Uso de tabaco e fatores associados entre alunos de uma universidade de Criciúma (SC)

Uso de tabaco e fatores associados entre alunos de uma universidade de Criciúma (SC)

Autores:

Maria Inês da Rosa,
João Filipe Feltrin Caciatori,
Ana Paula Ronzani Panatto,
Bruno Rosa Silva,
Jeison Cleiton Pandini,
Luciana Bocaccio Sperb de Freitas,
Maria Eduarda Fernandes dos Reis,
Suéli Lummertz Souza,
Priscyla Waleska Targino de Azevedo Simões

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.22 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X201400010005

ABSTRACT

To investigate tobacco use and associated factors among college students at a university in southern Brazil in 2010, we conducted a cross-sectional study using self-reported questionnaires. The sample was divided into two main groups: the Health area and other courses The sample number in each group was divided according to the ratio of the total number of students. Students who composed the sample were selected from the first and last year of each course. Statistical analysis was performed with SPSS version 17.0(r). 584 students responded to questionnaires. The prevalence of smoking among students was 8.9%, 4.7% were smokers and 4.2% occasional smokers; 2.6% reported they were former smokers. The average age was 23.0 years (± 9.7), 62.3% were female. Among smokers 49% started smoking on their own and 27.4% under the influence of friends. We observed a significant association between smoking and alcohol use (OR 5.80; 95%CI 1.20-28.01), illicit drugs (OR 42.29; 95%CI 11.45-175.1) and the existence of other relatives who are smokers (OR 4.02; 95%CI 2.05-7.85).The prevalence of smoking found in this study was low. Smoking was significantly associated with student drugs users, consuming alcohol and to have a smoker in the family.

Key words: smoking; risk factors; epidemiology; prevalence

INTRODUÇÃO

O tabagismo é considerado hoje a principal causa de morte evitável em países desenvolvidos. São cerca de 1,3 bilhão de fumantes atualmente no mundo; destes, cerca de um bilhão é do sexo masculino, com cerca de 4,9 milhões de óbitos ao ano em consequência das doenças decorrentes do uso do tabaco, com perspectiva de dobrar esse número até 2020 caso nenhuma medida para diminuição do crescimento do tabagismo seja tomada1,2.

Entre um terço e metade dos usuários de tabaco serão mortos por ele, com uma média de 13,2 anos potencias de vida perdidos em homens e 14,5 em mulheres2.

Estudo realizado nos Estados Unidos pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) para identificar a tendência do tabagismo em universitários entre os anos de 2000 e 2009 identificou uma diminuição da prevalência de tabagismo de 34,5 para 23,9%3. Em Brasília, em 2006, foi realizado estudo entre 1.341 universitários de 20 cursos diferentes pertencentes às áreas de ciências da saúde, exatas e humanas, no qual foi encontrada uma prevalência de 14,7%4.

Mais de 80% dos adultos tabagistas começam a fumar antes dos 18 anos de idade5. Segundo uma pesquisa realizada com adultos entre 30 e 39 anos nos Estados Unidos no ano de 1991, a média de idade do primeiro cigarro consumido é 14,5 anos, já a média de início do consumo diário de tabaco é 17,7 anos6. O aconselhamento é a abordagem que parece ser a mais efetiva na população jovem7,8, mas as taxas absolutas de cessação ainda são muito baixas. Metanálise realizada em 2004 comparou aconselhamento versus cuidados habituais e demonstrou que o aconselhamento duplicou a taxa de abstinência em longo prazo quando comparada ao tratamento usual, mas as taxas de cessação absolutas foram muito baixas9.

As consequências negativas do consumo de cigarros têm sido muito documentadas na literatura médica, incluindo doenças cardiovasculares, inúmeros cânceres, doenças pulmonares, doenças gastrointestinais, desfechos obstétricos adversos e contribuição para o desenvolvimento de osteoporose, que aumenta o risco de fraturas no idoso10.

Os objetivos deste estudo foram avaliar a prevalência de tabagismo e fatores associados entre universitários.

MÉTODOS

Foi realizado um estudo transversal com estudantes da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), em Criciúma (SC). Por meio da relação de matrículas por curso referente ao segundo semestre de 2010 na UNESC, de acordo com a secretaria existia um total de 8.400 alunos, 2.540 distribuídos nas áreas de saúde e os demais nas outras áreas.

Consideramos cursos da área de Saúde: Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Medicina, Nutrição, Ciências Biológicas e Psicologia, embora pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) os dois últimos sejam considerados da área de Ciências Biológicas e Ciências Humanas, respectivamente. O tamanho da amostra para testar a hipótese de diferença de proporções populacionais, considerando-se nível de 5% de significância, poder do teste de 80% e prevalência de 0,23 e mais 20% para perdas foi de 590 alunos. A amostra foi dividida em 2 grandes grupos: área da Saúde, com 144 alunos (25%), e os demais cursos, com 431 alunos (75%). O número da amostra de cada grupo foi dividido de acordo com a proporção destes em relação ao número total de alunos. Os alunos que compuseram a amostra foram selecionados do primeiro e último ano de cada curso. Exemplificando: para o curso de Medicina (integral), 390/2.540*144=22, então foram entrevistados 11 alunos do primeiro ano e 11 do sexto ano, seguindo um pulo "k" determinado pela divisão de 11 pelo número de alunos do primeiro e último ano respectivamente. De posse da lista de chamada, os alunos eram selecionados, garantindo assim a aleatoriedade e a estratificação por fase e curso.

Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário autoaplicável, anônimo e desenvolvido pelos autores, composto de perguntas estruturadas sobre variáveis envolvidas no estudo.

Seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)11, os estudantes foram classificados em quatro categorias: fumantes de cigarros diários, fumantes ocasionais, ex-fumantes e não fumantes. Fumantes diários eram aqueles que fumavam, pelo menos, um cigarro por dia por no mínimo um mês antes do preenchimento do questionário; fumantes ocasionais eram aqueles que não fumavam diariamente; ex-fumantes eram aqueles que, após terem sido fumantes, deixaram de fumar há pelo menos um mês; e não fumantes eram aqueles que nunca fumaram ou fumavam há menos de um mês.

A variável dependente (desfecho) estudada foi o uso de tabaco que foi dicotomizada em: (1) fumantes diários e fumantes ocasionais e (2) ex-fumantes e não fumantes. As variáveis independentes foram: idade, sexo, fase do curso, estado civil, filhos, área do curso, tabagistas na família, uso de drogas ilícitas, uso de álcool, morar com os pais, renda própria e renda familiar.

Os participantes que se enquadravam na categoria de fumantes atuais (fumantes diários e fumantes ocasionais) ainda responderam a segunda parte do questionário, que incluía dados do início da dependência tabágica, influências para o inicio, o número de cigarros por dia, fumar em locais proibidos, tentar deixar de fumar, morar com os pais e trabalhar e ter renda própria.

Para a análise de dados foi utilizado o programa estatístico SPSS v.17(r). Primeiramente, foi realizada a análise de cada variável individualmente para verificar seu comportamento; no caso de variável qualitativa, foi realizada tabela de frequências, e, no caso de variável quantitativa, foram realizadas medidas descritivas.

Cada fator foi avaliado em relação à variável desfecho, por meio de tabela de contingência, utilizando o teste do χ2 e regressão logística univariável no caso das variáveis nominais e ordinais e utilizando o teste t de Student e regressão logística univariável no caso de variáveis quantitativas. Todas as variáveis com p<0,25 (análise univariada) foram candidatas a entrar no modelo, seguindo a metodologia de Hosmer e Lemeshow12, permanecendo as variáveis com p<0,05 no modelo de regressão logística final.

O projeto de pesquisa foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética da UNESC, de Criciúma (SC), sob o protocolo no 153/2009.

RESULTADOS

Responderam os questionários 584 alunos, porém foram excluídos 9 alunos que não responderam sobre o desfecho, tendo sido analisados 575 universitários, com idade média de 23,0 (±9,7), sendo 62,3% do sexo feminino.

Os cursos da Saúde corresponderam a 25% do total, e 51,7% dos alunos que responderam eram de fases iniciantes. Quanto ao estado civil, 81,9% tinham estado civil não estável e 8,4% relataram que tinham filhos.

Questionados sobre o consumo de bebidas alcoólicas, 18,6% referiram que nunca consomem bebidas alcoólicas, 70,9% usam ocasionalmente e 10,3% frequentemente. Responderam afirmativamente quanto ao uso de drogas ilícitas apenas 3,1% dos universitários (Tabela 1).

Tabela 1. Características dos alunos de graduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense, Criciúma, 2010 

Variável n=575 (%) Tabagistas
n=51 (8,9%)
Não tabagistas
n=524 (91,1%)
Feminino Masculino Feminino Masculino
Idade (média±DP) 23,0±9,7 24,7 22±11,1 22,4±9,4 23,1±8,5
Idade média de início do tabagismo 16,4±3,4
Estado civil
Estável 104 (18,1) 6 6 62 30
Não estável 471 (81,9) 16 23 276 156
Cursos por área
Saúde 144 (25,0) 7 7 91 39
Não saúde 431 (74,8) 22 15 247 147
Filhos
Sim 49 (8,5) 2 5 25 17
Não 526 (91,5) 20 24 313 169
Fase
Concluintes 296 (51,5) 11 12 186 87
Iniciantes 279 (48,5) 11 17 152 99
Tabagista na família
Sim 173 (30,1) 15 17 94 47
Não 402 (69,9) 7 12 244 139
Uso de álcool
Frequentemente 59 (10,3) 4 15 16 24
Ocasionalmente 408 (70,9) 16 14 252 126
Nunca 108 (18,6) 2 0 70 36
Uso de drogas ilícitas
Sim 18 (3,1) 4 10 2 2
Não 557 (96,8) 18 19 336 184

O desfecho estudado para o tabagismo foi: 27 (4,7%) estudantes relataram serem tabagistas, 24 (4,2%), fumantes ocasionais, 15 (2,6%), ex-fumantes e 509 (88,5%), não fumantes. Dos 51 tabagistas, 30 referiram que gostariam de deixar de fumar, 21 desses já tentaram, mas não conseguiram. Dentre os tabagistas, 21,5% relatam fumar em locais proibidos.

Perguntados sobre como iniciaram a dependência tabágica, 49% começaram a fumar por vontade própria e 27,4% por influência de amigos. A maioria diz que fuma para relaxar. Indagados sobre outros membros tabagistas na família, 29,9% afirmaram que tinham tabagistas em casa, sendo 29,7% a mãe, 29,7% o pai e 5,7% ambos. Alguns relataram que um irmão era tabagista (3,3%) (Tabela 2)

Tabela 2. Características dos universitários tabagistas, n=51 (fumantes diários e ocasionais 

Variável n %
Tabagismo
Fumantes diários 27 4,7
Fumantes ocasionais 24 4,2
Ex-fumantes 15 2,6
Não fumantes 509 88,5
Tentou deixar de fumar
Sim 21 41,2
Não 30 58,2
Desejo de deixar de fumar
Sim 30 58,8
Não 21 41,2
Motivação para o início
Vontade própria 25 49,0
Influência de amigos 14 27,4
Outros 12 23,6
Razão da dependência
Para relaxar 22 43,1
Por prazer 17 33,3
Outros 12 23,6
Fuma em local proibido?
Sim 11 21,6
Não 40 78,4
Membros da família tabagistas
Mãe 15 29,7
Pai 15 29,7
Irmãos 2 3,3
Ninguém fuma 19 37,3

Dos universitários entrevistados, 61,7% moravam com os pais e 67,1% trabalhavam ou tinham renda que permitiam sua sustentação financeira.

Os seguintes cursos apresentaram prevalência de tabagismo acima de 10%: Geografia, Ciências Biológicas, Administração, Engenharia Civil, Artes Visuais, Direito, Fisioterapia, Arquitetura e Urbanismo, Matemática, Ciências da Computação e Secretariado Executivo, sendo que os três primeiros tiveram a maior prevalência (33,3, 28,5 e 20,5%, respectivamente).

Os cursos que tiveram prevalência entre 5,1 e 10,0% foram: Engenharia de Materiais (7,1%) e Medicina (6,6%); e a prevalência entre 0,1 e 5,0% foi encontrada nos cursos de Engenharia Ambiental (3,8%) e Ciências Contábeis (1,6%). Nos outros cursos não houve relato de tabagismo.

Na análise univariada, seis variáveis ficaram aptas para entrar no modelo final com p<0,25, porém só permaneceram no modelo três variáveis: usar álcool (OR 5,80; IC95% 1,20-28,01), ser usuários de drogas ilícitas (OR 42,29; IC95% 11,45-175,1) e ter outros familiares fumantes (OR=4,02 IC95% 2,05-7,85) (Tabela 3).

Tabela 3. Associação das variáveis com o desfecho apresentando a odds ratio bruta e a odds ratio ajustada no modelo final 

Variável OR bruto Valor p OR ajustado Valor p
Idade 0,70 (0,43–1,36) 0,370
Sexo
Masculino 2,39 (1,33–4,28) 0,003
Feminino 1
Estado civil
Estável 1
Não estável 1,44 (0,73–2,87) 0,280
Cursos por área
Saúde 1
Não saúde 1,14 (0,60–2,18) 0,670
Filhos
Sim 1
Não 1,82 (0,77–4,30) 0,160
Fase
Concluintes 1
Iniciantes 0,75 (0,42–1,34) 0,340
Tabagista na família
Sim 4,57 (2,51–8,33) 0,000 4,02 (2,05–7,85) <0,001
Não
Uso de álcool
Frequentemente 6,19 (1,48–25,89) 0,012 5,80 (1,20–8,01) 0,028
Nunca 1 1
Uso de drogas ilícitas
Sim 49,18 (15,41–156,93) 0,000 42,2 (11,4–175,1) <0,001
Não
Doenças
Sim 2,07 (0,95–4,52) 0,060
Não

OR: odds ratio.

DISCUSSÃO

A maioria dos estudos epidemiológicos relacionados à prevalência de tabagismo em universitários geralmente é realizada com acadêmicos dos cursos da área da Saúde. Este estudo, no entanto, procurou demonstrar a prevalência de tabagismo entre os estudantes de diversos cursos de uma universidade do Sul do Brasil e as características destes. Dessa forma, é possível obter uma visão mais abrangente da situação no mundo universitário e comparar o perfil tabágico dos acadêmicos dos mais diversos cursos, incluindo os da área da Saúde. Estes últimos adquirem importância pelo fato de serem futuramente a base e os difusores da informação quanto aos malefícios do uso do tabaco.

A prevalência de tabagismo encontrada (8,9%) foi consideravelmente menor que a de estudo realizado na Universidade de Brasília (UnB), no ano de 2003, com 1.341 alunos, que mostrou uma prevalência de tabagismo de 14,7%4.

Estudo realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no ano de 1996, mostrou prevalência de 8,6%13. Essas variações de prevalência entre diversos estudos podem ser o reflexo das diferenças nas características regionais das populações estudadas e do ano da realização dos estudos.

Entre os estudantes de Medicina o percentual de fumantes no nosso estudo foi de 6,6%. No curso de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), foram desenvolvidos vários estudos transversais com o intuito de acompanhar a evolução temporal nos anos de 1986, 1991, 1996 e 2002 com todos os alunos do primeiro ao quinto ano. Em 1986 a prevalência de tabagismo nos estudantes de Medicina era 21,6%, já em 2002 o percentual tinha caído para 10,1%14. Essa evolução obviamente é um importante indicador que reflete as intervenções realizadas no decorrer dos anos, obedecendo à legislação antitabagista brasileira, que teve um significativo avanço de 1986 até 2002

No curso de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF), a prevalência foi de 16,5% em estudo realizado com 316 acadêmicos15. Outros estudos demonstraram baixo percentual de fumantes entre os estudantes da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB - 7%)16 e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU - 3,3%)17. Esses dados mostram que, apesar da prevalência de tabagismo ser menor do que em outras universidades, esse valor ainda deve ser reduzido. Para isso, são necessárias medidas educativas em toda a universidade, com atenção extra aos cursos que mostraram um consumo de tabaco superior à média: Geografia, Ciências Biológicas, Administração, Engenharia Civil, Artes Visuais, Direito, Fisioterapia, Arquitetura e Urbanismo, Matemática, Ciências da Computação e Secretariado Executivo.

Os cursos de Geografia e Ciências Biológicas foram os mais preocupantes, com mais de um quarto dos acadêmicos participantes do estudo declarando serem fumantes.

É importante lembrar que a população universitária, apesar de apresentar uma prevalência de tabagismo baixa, apresenta níveis socioeconômicos e de informação mais elevados quando comparada à população geral; os resultados devem ser avaliados com essa ressalva quando interpretados.

Com relação à população em geral, a prevalência de tabagismo permanece alta, apesar dos sinais claros de queda em todo o País. Em 1989, de acordo com a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição, o percentual de fumantes em pessoas com 15 anos ou mais era de 33,1%18. Já em 2003 a Pesquisa Mundial de Saúde, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz, mostrou uma redução importante da prevalência de fumantes, sendo esta estimada em 18,1% em uma população com 18 anos ou mais18-20. Em 2006, foi realizado um inquérito telefônico nacional com 54 mil pessoas que mostrou uma prevalência de tabagismo de 16,2%18. Outro inquérito telefônico semelhante foi realizado no ano seguinte, com uma prevalência de 16,4% de fumantes17,19. Em 2008, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios estimou o percentual de fumantes no Brasil em 17,2%18.

Esses dados mostram uma progressiva e sustentada redução do percentual de fumantes em todo o País com o decorrer dos anos, provavelmente reflexo das medidas antitabágicas implementadas nos últimos anos.

Quanto a idade de início da dependência tabágica, a média declarada foi 16,4±3,4 anos, muito semelhante à encontrada em outros estudos, como o de Brasília, realizado no ano de 2003, que apresentou uma média de 17±2,8 anos13. Em pesquisa realizada com médicos do Distrito Federal, 80% referiram início do tabagismo em idade inferior a 20 anos21. Estudo nacional com 11.909 médicos, no ano de 1996, teve o período dos 10 aos 19 anos como o referido pela maioria como de início do fumo22. Essa faixa etária, portanto, é crucial na luta antitabágica, e a universidade adquire importância nesse contexto.

Com relação à motivação que levou a iniciação da dependência tabágica, 49% relataram vontade própria e 27,4%, influência de amigos. Esses dados são semelhantes aos encontrados em outros estudos. Em um destes, realizado com médicos do Rio Grande do Sul no ano de 1999, o modismo foi apontado por 34% dos entrevistados como principal motivador, seguido da vontade própria (30,2%) e da influência de amigos (22,6%)23. Em outro estudo, realizado com estudantes da Faculdade de Medicina da UFU no ano de 2004, a vontade própria foi apontada como motivação por 40% dos estudantes, seguido da influência de amigos (30%) e outros motivos (30%). Modismo, influência dos pais e propaganda de cigarros foram referidos por 10% dos estudantes cada16.

Nosso estudo mostrou uma relação significativa entre tabagismo e uso de álcool e outras drogas ilícitas. Estudo americano realizado no ano de 1999 com 14.138 universitários24 e estudo realizado na cidade de Pelotas também mostrou essa associação25. A abordagem em conjunto desses temas durante campanhas de conscientização é de fundamental importância na prevenção da morbidade futura decorrente do uso dessas substâncias.

Com relação à presença de familiares fumantes, 62,7% dos tabagistas responderam afirmativamente, contra 26,9% dos não fumantes. Estudo realizado em São Paulo, em 1996, revelou que 40,6% dos estudantes que haviam respondido aos questionários tinham fumantes em casa13. Em outro estudo, realizado na Bahia, o tabagismo dos pais esteve relacionado ao tabagismo dos filhos, sendo que, entre adolescentes do sexo feminino, prevaleceu a influência materna26. Esses dados revelam um dos fatores mais importantes na iniciação do tabagismo, o exemplo dos pais. Deve-se atentar também para o fato de que muitos jovens, apesar de não serem tabagistas, estão involuntariamente inalando a fumaça do cigarro dentro de suas próprias casas, muitas vezes desconhecendo os reais riscos do tabagismo passivo.

A limitação do nosso estudo é devida a ele ter sido realizado em somente uma universidade - seus os resultados não podem ser extrapolados -, no entanto, o estudo foi executado dentro de rigorosa metodologia, com amostragem estratificada assegurando a validade interna.

CONCLUSÃO

Nosso estudo evidenciou na população estudada que o tabagismo estava associado ao uso de álcool e outras drogas ilícitas.

As medidas preventivas devem ser realizadas em período prévio ao ingresso na universidade, já que a idade média de início foi de 16,4 anos. Essas medidas devem estar associadas à abordagem concomitante sobre os riscos do abuso de álcool e de outras drogas ilícitas, já que a associação destas com o tabagismo se mostrou significativa.

Para evitar a exposição passiva, terceira causa de morte evitável no mundo, ações como a proibição do fumo em locais com pobre ventilação do ar podem ajudar. Quanto aos fumantes, é importante que aqueles acadêmicos que anseiam abandonar o vício tenham todo o apoio e acompanhamento necessários para que atinjam o sucesso. A participação de professores e funcionários é fundamental para que essas ações tenham o efeito desejado.

Chama a atenção que 58,8% dos tabagistas referiram que gostariam de deixar de fumar e que destes 70% já haviam tentado parar, mas não conseguiram, assim como a afirmativa de que 21,5% fumam em locais proibidos. A universidade poderia apostar em medidas educativas e de fiscalização para o cumprimento das leis, assim como oferecer serviços de saúde especializados no auxílio de alunos que queiram abolir a dependência tabágica, ajudando, assim, na construção de uma sociedade mais saudável.

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