Uso inadequado de antibióticos em infecções do trato respiratório superior: é tempo de agir

Uso inadequado de antibióticos em infecções do trato respiratório superior: é tempo de agir

Autores:

Antonio Carlos Campos Pignatari,
Monica Menon Myake

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694versão On-line ISSN 1808-8686

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.82 no.2 São Paulo mar./abr. 2016

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2015.12.003

Os antibióticos constituem uma das maiores descobertas na Medicina e diminuíram significativamente as taxas de mortalidade e morbidade por doenças infecciosas nos últimos 75 anos. No entanto, grandes volumes de antibióticos são empregados empirica e inadequadamente, sobretudo para o tratamento de infecções do trato respiratório superior.

A maioria das infecções adquiridas na comunidade é inicialmente causada por agentes virais, autolimitada em sua evolução clínica e dispensa a antibioticoterapia. Um pequeno percentual é complicado por infecções bacterianas secundárias e, nesses casos, os antibióticos podem ser úteis.

Diversos fatores podem ser responsáveis pelo uso inadequado de antibióticos: carência de exames laboratoriais rápidos e precisos que diferenciem infecções bacterianas de virais; pacientes acreditam que antibióticos aliviam sintomas como a febre e a dor, e pressionam seus médicos para que prescrevam esses medicamentos quando seus sintomas não melhoram prontamente com outros tratamentos clínicos; e médicos que praticam a medicina defensiva; e, em muitos países, os antibióticos podem ser adquiridos sem receita, e os médicos sentem dificuldade em identificar pacientes em alto risco para complicações bacterianas, como idosos, indivíduos imunocomprometidos e portadores de doenças crônicas.

Em nível mundial, o Brasil é o quarto maior consumidor de medicamentos - e 40% deles são antibióticos. Desde 2011, as farmácias brasileiras não têm permissão para vender antibióticos sem receita médica e, desde 2013, todas as farmácias devem submeter à ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) uma comunicação eletrônica relacionada às receitas de antibióticos. No primeiro ano que se seguiu à implementação desta política, ocorreu uma queda de 20% nas prescrições de antibióticos, mas, logo em seguida, o número voltou a crescer.

Alergias, efeitos colaterais, como, por exemplo, sintomas gastrintestinais e toxicidade (hepática, renal, neurológica, cardíaca e teratogenicidade), já foram devidamente descritos e podem ocorrer com a maioria das classes antibióticas.

Habitualmente, observa-se resistência aos antibióticos e, em alguns casos, com bactérias multirresistentes nas infecções nosocomiais; mas isso também ocorre em infecções na comunidade.

Atualmente, contamos com poucas novas classes disponíveis de antibióticos, e é muito importante que esses medicamentos de uso comum sejam preservados, particularmente a classe dos B-lactâmicos, que se caracteriza por baixa toxicidade na maioria dos pacientes, inclusive neonatos, crianças, gestantes e idosos. Quando há indicação para o seu uso, os critérios básicos para emprego devem ser constantemente reforçados no tratamento, com base nas orientações internacionais e locais para cada categoria de infecção. Os efeitos colaterais e a toxicidade são fatores relevantes para o paciente individualmente, mas a resistência bacteriana é relevante para a comunidade como um todo.

Outro tópico importante e recente é o dos efeitos em longo prazo dos antibióticos no microbioma humano, que podem persistir ao longo de toda a vida do indivíduo e que estão provavelmente associados a doenças inflamatórias crônicas, e até mesmo a alguns tipos de neoplasia.

Todos esses tópicos são importantes, sendo abordados globalmente por diferentes instituições e sociedades científicas, governos, ONGs e organizações privadas para a promoção do uso racional dos antibióticos. Médicos, farmacêuticos e pacientes são corresponsáveis pelo sucesso dessa empreitada, e os otorrinolaringologistas devem se envolver integralmente. Justifica-se um maior esforço na educação, treinamento e pesquisa, mas, no presente momento, o empenho de cada indivíduo é essencial.

REFERÊNCIAS

Essak S, Pignatari AC. A framework for the non-antibiotic manage-ment of upper respiratory tract infections: towards a global change in antibiotic resistance. Int J Clin Pract Suppl. 2013;180:4-9.
Van der Velden A, Duerden MG, Bell J, Oxford JS, Altiner A, Kozlov R, et al. Prescribers and patients' responsibilities in treatment of acute respiratory tract infections - essential for conservation of antibiotics. Antibiotics. 2013;2:316-27.
World Health Organization. The evolving threat of antimicrobial resistance - options for action; 2012 .
National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE). Clinical guideline 69. Respiratory tract infections - antibiotic prescribing. Prescribing of antibiotics for self-limiting respiratory tract infections and in adults and children in primary care; 2008 .
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