. Mas é preciso adicionar um elemento importante para essas práticas: prudência e cuidado para que a experimentação se faça no plano das intensidades sem, no entanto, alcançá-lo ou nele cair. Deleuze e Guattari29 dizem que “é necessário guardar o suficiente do organismo para que ele se recomponha a cada aurora”, pois “o pior não é permanecer estratificado – organizado, significado, sujeitado – mas precipitar os estratos numa queda suicida” (p. 23). Assim, sugerem-nos nos instalarmos numa configuração, num território existencial, num corpo em sua materialidade, e buscar aí pontos favoráveis para linhas de fuga possíveis, movimentos de desterritorialização que possam, a cada momento, reinventar o corpo.

Mas se a construção de um corpo de cartógrafo tem por limite um plano de intensidade, o limite oposto faz-se numa estratificação extrema, na qual qualquer experiência de diferenciação fica impedida, pois, mesmo se o corpo estiver em encontro permanente com o mundo, esse mesmo corpo em comportamento cotidiano pode agir e relacionar-se de forma a despotencializar ou impedir a receptividade àquilo que o atravessa.

No modo de vida contemporâneo, a abertura do corpo ao mundo pode estar despotencializada, pois há toda uma maquinaria que constrange uma ação corporal mais potente. Esse constrangimento corpóreo, muscular e emocional gera “clichês” corpóreos e comportamentais.

É preciso, então, perguntar: que forças estão presas e constrangidas? Como escapar aos comportamentos excessivamente mecanizados e conformados? Como enfrentar essas formas corpóreas pré-dadas, produzidas em outras situações e que já não nos servem mais? Como liberar esse campo corpo-espaço-outro para fins de produção de outras potências de vida? Como “desconstruir modos de funcionamentos dos corpos para que algo possa ser inventado, na contramão de certos automatismos que anestesiam os corpos e as vidas”?30 (p. 225).

A ética está em selecionar aquilo a que convém abrir meu corpo a partir de um critério bem preciso: a composição possível entre a intensidade para a qual meu corpo se abre e o plano de consistência que é possível criar. “A prudência enquanto arte envolvida com as intensificações de uma vida” envolve “a procura de um lugar extensivo para situá-la”, isto é, “ligar os encontros intensivos à construção de um plano de consistência”31 (p. 30), criar linguagens, transformar o corpo, fazer tecidos novos, incorporar o vivido.

Para essa empreitada, coloca-se a utilização dos mais variados dispositivos, que possam promover encontros plasmados por afetos e acontecimentos, na tentativa de criar corpos que possam sustentar as intensidades vividas e permitam a observação de si, a aproximação com o outro e a criação de mundos. É preciso, portanto, “levar a arte da prudência a envolver-se com regras ou procedimentos produtivamente favoráveis a uma experimentação curtida a cada instante pelo ficar à espreita de algo forte demais”31 (p. 29).

Estou sentada ao lado dela. Nosso grupo já se reúne há quase dois anos e, enquanto estudamos os corpos em formatividade, vamos reconhecendo, em nós mesmos, os processos que formaram nosso corpo como ele se presentifica agora e aqui.

Estamos experimentando uma proposta de exercício em torno de movimentos de contração e expansão. Ela reconhece, naquele gesto de contrair-se e fechar as mãos, um lugar em que o seu corpo esteve há muitos anos, quando foi presa nos porões da ditadura. Obviamente, é um lugar para o qual não quer voltar, mas, também, percebe que algo ficou estancado ali, naquele tempo, que agora ela quer fazer fluir. Enquanto fecha e contrai cada vez mais as mãos, começa a falar e contar com muitos detalhes o que viveu ali, sozinha naquela cela. Sua voz é monocórdica; seu relato, sem emoção.

Estou ao seu lado e não posso me conter; começo a chorar copiosamente seu choro que não pode fluir. Choro muito, e sinto que, como Alice, começo a me afogar no lago de lágrimas que se forma em torno a mim. Ela continua e diz que é comum as pessoas chorarem quando conta sua história, mas ela nunca chorou.

Então, a coordenadora do grupo pede que interrompa seu relato e comece muito lentamente a abrir os dedos das mãos, a essa altura tão contraídos que as unhas começam a se cravar na palma. Ela aceita o convite: com grande esforço, muito lentamente, começa a abrir as mãos. E não demora muito para que suas lágrimas, estancadas por mais de trinta anos, comecem a correr. As comportas foram abertas.

Ela só pôde abrir seu corpo para terminar de viver aquele acontecimento porque estava num ambiente confiável, acompanhada e sustentada por uma rede de afetos. Veio até ali para cuidar de si e experimentar outro corpo e outra sensibilidade que pudesse se desdobrar de dentro desse corpo, construído numa situação de violência e opressão extremas.

E eu? Vivi ali, em meu corpo, numa atualização da experiência de outro, de uma virtualidade que só existia em seu corpo, uma dor até então desconhecida e que minha imaginação nunca teria podido alcançar.

Dois corpos corajosamente se abrindo para a experiência de turbulência arrasadora, para poderem se fazer outro32 (j).

Nos encontros, expressam-se e se produzem diferentes graus de abertura, diferentes graus de intensidade; turbulências acontecem, geram-se outros repertórios existenciais que se solidificam. Pequenos eventos podem reverberar em outros modos de funcionar, viver e apresentar-se frente ao outro, criando realidades.

Fazer um corpo de cartógrafo implica um dobrar-se sobre si, e envolve a invenção de dispositivos que apontam para o cuidado de si: dobrar a linha. Se corpo e subjetividade são produzidos pelo poder, tomar para si os processos de subjetivação e de produção de corpos inscreve-se num movimento de resistência e luta contra os modos de assujeitamento33.

Estas práticas ou tecnologias de si envolvem a construção de um corpo multidimensional de experiências, hereditariedade, cultura, trabalho sobre si e, simultaneamente, invenção de mundos. Cada corpo é um mundo e inventa seus próprios dispositivos, práticas de si.

Contornos finais

Este texto busca afirmar o corpo como matéria viva do trabalho do cartógrafo, e desenvolve a ideia de que, para realizar uma pesquisa na perspectiva cartográfica, é preciso um corpo que mobilize algumas qualidades como: atenção, presença, disponibilidade e sensibilidade. Estas qualidades podem ser exercitadas, e as guias aqui apresentadas são norteadoras dessa pesquisa permanente do próprio corpo para que seja possível acessar essas dimensões. Não existem fórmulas prontas, apenas uma longa preparação.

A ideia de pesquisa, neste caso, não está restrita apenas ao campo científico, mas refere-se à investigação de mundos presentes também nas práticas clínicas e nos processos de aprendizagem. O trabalho do cartógrafo é assim um trabalho de produção permanente de si, na experimentação de um corpo que, continuamente, se configura nos encontros com outros corpos.

As guias indicam a pluralidade de atravessamentos que se fazem no trabalho e que deslizam por aspectos subjetivos e objetivos, físicos e psíquicos, materiais e imateriais.

Em nenhum momento, apontamos a necessidade de “chegar lá”, num lugar ou forma idealizada, pois ele inexiste. E manter a ilusão de sua existência tende a impedir o encontro. Também não se trata de exigir “grandes performances”, mas um olhar refinado ao que é pequeno, ao mínimo, ao quase invisível que se engendra nos contatos.

Por fim, podemos dizer que o encontro do cartógrafo com o mundo é criação permanente e delicada, sem garantias, “para se saber um pouco mais de si, abrir e ampliar repertórios e conectividades com mundo e para experimentar o que o corpo pode”12 (p. 229).

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