Vozes de crianças infectadas pelo HIV

Vozes de crianças infectadas pelo HIV

Autores:

Eliane Cristina Pereira,
Cristina de Oliveira Rodrigues,
Kelly Cristina Alves Silvério,
Glaucya Madazio,
Mara Behlau

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.30 no.4 São Paulo 2018 Epub 19-Jul-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20182018085

RESPOSTA

Agradecemos pela oportunidade de promover o debate sobre o artigo Pereira, Eliane Cristina; Rodrigues, Cristina de Oliveira; Silvério, Kelly Cristina Alves; Madazio, Glaucya & Behlau, Mara (2017). Auditory-perceptual and acoustic analysis of voices of HIV-infected children. CoDAS. 2017 11, 29(6):e20170022. doi: 10.1590/2317-1782/201720170022(1).

O tema abordado na carta ao editor – crianças com imunossupressão grave e alterações vocais – é de grande interesse e conta com poucos estudos. Como apontado pelos colegas que encaminharam a carta ao editor, crianças infectadas pelo HIV e com imunossupressão grave, bem como sinais e sintomas graves, podem desenvolver infecções oportunistas ou outras condições que levam ao comprometimento da qualidade vocal em grau suficiente para se manifestar como disfonia e comprometer diversos aspectos de qualidade de vida relacionados à comunicação. Isso foi explorado nos estudos realizados com pacientes adultos relatados na carta ao editor(2,3).

Destacamos aos senhores que, como descrito no artigo publicado por nós no primeiro parágrafo dos resultados, procedemos à análise das características clínicas e imunológicas das 37 crianças infectadas pelo HIV, de acordo com os parâmetros utilizados na classificação do Centers for Disease Control and Prevention (4) em dois momentos distintos: no pior momento clínico e imunológico dessas crianças (portanto, em um momento passado) e no momento clínico e imunológico atual, quando também realizamos as avaliações perceptivo-auditiva e acústica da voz. Observamos que no momento atual, 94,6% das 37 crianças infectadas pelo HIV estavam sem sinais e sintomas clínicos da infecção, e 5,4% apresentavam tais sinais e sintomas em grau discreto. Além disso, todas as crianças apresentavam-se sem alteração imunológica.

Em outras palavras, a condição de saúde da população por nós pesquisada apresentou status imunológico preservado e ausência de infecções oportunistas ou outras comorbidades. Isto provavelmente deve-se ao acompanhamento regular realizado desde o diagnóstico, com uso de medicamentos antirretrovirais e profilaxias conforme os protocolos do Ministério da Saúde do Brasil. Como descrito no quarto parágrafo da discussão do artigo, esse acompanhamento é trimestral, com avaliação realizada pela equipe da pediatria e equipe multiprofissional, incluindo avaliação neurológica e otorrinolaringológica.

Os achados da avaliação perceptivo-auditivo da qualidade vocal e da análise acústica das amostras vocais de crianças nestas condições clínicas e imunológicas não foram estatisticamente diferentes ao serem comparados com o grupo controle de crianças não infectadas pelo HIV. Não há dúvidas de que tais achados se dão pelas ótimas condições clínicas e imunológicas apresentadas pela população estudada. Uma de nossas hipóteses era de que as infecções oportunistas e as comorbidades da infecção pelo HIV poderiam deixar sequelas ou induzir ao comportamento vocal alterado, mas não encontramos desvios que possam ser relacionados a isso.

Na era anterior ao desenvolvimento de esquemas terapêuticos com antirretrovirais potentes, as infecções oportunistas como citomegalovírus (CMV), tuberculose, herpes, infecções fúngicas, entre outras, eram a principal causa de morte em crianças infectadas pelo HIV. Os regimes antirretrovirais utilizados atualmente (inclusive no Brasil) suprimem a replicação do vírus HIV, permitem uma reconstituição do sistema imunológico, resultando em uma diminuição substancial das infecções oportunistas relacionadas à AIDS e mortes em adultos e crianças(5).

Acredita-se que novos estudos devem ser realizados com populações em diferentes status clínicos e imunológicos comparados à população de crianças não infectadas pelo HIV, para que assim se possa conhecer os resultados com evidências. Será interessante também avaliar a porcentagem de ocorrência de distúrbios da voz nas diversas fases da evolução da doença. Contudo, esse não foi o objetivo do artigo publicado.

A carta ao editor por nós recebida fez-nos refletir sobre como poderíamos ter deixado isso mais claro e entendemos que no texto do resumo o aspecto “sinais e sintomas, e condição imunológica” encontrado em nosso resultado poderia ter sido destacado. É sempre um desafio a seleção de informações para a composição de um resumo de trabalho científico. O resumo é um gancho de atratividade para direcionar o leitor ao artigo em si e, infelizmente, não há como incluir todas as informações importantes.

Agradecemos pela atenção dada ao nosso artigo e pela oportunidade de esclarecermos os objetivos do nosso estudo e os resultados encontrados.

As autoras.

REFERÊNCIAS

1 Pereira EC, Rodrigues CO, Silvério KCA, Madazio G, Behlau M. Auditory-perceptual and acoustic analysis of voices of HIV-infected children. CoDAS. 2017;29(6):e20170022. PMid:29236906.
2 Sims HS, Patel S, Barr A. Laryngeal electromyography findings in a patient with HIV, John Cunningham virus and bilateral true vocal fold motion impairment. J Natl Med Assoc. 2008;100(7):856-8. . PMid:18672564.
3 De la Blanchardiere A, Dore M, Salmon D, Sicard D. Left vocal cord paralysis in cytomegalovirus multifocal neuropathy in a patient with HIV infection. Presse Med. 1996;25(3):106-7. PMid:8746083.
4 Caldwell MB, Oxtoby MJ, Simonds RJ, Lindegren ML, Rogers MF. Revised classification system for human immunodeficiency virus infection in children less than 13 years of age. MMWR. 1994;43(RR-12):1-19.
5 Siberry GK, Abzug MJ, Nachman S, Brady MT, Dominguez KL, Handelsman E, et al. Guidelines for the prevention and treatment of opportunistic infections in HIV-exposed and HIV-infected children. Pediatr Infect Dis J. 2013;32(2, Supl 2):I-KK4. . PMid:24569199.
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