Uma massa torácica incomum: oleotórax

Uma massa torácica incomum: oleotórax

Autores:

Bruno Hochhegger,
Gláucia Zanetti,
Edson Marchiori

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.42 no.5 São Paulo set./out. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37562015000000217

AO EDITOR:

Gostaríamos de relatar um caso de oleotórax unilateral, que gerou grandes dificuldades diagnósticas e foi inicialmente interpretado como sendo uma massa pulmonar, provavelmente de origem neoplásica. Uma mulher de 84 anos de idade apresentava tosse seca havia quatro meses. A radiografia de tórax revelou uma massa no hemitórax direito (Figura 1A). Em virtude de suspeita de câncer de pulmão, a paciente foi submetida a TC, e as imagens revelaram uma massa heterogênea localizada posteriormente no hemitórax superior direito (Figura 1B). O líquido pleural viscoso aspirado era óleo mineral. Ao aprofundarmos a discussão do caso, a paciente lembrou-se vagamente de ter recebido tratamento para tuberculose e injeção de óleo 60 anos atrás.

Figura 1 Em A, radiografia de tórax mostrando uma massa na região apical do hemitórax direito. Em B, TC axial mostrando que a massa era heterogênea e bem delimitada, sem evidências de invasão parietal. 

O oleotórax, a instilação intra ou extrapleural de óleo mineral ou vegetal no espaço pleural, foi amplamente usado desde as primeiras décadas do século XX até o fim da década de 1940. O oleotórax era uma forma de colapsoterapia usada para inibir a multiplicação e a disseminação de Mycobacterium tuberculosis pulmonar. Além de exercer um efeito de massa no pulmão adjacente, essas substâncias eram cáusticas e produziam pleurite obliterativa, o que justificava seu uso em empiemas tuberculosos. A quantidade de óleo usada variava amplamente (de 100 a 2.000 ml). Recomendava-se que a terapia durasse até 2 anos, com a remoção do óleo em seguida.1-5 No entanto, perdas de seguimento eram frequentes em casos de pacientes assintomáticos, e o óleo não era removido, como aconteceu no caso aqui relatado.

A permanência do óleo pode resultar em diversas complicações, algumas das quais ocorrem décadas mais tarde. Dentre as complicações em longo prazo do oleotórax estão fístula broncopleural, fístula pleurocutânea, obstrução das vias aéreas, empiema tuberculoso recorrente, abscesso na parede torácica e desconforto respiratório em virtude de uma massa em expansão. O oleotórax extrapleural resulta em menos complicações do que o pleural. Com o advento da quimioterapia antituberculose eficaz, a técnica foi abandonada na década de 1950.2-5 O achado tomográfico mais característico de oleotórax é uma coleção pleural encapsulada com três níveis: um nível superior com ar, um nível intermediário com conteúdo lipídico (−30 a −150 unidades Hounsfield) e um nível inferior com densidades positivas.3-5

Pode-se chegar ao diagnóstico de oleotórax a partir de imagens de TC, e o reconhecimento desse padrão é importante porque o paciente pode não saber os detalhes da intervenção antecedente realizada há muitos anos ou não se lembrar deles. Em suma, o oleotórax deve ser incluído no diagnóstico diferencial de massas torácicas, particularmente em pacientes idosos.

REFERÊNCIAS

1. López Riolobos C, Zamora García E, García Castillo E. Bilateral Oleothorax. Arch Bronconeumol. 2016;52(4):218. http://dx.doi.org/10.1016/j.arbres.2014.12.013
2. Hutton L. Oleothorax: expanding pleural lesion. AJR Am J Roentgenol. 1984;142(6):1107-10. http://dx.doi.org/10.2214/ajr.142.6.1107
3. Hochhegger B, Zanetti G, Marchiori E. Oleothorax simulating pulmonary neoplasm. Ann Thorac Surg. 2013;95(5):1807. http://dx.doi.org/10.1016/j.athoracsur.2012.09.076
4. Fahy RJ, Morales J, King M. Late reactivation of tuberculosis in an oleothorax. J Thorac Imaging. 2004;19(1):35-7. http://dx.doi.org/10.1097/00005382-200401000-00006
5. Freedman BJ, McCarthy DM, Feldman F, Feirt N. Fatty infiltration of osseous structures: a long-term complication of oleothorax--case report. Radiology. 1999;210(2):515-7. http://dx.doi.org/10.1148/radiology.210.2.r99fe42515
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