UMA CAUSA INUSITADA DE ABDOME AGUDO: INFARTO ESPLÊNICO

UMA CAUSA INUSITADA DE ABDOME AGUDO: INFARTO ESPLÊNICO

Autores:

Itai GHERSIN,
Adi LEIBA

ARTIGO ORIGINAL

ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.30 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2017

https://doi.org/10.1590/0102-6720201700040015

INTRODUÇÃO

O infarto esplênico é causa incomum de abdome agudo4. As frequentes incluem doença hematológica (como leucemia, linfoma, mielofibrose, policitemia vera), distúrbios tromboembólicos, doença vascular esplênica, distúrbios pancreáticos, vasculite, hipertensão portal, endocardite bacteriana, doença falciforme e distúrbios infiltrativos1,3. É complicação bem documentada do linfoma. No entanto, há apenas alguns relatos de infarto esplênico como a manifestação inicial de linfomas2,5, sem que se descreva um abdome agudo devido ao infarto esplênico como a apresentação inicial do linfoma difuso de células B grandes (DLBCL), ao nosso conhecimento.

Aqui, é relatado um caso de paciente que apresentou abdome agudo, e foi encontrado infarto esplênico na imagem. Investigação subsequente revelou DLBCL como a causa.

RELATO DE CASO

Um oficial militar de idade média de 36 anos apresentou-e à clínica de cuidados primários com história de três dias de dor epigástrica. A dor foi acompanhada de náuseas, sem vômitos e por anorexia. Seus sinais vitais eram normais. Ele estava doente e angustiado, com exame abdominal mostrando sensibilidade marcada no epigástrio com sinais peritoneais, impossibilitando a avaliação clínica para a organomegalia.

Suspeitando de emergência abdominal cirúrgica, ele foi encaminhado para a sala de emergência. Lá, após avaliação por internista e cirurgião, foram realizados exames laboratoriais urgentes e TC de tórax e abdome. A contagem sanguínea completa mostrou anemia (hemoglobina 10 g/dl), leucocitose (12,3* 109/l) com diferencial normal e plaquetas normais. A química do sangue revelou eletrólitos normais e função renal, enzimas hepáticas elevadas (AST-210 U/l, ALP-551 U/l), LDH-13.000 U/l e ácido úrico 10 mg/dl. Testes de triagem de coagulação não demonstraram quaisquer anormalidades.

Ultrassonografia abdominal revelou esplenomegalia (diâmetro esplênico de 22 cm) com grande área hipoecóica e heterogênea na periferia do baço, sem fluxo sanguíneo nesta área (Figura 1), achado compatível com grande infarto esplênico.

FIGURA 1 Doppler colorido longitudinal do baço demonstrando uma região hipoecogênica periférica do polo superior, que não tinha fluxo sanguíneo (asterístico branco). Ela está claramente demarcada do parênquima esplênico normal, mais ecogênico (asterístico preto), que demonstra o fluxo normal de Doppler colorido nos vasos esplênicos intraparenquimatosos (seta branca) 

Foi realizada uma TC de tórax e abdome, revelando hepatomegalia marcada e esplenomegalia (22 cm) com múltiplas lesões esplênicas hipodensas periféricas bem definidas em forma de cunha, altamente sugerindo múltiplos infartos esplênicos (Figura 2). Aumento significativo dos linfonodos, tanto acima como abaixo do diafragma, também foi demonstrado, bem como derrame pleural de lado esquerdo.

FIGURA 2 Imagem coronal multiplanar de TC abdominal contrastada aumentada demonstra baço marcadamente ampliado com extensão de 22 cm (seta preta com medida), com múltiplas hipodensidades periféricas bem definidas em cunha, altamente sugestivas de múltiplos infartos esplênicos (setas brancas) 

Com base nestes achados, foi sugerido diagnóstico de linfoma, complicado por infartos esplênicos. Análise posterior, incluindo biópsia dos linfonodos, biópsia da medula óssea com imunofenotipagem (CD20 positivo, CD5 fracamente positiva, KI67=95%) e a imunofenótipos dos linfócitos do sangue periférico (CD5, CD19 positivo, CD23 negativo) revelaram que o paciente estava sofrendo de linfoma de células B grandes difusas. O tratamento com hidratação, alopurinol e analgésicos foi iniciado imediatamente, com melhora relativamente rápida dos sintomas abdominais e foi seguido por quimioterapia com regime de hiper-CVAD.

O paciente inicialmente foi submetido a transplante autólogo de células tronco periféricas, mas sofreu recorrência da doença após o tratamento. Mais tarde, ele conseguiu remissão após o transplante alogênico de medula óssea, e agora retornou para servir nas forças armadas em função administrativa.

DISCUSSÃO

Este caso serve como um lembrete de que os linfomas podem inicialmente se manifestar como abdome agudo devido a infarto esplênico. Acreditamos que este seja o primeiro caso que descreve abdome agudo devido ao infarto esplênico como a apresentação inicial do linfoma difuso de células B grandes (DLBCL) na literatura médica inglesa.

Embora seja uma forma de apresentação bastante rara, os médicos de todas as especialidades devem estar atentos, uma vez que a avaliação imediata, o diagnóstico e o início do tratamento são de extrema importância nesses casos. Os cirurgiões devem estar particularmente alertas, já que a maioria dos casos de abdome agudo são submetidos à avaliação cirúrgica no serviço de emergência.

REFERÊNCIAS

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2 Kwon SY, Lee JJ, Chung IJ, Kim HJ, Park MR, Kim HS, Park CS. Hepatosplenic B-cell lymphoma associated with hemophagocytic syndrome: a case report. J Korean Med Sci. 1999 Dec;14(6):671-4.
3 Lawrence YR, Pokroy R, Berlowitz D, Aharoni D, Hain D, Breuer GS. Splenic infarction: an update on William Osler's observations. Isr Med Assoc J. 2010 Jun;12(6):362-5.
4 Spaziani E, Di Filippo A, Picchio M, Pietricola G, Ceci F, Ottaviani M, Martellucci A, Pattaro G, De Angelis F, Parisella F, Pecchia M, Stagnitti F. A rare cause of acute abdomen: splenic infarction. Case report and review of the literature. G Chir. 2010 Aug-Sep;31(8-9):397-9.
5 Tokura T, Murase T, Toriyama T, Totani Y, Negita M, Akaza K, Ozawa H, Nakagawa A, Nakamura S. Asian variant of CD5+ intravascular large B-cell lymphoma with splenic infarction. Intern Med. 2003 Jan;42(1):105-9.
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