Versão em português do "The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty": validação e aplicação clínica

Versão em português do "The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty": validação e aplicação clínica

Autores:

Francisco Rosa,
Peter J.F.M. Lohuis,
João Almeida,
Mariline Santos,
Jorge Oliveira,
Cecília Almeida e Sousa,
Miguel Ferreira

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694versão On-line ISSN 1808-8686

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.85 no.2 São Paulo mar./abr. 2019 Epub 29-Abr-2019

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2017.11.007

Introdução

A rinoplastia tornou‐se uma das principais cirurgias estéticas feitas por otorrinolaringologistas e cirurgiões plásticos. As principais indicações para a rinoplastia são estética e estética funcional.1

A maioria dos estudos que discute a cirurgia estética envolve discussões sobre técnicas cirúrgicas, vias de acesso, complicações, sequelas e taxas de reoperação. A avaliação do resultado final da intervenção, do ponto de vista do paciente, não foi muito estudada e essa análise é muito importante, pois a satisfação do paciente é o fator predominante para o sucesso cirúrgico.2

Na rinoplastia, mais do que qualquer outro aspecto da rinologia, a satisfação do paciente e a qualidade de vida devem ser medidas em relação às quais o procedimento bem‐sucedido deve ser avaliado. Nesse contexto, os questionários de qualidade de vida são ferramentas bastante adequadas que permitem a avaliação quantitativa de resultados subjetivos, como a satisfação do paciente e, consequentemente, o sucesso da cirurgia.3

Com base nessa filosofia, Lohuis et al. criaram um breve questionário com base em um questionário previamente validado por Alsarraf. O questionário The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty continha uma escala visual analógica e cinco questões simples para avaliar a imagem corporal subjetiva e a qualidade de vida em relação à aparência nasal, que influenciam a satisfação do paciente submetido à rinoplastia.4,5

O objetivo deste estudo foi fazer a tradução, adaptação transcultural e validação do The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty do inglês para português de Portugal.

Método

Inicialmente, o pedido de autorização foi feito para o autor original. O questionário The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty foi traduzido e adaptado de acordo com critérios de Guillemin et al.6

A primeira parte do questionário consistiu em cinco questões (E1 a E5). O paciente foi entrevistado sobre a imagem corporal e a qualidade de vida em relação à aparência nasal. Cada uma das cinco questões foi pontuada na escala de Likert de 5 pontos (1, de modo nenhum, 5, muito/frequentemente), de maneira que, no total, um mínimo de 5 pontos e um máximo de 25 pontos podiam ser obtidos. As questões 3 e 4 (E3 e E4) foram consideradas capciosas, foram incluídas com a ideia de que poderiam sugerir uma perturbação na percepção corporal ou no transtorno dismórfico corporal. A segunda parte do questionário consistiu em uma escala visual analógica de 0 a 10 pontos (0, muito feio, 10, muito bonito) na qual os pacientes podiam avaliar a aparência do nariz.4

A versão original em inglês (fig. 1) foi entregue a três tradutores com fluência em inglês, mas cuja língua nativa era o português.

Figura 1 Questionário The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty

Em uma segunda fase, um painel de especialistas comparou as três traduções e elaborou uma tradução consensual. Essa última tradução foi entregue a três tradutores cuja língua nativa era o inglês, com alta fluência em português, criou‐se a retrotradução (back‐translation) do português para o inglês. Um segundo painel de especialistas comparou a versão original do questionário com a retrotradução e, finalmente, uma versão intermediária foi criada.

Essa versão intermediária foi entregue a 15 pacientes previamente submetidos à rinoplastia. Dessa forma, foi possível testar a compreensão de cada item. Essa fase permitiu a adaptação cultural da versão, resultou na versão final em português.

Para avaliar as mudanças na percepção subjetiva da aparência nasal após a cirurgia, o questionário foi enviado por e‐mail para pacientes voluntários para comparar retrospectivamente o período pré‐operatório com a situação atual. O consentimento informado foi obtido de todos os indivíduos incluídos no estudo. Os critérios de inclusão foram: pacientes submetidos à rinosseptoplastia primária em 2015 e 2016, com idade superior a 18 e menor do que 65 anos, período pós‐operatório mínimo de seis meses e máximo de dois anos. Os critérios de exclusão foram: pacientes com deformidades faciais congênitas, que não falavam português de Portugal e sem intenção de participar do estudo.

Para avaliar a confiabilidade, validade e consistência interna de nosso questionário, analisamos estatisticamente os dados do questionário nos períodos pré‐ e pós‐operatório. Avaliamos a confiabilidade teste‐reteste, determinamos para cada pergunta o coeficiente de correlação de Pearson entre a resposta pós‐operatória e o mesmo questionário repetido 96 horas depois. Usamos o teste t de Student para avaliar esses coeficientes de correlação. A consistência interna do questionário foi medida pelo coeficiente alfa de Cronbach. A validade desse breve questionário foi avaliada pela medida da resposta às mudanças. Portanto, fizemos um teste t pareado que comparou respostas pré‐ e pós‐operatórias. Para os testes estatísticos, os resultados com p < 0,05 foram considerados significativos.

Resultados

A versão final do questionário traduzido e adaptado do inglês para o português, de acordo com os critérios de Guillemin, é apresentada na figura 2.

Figura 2 Versão final em português do questionário The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty

Incluímos 50 pacientes submetidos à rinoplastia por motivos estéticos ou estético‐funcionais. A média foi de 37,34 anos (desvio‐padrão – DP ± 9,96), variou de 22 a 63, com 26 (52%) pacientes do sexo masculino e 24 (48%) do feminino.

Nenhum paciente apresentou variação negativa no escore da escala visual analógica (EVA) ao se comparar a aparência pré‐operatória e pós‐operatória (seis meses a dois anos após a cirurgia). A melhoria pós‐operatória na escala visual analógica revelou uma curva gaussiana de distribuição normal com melhoria média de 4,44 (DP ± 1,8) pontos. A maioria dos pacientes (80%) considerou que a aparência do nariz melhorou entre 3 e 6 pontos (fig. 3).

Figura 3 A melhoria pós‐operatória na escala visual analógica (EVA) revelou uma curva gaussiana de distribuição normal com uma melhoria média de 4,44 pontos. 

A confiabilidade teste‐reteste mede a estabilidade de um instrumento ao longo do tempo após testes repetidos. A confiabilidade teste‐reteste mostrou uma correlação positiva entre a resposta pós‐operatória e o mesmo questionário repetido 96 horas depois (tabela 1). A avaliação do teste t desses coeficientes de correlação não apresentou diferenças estatisticamente significativas (p < 0,05).

Tabela 1 Confiabilidade teste-reteste: coeficiente de correlação de Pearson entre a resposta pós-operatória e o mesmo questionário repetido 96 horas depois 

Questão (1-5) Coeficiente de correlação de Pearson p
E1 0,89 0,209121
E2 0,87 0,209867
E3 0,91 0,284477
E4 0,86 0,091176
E5 0,87 0,091176
SOMA (E1-E5) – (5-25) 0,96 0,098301
EVA 0,89 0,349522

Teste t de Student (p < 0,05).

A consistência interna refere‐se à forma como os itens individuais se relacionam, a fim de proporcionar homogeneidade entre eles, e foi medida com o coeficiente alfa de Cronbach. O escore mínimo aceitável para o alfa de Cronbach é 0,7. A consistência interna do questionário foi adequada. O valor alfa foi de 0,88 para respostas pré‐operatórias e 0,86 para respostas pós‐operatórias.

A validade do questionário foi avaliada pela medida da resposta às mudanças. Observamos uma melhoria significativa (p < 0,05) na resposta a todas as questões individuais na fase pós‐operatória em comparação com a situação pré‐operatória (tabela 2).

Tabela 2 Validade do questionário: comparação dos escores pré- e pós-operatórios 

Questão (1-5) Escore pré-operatório Escore pós-operatório p
E1 3,52 1,68 1,43 × 10-13
E2 3,4 1,54 2,23 × 10-13
E3 2,08 1,3 4,73 × 10-13
E4 2 1,22 7,47 × 10-13
E5 3,06 1,38 4,76 × 10-13
SOMA(E1-E5) - (5-25) 14,06 7,12 1,24 × 10-12
EVA 3,82 8,26 1,94 × 10-12

Teste t de Student (p < 0,05).

Discussão

Alguns fatores podem influenciar a satisfação do paciente, como a cultura, a experiência de vida e especialmente as expectativas do paciente sobre o resultado final, que pode ou não ser realista. Embora o procedimento possa ser frequentemente considerado um sucesso pelo cirurgião, o paciente pode não se sentir satisfeito com ele e o contrário também é verdadeiro.7,8

A rinoplastia, que interfere na imagem do paciente e consequentemente na sua autoestima, requer cada vez mais o uso de questionários de satisfação com o procedimento.9

A fácil aplicação do questionário foi uma das preocupações que Lohuis et al. tiveram ao criá‐lo.4 Percebemos que, após sua tradução e adaptação transcultural, essa característica não se perdeu.

O questionário foi autoadministrado por e‐mail e apenas alguns minutos são suficientes para responder as perguntas – sem causar desconforto ao paciente. Provavelmente, essa aplicação do questionário aos pacientes não alterou sua proposta, porque mesmo que fosse aplicado por meio de entrevista, a leitura seria feita ipsis verbis, sem qualquer explicação das questões. Além disso, em nossa prática clínica, os pacientes tendem a preferir que o questionário seja aplicado por e‐mail. Esse método tem algumas vantagens, como tempo de preenchimento mais rápido, menor taxa de dados faltantes e a não interferência da motivação do entrevistador nas respostas.10

O método usado neste estudo, uma avaliação retrospectiva da satisfação pré‐operatória do paciente e uma avaliação prospectiva da satisfação pós‐operatória do paciente, foi semelhante ao publicado por outros autores.1,7

A versão em português do questionário mostrou alta consistência interna, como a original, com um coeficiente alfa de Cronbach superior a 0,8.

A reprodutibilidade teste‐reteste foi avaliada de diferentes maneiras. No estudo original, os pacientes preencheram o questionário (autoaplicação) duas vezes: um ano após a cirurgia (resposta pós‐operatória) e dois a quatro anos após a cirurgia (resposta pós‐operatória repetida). Em nosso estudo, avaliamos a confiabilidade teste‐reteste ao computar para cada pergunta o coeficiente de correlação de Pearson entre a resposta pós‐operatória e o mesmo questionário repetido 96 horas depois. Apesar das diferenças na aplicação do questionário, coeficientes de correlação elevados foram alcançados por ambas as formas.

Quanto à validade do questionário, a versão em português apresentou um ótimo desempenho e uma diferença estatisticamente significante foi observada nos escores quando comparamos as respostas pré‐ e pós‐operatórias. A melhoria significativa nas questões E1 a E5 e na soma dos escores fortemente sugere uma melhoria pós‐operatória na percepção subjetiva da aparência nasal e qualidade de vida após a rinoplastia na população estudada.

A melhoria pós‐operatória na escala visual analógica revelou uma curva gaussiana de distribuição normal com melhoria média de 4,44 pontos. Com essa ferramenta simples, como a escala visual analógica, a análise dos pacientes operados pode dar ao cirurgião uma avaliação de seu desempenho, essa informação é útil para o cirurgião e o paciente.

Para os cirurgiões que selecionam medidas de resultado relatadas pelos pacientes para serem usadas na prática clínica, a qualidade e o conteúdo dos questionários disponíveis devem ser considerados com cuidado. Esses podem ser divididos em três categorias: 1) Autoavaliação funcional; 2) Autoavaliação estética (por ex., Utrecht questionnaire); e 3) Autoavaliação estética e funcional (por exemplo, Rhinoplasty Outcomes Evaluation). Esse questionário curto e prático concentra‐se especificamente na rinoplastia estética. No período pré‐operatório, o questionário informa o cirurgião sobre a imagem corporal e a qualidade de vida em relação à aparência nasal. No pós‐operatório, o questionário mede o resultado estético, que, por exemplo, pode ser útil para decidir se pequenas correções adicionais são necessárias ou podem ser evitadas.

Conclusão

A versão em português do questionário The Utrecht questionnaire for outcome assessment in aesthetic rhinoplasty é um instrumento válido para avaliar resultados em pacientes com rinoplastia, apresenta boa consistência interna, reprodutibilidade e validade. O cirurgião que faz rinoplastia pode se beneficiar do uso desse questionário simples, rápido de preencher e que fornece importantes informações subjetivas sobre a aparência nasal pré‐operatória do paciente e o resultado cirúrgico pós‐operatório.

Aprovação ética

Todos os procedimentos feitos em estudos que envolvem participantes humanos estavam de acordo com os padrões éticos da instituição.

Apresentação anterior

Este artigo foi apresentado na forma de comunicação oral no ENT World Congress IFOS em Paris, 2017.

Consentimento informado

O consentimento informado foi obtido de todos os indivíduos incluídos no estudo.

REFERÊNCIAS

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2 Izu SC, Kosugi EM, Lopes AS, Brandão KV, Sousa LG, Suguri VM, et al. Validation of the Rhinoplasty Outcomes Evaluation (ROE) questionnaire adapted to Brazilian Portuguese. Qual Life Res. 2014;23:953-8.
3 Hopkins C. Patient reported outcome measures in rhinology. Rhinology. 2009;47:10-7.
4 Lohuis PJ, Hakim S, Duivesteijn W, Knobbe A, Tasman AJ. Benefits of a short, practical questionnaire to measure subjective perception of nasal appearance after aesthetic rhinoplasty. Plast Reconstr Surg. 2013;132:913-23.
5 Alsarraf R, Larrabee WF, Anderson S, Murakami CS, Johnson CM. Measuring cosmetic facial plastic surgery outcomes: a pilot study. Arch Facial Plast Surg. 2001;3:198-201.
6 Guillemin F, Bombardier C, Beaton D. Cross-cultural adaptation of health-related quality of life measures: literature review and proposed guidelines. J Clin Epidemiol. 1993;46:1417-32.
7 Hellings PW, Trenité GN. Long term patient satisfaction after revision rhinoplasty. Laryngoscope. 2007;117:985-9.
8 Khansa I, Khansa L, Pearson GD. Patient satisfaction after rhinoplasty: a social media analysis. Anesthet Surg J. 2015;36:NP1-5.
9 Alsarraf R. Outcomes research in facial plastic surgery: a review and new directions. Aesthetic Plast Surg. 2000;24:192-7.
10 Ritter P, Lorig K, Laurent D, Matthews K. Internet versus mailed questionnaires: a randomized comparison. J Med Internet Res. 2004;6:e29.
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