Uso do telefone para adesão de pessoas vivendo com HIV/AIDS à terapia antirretroviral: revisão sistemática

Uso do telefone para adesão de pessoas vivendo com HIV/AIDS à terapia antirretroviral: revisão sistemática

Autores:

Vanessa da Frota Santos,
Ana Karoline Bastos Costa,
Ivana Cristina Vieira de Lima,
Herta de Oliveira Alexandre,
Elucir Gir,
Marli Teresinha Gimeniz Galvão

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.24 no.9 Rio de Janeiro set. 2019 Epub 09-Set-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018249.31112017

Introdução

Com o avanço da terapia antirretroviral (TARV) houve redução da morbidade e mortalidade associadas à infecção e o conseqüente aumento da expectativa de vida das pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA)1. Para o alcance da efetividade da TARV, faz-se necessária uma boa adesão aos fármacos2, com vistas a prevenir a resistência viral, o surgimento de doenças oportunistas, o aumento da transmissão do vírus, a maior probabilidade de progressão para o estágio final da doença e a diminuição da sobrevida3.

Destaca-se como um desafio o alcance e manutenção de níveis ótimos de adesão à TARV, em decorrência de barreiras individuais, sociais e sistêmicas que dificultam esse processo4. Estudos apontam que apesar da disponibilidade de fármacos para o tratamento antirretroviral, observam-se dificuldades na adesão à terapia e taxas de prevalência de não adesão que variam de 51,3%1,5 a 25%6.

Nos últimos anos desenvolveu-se um interesse pelo uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s), as quais têm causado grande impacto na qualidade dos serviços e nos hábitos de vida das pessoas, e a sua implementação no setor da saúde está emergindo como uma das áreas de maior crescimento na atualidade6. Dentre essas tecnologias, destacam-se os dispositivos eletrônicos, como o telefone, que tem ganhado popularidade, tornando-se forte aliado no tratamento de doenças crônicas7.

No contexto do HIV/aids, estudos têm mostrado as vantagens do uso do telefone para melhorar os serviços de atenção a essa população, com impactos sobre a melhoria da qualidade de vida, apoio social, autocuidado8,9 e adesão à TARV8,10-12.

Dessa forma, observa-se que é necessário o desenvolvimento de métodos eficientes para melhorar a adesão de pessoas com HIV/aids à TARV. Nesse contexto, o uso do telefone pode ser um recurso viável para promover a adesão ao tratamento de PVHA, por ter baixo custo e ser de fácil acesso entre os pacientes e profissionais de saúde. Assim, o presente estudo objetivou avaliar a eficácia do uso do telefone para adesão de pessoas com HIV/aids à terapia antirretroviral.

Método

Realizou-se uma revisão sistemática, um tipo de estudo secundário que permite a investigação de pesquisas relevantes sobre uma determinada temática com objetivo de realizar uma revisão crítica e abrangente da literatura, proporcionando a incorporação de novas tendências na prática clínica e a conseqüente atualização do profissional a partir das evidências encontradas13.

Para a realização da revisão sistemática foram seguidos os sete passos recomendados pela colaboração Cochrane14: formulação da questão de pesquisa; localização dos estudos; avaliação crítica das pesquisas; coleta de dados; análise e apresentação das informações.

A questão de pesquisa foi delineada com base na estratégia PICO, que representa um acrônimo para Paciente (adultos que vivem com HIV), Intervenção (Uso do telefone), Comparação (cuidado padrão) e Outcomes - desfecho (adesão ao tratamento)8. Dessa forma, estabeleceu-se a seguinte pergunta norteadora: “Qual a eficácia do uso do telefone para promover a adesão de PVHA à TARV?”

Foram incluídos os ensaios clínicos que investigaram intervenções com uso do telefone direcionadas à promoção da adesão de PVHA à TARV, independentemente do idioma e do ano de publicação. Os critérios de exclusão definidos foram: revisões de literatura, cartas, artigos de opinião, relatos de experiência, estudos de caso, capítulos de livros, apresentações de congressos, publicações repetidas, estudos com crianças e artigos que não responderam à questão de pesquisa.

A busca eletrônica foi realizada por dois revisores de forma simultânea no mês de outubro de 2017, em três bases de dados - Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs/Bireme), Scopus e Web of Science; um portal Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline/PubMed) e nas bibliotecas Scientific Eletronic Library Online (SciELO) e Cochrane.

Para a estratégia de busca, foram utilizados os seguintes descritores nos idiomas português, inglês e espanhol: HIV, Cell Phones, Acquired Immunodeficiency Syndrome e Antiretroviral Therapy, Highly Active, combinados com operador booleano AND nos idiomas português, inglês e espanhol. Os descritores foram selecionados através dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Heading (MESH). Os cruzamentos realizados foram: [HIV and Cell Phones]; [Acquired Immunodeficiency Syndrome and Cell Phones]; [Antiretroviral Therapy, Highly Active and Cell Phones]; [HIV and Cell Phones and Antiretroviral Therapy, Highly Active]; [Acquired Immunodeficiency Syndrome and Cell Phones and Antiretroviral Therapy, Highly Active].

A partir dos cruzamentos realizados foram encontrados 758 artigos, sendo selecionados 17. Foram excluídos 741 artigos, dentre os quais 29 estavam duplicados e 712 não atendiam a pergunta norteadora por abordarem as seguintes temáticas: aceitação das intervenções propostas, percepções dos indivíduos acerca das intervenções, reflexões sobre os avanços no uso de tecnologias para melhoria na adesão. A amostra final consistiu em 17 artigos, sendo seis retirados da Scopus, cinco da Medline/PubMed, três da Web of Science e três da Cochrane.

A Figura 1 mostra a identificação, seleção e inclusão dos artigos da pesquisa.

Figura 1 Fluxograma de identificação, seleção e inclusão dos estudos. Fortaleza, CE, Brasil, 2017. 

Os critérios de avaliação da qualidade dos estudos foram realizados mediante aplicação da Escala de Qualidade por Jadad15, cuja pontuação varia de 0 a 5, sendo considerado estudos de baixa qualidade aqueles com pontuação inferior a 3. A análise foi realizada com base nas seguintes questões: 1a. O estudo foi descrito como aleatório (uso de palavras como “randômico”, “aleatório”, “randomização”)?; 1b. O método foi adequado? 2a. O estudo foi descrito como duplo-cego? 2b. O método foi adequado? 3. Houve descrição das perdas e exclusões?

Os artigos também foram analisados e classificados quanto ao sigilo de alocação em: Categoria A - sigilo da alocação adequadamente realizado e descrito; Categoria B - o estudo foi descrito como aleatório, mas não há descrição da forma da randomização nem do sigilo da alocação; Categoria C - o sigilo de alocação foi inadequado e Categoria D - o estudo não foi aleatório14.

A análise dos dados foi realizada mediante tradução e leitura dos artigos na íntegra, por dois autores, de forma independente. As informações foram transcritas e organizadas a partir de um instrumento validado16, que investigou: autoria, ano, país onde o estudo foi realizado, objetivo, desenvolvimento metodológico, tecnologia proposta, resultados e conclusão. Portanto, optou-se pela revisão descritiva das informações encontradas.

Com relação às questões éticas, foram respeitadas a integridade dos artigos e os direitos autorais, não havendo modificação do conteúdo encontrado em benefício desta pesquisa.

Resultados

Todas as pesquisas eram ensaios clínicos e abrangeram um total de 2720 adultos com HIV em uso da TARV. Em relação ao ano de publicação variou de 2010 a 2017. Quanto ao local de realização, a maioria dos estudos foi desenvolvida nos Estados Unidos7,17-22, bem como em países africanos, como Quênia8,9, Uganda23, África do Sul24 e Nigéria10, além de países asiáticos25-28 e do Brasil29 (Quadro 1). As intervenções propostas foram: uso de aplicativos de celular20,23, Serviço de Mensagem Curta (SMS)7-10,17,21,22,24-29 e ligações telefônicas18,19,26,28 (Quadro 1).

Quadro 1 Caracterização dos estudos. Fortaleza, CE, Brasil, 2017. 

Autores, ano, país Intervenção utilizada Amostra Tempo de seguimento Resultados
Hardy et al. (2011),
EUA7
*SMS 23
**GI: 10/ ***GC: 9
6 semanas A adesão média foi de 79% no autorrelato e 65% por contagem de comprimidos no início do estudo em ambos os grupos. Ao longo de 6 semanas a adesão aumentou no GI em relação a: contagem de comprimidos [****M: 76,3% ± *****DP: 20,5], autorrelato [M:83,1% ± DP: 26,2],******MEMS [M:73,9% ± DP:27,3] e escore de adesão composta [M:70,6% ± DP:24,8]
Lester et al. (2010),
Quênia8
SMS 538
GI: 273/GC: 265
48 semanas A adesão foi relatada por 168 dos 273 do GI em comparação com 132 dos 265 do GC (*******RR para não adesão = 0,81; ********[IC - 95%] = 0,69-0,94; *********p = 0,006)
Pop-Eleches et al. (2011), Quênia9 SMS 431
GI: 302/GC:139
48 semanas 90% de adesão no GI comparado com 40% de adesão no GC (p = 0,03)
Maduka; Tobin-West (2013), Nigéria10 SMS 104
GI: 52/GC:52
16 semanas 76,9% das pessoas no GI alcançaram adesão ao tratamento medicamentoso em oposição a 55,8% no GC (p = 0,022). A contagem de linfócitos CD4 + do GI aumentou para 578,0 células/ml em comparação com 361,5 células / ml registradas no GC (p = 0,007)
Dowshen et al. (2012), EUA17 SMS 25
GI e GC: não informado
24 semanas A adesão autorrelatada aumentou no GI em comparação com os valores basais (74,7), nas semanas 12 (93,3) (p < 0,001) e 24 (93,1)(p < 0,001)
Kalichman et al. (2011), EUA18 Ligações telefônicas 40
GI: 21/GC: 19
16 semanas A adesão foi melhorada no GI passando de 87% dos comprimidos tomados no início da intervenção para 94% ao final da intervenção (p < 0,01)
Belzer et al. (2014), EUA19 Ligações telefônicas 37
GI: 19/GC: 18
24 semanas A adesão autorrelatada foi maior no GI em comparação com o GC (p = 0,007)
Swendeman et al. (2015), EUA20 Aplicativo de celular 50
GI: 34/GC: 16
6 semanas As correlações foram relativamente altas nos GI e GC ao incluir 100% de adesão dos participantes (**********r = 0,70-0,73)
Rana et al. (2016), EUA21 SMS 32 inscritos
20 concluíram
GI e GC: não informado
24 semanas 18 dos 32 participantes tiveram a carga viral < 20 cópias/ml no início do estudo e até ao final do estudo, 25 (78%) participantes obtiveram supressão virológica ( < 20 cópias / ml, p = 0,002)
Garofalo et al. (2016), Chicago22 SMS 109
GI: 55/GC: 54
48 semanas A adesão média entre o GI foi maior que no GC (IC de 95%: 0,91-13,9) e o ***********odds ratio para ≥ 90% de adesão foi de 2,57 (IC 95%: 1.01-6.54). A adesão aumentou de 28% na linha de base para 64% aos 3 meses e atenuou ligeiramente para 61% no seguimento de 6 meses no GI e no GC foram 24% na linha de base e 43% e 51% no seguimento de 3 e 6 meses, respectivamente
Perera et al. (2014),
Uganda23
Aplicativo de celular 28
GI: 17/GC: 11
12 semanas O GI apresentou melhor adesão (p = 0,03) quando comparado ao GC
Orrell et al. (2015), África24 SMS 230
GI: 115/GC: 115
48 semanas A adesão foi de 82,1% no GI comparado com 80,4% do GC [odds ratio: 1,08; IC: 95%: 0,77 a 1,52]
Sabin et al. (2015),
China25
SMS 119
GI: 63/GC: 56
24 semanas A adesão foi semelhante nos dois grupos, com melhoria na adesão por 52 dos 63 do GI (82,5%) em comparação com 29 dos 56 do GC (51,8%) (RR 1.59; IC: 1.21-2.10 p < 0,001)
Shet et al. (2014),
India26
Ligações telefônicas e SMS 631
GI: 315/GC: 316
96 semanas A adesão foi semelhante entre o GI e GC (RR 1,24 [IC = 95%] = 0,93-1,65, p = 0,14)
Swendeman et al. (2015), Índia27 SMS 90
GI: 46/GC: 44
4 semanas No GI houve redução de doses perdidas das medicações de 39% para 18% e das razões para doses perdidas de 44% para 17%
Abdulrahman et al. (2017), Malásia28 SMS e
Ligações telefônicas
224
GI: 116/GC: 108
24 semanas A adesão foi maior no GI (95,7; IC 95%: 94,39-96,97) em relação ao GC (87,5; IC 95%: 86,14-88,81). Houve aumento na contagem de linfócitos CD4+ (p = 0,017) no GI e a carga viral foi maior (p = 0,001) no GC
Costa et al., (2012),
Brasil29
SMS 21
GI: 8/GC: 13
20 semanas A adesão dos participantes no GI foi mais elevada que no GC (contagem de comprimidos [50,0% no GI e 38,4% no GC], autorrelato [100,0% no GI e 84,6% no GC], MEMS [75,0% no GI e 46,1% no GC], porém não foi encontrada diferença estatisticamente significativa entre os resultados

*SMS: Serviço de Mensagem Curta;

**GI: Grupo Intervenção;

***GC: Grupo Controle;

****M: média;

*****DP: desvio padrão;

******MEMS: monitoramento de eventos medicamentosos;

*******RR: Risco Relativo;

********IC: Intervalo de Confiança;

*********p: valor de p;

**********r: coeficiente de correlação;

***********odds ratio: razão de possibilidades.

O uso de aplicativo consistia em um programa instalado no telefone móvel que apresentava diversos recursos como: um relógio com o medicamento das 24 horas diárias, exibindo o cronograma da dosagem diária da terapia do participante, tendo a função de gravar os dias e horários da ingestão dos medicamentos; representações gráficas das concentrações plasmáticas estimados de cada um dos antirretrovirais; e uma simulação da atividade imune que compreendia uma representação da contagem de linfócitos TCD4+ e da carga viral, com base nas análises de sangue mais recentes. Esse aplicativo permitia que o participante visualizasse, em tempo real, os efeitos fisiológicos da sua adesão à TARV19,29.

O SMS era composto por mensagens de texto enviadas a partir de telefones celulares. O conteúdo da mensagem era motivador e atuava como um lembrete para tomada dos antirretrovirais, além de influenciar comportamentos para a melhoria da adesão29. Em um estudo, os participantes deveriam confirmar o recebimento da mensagem, caso isso não acontecesse era emitido um sinal sonoro a cada 15 minutos para o paciente7.

A intervenção baseada em ligações telefônicas era direcionada a aparelhos portáteis dos usuários e objetivava investigar a tomada dos medicamentos e de possíveis doses perdidas nos últimos dias, além de fornecer aconselhamento para promover a adesão18.

O tempo de seguimento dos participantes variou de 4 (um mês) a 96 (24 meses) semanas. A melhoria da adesão foi identificada em quatorze estudos7-10,17,21-24,27-29 e em três20,25,26 as intervenções não foram eficazes.

No que concerne a freqüência de oferecimento da intervenção, predominou a freqüência diária7,17,19-25,27. Três estudos utilizaram a freqüência em dias alternados8,10,29, dois semanais26,28, um quinzenal18 e outro estudo comparou o uso da intervenção diária e semanal9. Quanto aos profissionais que aplicaram a intervenção, houve destaque para equipe do estudo não sendo especificada a categoria profissional (82,3%)7,9,10,17,18,20,22-25,27,29, seguido de pesquisadores que não estavam envolvidos na rotina dos pacientes (5,8%)26, além da menção de categorias da saúde de nível superior, enfermeiro (11,8%)8,28 e médico (5,8%)28 (Quadro 1).

Acerca dos métodos de mensuração da adesão à TARV, destacaram-se a adesão autorrelatada7,8,10,17-20,22,23,26-29, o sistema de monitoramento de eventos medicamentosos (MEMS)7,9,21,25,29, a contagem de comprimidos7,18,29, o escore de adesão composta7, os registros de farmácia19,25, contagem de linfócitos T CD4+10,28 e a avaliação da carga viral19,22-24,28. Houve estudos em que foi realizada a combinação de diferentes formas de mensuração da adesão7,10,17-19,22,23,28,29 (Quadro 1).

Na adesão autorrelatada os pacientes informavam a medicação prescrita, os medicamentos ingeridos e a quantidade de doses perdidas nos últimos dias29. Outros artigos analisaram a adesão mediante aplicação de instrumentos como: Escala de relatório de adesão à medicação (MARS), que consiste em perguntas específicas sobre a dose ingerida e as doses perdidas nos últimos 28 dias, organizadas em escala de Likert23; e Escala Visual Analógica (VAS), a qual analisa a taxa de adesão nas últimas 4 semanas numa escala de 0% a 100%, correlacionando com a contagem de comprimidos recordada nos últimos três dias e a carga viral17.

O MEMS foi também uma estratégia utilizada para medir a adesão e consiste em um dispositivo sem fio colocado no recipiente da medicação que registra a data e horário de cada abertura do frasco para ingestão do antirretroviral, comunicando imediatamente através de um serviço de rádio para um servidor central25.

Outros estudos mensuraram a adesão mediante a contagem de comprimidos, com entrega do medicamento em um encontro inicial e contagem de comprimidos ao final de um determinado período28. Também houve uso do escore de adesão composta (CAS), um método baseado na união da contagem de comprimido e do MEMS7.

Os registros da farmácia sobre o reabastecimento foi um método adicional de avaliação da adesão, contemplando informações sobre o número de comprimidos liberados para os pacientes e cálculo em relação aos comprimidos prescritos, levando-se em conta o número de comprimidos dispensados23. Além desses métodos, houve a mensuração dos linfócitos T CD4+10,28 e da carga viral, mediante realização de exame laboratorial19,23.

O Quadro 2 mostra a caracterização dos estudos quanto ao autor, ano e país de publicação, amostra, intervenção utilizada, tempo de seguimento, os resultados em relação a melhora da adesão, pontuação da escala de Jadad e sigilo de alocação.

Quadro 2 Avaliação da qualidade dos estudos. Fortaleza, CE, Brasil, 2017 

Autores, ano Escala de Jadad* Sigilo de alocação**
Hardy et al. (2011)7 3 B
Lester et al. (2010)8 3 A
Pop-Eleches et al. (2011)9 4 B
Maduka; Tobin-West (2013)10 4 A
Dowshen et al. (2012)17 1 D
Kalichman et al. (2011)18 5 A
Belzer et al. (2014)19 4 B
Swendeman et al. (2015)20 4 B
Rana et al. (2016)21 3 A
Garofalo et al. (2016)22 5 A
Perera et al. (2014)23 3 A
Orrell et al. (2015)24 5 A
Sabin et al. (2015)25 5 A
Shet et al. (2014)26 4 A
Swendeman et al. (2015)27 1 D
Abdulrahman et al. (2017)28 5 A
Costa et al., (2012)29 5 A

Nota:

*Classificação que avalia a qualidade do estudo e a pontuação varia de 0 a 5, sendo considerado estudos de baixa qualidade aqueles com pontuação inferior a 3.

**Classificação quanto ao sigilo de alocação que varia entre: Categoria A - sigilo da alocação adequadamente realizado e descrito; Categoria B - o estudo foi descrito como aleatório, mas não há descrição da forma da randomização nem do sigilo da alocação; Categoria C - o sigilo de alocação foi inadequado e Categoria D - o estudo não foi aleatório.

A avaliação da qualidade dos estudos apontou boa qualidade metodológica, com predominância da pontuação superior a 39,10,18-20,22,24-26,28,29. Com relação ao sigilo de alocação, houve destaque para a categoria A - processo de sigilo de alocação adequado, com exceção de quatro estudos cujo sigilo de alocação não foi descrito7,9,19,20 e dois que não foram aleatórios17,27 (Quadro 2).

Discussão

O uso das TIC’s no contexto do HIV amplia o acesso aos serviços de saúde e promove a comunicação entre o profissional e o paciente em tempo real, oportunizando o autocuidado e a gestão da doença. A eficácia dessas tecnologias sobre a adesão à TARV está associada ao fato de proporcionarem o apoio social, a autoavaliação do paciente quanto ao seguimento terapêutico, o conhecimento sobre o HIV e o manejo dos efeitos colaterais - condições que ajudam o paciente a estabelecer uma rotina diária e a resolver problemas relacionados à tomada de comprimidos30.

O acompanhamento do profissional em tempo real proporcionado pelas TIC’s promove a informação e a educação para a adesão, permitindo aos pacientes relatar efeitos colaterais e ajustar rapidamente seu comportamento para melhorar a adesão. Além disso, o uso das tecnologias como lembrete para a tomada dos antirretrovirais, conforme a prescrição médica, melhora o comportamento de autogestão da dose do medicamento25.

O cuidado em saúde mediado pelas tecnologias é visto como um olhar onipresente e uma atenção permanente dos profissionais sobre o cotidiano das PVHA, motivando o comportamento de adesão ao tratamento e promovendo o suporte emocional para o combate a sentimentos de depressão relacionados ao diagnóstico31. Dessa forma, a comunicação frequente entre profissional e paciente funciona como uma forma de aconselhamento direto, promovendo a economia de tempo e de custos financeiros31,32.

Conforme evidenciado na presente revisão, o uso das tecnologias para ampliar a assistência em saúde às PVHA traz impactos benéficos em curto e longo prazos, promove a supressão viral, previne a progressão da doença, além de reduzir a resistência aos fármacos e a morbimortalidade. Ressalta-se que para o alcance de resultados positivos sobre os marcadores biológicos, é recomendado um tempo de intervenção igual ou superior a seis meses28.

Apesar das vantagens associadas ao uso das tecnologias para promover a adesão à TARV, algumas dificuldades podem comprometer o uso do telefone celular na assistência em saúde, tais como: a falta de crédito, dificuldade no manuseio, manter a bateria carregada, problemas de rede, perda de acesso, mudança de número, restrição de horários no uso do telefone, quebra de sigilo e preocupação com a divulgação do estado sorológico para terceiros7,32,33.

Diante do exposto, faz-se necessário desenvolver estratégias de intervenção que sejam de baixo custo, eficazes e que busquem envolver o paciente com o serviço de saúde34. Além disso, é importante conhecer as percepções e as necessidades dos pacientes acerca dessas tecnologias, identificando as barreiras e solucionando os problemas para se buscar o desenvolvimento de tecnologias eficazes19. É necessário, portanto, comparar as tecnologias e buscar as mais apropriadas para cada contexto.

Em relação à freqüência da intervenção, as mensagens semanais foram mais aceitas e causaram maior impacto e melhor adesão à TARV quando comparadas com os lembretes diários. Isso pode ser explicado pelo estímulo freqüente e repetido que causa desconforto nos pacientes, podendo invadir a privacidade9.

No que concerne às formas de mensuração da adesão, houve destaque para a adesão autorrelatada, que é menos dispendiosa e mais fácil de ser analisada, porém é subjetiva e propensa a erros, podendo resultar em superestimação de valores35. Assim, faz-se necessário associar essas medidas autorreferidas com os marcadores clínicos, tais como carga viral, linfócitos CD4+ e outros meios mais objetivos de avaliar a adesão a exemplo da contagem de comprimido, do MEMS e dos registros da farmácia7,23,29,36.

Quanto à qualidade dos ensaios clínicos analisados, quatro atingiram a pontuação máxima na Escala de Jadad15, indicando que uma quantidade significante dos estudos encontrados possuía cegamento duplo. Foi evidenciado que o duplo cegamento produz resultados mais consistentes por reduzir vieses de seleção e garantir a fidedignidade das informações coletadas15.

Conclusão

A utilização de telefone como ferramenta no apoio aos cuidados de adultos com HIV/aids foi eficaz para melhoria da adesão à terapia antirretroviral, além de melhorar a relação entre profissional e paciente. O telefone foi utilizado de diferentes formas e envolveu o uso de aplicativos no aparelho com acesso à internet, mensagens de texto e ligações. Houve destaque para as mensagens de texto pelo seu baixo custo. As limitações associadas ao uso do telefone foram a acessibilidade e o treinamento para uso dos dispositivos eletrônicos.

Para futuros estudos experimentais com uso de telefone recomenda-se: comparação de métodos de intervenção, associação de métodos de mensuração e comparação entre os métodos objetivos, realização de ensaios clínicos do tipo fatorial (múltiplas intervenções) e comparação entre a frequência de aplicação das intervenções. Além disso, deve-se considerar e desenvolver mais pesquisas que busquem identificar as percepções dos usuários sobre as intervençõe mais eficientes.

Teve-se como limitação da revisão a impossibilidade de realizar meta-análise a partir dos estudos selecionados em virtude da heterogeneidade dos ensaios clínicos em relação às diferentes medidas de mensuração da adesão à TARV, a variável desfecho distinta e a insuficiência de dados estatísticos, o que inviabilizou o cálculo das medidas-resumo.

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