Validação dos indicadores de risco para a constituição do leitor/escrevente

Validação dos indicadores de risco para a constituição do leitor/escrevente

Autores:

Janaina de Albuquerque Venezian,
Regina Maria Freire

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.28 no.6 São Paulo nov./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20162015275

INTRODUÇÃO

Indicadores de saúde e risco fazem parte da área de epidemiologia em saúde. Esta difere da clínica, pois tem como foco proteger a comunidade de riscos à saúde e não reabilitar o indivíduo em sua especificidade(1). Segundo os descritores em Saúde(2), são medidas que sintetizam situações importantes das quais interessa conhecer sua evolução no tempo.

Será correto usarmos indicadores de saúde e risco para pensarmos os problemas na leitura e escrita? Os problemas na leitura e escrita dizem respeito à saúde ou à educação?

Por supormos que quem insere a criança no funcionamento da escrita é o adulto leitor/escrevente, instância da língua constituída(3), ações na sociedade, envolvendo família, escola e comunidade em geral, seriam maneiras de oferecer mais e melhores possibilidades de a criança embrenhar-se na escrita; por outro lado, sabemos que é impossível evitar definitivamente sintomas neste campo.

Sob estas condições, um termo que pode nos auxiliar na construção da finalidade dos indicadores de risco para a constituição do leitor/escrevente é promoção de saúde.

Segundo alguns autores(4), há importância em considerar os determinantes gerais sobre as condições de saúde, para se pensar sua promoção. Estes usam o conceito de qualidade de vida e nele incluem questões como nutrição, habitação, saneamento e inserção na educação.

Na área de leitura e escrita, encontramos na literatura nacional, trabalhos relacionados a programas de intervenção precoce junto à crianças de séries iniciais do ensino fundamental com risco para dislexia(5,6). Baseados na teoria cognitivista, buscam fatores que indiquem que a criança apresenta risco para dislexia avaliando-a quanto às habilidades fonológicas e à relação letra-som, e o programa de intervenção proposto trabalha com as habilidades que tiveram resultados abaixo do esperado.

Para outros autores(7), as ações neste campo estariam voltadas ao coletivo e ao ambiente, no sentido amplo de ambiente, como físico, social, político, econômico e cultural. Desta forma, torna-se impossível separar saúde e educação; para se promover saúde, são fundamentais as ações intersetoriais.

Segundo outro autor(8), é comum a abordagens psicodinâmicas, em psicologia como em psicanálise, a dificuldade em fazer descrições rigorosas de processos psíquicos que sirvam como base para comparações, porém, se o material da área médica, usado em abordagens comportamentais da psicologia, não se adequa aos procedimentos das abordagens psicodinâmicas, cabe a elas criar modos próprios de compartilhar seu saber de maneira científica e acessível à sociedade, à saúde pública, por exemplo, e às demais áreas de conhecimento. Apesar de lidar com fenômenos da subjetividade e da singularidade, na tentativa de validar suas práticas, o autor refere que o método pode ser comparado ao da economia, marketing, pedagogia e outras áreas nas quais as variáveis deixam o sistema instável, porém é possível monitorá-las e induzi-las a partir de tendências e contra tendências quantificadas e, acima de tudo, qualificadas.

Vários autores(9-13) reconheceram a importância da realização de discussões sobre indicadores de saúde e risco na fonoaudiologia, principalmente na área da comunicação humana, com vistas a contribuições na saúde pública.

Outros(12), ainda, considerando a captura da criança pelo funcionamento da escrita, anterior à alfabetização formal, propuseram 4 eixos teóricos, desdobrados em 15 sinais fenomênicos – nomeados indicadores preliminares para a constituição do sujeito leitor/escritor:

“1º eixo: “Supor um sujeito leitor/escritor”

  • 1 - Quando lê para a criança, o adulto aponta onde está lendo, para que ela “acompanhe” a leitura.

  • 2 - O adulto pede que a criança leia para ele.

  • 3 - O adulto pede que a criança escreva.

  • 4 - O adulto “finge” ler os desenhos e “rabiscos” da criança.

2º eixo: “Reconhecer o sujeito como leitor/escritor”

  • 5 - A criança “finge” ler e/ou escrever.

  • 6 - A criança escreve e pede que o adulto leia.

  • 7 - A criança “escreve” e lê sua produção para o adulto.

  • 8 - A criança se oferece para ler, no lugar do adulto.

  • 9 - A criança lê/escreve quando lhe é pedido.

3º eixo: “Responder à escrita do outro”

  • 10 - A criança traz objetos portadores de texto para o adulto ler.

  • 11 - A criança diferencia desenhos e números, de textos.

  • 12 - A criança tem um livro de histórias ou revista favorito.

4º eixo: “Manifestar autoria”

  • 13 - A criança escreve sobre temas de seu interesse.

  • 14 - O texto da criança tem contexto.

  • 15 - Quando não sabe escrever determinada palavra, a criança “inventa”.

Como seguimento, propõem o uso destes indicadores na promoção da escrita e sugerem que sejam testados e validados.

Sobre indicadores de dados básicos, a RIPSA (Rede Interagencial de Informação para a Saúde) do Ministério da Saúde(14) aponta que a validade de um indicador depende de sua sensibilidade e especificidade, outros atributos deste são a mensurabilidade, relevância e custo-efetividade. Os indicadores devem detectar um fenômeno a ser analisado, de maneira que o identifique independentemente de outros fenômenos, devem ser compreensíveis e relevantes a seus usuários, como gestores em saúde.

Na busca destes atributos, o presente trabalho deu continuidade à pesquisa de outros autores(12) com o objetivo de validar os indicadores de risco para a constituição do sujeito leitor/escritor. Para o processo de validação, verificamos como uma população de pais responde a eles com base na constituição de seus filhos como leitores/escreventes, anterior à entrada das crianças no 1o ano do ensino fundamental, e, a partir disso, avaliamos a confiabilidade do instrumento, consistência interna do conjunto de indicadores, validade convergente dos indicadores em relação aos dados atuais, na ocasião, de desempenho das crianças na leitura e escrita, e a validade do construto.

Entendemos que os eixos teóricos sintetizam as relações do sujeito com a escrita e com o outro e os indicadores são alguns de seus representantes fenomênicos. Ao propormos que a criança passa a ler e escrever por integrar uma estrutura de 4 eixos, apontamos que estes indicadores não se referem apenas a um eixo em particular, mas aos eixos em sua articulação estratificada.

Outra mudança que realizamos na atual pesquisa é dos termos usados para denominar a criança que começa a ler e escrever, de “sujeito leitor/escritor“ para “leitor/escrevente”. O termo sujeito remete ao sujeito na psicanálise, ao sujeito do inconsciente, e, mesmo que a constituição do sujeito se relacione com a linguagem de maneira indissociável, seria uma extrapolação usar o termo sujeito neste contexto, assim o retiramos. Também substituímos o termo escritor por escrevente, já que tratamos aqui daquele que está em processo de se constituir pela escrita, mas não necessariamente se tornará um escritor, no sentido de produzir no campo da literatura(15,16).

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório de abordagem quantiqualitativa. A coleta de dados se deu em uma escola Estadual na região da periferia de São Paulo. Aplicamos um questionário retrospectivo sobre a criança, antes da entrada no 1o ano do ensino fundamental, baseado nos indicadores preliminares para a constituição do sujeito leitor/escritor(12) a uma população formada por pais de alunos. Os achados foram cruzados com a sondagem diagnóstica de escrita no caso dos alunos de 1º. a 5º. ano e com a avaliação da produção de texto em alunos de 3º. a 5º. ano. Para a realização do trabalho, solicitamos autorização por escrito da diretoria da escola em questão. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, sob o número 39277414.7.0000.5482.

Encaminhamos uma carta convite, explicativa do projeto, acompanhada do questionário (Anexo A) aos responsáveis pelos alunos das salas do ensino fundamental I da escola, com exceção de uma sala do 3º ano, por ter participado do estudo piloto, preliminar a este. Participaram 6 salas de 1º ano, 5 salas de 2º ano, 5 salas de 3º ano, 4 salas de 4º ano e 3 salas de 5º ano, totalizando 548 alunos. Foram incluídos todos os alunos cujos responsáveis responderam ao questionário. Utilizamos também dados de avaliação do aluno a partir da “Sondagem e Diagnóstico” para a validade convergente.

Os materiais utilizados foram:

    -. Ficha (Anexo A) contendo dados de identificação do responsável e da criança; questionário retrospectivo adaptado a partir dos indicadores de risco para a constituição do sujeito leitor/escritor; perguntas abertas sobre outros dados de escrita da criança e da família.

    -. “Sondagem e Diagnóstico”– avaliação realizada conforme o Programa Ler e Escrever(17), da Secretaria Estadual de São Paulo, baseada na teoria construtivista, realizada pelos professores para acompanhamento da relação da criança com a escrita. Nesta, quando o aluno não produz textos, realiza-se o ditado de palavras, de mesmo campo semântico, e de uma frase que contenha pelo menos uma das palavras ditadas. As palavras do ditado devem ser de uso da criança, porém não devem ser palavras cuja forma de escrever ela tenha decorado. A partir do 3º ano é esperado que a criança produza textos, sugerindo-se avaliar a produção de texto com gêneros textuais diferentes para 3º, 4º e 5º anos, gêneros que vão de bilhetes a textos informativos. O diagnóstico a partir da sondagem é realizado pelo professor, que classifica os alunos em 5 categorias quanto ao desempenho na alfabetização: pré-silábico, silábico sem valor sonoro, silábico com valor sonoro, silábico alfabético e alfabético. E em 4 categorias conforme a produção de texto: insuficiente, razoável, bom e muito bom. Estas avaliações ocorrem 5 vezes ao ano, em fevereiro, em abril, em julho, em setembro e em novembro.

Solicitou-se aos professores que enviassem o questionário aos responsáveis pelos alunos de sua sala por meio da agenda escolar e permitissem o acesso do pesquisador aos mapas com os resultados da “sondagem e diagnóstico”.

Foi utilizada a 3a sondagem do ano, realizada no mês de maio de 2014, e avaliação da produção de texto dos alunos (3o. a 5o. ano), referente ao mesmo período da sondagem, realizada pelos professores dos respectivos anos.

Os dados obtidos foram digitados em uma planilha Excel e analisados pelo programa “Statistical Package for the Social Science” SPSS 22.0 para Windows. Para a significância estatística, assumiu-se um nível descritivo de 5% (p≤0,005).

Foram calculadas as validades interna e externa do instrumento e realizada a análise descritiva dos dados por meio de frequências absolutas e relativas, medidas de tendência central (média e mediana) e dispersão (desvio padrão, mínimo e máximo).

As variáveis quantitativas foram submetidas à verificação da normalidade pelo teste de Komolgorov-Smirnov e, como não apresentaram distribuição normal, foram aplicados testes não paramétricos. Para a comparação entre os grupos segundo escore gerado pelo questionário proposto, as dezesseis questões foram somadas, atribuindo-se 1 (um) para as respostas positivas e 0 (zero) para as respostas negativas; desta forma, obteve-se um índice variando de 0 a 16 pontos, sendo que, quanto maior este, melhor o “status” (têm mais indicadores pontuados positivamente) da criança conforme o questionário. Foram aplicados os testes não paramétricos de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis, a fim de verificar possíveis grupos com comportamentos diferentes entre as escalas.

Para a consistência interna do questionário, utilizou-se o coeficiente alfa de Cronbach. A validade convergente foi realizada pelo teste não paramétrico de Spearman (r), comparando o escore total do questionário proposto versus a sondagem e o texto, sendo esta última correlação realizada para crianças a partir da 3ª série. Para a validade do construto, utilizou-se a análise fatorial exploratória (AFE), aplicando-se a análise de componentes principais, para a confirmação dos fatores, e o método de rotação Varimax. Os parâmetros para validação estão no Quadro 1.

Quadro 1 Parâmetros para validação 

Valor do Alfa de Cronbach Confiabilidade
> 0,9 Excelente
0,8 –| 0,9 Bom
0,7 –| 0,8 Aceitável
0,6 –| 0,7 Questionável
0,5 –| 0,6 Pobre
< 0,5 Inaceitável
Valor r de Spearman (-1 a 1) Validade convergente
0 Sem correlação
< 0,25 Fraca
0,25 –| 0,50 Regular
0,50 –| 0,75 Moderada
≥ 0,75 Forte
Validade de Constructo
Valor aceitável para comunalidade (variância) ≥ 0,500
Valor para viabilidade da AFE (0 a 1) ≥ 0,60
Método Kaiser-Meyer-Olklin (KMO)
Esfericidade de Bartlett ≤ 0,05

Fonte: Gliem e Gliem(18), Pallant(19), Hulley(20)

RESULTADOS

Dos 548 questionários enviados, 293 foram preenchidos e devolvidos. A média de idade dos alunos foi 7,9 anos (dp=1,5), mediana 8 anos, mínimo 6 e máximo 12 anos. As mães totalizaram 81,4% dos respondentes, enquanto os outros questionários (17,6%) foram respondidos pelos pais, avós, irmãos, tios e padrasto; três não trouxeram a informação do responsável pelo preenchimento.

Quanto ao grau de escolaridade dos respondentes, 4,7% não frequentaram a escola; 20,3% têm o primeiro grau incompleto; 29% têm o primeiro grau completo; 11,2% têm o segundo grau incompleto; 24,3% têm o segundo grau completo; 5,8% têm o superior incompleto; e 4,7%, superior completo. A média de idade do respondente foi 34,4 anos (dp=8,4), mediana 32 anos, variando entre 16 e 70 anos. Ressalta-se que 29 respondentes não preencheram a informação sobre a idade.

Entre os portadores de texto disponíveis em casa, 70,6% indicaram a bíblia seguida dos livros (63,1%) e gibis (59%). Entre os materiais de leitura referidos como “outros” (12,3%), encontram-se revistas, dicionários, calendários, folhetos diversos e rótulos de produtos. Somente 11 (3,7%) respondentes não referiram a existência de qualquer portador de texto; por outro lado, dos que indicaram algum, a média foi 3,1 (dp=1,6) portadores, mediana 3, mínimo de 1 e máximo 7.

A Tabela 1 indica que, para a validação dos indicadores, foram considerados como materiais de leitura: jornal, livro, bíblia e gibi. Para a idade do informante, foi aplicado um ponto de corte baseado no valor mediano da variável, enquanto que, para a escolaridade e material de leitura, a divisão foi empírica.

Tabela 1 Análise descritiva dados e o Coeficiente de Alfa de Cronbach 

Variável Categoria N Média (dp) Mediana Mínimo Máximo p* αCronbach
Sexo Masculino 92 12,1 (3,0) 12 2 16 <0,001 0,74
Feminino 97 13,5 (2,3) 14 6 16 0,66
Ano escolar 1° e 2° 105 12,6 (2,7) 13 3 16 0,255 0,72
3° ao 5° 85 13,0 (2,9) 14 2 16 0,75
idade do < 33 88 12,1 (3,0) 13 2 16 0,002 0,76
informante (anos) ≥ 33 83 13,5 (2,2) 14 4 16 0,62
Escolaridade
informante
ñ frequentou e
1°incompleto
37 12,5 (3,1) 13 2 16 0,599 0,77
1° completo e
2° incompleto
81 12,7 (2,5) 13 6 16 0,67
≥ 2° completo 65 13,0 (2,6) 14 5 16 0,72
Queixa Não 149 13,0 (2,7) 14 2 16 0,005 0,73
Sim 40 11,8 (2,8) 12 3 16 0,71
Material de leitura Nenhum 12 13,0 (2,9) 13,5 7 16 0,001 0,77
1 a 2 95 12,0 (3,1) 12 2 16 0,75
3 a 4 83 13,7 (2,0) 14 6 16 0,58

*teste de comparação de medianas

Destaca-se que as respostas não preenchidas, as preenchidas com não sei ou com ambas as opções (sim e não) foram excluídas, reduzindo o número de questionários para a validação dos indicadores a 190.

Iniciou-se a análise com a comparação entre as distribuições medianas do escore obtido com o questionário, a fim de se verificar se haveria diferença entre os grupos citados a seguir. Encontrou-se diferença estatisticamente significativa para sexo (p<0,001), idade do informante (p=0,002), queixa (p=0,005) e material de leitura (p=0,001).

Na análise pelo coeficiente alfa de Cronbach, verificou-se que a confiabilidade do questionário foi de αCronbach=0,73, considerada aceitável(18). Em relação aos estratos, a maioria apresentou alfa de Cronbach > 0,70. Para a análise, agrupou-se o 1º e o 2º anos em 1 categoria e, em outra, os 3º, 4º e 5º anos, por se tratarem de perfis semelhantes, tanto em relação ao tempo decorrido entre o fato perguntado e o momento do preenchimento do questionário, quanto ao nível de alfabetização esperado. Os níveis de escolaridade dos respondentes: “não frequentou e 1° grau incompleto”; “1° grau completo e 2° grau incompleto”; e “2º grau completo, superior incompleto e superior completo” foram agrupados em 3 categorias pelas mesmas razões.

Na análise de validade convergente (Tabela 2), realizou-se a correlação entre o escore obtido pelo questionário, a sondagem e o desempenho do aluno na produção de texto. O questionário apresentou uma correlação positiva estatisticamente significativa com a sondagem (r=0,27; p<0,001), classificada como regular.

Tabela 2 Validade convergente pelo teste de correlação de Spearman entre o questionário proposto e as variáveis sondagem e texto 

Variáveis Categorias Sondagem Texto
n R P N R P
Geral 189 0,27 <0,001 79 0,03 0,825
Sexo Masculino 92 0,24 0,019 30 0,06 0,769
Feminino 96 0,18 0,080 48 -0,11 0,461
Idade do < 33 88 0,29 0,006 31 0,13 0,492
informante (anos) ≥ 33 82 0,27 0,016 40 -0,12 0,459
Queixa Não 149 0,26 0,001 62 -0,19 0,132
Sim 39 0,24 0,144 16 0,55 0,029
Material de leitura Nenhum 12 0,50 0,100 6 0,22 0,675
1 a 2 94 0,21 0,044 41 0,20 0,207
3 a 4 83 0,28 0,010 32 -0,31 0,094

Da mesma maneira, o sexo masculino, a idade e a ausência de queixa apresentaram correlação positiva estatisticamente significativa entre o questionário proposto e a sondagem. Destacam-se a correlação entre as categorias da variável material de leitura e o resultado da sondagem. As categorias 1 a 2 e 3 a 4 materiais de leitura presentes na casa da criança apresentaram correlação positiva estatisticamente significativa entre o escore do questionário e a sondagem de, respectivamente, r=0,21 (p=0,044) e r=0,28 (p=0,010).

Não houve correlação estatisticamente significativa entre o índice do questionário e a produção de texto dos alunos, com exceção do grupo de respondentes que apresentou queixa em relação à escrita atual da criança (r=0,55; p=0,029).

Observamos que não houve correlação estatisticamente significativa entre os questionários respondidos por responsáveis que apresentaram queixa (r=024; p=0,144) e a sondagem.

A análise fatorial exploratória (AFE) foi realizada com o objetivo de detectar se o conjunto de perguntas do questionário traça um perfil condizente com o construto proposto, neste caso, o perfil da criança em sua relação com a escrita antes de sua entrada no 1o. ano do ensino fundamental. Também buscamos fatores que explicassem as correlações entre as perguntas.

A AFE foi repetida 3 vezes, sendo que, nas vezes sucessivas, as questões que apresentaram valores de variância (comunalidade) <0,50 foram retiradas, a saber, as questões 5, 6, 8, 12, 13, 14 e 15. Assim, chegamos ao melhor resultado (Tabela 3), com os parâmetros KMO=0,643 e esfericidade de Bartlett X2=424,6 (p<0,001), indicando viabilidade para análise fatorial. Neste conjunto de fatores, foram explicados 72,7% da variância total do modelo, atestando a validade do construto proposto.

Tabela 3 Valores de variâncias da análise geral, segundo questões 

Questões Variância
1. Você lia para seu filho? 0,733
2.Quando você lia para seu filho você mostrava com o dedo onde estava lendo? 0,762
3.Você pedia para seu filho ler? 0,774
4.Você pedia para seu filho escrever? 0,749
7.Seu filho brincava de ler e/ou escrever? 0,719
9.Seu filho “escrevia” e lia o que escreveu para alguém? 0,733
10.Seu filho lia para você? 0,699
11.Seu filho lia/escrevia quando alguém pedia? 0,597
16.Quando não sabia escrever, ele escrevia “do jeito dele”? 0,779

O conjunto final contém as questões 1, 2, 3, 4, 7, 9, 10, 11 e 16 (Quadro 2), agrupadas em 4 fatores (Tabela 4).

Quadro 2 Perguntas validadas e indicadores correspondentes 

Perguntas Indicadores
1. Você lia para seu filho? 1. Quando lê para a criança, o adulto aponta onde está lendo, para que ela “acompanhe” a leitura.
2. Quando você lia para seu filho você mostrava com o dedo onde estava lendo?
3. Você pedia para seu filho ler? 2. O adulto pede que a criança leia para ele.
4. Você pedia para seu filho escrever? 3. O adulto pede que a criança escreva.
5. Seu filho brincava de ler e/ou escrever? 4. A criança “brinca” de ler e/ou escrever.
6. Seu filho “escrevia” e lia o que escreveu para alguém? 5. A criança “escreve” e lê sua produção para o adulto.
7. Seu filho lia para você? 6. A criança se oferece para ler.
8. Seu filho lia/escrevia quando alguém pedia? 7. A criança lê/escreve quando alguém pede.
9. Quando não sabia escrever, ele escrevia “do jeito dele”? 8. Quando não sabe escrever a criança escreve “do seu jeito”.

Tabela 4 Número e questões alocadas segundo fatores 

Questões Fatores
I II III IV
Q.9 0,841 -- -- --
Q.10 0,820 -- -- --
Q.11 0,755 -- -- --
Q.2 -- 0,867 -- --
Q.1 -- 0,838 -- --
Q.3 -- -- 0,864 --
Q.4 -- -- 0,830 --
Q.16 -- -- -- 0,876
Q.7 -- -- -- 0,815

DISCUSSÃO

A pesquisa realizada permitiu validar os indicadores preliminares para a constituição do leitor/escritor(12).

Na verificação da confiabilidade, o questionário demonstrou consistência interna aceitável.

O estudo de validade convergente apontou correlação estatisticamente positiva entre o questionário e a sondagem realizada pelos professores. A partir deste dado, podemos inferir que o resultado obtido por meio do questionário tem relação com a hipótese de alfabetização em que se encontra a criança. A validade convergente apontou também que, quanto maior a presença de materiais escritos, melhor a correlação com o questionário. Com este dado é possível supor que há correlação positiva entre o número de diferentes portadores de texto disponíveis para a criança e seu desempenho posterior na leitura e escrita.

Em relação aos responsáveis que apresentaram queixa em relação ao desempenho atual da criança na leitura e escrita não houve correlação estatisticamente significativa entre os questionários respondidos. Podemos supor que os responsáveis que apresentam queixa em relação ao desempenho atual dos filhos na leitura e na escrita rememoram de outra maneira o período pré-escolar causando um viés, talvez por estarem em busca de indícios de por que a criança apresenta dificuldades atualmente.

A validade do construto foi obtida por meio de análise fatorial exploratória (AFE) com a população geral de sujeitos e culminou num conjunto final com 9 questões.

Apesar de os indicadores correspondentes ao eixo “responder à escrita do outro” terem ficado fora do questionário, isto não afeta o resultado final, pois o modelo é sustentado por uma estrutura, o que quer dizer que cada um dos 4 elementos que o constituem tira seu valor da relação com os outros.

Sobre as questões “Antes de saber escrever, seu filho rabiscava?” e “Quando ele trazia o rabisco você dizia o que pensava ser aquilo?”, que também ficaram fora do questionário, podemos supor que se referem a uma dimensão lúdica do ler e escrever e remetem mais fortemente aos eixos “supor um leitor/escrevente” e “manifestar autoria”, indicadores que estão contemplados também nas questões “Seu filho brincava de ler e/ou escrever?” e “Quando não sabia escrever, ele escrevia “do jeito dele?”. Sugere-se sua retirada para evitar redundância e otimizar os resultados.

A questão 8 “Seu filho escrevia e pedia para alguém ler?” também obteve resultados que indicam sua fragilidade como indicador, sugerindo-se ter havido aí dificuldades na interpretação do item pelos respondentes, o que parece apontar uma redação ambígua ou pouco clara e objetiva.

A AFE possibilitou também a organização das questões em 4 fatores que indicam a correlação entre as questões que permaneceram (Tabela 4). Eliminando-se as que ficaram abaixo do valor de desempenho exigido, o questionário foi reduzido de dezesseis para nove questões.

A partir deste resultado, discutiremos as correlações entre as questões em cada fator:

    -. FATOR 1 - As perguntas “9. Seu filho escrevia e lia o que escreveu para alguém?”, “10. Seu filho lia para você?” e “11. Seu filho lia/escrevia quando alguém pedia?” estão próximas em conteúdo e dizem respeito principalmente aos eixos “reconhecer um leitor/escrevente” e “responder à escrita do outro”.

    -. FATOR 2: A pergunta “1. Você lia para o seu filho?” foi acrescentada ao questionário por ser uma condição para a questão “2. Quando lia para seu filho você mostrava com o dedo onde estava lendo?”, portanto, uma não pode estar presente sem a outra e vice-versa. Ambas apontam para os hábitos de leitura das famílias e para o eixo teórico “supor um leitor/escrevente”

    -. FATOR 3: As questões “3. Você pedia para seu filho ler?” e “4. Você pedia para seu filho escrever?” relacionam-se mais fortemente ao eixo “supor um leitor/escrevente” e, por terem sido respondidas de forma semelhante pelos sujeitos da pesquisa, apontam para o fato de que, ao supor um leitor, supõe-se também que ele escreva.

    -. FATOR 4: As perguntas “7. Seu filho brincava de ler e/ou escrever?” e “16. Quando ainda não sabia escrever, ele escrevia “do jeito dele”?” estão agrupadas, pois dizem respeito à possibilidade de a criança brincar com a língua, ocupando uma posição de autoria a partir do reconhecimento do adulto de que ela lê e escreve.

Os 4 fatores detalhados e explicitados acima confirmaram, com o auxílio da estatística, os 4 eixos teóricos para a constituição do leitor/escrevente.

A AFE permitiu a redução do questionário às questões que apontam para o construto proposto, sendo retiradas aquelas que faziam ruído no conjunto. A organização em fatores trouxe a confirmação de que questões supostas como diferenciais na constituição do leitor/escrevente o são de fato.

Foi possível com esta análise confirmar questões conhecidas no campo e tomar outras como hipóteses. O fato de adultos próximos à criança apresentarem práticas de leitura é fundamental para a possibilidade de suporem na criança um leitor e para reconhecerem nela o ato de ler.

A presença de portadores de texto na casa da criança, algo comum em uma sociedade letrada, também demonstrou seus efeitos, pois, como vimos em nossos dados, apenas 3,75% dos respondentes referiu não os ter; ressaltamos, porém, que faz diferença se estes intermediam situações de interação adulto/criança/escrito. O mesmo é verdadeiro para a escrita: é necessário um outro que esteja atento e curioso quanto ao que a criança faz para que seus rabiscos, seus desenhos ou seus textos sejam interpretados e ganhem sentido.

Levar adultos, pais ou educadores, a reconhecer a presença de autoria nos textos de crianças pequenas, também pode gerar efeitos em seu desempenho futuro nos atos de ler e escrever, pois muitas delas (94,6%) manifestam autoria antes da alfabetização formal.

Nesta pesquisa, 65,2% da população de respondentes não terminou o 2º grau, apresentando baixa escolaridade, o que pode indicar hábitos de leitura pouco frequentes sem envolver portadores de texto mais complexos como os livros. Isto nos leva a pensar na possibilidade de intervirmos na promoção de saúde, como fonoaudiólogos, em duas frentes de atuação: uma, com as famílias que, de modo geral, se mostraram abertas ao diálogo sobre a leitura e escrita de seus filhos; e outra, com as creches e escolas de educação infantil, locais privilegiados para a interação do adulto letrado (educador) com a criança e para a oferta de práticas de letramento.

CONCLUSÃO

A pesquisa realizada permitiu validar 8 dos 15 indicadores preliminares para a constituição do leitor/escritor propostos em trabalho anterior(12). Cada indicador não se relaciona a um dos eixos, mas a todos, pois trata-se de uma estrutura em que os valores são obtidos da articulação dos elementos entre si.

A aposta em instrumentos baseados numa concepção de linguagem que compreende a relação criança - adulto - língua (escrita) como terreno para a constituição de um leitor/escrevente é diferencial por sua marca de valorização da subjetividade. Estes indicadores propõem marcas a serem olhadas na coletividade e, ao mesmo tempo, levam aquele que as olha a observar aspectos da interação entre criança e adulto que apontam para o que há de singular na emergência de um leitor/escrevente.

A validação deste instrumento imprime a ele qualidade e abre possibilidades de utilização na promoção de saúde, prevenção de alterações na leitura e escrita e na terapêutica. Para tanto, sugerimos a continuidade deste trabalho com outros estudos exploratórios para a verificação de sua aplicabilidade, como a aplicação mediante observação de crianças em idade pré-escolar em interação com adultos e aplicação a populações de diferentes níveis socioeconômicos e idades.

REFERÊNCIAS

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13 Crestani AH, Moraes AB, Souza APR. Análise da associação entre índices de risco ao desenvolvimento infantil e produção inicial de fala entre 13 e 16 meses. Rev CEFAC. 2015;17(1):169-76. .
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20 Hulley SB, Cummings SR, Browner WS, Grady DG, Newman TB. Delineando a Pesquisa Clínica: uma abordagem epidemiológica. 2 ed. Porto Alegre: ArtMed; 2003.
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