Violências percebidas por homens adolescentes na interação afetivo-sexual em dez cidades brasileiras

Violências percebidas por homens adolescentes na interação afetivo-sexual em dez cidades brasileiras

Autores:

Fátima Cecchetto,
Queiti Batista Moreira Oliveira,
Kathie Njaine,
Maria Cecília de Souza Minayo

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.20 no.59 Botucatu out./dez. 2016 Epub 28-Jun-2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622015.0082

RESUMEN

Este artículo presenta el punto de vista de adolescentes hombres sobre el tema de la violencia en el noviazgo. Con base en entrevistas y grupos focales realizados en diez ciudades brasileñas entre 2007 y 2009, el texto toma como parámetro el análisis de los significados de los jóvenes acerca de la agresión física, psicológica y sexual dentro de las relaciones íntimas. La metodología del estudio se centra en los relatos de 257 estudiantes, con edades entre 15 y 19 años de escuelas públicas y privadas. Los resultados del estudio muestran que los significados atribuidos al fenómeno de la violencia en el noviazgo son vinculados a representaciones rígidas sobre los papeles de género, que corresponden a expectativas relacionadas al desempeño de los hombres y las mujeres en las relaciones afectivo-sexuales.

Palabras-clave: Noviazgo; Violencia; Género; Masculinidad

Introdução

Abordar a violência no namoro e no ficar entre adolescentes tem sido um desafio lançado aos cientistas sociais de várias orientações teóricas. As profundas transformações ocorridas nas últimas décadas, introduzindo nuances e novas combinações nas relações entre os gêneros não são desprezíveis nas análises contemporâneas sobre a presença de práticas violentas entre parceiros íntimos. Os significados diversos que a violência pode assumir nas interações amorosas, incluindo as ambivalências que o assunto encerra, requerem cada vez mais atenção como objeto de pesquisa nas ciências humanas e sociais, e de políticas no âmbito da saúde pública.

O presente estudo tem como objetivo analisar as visões e as experiências de jovens do sexo masculino sobre seus relacionamentos, explorando as questões de gênero e violência entre namorados adolescentes. Os dados são oriundos de uma pesquisa quantitativa e qualitativa, inédita no país, realizada entre 2007 e 2009, com 3.205 adolescentes escolares entre 15 e 19 anos, de dez capitais brasileiras, que investigou a prevalência e as representações sociais desse grupo sobre violência no namoro1. O estudo quantitativo evidenciou uma alta prevalência de violência nestas relações: praticamente nove entre dez adolescentes relataram ter vivenciado algum tipo de violência no namoro.

As narrativas masculinas, analisadas neste artigo, têm como contraponto a literatura sobre relações de gênero e os estudos sobre violência no namoro na adolescência. Em geral, ainda são poucas as investigações sobre a violência de gênero que incluem as vozes masculinas, por muito tempo relegadas à margem nos estudos de gênero2. Na perspectiva das ciências sociais, gênero é utilizado para distinguir a dimensão biológica da dimensão social3. Privilegia-se o aspecto relacional e não, simplesmente, o masculino e o feminino como esferas estanques, dissociadas e sem articulação uma com a outra na sua própria constituição4.

A masculinidade é aqui compreendida como um construto sócio-histórico, tendo por base o aprendizado contínuo de práticas consideradas ‘masculinas’5. A obrigação de afirmar qualidades ditas viris – ligadas ao uso conspícuo da violência física e do sexo – concorre para uma enorme vulnerabilidade dos homens6,7. Inúmeros agravos à saúde do homem estão relacionados ao aprendizado da masculinidade, incluindo condutas que colocam em risco tanto suas vidas quanto de seus pares8. Pesquisas no âmbito da saúde coletiva demonstram como as altas taxas de homicídios e acidentes de trânsito entre adolescentes do sexo masculino estão situadas bem acima do nível a partir do qual é considerado epidêmico pela Organização Mundial de Saúde9,10.

Por ser relacional, a violência no namoro pode ser entendida como de gênero, afetando, portanto, as interações tanto entre homens e mulheres quanto entre homens e entre mulheres11.

Na medida em que se estabelece como uma forma de comunicação entre parceiros adolescentes, a violência pode acabar se cristalizando como estratégia para lidar com os conflitos nas relações íntimas. Além de estar associada a inúmeros danos à saúde física e mental, é considerada, por diferentes autores, como um forte preditor da violência entre casais na vida adulta12, embora haja uma lacuna de estudos empíricos que comprovem tal assertiva13.

O tema, bastante explorado na literatura norte-americana e canadense12, recentemente vem sendo pesquisado em outros países, incluindo o Brasil1 4-22. Deles, destaca-se que diferentes tipos de agressão são, muitas vezes, aceitas ou percebidas como naturais pelos adolescentes, o que colabora para sua reprodução no cotidiano dos namoros como forma de resolução de conflitos, sobretudo, em situações que envolvem ciúmes23-25.

Metodologia

O presente artigo baseia-se nas informações qualitativas que buscaram apreender as opiniões, crenças e valores sobre violência no namoro entre os adolescentes. Optou-se por privilegiar as visões mais amplas sobre o tema para captar as representações sociais do grupo para além de vivências individuais.

A população em estudo se concentra em estudantes do sexo masculino matriculados no 2° ano do Ensino Médio, de escolas públicas e privadas das cidades de Manaus/AM, Porto Velho/RO, Teresina/PI, Recife/PE, Cuiabá/MT, Brasília/DF, Rio de Janeiro/RJ, Belo Horizonte/MG, Florianópolis/SC e Porto Alegre/RS. Participaram da abordagem qualitativa 519 adolescentes. Foram realizadas 34 entrevistas individuais (22 masculinas e 22 femininas) e sessenta grupos focais (um masculino, um feminino e um misto em cada escola – cinco privadas e cinco públicas).

Foram examinadas as falas de 257 estudantes do sexo masculino participantes, sendo: 21 das entrevistas individuais, 155 dos grupos focais masculinos e 81 dos grupos focais mistos. Um roteiro semiestruturado foi utilizado, cujas questões foram organizadas em cinco blocos: (a) tipos de relações amorosas, opiniões e sentimentos dos jovens sobre as relações de namoro e do ficar e o que eles entendem por “violência no namoro ou no ficar”; (b) o que os jovens consideram “agressão psicológica” no namoro e no ficar; (c) o que consideram “violência física”; (d) o que consideram “violência sexual”; e (e) como se sentem após o término de um namoro com uma pessoa de quem gostavam muito; como deve ser abordado o tema das relações afetivo-sexuais com os jovens. Tal roteiro, utilizado tanto para as entrevistas como para os grupos focais, permitiu, no momento da análise, uma triangulação adequada das distintas opiniões sobre as mesmas indagações básicas realizadas na abordagem quantitativa.

Destacam-se algumas limitações do estudo. A primeira, refere-se ao fato de não se terem abordado adolescentes fora da escola. A segunda, de ser um primeiro diagnóstico nacional sobre o problema, necessitando, ainda, de aprofundamento em diferentes aspectos que afetam diretamente a saúde física e emocional dos adolescentes.

Todas as sessões foram transcritas descaracterizando-se possíveis elementos de identificação individual dos participantes. Inicialmente, foi realizada uma leitura abrangente das entrevistas e grupos focais para selecionar as maiores recorrências de palavra e expressões relacionadas ao tema da violência no namoro. Em seguida, enumeraram-se as principais ocorrências, procurando-se agrupá-las em blocos conforme a tipologia da violência: física, psicológica e sexual.

A leitura dos dados procurou identificar, nos episódios narrados, as representações e práticas dos rapazes sobre a violência no namoro. Foram destacados aspectos dessas narrativas capazes de conduzir ao entendimento do que é qualificado como violência nesse universo. Cabe informar que ainda que a pesquisa tenha sido realizada em dez capitais de cada região do país, não houve discrepância entre as cidades investigadas.

Resultados

Violência no namoro: silêncio e hesitação

Inicialmente, muitos adolescentes se calaram ou hesitaram diante da existência das práticas violentas no namoro. Foi no decorrer da análise que diferentes expressões da violência foram surgindo em seus discursos. Diversos fatores como traição, ciúmes, uso de bebida alcoólica e outras drogas foram relacionados à ocorrência de violência. Destaca-se que as agressões cometidas por mulheres e homens contra seus parceiros são percebidas e qualificadas tendo por base o gênero do agressor e da vítima, considerando aspectos como motivação da agressão e danos provocados.

As ambiguidades nas respostas não foram incomuns. O relato de um adolescente de Porto Alegre expressa isso: “O que eu posso dizer é que não tem uma violência no namoro. Claro, acontece em qualquer lugar do Brasil”.

Constatou-se, ainda, uma certa idealização das relações de namoro, tendo por base a ideologia do amor-romântico equacionada ao padrão igualitário nos encontros amorosos, como vemos abaixo:

“Esse negócio de violência no namoro, eu fico decepcionado porque não há necessidade. Como eu acabei de dizer, se as pessoas se amam mesmo de verdade, uma conversa clara e nítida já dá para resolver tudo”. (Manaus)

A despeito de uma inicial hesitação ou negação, muitos acabaram por mencionar casos de agressão, porém, entre casais próximos, isto é, parentes, amigos e vizinhos.

Violência no outro

Se, a princípio, a violência está no outro, as brigas entre namorados –especialmente aquelas provocadas por ciúmes – foram percebidas como inerentes aos relacionamentos, sobretudo nos mais duradouros, como indica a fala a seguir: “relacionamento sério tem que ter uma briga” (Rio de Janeiro).

O ciúme foi percebido como principal desencadeador da violência entre namorados. Ele é considerado como o elemento que precipita as explosões de raiva. É o que revela um rapaz de Manaus: “ninguém nunca sabe o que pode acontecer num momento de raiva”. Assim, o ciúme acaba sendo a razão mais alegada como justificativa para a agressão violenta, como aponta o seguinte trecho:

“O namorado que tem muito ciúme um do outro e tal daí mal pode ver a mulher abraçar outro, já começa a ficar com ciúme e logo depois termina o relacionamento acaba batendo na namorada”. (Manaus)

Embora as explosões de raiva e consequentes agressões físicas tenham sido mais associadas aos comportamentos dos meninos, houve relatos de frequentes agressões físicas das parceiras: “Tem o caso do meu primo. A mulher bate nele, bate e gosta. Depois fala que foi por amor. É uma obsessão” (Cuiabá).

Um entrevistado relatou já ter sido agredido fisicamente pela namorada por motivo de ciúme: “Eu já tomei uns tapas. Foi por ciúme. Aí eu parei e conversei com ela. A gente chegou assim, quase a um entendimento” (Rio de Janeiro).

Álcool e violência

Outro fator que pode desencadear a violência física é o uso abusivo de bebidas alcoólicas. O álcool é tido como o ingrediente que potencializaria episódios de desconfiança, ciúmes e agressões entre namorados. Nesse sentido, os indivíduos sob o efeito de álcool estariam mais suscetíveis a lidarem com os sentimentos de forma violenta, agredindo os próprios parceiros ou quem possa estar provocando ciúmes:

“Normalmente, agressão física acontece mais quando tem bebida alcoólica no meio, ou ciúmes, ele vai, já quer bater, já quer briga, já quer porrada”. (Cuiabá)

Nessa perspectiva, o álcool surge como que intensificando emoções já presentes nas pessoas. Os depoimentos abaixo afirmaram essa propriedade “potencializadora” do álcool.

“Ver tua menina bebaça, seu namorado bebaço, entendeu? Essa é a consequência. A bebida causa briga, causa tudo”. (Porto Alegre)

“Eu posso até me alterar um pouco com essa minha ex-namorada, eu cheguei até ter confusões. Tive briga com ela. Mas só que sempre quem era ofendido era eu. Eu sou um cara que bebo, mas fico tranquilo e tudo. Só que ele [um amigo] quando bebe se altera. Aí a namorada dele estava lá e tudo aí deu a hora da gente ir embora. Ele não queria ir. Só sei que ele se invocou para o lado da gente, dizendo que a gente estava dando em cima da namorada dele. Aí a namorada dele foi lá acalmar ele, o que é que aconteceu? Ele largou uma porrada nela, a cara da menina ficou toda roxa”. (Manaus)

Quando um tapa não dói

Quando o assunto é agressão física, os relatos indicam que as meninas são muito mais vitimadas por seus parceiros, embora, como averiguado neste estudo, as meninas também os agridam física e psicologicamente. Nessas situações, algo que se destaca é a visão dos rapazes sobre a agressão por parte da mulher. Há uma desqualificação de sua ocorrência por ser considerada “menos danosa”. Talvez por isso, esse tipo de agressão conte também com maior aceitação social, sendo, inclusive, autorizada em certos momentos.

Um depoimento do Rio de Janeiro revelou que a aceitabilidade da agressão feminina no namoro é graduada, indo dos chamados “tapinhas de mulher”, tidos como de menor impacto e, por vezes, “prazerosos”, até o tapa na cara, considerado um ato de humilhação pelos rapazes: “Tapinhas de mulher é até gostoso. Tapa na cara, aí é violência! Na cara não, é humilhação. Quando a mulher bate, nem se sente, não é igual ao homem batendo” (Rio de Janeiro).

Assim como nos casos de violência contra a mulher pelos parceiros íntimos, a traição masculina é, para os rapazes, a razão da violência praticada pela menina, sendo, inclusive, percebida como um direito: “Ela tem um direito de dar um tapa” (Cuiabá). Tal percepção pode ser entendida como expressão de uma lógica machista que passa a ser válida, também, para as meninas em algumas situações, mas que também revela seu lado mais tradicional e controverso: a culpabilização da vítima. Essa percepção transparece a seguir:

“Se batem [um casal], chega roxa aqui, mas ela gosta. [...] Se ela está com ele, então ela está gostando. Ela gosta de apanhar”. (Porto Alegre)

“Homem bater já é sacanagem; se bater numa menina machuca muito. Colega minha chegou toda roxa porque o namorado dela deu porrada nela. Continuou com o cara. Continua acontecendo. Bateu uma vez pode bater várias vezes. Porque aí a menina vai se acostumando”. (Porto Velho)

Agressão verbal ou psicológica: uma mistura explosiva de ameaças e xingamentos

Embora a violência física tenha sido, no geral, a principal representação da violência no namoro, a verbal foi uma categoria importante referida pelos rapazes: “Para mim [violência] é xingar a pessoa, falar mal, falar por trás” (Recife). Todavia, as agressões verbais foram descritas como um recurso masculino que pode ser acionado no lugar da violência física:

“Homem até para não bater xinga muito mais. Até por que ele não tem coragem de chegar e dar um tapa na namorada, ele vai xingar até ela cansar e ficar quieta e parar de encher o saco: ‘Vagabunda, cachorra! Sem Vergonha! Prostituta! Puta! Vadia! Sua vaca!’ A agressão verbal, eu acho mais aceitável do que a física. Eu já fui xingado, já xinguei”. (Cuiabá)

Um entrevistado associou as agressões a uma relação de dependência emocional e psicológica entre os parceiros:

“O garoto batia nela e a menina tinha medo de divulgar que acontecia isso. Às vezes acaba acontecendo: a menina chega em casa com um hematoma e não foi algo que ela quis. Às vezes ela deixou porque o menino forçou, ou ela está com medo de acabar o relacionamento. Tem muito dessa dependência também”. (Rio de Janeiro)

As ameaças são consideradas uma forma de agressão psicológica na medida em que são usadas como meio de pressionar ou constranger a parceira, além de serem, muitas vezes, predecessoras das agressões físicas e de se expressarem por meio de palavras ou gestos:

“Pode ser o cara falar [pra mina] que ela vai perder ele. Eu uso isso. Uma ameaça. O namorado quer que ela faça tal coisa, aí faz uma ameaça: ‘vou terminar, eu não quero mais que você faça isso, senão eu faço tal coisa também, ou te chifro. Olha tem uma garota me dando mole, se você fizer isso, eu saio com ela’”. (Rio de Janeiro)

Traições e o descontrole das emoções

Como visto anteriormente, a agressão física masculina é repudiada; porém, a traição feminina é considerada um ato violento, sobretudo as que são motivadas pela raiva ou vingança, somando-se, assim, às agressões verbais como principais estratégias de agressões por parte das meninas:

“[A agressão física] é de meninos para meninas, mas, meninas, quando estão com raiva já botam um chifre mesmo. Mas não agridem fisicamente. Até mesmo por causa do físico, mas é verbalmente mesmo”. (Recife)

Entretanto, se a traição feminina é uma agressão, a fala abaixo expressa bem o contexto machista em que é percebido o ato de trair, revelando a ideia de padrões diferenciados em relação à sexualidade masculina e feminina: “Trair não é violência não. Só se a mulher trair. Desde a pré-história o homem pode, a mulher não” (Brasília).

Agressões verbais e ameaças encontram espaço também na rede virtual, onde ganham conotação de “violência moral”. Diversos relatos mencionaram casos de difamação, xingamentos, humilhações públicas e exposição de fotos íntimas em redes sociais como forma de agredir parceiros ou ex-parceiros:

“Violência moral também pode existir. Difamar a pessoa que você está namorando, tirar foto da pessoa e colocar na Internet. Uma menina vai lá e levanta a blusa e mostra os peitos. O cara guarda essa foto e divulga na Internet para todo mundo ver. Eu conheço três meninas que passaram por uma situação dessas. Um caso foi de chantagem, ‘se você não ficar comigo eu vou divulgar’”. (Florianópolis)

Forçar a barra: o sexo forçado como agressão

Em relação às agressões sexuais, vemos que, em diferentes cidades, os adolescentes as representam, sobretudo, como sexo forçado:

“Forçar a barra para transar. A moça não quer e ele vai forçando. Aí, acaba dando até uma intriga”. (Porto Alegre)

“A questão dos hormônios. É o que mais acontece. Tem camarada que acha que está certo fazer isso com a mulher, ele vai lá e força a mulher. Ele acha que tem direito, força até cometer o ato. Daí pode até vir a violência sexual, mete e pronto”. (Recife)

Nessas situações, muitas vezes, a mulher é acusada de não perceber a situação de abuso sexual: “Tem muita gente por aí que não tem consciência que está sendo violentada” (Rio de Janeiro). Nessa linha, a atitude masculina é considerada desrespeito ao desejo feminino:

“Acontece quando o cara está de cabeça virada só quer saber de transar. Acha que mulher é objeto de desejo e pronto. Passar a mão. Tem gente que passa a mão na bunda, não quer nem saber. Tem garotas que permitem”. (Rio de Janeiro)

Tanto nessa como em outras falas, o ato de pressionar a garota para fazer sexo ou para ter outras intimidades sexuais foi repudiado pelos entrevistados, ainda que admitam que essa atitude não seja incomum nos relacionamentos:

“A menina não quer. Não queria ser tocada e eu já vi forçar. Ficando e querendo passar a mão nela e ela não querendo deixar. Quem não arrisca não petisca. Já vi e confesso que já aconteceu comigo”. (Cuiabá)

Tal pressão para o sexo pode ser concretizada de forma mais sutil, e nesses casos, a sedução masculina que tem por finalidade convencer a mulher a fazer sexo, também é compreendida como agressão sexual, sobretudo, se vem acompanhada da demanda que qualifica o sexo como uma espécie de “prova de amor”23.

Discussão

Embora a violência no namoro tenha sido rechaçada, sobretudo, as agressões físicas e sexuais contra mulheres – qualificadas, muitas vezes, como covardia –, tal reprovação não excluía a visão estereotipada que responsabiliza a mulher pela agressão sofrida. Nesse ponto, ganha força a crença de que, quando a mulher apanha, é porque deu motivo para sofrer tal agressão ou, mesmo, porque gosta de ser agredida. Cabe salientar que essa é uma máxima que vale, também, para os garotos que são agredidos por terem dado motivos, como nos casos de infidelidade, em que as agressões físicas encontram justificativa.

A agressão verbal é compreendida como violência psicológica, o que converge com os achados de Oliveira et al.23, indicando que a verbal é a mais praticada pelos adolescentes de ambos os sexos nas dez cidades pesquisadas, tanto em estudantes da rede pública como particular. Portanto, a maioria das falas centra-se nos temas de ciúme, traição, fofocas e xingamentos como fatores que desencadeiam as agressões verbal e física.

A agressão física cometida pelas namoradas é tolerável entre os meninos, pois é categorizada como de menor potencial ofensivo, o que coaduna com resultados de pesquisas anteriores que mostram que os adolescentes de ambos os sexos aceitam o uso da violência física das meninas mais que dos meninos26.

Entretanto, como os estudos indicam, as mulheres são as que mais procuram os hospitais, necessitando de cuidados emergenciais por lesões e traumas. Constata-se uma real desvantagem das mulheres em relação aos homens na vitimização por agressões entre parceiros íntimos, pois, entre elas, há três vezes mais chances de serem feridas, cinco vezes mais chance de receberem assistência médica em função de um dano físico provocado pelo parceiro, e cinco vezes mais medo de morrer27.

No material analisado, percebem-se os vários significados da violência, articulados à dinâmica das relações de gênero. Ser xingado ou ser humilhado é percebido como uma das piores violências pelos rapazes. Quando a menina xinga ou humilha, é como se sua performance verbal implicasse numa ruptura das barreiras que separam o masculino do feminino, maculando a noção de honra masculina, calcada na valorização do recato feminino.

A traição ou infidelidade feminina são aspectos que podem levar à violência física perpetrada contra as namoradas, e o dito ‘ciúme obsessivo’ é classificado como uma forma de violência psicológica exercida pelas mulheres.

A traição feminina é considerada, pelos rapazes, como um dos principais agentes causadores da violência masculina. O discurso sobre o adultério feminino revela o lugar em que a violência é vista como mais defensável e, da perspectiva masculina, a mais temida, pois envolve o risco de o rapaz ser categorizado como corno. Pode ser dito que ser corno tem uma função importante no senso da honra entre os pares masculinos, integrando a definição tida como hegemônica da masculinidade. É como se os homens tivessem sua masculinidade neutralizada quando têm sua honra manchada, devendo lavá-la, muitas vezes, com sangue28.

Nesse sentido, a noção de honra ou respeito (categoria mais preferida pelos adolescentes) pode funcionar como uma moeda por meio da qual eles negociam seu lugar, sobretudo, no que diz respeito às desigualdades de poder entre os gêneros29. Nisso se insere uma gramática hierárquica, cujo binômio ‘vadia’/‘garanhão’ refere-se às interdições do exercício do desejo e da sexualidade de modo distinto entre os sexos. Assim, a maioria dos relatos afirma uma ideologia tradicional nas relações entre os sexos. A mulher deve ser mais contida ou recatada, já o homem deve publicizar suas conquistas sexuais, recebendo a aprovação social.

Outro eixo de análise se concentra na percepção masculina sobre a violência contra a mulher. Não foram poucos os adolescentes que testemunharam agressões sofridas pelas moças por parte de seus companheiros, esposos ou namorados. Se, por um lado, eles repudiam toda a forma de violência na relação, por outro, atribuem à mulher o ‘gosto’ pela violência.

A perpetuação do repertório machista pode ser percebida em vários relatos sobre a violência física. Nesse discurso, está contida uma visão bastante frequente, no senso comum, nos casos de violência contra a mulher, culpabilizando-a pela agressão. Talvez uma das explicações possíveis para essa narrativa seja o fato de os homens e mulheres desconhecerem os efeitos psicológicos relativos ao impacto da violência nas formações subjetivas dos indivíduos, que requerem atenção especializada30.

Pesquisas sobre vítimas de agressão doméstica, incluindo o abuso sexual, em geral, indicam a presença de: sentimentos de culpa, depressão, comportamento autodestrutivo, ansiedade, baixa autoestima, tendência a revitimização, dentre outros sintomas31. Entretanto, pouco se fala sobre o papel do agressor nessa interação violenta, tampouco da dominação masculina, incluindo as desigualdades sociais e econômicas32. A expressão “mulher gosta de apanhar” seria uma forma de reduzir a complexidade do problema, responsabilizando apenas uma das partes pela manifestação da violência interpessoal.

O tema “forçar a barra” foi o mais debatido como um tipo de agressão sexual. Quando se trata da violência sexual, os homens desaparecem como vítimas. Nessa perspectiva, o homem é visto como agressor, e não como objeto da violência sexual1.

Considerações finais

Este artigo pretendeu analisar os significados da violência no namoro percebida por adolescentes brasileiros do sexo masculino. Buscou-se discutir tais significados à luz do conceito de gênero, particularmente, no âmbito da construção social das masculinidades. Atentou-se para a percepção diferenciada da violência segundo o gênero, que dá, a determinados fenômenos, uma configuração própria, como é o caso da desqualificação das agressões físicas perpetradas pelas mulheres. Por outro lado, foi bastante enfatizada a traição feminina como um ato que promove a violência masculina. Todavia, constata-se a negação do impacto emocional da violência nas subjetividades dos indivíduos que experimentam a violência no namoro.

A violência fundada na questão de gênero é um processo que tem início, na maioria das vezes, no começo dos relacionamentos. Os padrões de comportamento que levam alguns homens a usarem a violência contra as mulheres começam na infância e na adolescência. A violência contra as mulheres compreende: agressões físicas ou sua ameaça, maus-tratos psicológicos, abusos ou assédios sexuais, e diz respeito, ainda, a sofrimentos e agressões dirigidos especificamente às mulheres por serem mulheres, isto é, por seu gênero33.

Contudo, a violência de gênero, estrito sentido, não deve ser confundida com a violência contra as mulheres. Esta seria uma concepção que ignora as dimensões relacional e de performance que constituem as matrizes formadoras daquilo que convencionamos chamar de ‘gênero’34. Nessa linha, a figura da mulher é, geralmente, situada como vítima desprovida de agência, à mercê de uma ‘masculinidade patriarcal e dominadora’, que é atribuída aos homens em geral. Além de naturalizar atributos sexuais nos marcos estritamente heteronormativos, tal perspectiva não problematiza as hierarquias de poder, tratando-as como dadas e universais. Por isso as violências que atingem os homens não são entendidas como violência de gênero, o que pode contribuir para a naturalização da agressão entre casais.

Atualmente, a violência de gênero tem sido compreendida, cada vez mais, como um importante problema de saúde pública, adquirindo posição de destaque neste campo, por acarretar lesões, traumas, mortes físicas e emocionais. Assim, episódios violentos, em suas diversas formas de manifestação, refletem vulnerabilidades diferenciadas por sexo.

Pensando dentro de uma perspectiva de promoção da saúde, é preciso ter em conta que a vinculação entre homens e violências afeta a compreensão dos profissionais do setor. Existe, segundo Sarti34, um tipo de discurso biomédico sobre a violência que remete, sobretudo, à doméstica e familiar, a que ocorre no âmbito privado e atinge, sobretudo, mulheres e crianças. As vítimas de armas de fogo, em sua maioria homens, não são representadas como tais.

Desta forma e resumindo, os significados atribuídos ao fenômeno da violência no namoro são recortados por gênero, correspondendo às expectativas em relação aos papéis que homens e mulheres desempenham nas relações sociais. Mulheres sofrem a violência no âmbito privado, doméstico; são mais agredidas sexualmente por seus parceiros. Homens são, normalmente, invisibilizados nesse processo, pois seu lugar naturalizado é o de agressor, e não de vítima da violência de gênero.

Vale lembrar o ineditismo do tema da violência no namoro entre adolescentes no país, e a magnitude da investigação que deu origem a este estudo. Até então, pesquisas sobre violência entre parceiros íntimos privilegiavam os relacionamentos entre adultos. Outra contribuição importante foi trazer à tona as narrativas dos adolescentes do sexo masculino, pouco explorada no âmbito da temática violência entre parceiros íntimos.

Por fim, ressalta-se a importância de se repensar a associação entre violência e masculinidade, que identifica a agressividade como um atributo natural masculino35. Entende-se que a reflexão sobre a violência em uma perspectiva relacional permite deslocar as definições prévias baseadas em representações sobre o sexo que é mais ou menos violento.

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