Um protocolo de teste do degrau de seis minutos para a investigação de dispneia

Um protocolo de teste do degrau de seis minutos para a investigação de dispneia

Autores:

Aline Aparecida Simsic,
Ada Clarice Gastaldi,
José Baddini-Martinez

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713

J. bras. pneumol. vol.40 no.6 São Paulo nov./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132014000600012

Ao Editor:

A dispneia é um sintoma comum e um importante fator contribuinte para a baixa qualidade de vida nas doenças respiratórias. ( 1 , 2 ) Embora a abordagem ideal para o alívio da dispneia seja o tratamento da etiologia primária, há situações em que esse sintoma persiste independentemente das melhores terapias disponíveis.

Como atualmente não existem agentes farmacológicos altamente eficazes contra a dispneia per se, a busca por novos medicamentos deve ser priorizada.( 1 ) Estudos visando à investigação dos aspectos fisiológicos da dispneia geralmente exigem metodologia complexa, incluindo exames de imagem do sistema nervoso central e testes de exercício cardiopulmonar. Embora esses métodos sempre serão necessários para a caracterização dos mecanismos de ação e dos efeitos fisiológicos de novos medicamentos antidispneia, a seleção de agentes promissores pode ser feita de forma mais rápida e menos dispendiosa com o uso de metodologias mais simples.

Os testes do degrau têm sido utilizados em indivíduos saudáveis, e muitos protocolos foram adaptados para pessoas com doenças cardiopulmonares.( 3 - 5 ) Esses testes requerem pouco espaço e são adequados para se obter uma contínua monitoração cardíaca e dos sintomas de forma simples.

Desenvolvemos um protocolo de teste do degrau de seis minutos (TD6) visando à obtenção de respostas de dispneia consistentes e reprodutíveis em pacientes com DPOC. A junta institucional de revisão aprovou o estudo. Incluímos 16 pacientes (14 homens; média de idade = 64,3 ± 8,1 anos; VEF1 = 37,6 ± 14,5%; VEF1/CVF = 42,4 ± 10,3%; saturação da oxi-hemoglobina = 94,9 ± 2,2%), que realizaram três visitas ao laboratório. As médias dos intervalos de tempo entre as visitas 1 e 2 e entre as visitas 2 e 3 foram, respectivamente, de 4,8 ± 3,1 dias e 5,5 ± 2,1 dias. Os sujeitos subiram e desceram de um banco de madeira de 20 cm de altura, em seu próprio ritmo, durante 6 min. A monitoração incluiu oximetria de pulso e escores de dispneia (empregando-se uma escala numérica variando de 0 a 10) a cada 2 min. Os voluntários realizaram dois testes na visita inicial, com 30 min de intervalo entre eles. O maior número de degraus subidos nessa visita foi empregado para calcular a velocidade a ser aplicada em avaliações adicionais. Um metrônomo eletrônico computadorizado que emite sinais sonoros cadenciou o ritmo dos outros testes. Os pacientes receberam, de forma aleatória, placebo inalatório ou 200 mg de salbutamol inalatório 20 minutos antes dos TD6 nas visitas 2 e 3. Como os escores de dispneia exibiram alguma variação, foram feitas correções subtraindo-se os escores aos 2, 4, 6 e 8 minutos, do valor basal.

Os escores de dispneia foram semelhantes na visita 1 e após o uso de placebo inalatório (Figura 1). O salbutamol reduziu significativamente os escores de dispneia durante o exercício. Não houve diferenças significativas nas comparações entre as FCs medidas após o uso de placebo e de salbutamol. Porém, as FCs no TD6 da visita 1 foram maiores do que as observadas após o uso de placebo aos 4 min e após o uso de salbutamol aos 6 min. Os últimos achados podem ser explicados pela característica de ritmo próprio do teste inicial. O uso de um metrônomo durante as visitas 2 e 3 muito provavelmente levou à uma distribuição mais homogênea dos esforços ao longo de todo o teste.

Figura 1 - Resultados do protocolo de TD6 para investigação de dispneia obtidos de 16 pacientes com DPOC estáveis. Em A, escores de dispneia. Em B, FC em bpm. *§p < 0,05 teste inicial vs. uso de placebo. +p < 0,05 teste inicial vs. uso de salbutamol. ANOVA e teste post hoc de Tukey. 

O protocolo de TD6 para investigação de dispneia foi realizado com facilidade e foi bem tolerado pelos pacientes. Os procedimentos são simples, baratos e induzem dispneia de maneira reprodutível. Além disso, esse método permite a introdução de monitoração adicional, como parâmetros ventilatórios e medições do consumo de oxigênio, se necessário. O presente protocolo tem o potencial de se tornar uma ferramenta útil para a investigação de intervenções antidispneia na prática clínica.

REFERÊNCIAS

1. Parshall MB, Schwartzstein RM, Adams L, Banzett RB, Manning HL, Bourbeau J, et al. An official American Thoracic Society statement: update on the mechanisms, assessment, and management of dyspnea. Am J Respir Crit Care Med. 2012;185(4):435-52.
2. Martinez TY, Pereira CA, dos Santos ML, Ciconelli RM, Guimarães SM, Martinez JA. Evaluation of the short-form 36-item questionnaire to measure health-related quality of life in patients with idiopathic pulmonary fibrosis. Chest. 2000;117(6):1627-32.
3. Andrade CH, Cianci RG, Malaguti C, Corso SD. The use of step tests for the assessment of exercise capacity in healthy subjects and in patients with chronic lung disease. J Bras Pneumol. 2012;38(1):116-24.
4. Dal Corso S, Duarte SR, Neder JA, Malaguti C, de Fuccio MB, de Castro Pereira CA, et al. A step test to assess exercise-related oxygen desaturation in interstitial lung disease. Eur Respir J. 2007;29(2):330-6.
5. Dal CorsoS, de CamargoAA, Izbicki M, Malaguti C, Nery LE. A symptom-limited incremental step test determines maximum physiological responses in patients with chronic obstructive pulmonary disease. Respir Med. 107(12):1993-9.
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