Usuários de crack em situação de rua – características de gênero

Usuários de crack em situação de rua – características de gênero

Autores:

Taís Veronica Cardoso Vernaglia,
Regina Amélia de Magalhães Senna Vieira,
Marcelo Santos Cruz

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.6 Rio de Janeiro jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015206.11562014

Introdução

Dados sobre o crack no Brasil revelam um consumo discreto e estável na população brasileira, entre os anos de 2001 e 2005. Observa-se, no entanto, fortes evidências de que a partir do ano de 2009 o uso desta substância, bem como sua associação a diversos agravos à saúde, tem se tornado mais frequente1.

Usuários de crack frequentemente se envolvem em comportamentos de risco, para manter seus padrões de consumo e se encontram em situação de maior vulnerabilidade social. De modo geral, não têm acesso à educação, ao trabalho formal e grande parte destes vivem em situação de rua24.

Em uma pesquisa realizada com jovens e adultos com idade entre 12 e 65 anos, residentes em 108 cidades com mais de 200 mil habitantes do Brasil, o gênero masculino apresentou maior prevalência de uso de crack, tanto para o ano de 2001 como para o de 20051. Também o outro estudo, realizado com estudantes do ensino fundamental e médio das redes pública e privada de ensino, nas 27 capitais brasileiras, aponta para diferenças no consumo de substâncias entre jovens usuários: maior proporção de rapazes relatou uso de drogas ilícitas, dentre elas o crack, enquanto que as jovens referem um consumo maior de medicamentos sem prescrição3. Mas, ainda que a prevalência de consumo masculino de crack seja maior, as mulheres apresentam risco mais significativo de contrair doenças sexualmente transmissíveis, tais como as hepatites e o HIV, por conta de maior uso do corpo como moeda de troca pela droga, com grande rotatividade no número de parceiros e muitas vezes sem uso de preservativos47. Nestes são frequentes os relatos de experiências de violência física e sexual (especialmente relacionadas à negociação do uso do preservativo)8.

Os estudos brasileiros sobre o uso do crack têm focado preferencialmente os estudantes do ensino fundamental e médio, os profissionais de saúde, os universitários, e ainda as crianças e os adolescentes em situação de rua. Nestes, têm sido privilegiados: o comportamento sexual de risco, o perfil dos usuários e os locais de circulação da droga5,913.

A relação entre mulheres, prostituição e dependência de drogas é abordada em pesquisas internacionais que tratam sobre: políticas públicas, a violência, barreiras de acesso aos serviços de saúde e as vulnerabilidades sociais1416. Porém, é possível avaliar que existe uma sub-representação em estudos brasileiros sobre esta temática que incluam, de modo mais particular, o uso abusivo de substâncias pela população feminina, em especial as que enfocam a prevalência de uso quanto ao gênero e à prática da prostituição, bem como as questões subjetivas envolvidas17,18. A condição de classe ou de gênero, por exemplo, dos que têm a prática de troca de sexo por dinheiro ou droga, é pouco discutido18.

O termo gênero institui uma demarcação com o biológico daquilo que é culturalmente construído e atribuído ao sexo feminino e ao masculino. Este termo pode ser usado para se referir a um sistema de signos e símbolos, marcando relações de poder, hierarquia e negociações constantes entre os sexos19,20. As análises que abordam as questões de gênero precisam incluir os aspectos relacionados ao sexo, à sexualidade, à orientação sexual, à raça/etnia e à classe social21.

Os papéis atribuídos socialmente a mulheres e homens são construídos paulatinamente no interior de relações sociais, culturais e econômicas. Em grande parte tais papéis se encontram alocados de forma a favorecer determinadas relações mais hierarquizadas de poder e, em algumas vezes, de violência com relação à mulher21,22. A violência de gênero é um conceito que deve ser visto pela dinâmica das relações sociais e não apenas pela instância jurídica. Também deve contemplar a identidade das minorias discriminadas, e que por isto terão impactos distintos na criança, no adolescente, na mulher, no homem e no idoso23.

Esta perspectiva ajuda a compreender a dinâmica das relações conjugais, sem que se incorra no erro de vitimização da mulher ou de culpabilização do homem, sendo este fenômeno muito mais complexo do que a busca de vítimas e algozes22,24.

Este estudo privilegia as relações que se constroem entre mulheres e homens usuários de crack. Deste modo, os seguintes objetivos se colocam como balizadores para análise: identificar como se constituem as relações de gênero no cotidiano dos usuários do crack em situação de rua, e analisar a dinâmica que permeia a construção destas relações que envolvem troca e poder.

Considera-se população em situação de rua, o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos, de forma temporária ou permanente25.

Método

Este é um estudo qualitativo de orientação fenomenológica26 descritivo e exploratório, com base nas narrativas de mulheres e homens usuários de crack em situação de rua, na cidade do Rio de Janeiro, com dados coletados entre junho e agosto de 2011.

O presente estudo constitui a vertente qualitativa do “Estudo exploratório sobre o perfil dos usuários de crack em três cidades brasileiras”27,28.

Os dados foram coletados na comunidade de Manguinhos/Jacarezinho no Rio de Janeiro, Brasil, um bairro conhecido pela presença do tráfico de drogas e uso de crack, por pessoas em situação de rua, em ambientes abertos e em espaços públicos, conhecidos como “cracolândias”.

Foram incluídos no estudo homens e mulheres com idade superior a 18 anos, usuários regulares de crack (uso por, no mínimo, três dias a cada semana nos três meses anteriores), com comportamento que permitisse a participação nos grupos, recrutados na rua, através de informante chave. Os grupos foram realizados na Clínica da Família, unidade de atenção primária em saúde, localizada dentro da própria comunidade.

Todos os entrevistados leram e assinaram, antes da inclusão no estudo, um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e ao CONEP e aprovada.

Através de um roteiro previamente estabelecido e de uma ficha de identificação, foram realizados oito grupos focais (n = 31). O roteiro teve como foco possibilitar o relato: da experiência subjetiva e corporal que motiva o uso, durante e depois do uso; das relações estabelecidas entre homens e mulheres mediadas pelo crack; do relacionamento afetivo; do uso do corpo; do manejo de relações conflituosas entre os casais e a autonomia para a tomada de decisões. Buscou-se deste modo acessar certos fenômenos da consciência - objetos ideais que existem na mente providos de “significação”29.

Adicionalmente, para responder aos objetivos do estudo, foram realizadas duas entrevistas individuais com um homem e uma mulher, que tivessem participado da etapa dos grupos focais, para aprofundar alguns pontos que se mostraram relevantes.

Foram constituídos dois grupos compostos apenas por mulheres, de modo a viabilizar a abordagem de assuntos nos quais elas demonstraram dificuldades para discutir na presença de homens. As falas foram gravadas, com duração média de 40 minutos, e posteriormente transcritas. Os nomes originais foram substituídos por nomes ficticios.

Após uma primeira leitura, os resultados foram pré-categorizados em um esquema explanatório: hierarquia de gênero, conjugalidades e prática sexual. Foram feitas constantes releituras comparando-as ao primeiro esquema. A partir deste, foi organizado um segundo agrupamento, por causa dos padrões percebidos nas falas, sendo eles: narrativas de silêncio, resistência e permanência no cotidiano dos afetos, e uso do corpo.

Resultados

O perfil sócio-demográfico dos 31 indivíduos, sendo 13 homens e 18 mulheres, revelou que 23 são naturais do Rio de Janeiro, 20 de cor parda e apenas um branco. Além disso, 22 são solteiros, 25 com ensino fundamental incompleto, 24 não tem religião, 22 estão envolvidos em trabalho informal, sendo 9 desempregados e 28 não possuem quaisquer benefícios do governo.

Narrativas de silêncio: resistências e permanências no cotidiano dos afetos

O cotidiano dos afetos dos usuários de crack emerge por meio de diferentes relações marcadas por posições de “resistência” e de “permanência” que podem ser examinadas a partir de uma perspectiva de gênero.

Denominamos aqui por “resistência” aquilo que rompe com posturas mais tradicionais dentro de uma leitura hierárquica de gênero – organização segundo critérios de poder e subordinação entre homens e mulheres. Tais posturas de resistência apontam para a possibilidade de pactuação de acordos mais igualitários entre os pesquisados.

Já o termo “permanência” denota comportamentos e atitudes no universo investigado, que corroboram com relações de gênero mais tradicionais e hierarquizadas.

O dia a dia do uso do crack é marcado por diferentes modos de pactuação. Foi possível perceber a necessidade por parte destas pessoas de constituírem vínculos que se assemelhem aos de uma família. Determinados grupos se organizam de forma que o convívio é compartilhado por laços mais solidários entre mulheres e homens, nomeando-se como “família”. Foi possível distinguir nas falas a existência de pactuações menos hierárquicas, visando compartilhar a comida, o crack, o apoio e a proteção.

No estabelecimento dos contratos, os acordos são firmados de modo a privilegiar ora um, ora outro conforme os interesses maiores do momento. Assim, Renata ao se referir a um relacionamento anterior, aponta para uma forma de convivência mais igualitária:

Tinha diálogo, tinha combinação entre nós dois (Renata).

Também, é possível observar o crack operar como moeda de troca entre os casais, mediando situações tensas. Quando questionamos sobre as experiências que tinham sobre a última vez que usaram a droga, Rebeca diz:

[…] eu não estava pensando em usar, mas só que o pai dele [filho da participante], usa meu vício para me manter dentro de casa […] ele me aborrece, ele vê que eu tô com raiva, que eu tô pra ir embora, ele fala: Toma, compra tua droga! Segundo Rebeca, seu companheiro também é usuário de crack.

A violência está presente no cotidiano. Situações de agressões e ameaças se fazem presentes entre os casais, na maior parte das vezes dirigida às mulheres. Nos grupos mistos quem aponta para estas situações são os homens. Já as mulheres tendem a “naturalizar” a dor atribuindo-a ao uso do crack.

Esta situação fica nítida nas falas deste grupo quando Rosa começa a falar sobre as dores que sente de modo frequente. Ela é então interrompida por um dos rapazes do grupo, que aponta para as agressões que Rosa sofre por parte do marido como sendo as responsáveis por tais dores. Ele completa apontando para as demais mulheres do grupo:

[…] essas daqui ‘é’ vítimas das pancadarias! (Reginaldo).

O silêncio das mulheres, que se repetiu em diversos momentos dos grupos focais, é ilustrado quando Rita se recusa a falar. Quando questionada sobre como deveria ser um serviço para usuários de crack, mesmo diante da insistência e provocação de Robson, ela se cala, apoiada por Ruth, outra participante do grupo.

No que diz respeito à maternidade e paternidade, observa-se fortemente a permanência de uma organização mais tradicional, hierárquica, com papéis definidos entre homens e mulheres. Nestes casos, as mulheres investigadas ainda ocupam o lugar prioritário como responsáveis pelo cuidado com a prole, assumindo múltiplas tarefas, e os homens, em sua maioria, se relacionam com a paternidade de forma desresponsabilizada.

Para essas mulheres, a despeito de toda a fragilidade que o consumo do crack possa lhes trazer, não há questionamento sobre a responsabilidade do cuidado com os filhos:

[…] o meu dia é complicado por causa da responsabilidade, que ele [filho adotivo da participante], estuda de manhã, pega sete horas […] ‘sai’ quatro da tarde […] vou trabalhar […] então me dá muita dor de cabeça […] ele não saiu de mim […] mas é meu filho porque me chama de mãe. (Rebeca)

Já para os homens, um grande número deles tem filhos, mas a maior parte não assumiu nenhuma responsabilidade sobre isso, muitas vezes tendo pouco ou nenhum contato com os mesmos:

[…] ‘pô’, agora ‘tou’ solteiro minha senhora! Tenho oito filhos, agora eu não sei a idade deles não. (Ronaldo)

Ainda, com relação à maternidade, as mulheres que se prostituem fazem questão de afirmar que seus filhos são resultado de escolhas que ocorreram dentro de determinados relacionamentos e que a droga não seria responsável pela gestação.

Ronda faz questão de deixar claro que seus três filhos são resultado de escolhas:

[…] Os meus filhos ‘veio’ porque eu permiti, me envolvi com a pessoa a ponto de permitir que a pessoa ‘fizesse eu’ ficar grávida. Meu filho mais velho tem dez anos, o do meio quatro e a caçula, três. Olha o espaço que eu dei de um prá outro […] (Ronda).

[…] Droga não acarreta gestação não! Entendeu? (Raqueli)

Mesmo quando decidem deixar os filhos para adoção, relacionam a um ato de responsabilidade com a vida do bebê.

[…] Minha filha nasceu na rua […] depois fui de ambulância para o hospital […] só que preferi deixar a menina lá […] como é que eu ia ficar com uma criança na rua? A minha filha poderia morrer com uma infecção. (Ronda)

Nos relatos surge ainda uma preocupação com o HIV. Em sua maioria, durante o “trabalho”, fazem questão de afirmar que usam preservativos, afirmando ter “um preconceito contra os clientes”. (Raqueli) - E ao serem questionadas sobre como teriam adquirido o preservativo, algumas afirmam trocar pela pedra do crack.

O fato de ser mãe é relatado como contendo certa medida de status. O ciúme das mulheres que têm filhos por parte das mulheres que não engravidam fica evidente.

[…] Tia, toda vez que eu engravido ela engravida também. (Renata)

O silêncio: prostituição, uso do corpo – resistências e permanências

Os diferentes modos pelos quais se dá o uso do corpo emergem das narrativas dos pesquisados destacando o uso do corpo como meio de subsistência. A prostituição é rotina na vida dos entrevistados mas com nuances diferentes. Existe um esforço que fica nítido nos relatos em separar o que é da ordem do afeto – as escolhas amorosas – do que é “trabalho”.

O uso do corpo, seja por dinheiro, seja pela pedra do crack é algo corriqueiro e surge tanto por parte das mulheres quanto dos homens. Neste grupo, a prostituição masculina é trazida abertamente e por vezes de modo jocoso ao serem perguntados se alguma vez haviam oferecido a eles dinheiro ou crack para se prostituirem.

Renan, Robson e Reinaldo se colocam de modo bem tranquilos ao abordarem o tema:

[…] Vários viados […] eles chegam e chamam na cara dura! E vou, chega na hora e dou um perdido nele [risos]. (Reinaldo)

Mas a prostituição feminina precisa ser cercada de certos cuidados, com algumas estratégias de silenciamentos. Nos grupos foi possível observar por parte das mulheres a necessidade de afirmar sempre de ser a “outra” quem estaria envolvida com a prática da prostituição, o que sugere o quanto que tal prática pode ser perturbadora para os seus companheiros afetivos.

[…] Se ele soubesse, ele me matava! Ele preferia que a gente invadisse um shopping, roubasse o shopping todo, fosse preso, mas que eu não ‘desse’ prá ninguém. (Raquel)

Muitas vezes os namorados ou companheiros sabem das atividades das meninas, e até mesmo usufruem do ganho, mas esta atividade não pode se tornar pública e de modo algum visível para o restante dos rapazes do grupo. As moças são chantageadas pelos outros rapazes. Precisando até mesmo “pagar” pelo silêncio deles, seja com dinheiro ou com a pedra de crack.

[…] Se você falar que não vai dar um pedaço de crack para aquela pessoa que sabe, ela vai pegar e vai ‘chegar em cima’ do meu namorado e vai falar que eu estava fazendo programa. Com certeza, chantagem rola. (Rosinda).

Mas outras formas de pactuação se colocam no campo pesquisado. O “controle” do corpo feminino oscila e às vezes tende a prevalecer para o lado feminino, com relação ao poder de sedução:

[…] Mulher é mais fácil, qualquer olhar… só de olhar para o cara ele já ‘tá’ perdendo dinheiro para ela […]. (Reinaldo).

Outras vezes para o masculino, quando o que está em jogo diz respeito à força física:

[…] Prá trabalhar… prá arrumar dinheiro, tipo assim, serviço. Só dão serviço prá homem porque homem aguenta. (Reinaldo).

As mulheres parecem estar mais protegidas com relação a certas formas de violência justamente por serem mulheres. Quando o homem comete uma falta dentro da comunidade, isto pode lhe trazer consequências mais graves do que para a mulher:

[…] O homem tem mais facilidade de ‘tomar um pau’ … se você dá volta e ‘os caras’ ficam sabendo, o homem apanha bem mais […]. (Reinaldo).

Discussão

O crack exerce na vida dos participantes um papel de importante mediador das diferentes pactuações afetivas possíveis em seu cotidiano. Os achados apontam de modo similar a outros estudos, para uma predominância de um perfil de homens e mulheres, com baixa escolaridade e a prática de trabalho informal8,10,30.

Nossos achados revelaram que o pactuar, o compartilhar - da comida à pedra do crack - faz parte do cotidiano. Este fato é ao mesmo tempo interessante e revelador, pois, ao contrário do que o senso comum aponta (apesar do uso intenso do crack), estas pessoas, são capazes de estabelecer vínculos, parcerias e escolhas afetivas, ainda que sejam mediadas pela pedra. Portanto, no contexto do uso, prevalece um espaço relacional onde se constroem diferentes pactuações e trocas12.

Nesta pesquisa, percebemos forte evidência do que nomeamos como “narrativas de silêncio”. O silêncio assume diferentes significados, podendo ser representativo de permanência em contratualidades baseadas em uma hierarquia tradicional de gênero. Mas, pode também ser um indício de resistência com relação aos roteiros pré-estabelecidos e pactuados entre homens e mulheres. Isto é observado de modo especial quando são abordados temas, tais como: violência e uso do corpo em atividades de prostituição.

Por isto, em especial, nas relações que evidenciaram a presença de violência, seria errôneo incorrermos no erro de vitimização da mulher ou de culpabilidade do homem, simplificando papéis demarcados por vítimas e algozes22.

Estas “narrativas de silêncio” nos grupos mistos indicam a possibilidade de certa “resistência” por parte das mulheres – falar quando assim o desejar e não quando o outro a convoca. Quando a opção foi o silêncio, pareceu que elas estariam dando suporte umas às outras para não falar, como uma escolha. São estas resistências que tornam possíveis “desafiar” relações de gênero mais hegemônicos, tradicionais e hierárquicos, como apontam outros autores3133.

As relações de poder podem surgir no cotidiano de maneira explícita ou implícita31, sendo estas, no caso aqui analisado, desafiadas pelas pesquisadas através de uma estratégia de opção pelo silenciar.

Tendo em vista os grupos mistos também terem sido compostos por casais, entendemos que falar abertamente poderia ameaçar relações de confiança entre os pares, relacionadas ao uso de drogas, como já foi apontado por alguns outros autores34.

Há determinantes culturais ainda muito arraigados e que se fazem presentes na construção dos papéis masculinos e femininos, não obstante o que tem sido discutido e apontado pelos movimentos feministas35.

Nas narrativas, às vezes, há a manutenção de uma organização hierárquica mais tradicional, na qual a mulher é percebida como aquela que é responsável pelo cuidado com a prole e o homem como o provedor que sustenta o consumo da droga (crack), assumindo muitas vezes uma posição de superioridade.

Já por outro lado, aflora nos grupos compostos apenas por mulheres o que pode ser reconhecido como um modo de “resistência” e de marcar uma posição passível de realizar escolhas. Nestes grupos, a afirmativa da opção pela maternidade e a separação desta do uso do corpo como trabalho (prostituição) aparecem de forma nítida.

Ser mãe parece possibilitar a ascensão a um lugar privilegiado no grupo, conferindo a elas um status muito importante: o de possuir algo produzido ou concebido de uma forma particular e por vezes também originária de suas próprias escolhas. A maternidade exerce uma função que as reafirmam enquanto mulheres, e que permite que sejam mais respeitadas por parte das demais moças e dos rapazes com quem convivem. Isto vem de encontro ao que diversos autores sinalizam acerca da função da maternidade, que, sob diferentes análises, esta, ainda hoje, se constitui como um valor que define o ser feminino36.

Todavia, a caracterização da maternidade como ato de amor ou de responsabilidade necessita do aprofundamento por parte de outros estudos.

Por isto, a afirmação direta e simplificadora de que as mulheres sejam “vítimas” de seus companheiros não são capazes de exprimir a complexidade que os arranjos relacionais adquirem quando se trata de lidar com adversidades extremas, caso da situação cotidiana de pessoas que vivem em situação de rua37.

Deste modo, emergem relatos sobre acordos entre os parceiros que podem sugerir situações que caracterizem uma maior violência. No entanto, tais situações ao serem analisadas no interior do cenário da “cracolândia” apontam para códigos bem mais complexos e que revelam a pactuação de determinadas parcerias, onde o “controle” oscila, ora privilegiando as mulheres, ora os rapazes22.

Nas narrativas sobre a prostituição, o crack surge nos relatos contribuindo ora na manutenção de papéis hierárquicos, ora no “rompimento” por parte de algumas das mulheres investigadas.

Destaca-se, em especial, a prostituição como atividade informal mais prevalente entre o grupo de mulheres, o que corrobora com as análises de outros autores sobre este tema16,17,34,36.

Percebemos nas falas sobre o uso do corpo e da prostituição feminina existir um “pacto de silêncio”, calcado no que poderíamos chamar de “questão de honra”. É preciso por vezes “pagar” para garantir o silêncio de algo que é corriqueiro, porém revelador. E deste modo, o crack se constitui como principal moeda de troca das relações, podendo garantir ou não o silêncio. Entretanto, alguns autores sugerem que as relações de poder contribuem para que as mulheres sejam forçadas a compartilhar equipamentos de uso da droga, sob o risco de violência, particularmente advinda dos homens38,39.

Alguns autores39,40 sugerem que, de modo geral, os usuários de drogas tendem a buscar parceiros que lhes tragam benefícios. As narrativas apontam para o crack como um importante operador mediando as relações entre mulheres e homens usuários.

Conclusões

A imersão no universo dos usuários do crack, através dos grupos focais e entrevistas revelaram que, a despeito da extrema violência da localidade de Manguinhos, existe um contexto especialmente rico e dinâmico.

Nas narrativas, foi possível observar que apesar da relevância da pedra do crack na vida dos sujeitos investigados, eles conseguem em determinadas situações efetuar escolhas e pactuações. A demarcação de grupos nomeados como “famílias” demonstra nitidamente a possibilidade de estabelecimento de escolhas, vínculos fortes e bem definidos. Tais escolhas se manifestam tanto nas narrativas que falam do cotidiano, dos afetos, dos meios para “ganhar a vida” vendendo o corpo em troca de dinheiro ou da pedra do crack, por exemplo, como também preservá-la por meio de pactuações e de alianças.

Ao analisar as questões referentes ao gênero e ao poder que emergem nas falas foi possível observar a coexistência de permanências e de resistências, pactuações mais e menos hierárquicas. Embora em uma primeira visada possa parecer que as relações calcadas em uma hierarquia tradicional de gênero prevaleçam como as responsabilidades da maternidade e cuidado dos filhos, o olhar mais aprofundado sobre o material evidencia a presença de linhas de fuga, de movimentos de tomada de posição por parte das usuárias, como a tentativa de reafirmação de posições de escolhas quanto a ter ou não filhos ou com quem usar preservativos. No entanto, outros estudos precisam aprofundar estas questões.

Ainda que seja observada nas narrativas a influência de certos determinantes socioculturais, na demarcação dos roteiros referentes ao que seria da ordem do masculino e do feminino, o modo pelo qual estes são reproduzidos no cotidiano dos investigados mostra-se polissêmico.

Conhecer como as relações entre homens e mulheres usuários de crack se estabelecem, possibilita o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenções que valorizem as questões de gênero. Também, permite pensar em formas de aproximação com esta clientela que facilitem o acesso das mesmas aos locais de tratamento disponíveis.

Nesta pesquisa, o estudo das relações estabelecidas revela que não é possível apontar para algozes ou vítimas. O que surge nas análises é um universo plural e fluido, em permanente construção, com deslizamentos que privilegiam ora as mulheres, ora os homens.

Dentre as limitações encontradas neste estudo, ressalta-se a necessidade de ampliar o número de sujeitos. Todas as falas foram autorrelatos que podem ter sido influenciadas pela presença de homens e mulheres em um mesmo grupo, bem como das incursões policiais ocorridas na comunidade. Embora tenhamos feito grupos focais compostos apenas por mulheres, não realizamos grupos com o gênero masculino, os quais nos permitiriam ouvir melhor a fala de homens usuários de crack. Os dados relativos ao perfil sociodemográfico precisam ser ampliados, temas como composição das famílias e poder econômico dos sujeitos não foram suficientemente aprofundados. Também, a história de início de uso do crack e os fatores que levaram a esta escolha devem ser incluídos em pesquisas futuras.

Dessa forma, sugere-se que sejam realizados outros estudos exploratórios que ampliem o universo pesquisado bem como valorizem a fala tanto de homens quanto de mulheres. O material investigado aponta para a necessidade de maior investimento em pesquisas que possam colaborar na construção de um cuidado que se coadune às reais necessidades dos usuários de crack.

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