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Valorizando a revisão por pares

Valorizando a revisão por pares

Autores:

Marilia Sá Carvalho,
Claudia Travassos,
Cláudia Medina Coeli

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.30 no.12 Rio de Janeiro dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311xed011214

Tradicionalmente, no fascículo de dezembro de CSP, trazemos a lista de todos os que contribuíram com seu precioso tempo avaliando os manuscritos a nós encaminhados. Aproveitamos esta oportunidade para trazemos neste editorial uma avaliação desse processo.

A revisão por pares, usada há mais de três séculos para sustentar padrões de publicação com qualidade, tem papel importante no processo de comunicação científica. Os revisores são os "guardiões" da publicação científica, filtrando conteúdos de baixa qualidade e pobremente relatados. Somente os periódicos que usam esse sistema são incluídos nas mais importantes bases de dados bibliográficos. Entretanto, esse sistema está longe de ser perfeito1, a começar pela identificação de quem é verdadeiramente um "par". Pareceres contraditórios, avaliações muito superficiais, que pouco contribuem para a decisão editorial, e atraso na emissão de pareceres são problemas frequentes. O sistema, que se baseia essencialmente na confiança entre pares, é vulnerável a violações éticas cometidas por revisores tais como o roubo de ideias, o plágio e o bloqueio para atrasar a publicação. Embora esses eventos sejam raros, podem ocorrer mesmo em periódicos de elevado prestígio, como ficou evidenciado em episódio recente envolvendo o Lancet Infections Diseases 2. Mais recentemente, têm sido relatados episódios de fraude cometidos por autores que, aproveitando-se de falhas nos sistemas eletrônicos de submissão de artigos, têm lançado mão de manobras visando à obtenção de pareceres favoráveis à publicação de seus artigos3.

A revisão de um manuscrito é um trabalho pouco visível, pouco reconhecido e não remunerado. Além disso, é dispendioso para o revisor, pelas horas que "perde" anonimamente avaliando um manuscrito, e desgastante para o autor, que muitas vezes reclama, com razão, do tempo gasto entre a submissão do artigo e sua aprovação final. O crescimento do número de periódicos e de artigos submetidos tem causado um aumento da demanda para revisões, levando à sobrecarga do sistema.

CSP receberá até o final de 2014 aproximadamente 1.900 manuscritos. Desses, a maioria é recusada após avaliação pelas Editoras-chefe imediatamente após a submissão, reduzindo o volume de artigos enviados aos consultores. Mesmo assim, em 2010, para cada um dos 607 artigos enviados para parecer, dois consultores não responderam ou se declararam indisponíveis. Para os 315 enviados até o final de outubro de 2014, tivemos 5,4 recusas por artigo. A recusa elevada ocorre a despeito de adotarmos uma política de preservação de nossos consultores: entre os 1.052 consultores que emitiram parecer entre 2013 e 2014 (18 meses), apenas 20% deram mais de 2 pareceres. Duas questões simples expõem o tamanho do problema. Mantido o mesmo ritmo até o final do ano, enviaremos somente cerca de 400 artigos para revisão. Por outro lado, para obtermos três pareceres por artigo, considerando a atual taxa de recusa de consultores, será necessário o envio em média de 15 convites por artigo.

O questionamento da revisão por pares é assunto central hoje entre os que pensam os rumos da ciência 4 , 5. Discutem-se alternativas como a revisão aberta, coletiva, pré ou pós-publicação6. Enquanto amadurecemos a discussão, em 2015, implementaremos algumas mudanças nesse processo: diminuição do tempo entre convite e resposta do consultor; avaliação da qualidade do parecer pelo editor responsável; facilitação do acesso do consultor ao manuscrito; e, principalmente, nosso reconhecimento sob forma de um certificado para o consultor ao final de cada ano, informando quantos pareceres foram emitidos. Vamos também reivindicar, no âmbito das avaliações de pós-graduação e de pesquisador, que esse trabalho seja devidamente reconhecido e valorizado com atividade relevante de pesquisa.

Esperamos com este editorial sensibilizar os que não puderam colaborar na revisão de manuscritos submetidos a CSP em 2014 para que venham colaborar no futuro, pois todos dependemos desta colaboração quando publicamos. E aos que em 2014 se apresentaram para essa tarefa, MUITO OBRIGADA!

REFERÊNCIAS

1. Smith R. Classical peer review: an empty gun. Breast Cancer Res 2010; 12 Suppl 4:S13.
2. McConnell J. Editor's note. Lancet Infect Dis 2014; 14:182.
3. Ferguson C, Marcus A, Oransky I. Publishing: the peer-review scam. Nature 2014; 515:480-2.
4. Wagner W, Steinzor R, editors. Rescuing science from politics: regulation and the distortion of scientific research. New York: Cambridge University Press; 2006.
5. Gould THP. Do we still need peer review? An argument for change. Lanham: Scarecrow Press; 2012.
6. Wikipedia. Peer review. (accessed on 23/Nov/2014).