Vulnerabilidade de homens jovens e suas necessidades de saúde

Vulnerabilidade de homens jovens e suas necessidades de saúde

Autores:

Elizabeth Rose Costa Martins,
Andressa da Silva Medeiros,
Karoline Lacerda de Oliveira,
Letícia Guimarães Fassarella,
Paula Costa de Moraes,
Thelma Spíndola

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.24 no.1 Rio de Janeiro 2020 Epub 13-Jan-2020

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2019-0203

RESUMEN

Objetivos

Identificar las conductas de salud de hombres jóvenes universitarios; conocer la percepción de ellos sobre el cuidado de su salud; y describir las prácticas adoptadas para la prevención de las infecciones de transmisión sexual.

Método

Estudio descriptivo y exploratorio, de enfoque cualitativo, desarrollado con 25 universitarios entre 18-29 años en una universidad pública en Rio de Janeiro. Se utilizó la técnica de análisis de contenido.

Resultados

Los jóvenes perciben el cuidado como algo femenino, sin darse cuenta de sus propias peculiaridades, con la percepción de que no se enferman y, con esto, solo buscan el servicio de salud en situaciones de emergencia.

Conclusión e Implicaciones para la práctica

Hay desafíos que superar en la práctica de la atención, como la visión de la invulnerabilidad masculina, la ausencia en la búsqueda de servicios de salud, servicios de salud no preparados para satisfacer las necesidades de estos jóvenes a través de estrategias que contemplan de manera única y holística esa población. Las lagunas identificadas nos permiten plantear preguntas futuras y provocar cambios en las actitudes relacionadas con situaciones del contexto masculino, a fin de revertir las vulnerabilidades existentes y también las consecuencias de estas actitudes en la salud de estos hombres.

Palabras clave:  Salud del hombre; Vulnerabilidad Social; Masculinidad

INTRODUÇÃO

A presença masculina no cenário da saúde se tornou um grande desafio para as políticas públicas e os profissionais de saúde. Estudos mostram que homens representam índices de mortalidade e morbidade mais elevados do que as mulheres, evidenciando que a inclusão deles no serviço de atenção primária é menos expressiva que a feminina.1

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2016, a mortalidade masculina estava concentrada na faixa etária de 15 e 29 anos, destacando-se que um homem adulto nessa faixa etária apresentava 4,5 vezes menos chances de completar o próximo ano de vida, quando comparado a mulheres na mesma faixa etária.2

A saúde do homem vem ganhando espaço nas políticas públicas, pois historicamente, no Brasil, suas ações eram voltadas especificamente para as mulheres, adolescentes, crianças e idosos. O cuidado à saúde do homem restringia-se a ações ligadas ao tratamento de doenças crônicas, como diabetes mellitus e hipertensão arterial. Só em 2008 o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH).3

Por outro lado, culturalmente, o homem não tem hábito de se cuidar, visto que a presença em serviços de saúde é pouco visível, até os dias atuais. Buscou-se compreender as justificativas dos homens para esse fenômeno e a primeira delas foi associar o ato de cuidar à natureza feminina e não masculina. Associado a isso, encontram as dificuldades dos homens em verbalizarem o que sentem, podendo demonstrar fraqueza, outra característica dita como feminina e também justificativas em relação ao trabalho se apresentaram como causa central.4

Assim, estudos que buscam compreender a relação gênero e masculinidade vêm endossando o debate sobre saúde do homem, trazendo a masculinidade como uma configuração prática em torno da posição dos homens nas relações de gênero e, hoje, existe uma masculinidade culturalmente hegemônica que serve de modelo a essa população.5

De acordo com o Estatuto da Juventude, pessoas entre 15 e 29 anos de idade são denominadas jovens. A população sexualmente ativa concentra pessoas de diversas idades e, também, os jovens que totalizam 51 milhões de brasileiros.6 A partir destes dados, fica evidente a necessidade de se abordar o homem jovem de maneira diferenciada, como um grupo singular que possui identidade e conhecimentos próprios cujos comportamentos e atitudes devem ser compreendidos a partir do seu universo e dos sentidos que atribuem aos diferentes fatos e eventos da vida.7

A juventude é caracterizada pela vulnerabilidade decorrente das características da própria idade, da falta de habilidades para a tomada de decisões, das dificuldades e, por que não dizer, da inexperiência destes jovens ao lidarem com os seus sentimentos e com os sentimentos dos outros, bem como da responsabilidade nem sempre existente ao se envolverem em relacionamentos afetivos e sexuais. É uma fase onde se desfruta das descobertas onde tudo é novo e esse aspecto do desenvolvimento representa uma condição de vulnerabilidade.8

O comportamento de risco que os jovens assumem, em pleno século 21, nos remete a vulnerabilidade desses no contexto individual, social, econômico e familiar. Nos tempos atuais discutir essa temática é extremamente relevante, especialmente se considerar que o jovem na universidade, pode estar melhor informado, no entanto, a procura por atendimento em relação a sua saúde, ocorre quando os sintomas começam a causar algum dano a sua saúde, podendo levar a um atendimento de alta complexidade.

Os homens possuem maior propensão e vulnerabilidade a adquirir doenças em comparação às mulheres devido a sua maior exposição aos fatores de risco comportamentais e culturais, passando pelos estereótipos de gênero da sociedade no qual influencia a desvalorização das práticas de cuidados com a saúde acarretando nos homens agravos devido a consequência da não procura aos serviços de saúde.9

A vulnerabilidade quando ligada a saúde pública, está relacionada aos riscos que uma determinada população tem para adquirir, ou não, uma doença. Nesse caso, a população masculina possui altos riscos já que naturalmente não possui cuidados com a sua saúde, por questões até mesmo impostas pela sociedade.10,11

A vulnerabilidade masculina está ligada tanto ao individual quanto ao coletivo. Quando relacionado ao individual, o fato de ter ou não a consciência dos riscos que se corre em infecções sexualmente transmissíveis, por exemplo, influencia diretamente no hábito sexual desses homens. Assim como relacionado ao coletivo, o fato do homem ser caracterizado como uma figura máscula, ter um desejo sexual incontrolável, ter sempre que correr riscos, são coisas que desde a infância eles são instigados a seguir e isso atrapalha diretamente em campanhas preventivas, por exemplo.11

Os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos, psicológicos e comportamentais são determinantes capazes de influenciar na ocorrência de problemas de saúde e risco para a população. As principais doenças que levam a população masculina a óbito estão ligadas a doenças cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e doenças isquêmicas, cirroses e hepatites, neoplasias malignas, como câncer de próstata e de pulmão, e causas externas como suicídios e violência.12

A justificativa desta pesquisa fundamenta-se pelo fato de se tratar de um tema pouco discutido no meio acadêmico, evidenciando a necessidade de uma reflexão voltado a promoção a saúde e prevenção de agravos ao homem jovem, a intervenção sobre fatores de risco que a população masculina está exposta e o reconhecimento da saúde como um direito de cidadania.

Portanto, traçaram-se como objetivos do estudo, conhecer a percepção dos homens jovens universitários sobre o cuidar de sua saúde, descrever as práticas adotadas pelos homens jovens universitários e discutir as vulnerabilidades dos homens jovens universitários voltado a prevenção de doenças.

MÉTODO

Estudo do tipo descritivo com abordagem qualitativa. Tendo como cenário uma Universidade pública situada no município do Rio de Janeiro.

Considerando a abrangência do cenário de estudo, foi selecionado uma unidade acadêmica da ciência da saúde. Os participantes do estudo foram 25 homens jovens universitários, sendo que o número de participantes, foi determinado conforme o critério de saturação, onde o pesquisador através da sua atuação no campo percebe que conseguiu compreender a lógica dos participantes, do grupo ou da coletividade estudada e que esse conhecimento reflete a totalidade das múltiplas dimensões do objeto do estudo em questão.13

Definiram-se como critérios de inclusão: aqueles com idade entre 18-29 anos; sem restrição para o período acadêmico ou horário do aluno. Estes foram selecionados ao acaso, conforme a presença no cenário do estudo.

O estudo seguiu os aspectos éticos e as determinações contidas na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde - CNS/MS, que regulamenta pesquisas realizadas com seres humanos sendo aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o nº do parecer Número do Parecer: 3.316.951 e do CAEE 10955619.6.0000.5282.

Como instrumento de coleta de dados foi utilizado a entrevista semiestruturada, que parte de certos questionamentos básicos apoiados em teorias que interessam à pesquisa e que, em seguida, irão oferecer amplo campo de interrogativas.13

A coleta de dados ocorreu, durante suas atividades acadêmicas em cumprimento ao calendário anual. Com o objetivo de resguardar a identidade dos entrevistados, utilizou-se de códigos de identificação optando pela escolha da letra E, de entrevistado, seguido por um número cardinal identificando a ordem das entrevistas realizadas. A entrevista foi gravada, na tentativa de apreender como os participantes do estudo compreendem as suas necessidades de saúde, para posterior transcrição dos dados e análise segundo Bardin.14

Após a coleta, os dados foram transcritos e organizados. Com a intenção de conhecer os significados por trás dos discursos colocados durante as entrevistas, o método utilizado foi o da análise de conteúdo. Visto que tudo que é dito é susceptível de ser submetido à análise de conteúdo.14

O objeto da análise de conteúdo é a palavra, aspecto individual da linguagem; seu objetivo são os significados dos vocábulos, tentando compreender os atores e o ambiente onde estão inseridos; é organizada em três etapas; pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, inferência e interpretação.14 Para a sistematização dos achados, realizou-se leitura flutuante, recorte das unidades de registro (UR|), verificação das unidades de contexto; classificação das UR e codificação para agrega-las, com geração das categorias.10

Com base nos dados obtidos e posterior avaliação, foi possível organizá-los em duas categorias, sendo elas: Percepção dos homens jovens sobre o cuidar da saúde e suas vulnerabilidades; e Práticas adotadas pelos homens jovens para prevenção das infecções sexualmente transmissíveis.

RESULTADOS

Percepção dos homens jovens sobre o cuidar da saúde e suas vulnerabilidades

Os participantes da pesquisa trazem a percepção do cuidar de sua saúde, no que refere a promoção a saúde e prevenção de agravos como um papel feminino, já que o homem culturalmente cresce com uma visão de figura forte, que não pode chorar e nem sentir dor e que muitas vezes tem o papel de alicerce de suas famílias e por isso não devem demostrar fraquezas.

[...] não estou cuidando muito bem da minha saúde. A mulher se cuida mais [...] (E.16)

[...] os homens se expressam menos, com certeza, a gente tem muito de não querer chorar em público ou sozinho, isso demonstra fraqueza. [...] (E.15)

A centralidade da mulher enquanto representante aos cuidados mantem-se presente e sustenta-se até hoje, o que, pode ser analisado na fala trazida por um dos participantes, pois o mesmo não trouxe a forma preventiva do acompanhamento de exames como uma prática natural aos homens e sim a mulher e, por conta disso, ele acaba se considerando feminino.

[...] faço exame de rotina de 6 em 6 meses normalmente. Eu sou 60% mulher e 40% homem [...] (E.1).

Cabe ressaltar a importância de uma desconstrução social e cultural sobre a visão do cuidar que vai além de demonstrar fraquezas, pois remete a um modo de ser, atitudes e entender suas necessidades e pensamentos.

O ingresso do aluno no ensino superior provoca uma série de mudanças no seu dia-a-dia, permitindo novos conhecimentos e experiências, mas também, concomitante com esses conhecimentos, vem cobranças, pressões o que acaba afetando a saúde dos universitários, além disso, existe uma competição exacerbada no mundo moderno o que faz com o que o jovem, coloque uma carga muito grande de responsabilidade e cobrança em si mesmo. Ao perguntar aos participantes se eles cuidam de sua saúde, surgem as respostas:

[...] não me cuido, não dá tempo. [...] (E.9)

[...] devido a correria do dia a dia infelizmente o que a gente menos se preocupa, pelo menos eu, é com minha saúde e quando vejo já estou com algum problema de saúde. [...] (E.17)

O ambiente universitário pode ser considerado de alguma forma como um fator de risco a saúde deste jovem, pois a falta de tempo não prejudica somente o acesso aos serviços de saúde como também a alimentação e a prática de estilos de vida saudáveis, como exercícios físicos, que são importantes para manter o equilíbrio da saúde.

[...] minha saúde eu confesso que anda bem debilitada com relação aos cuidados. Eu faço parte de uma rotina que me consome quase que vinte quatro horas por dia. É um tempo que eu poderia estar dedicando a minha saúde. Ainda que eu pudesse nesse meio tempo consumir produtos mais saudáveis ou fazer alguma espécie de exercício, beber menos. [...] (E.18)

É importante, que o jovem compreenda seus limites e perceba quando o corpo precisa de descanso e a saúde precisa de uma atenção. Além disso, as universidades poderiam inserir atividades integrativas que permita a esse universitário práticas de exercícios físicos para que assim, mesmo em um ambiente acadêmico a saúde possa ser mantida de forma mais adequada.

A Política Nacional de Promoção a saúde, leva a uma reflexão sobre o objeto saúde além de trazer a promoção como uma desafio a ser enfrentado e vencido dia a dia, tendo em vista, que existem diversas dificuldades relacionadas como: a realidade sanitária, relação dos cidadãos com o Estado, lidar com diferentes estilos de vida, luta contra as desigualdades e que só ocorre de forma satisfatória se, imprescindivelmente, ocorrer a procura e interesse dos usuários por serviços de saúde destinados a promoção, o que, é um dos maiores desafios que devem ser superados.

Neste contexto, ainda prevalece as dificuldades encontradas pelos homens jovens na busca por atendimento à saúde.

[...] uma vez eu procurei a clínica da família, para ver como estava minha saúde, mas não aceitaram porque só poderiam me atender se eu tivesse algum problema, se eu não tenho problema então não tem necessidade, foi isso que me disseram. [...] (E.20)

Uma vez não efetivada essa prática, pela busca a prevenção de doenças junto aos serviços de saúde, o indivíduo estará cada vez mais predisposto a riscos e consequentemente mais vulnerável a adquirir doenças.

[...] não consigo no serviço público buscar a prevenção, eles só buscam oferecer o tratamento. Falam que o homem não procura, mas quando procuro não querem fazer o exame. Me sinto desamparado nesse sentido da prevenção. [...] (E.11)

Ainda existe uma lacuna a ser preenchida, visto que, nem todas as unidades de saúde, tem a Política de atenção integral a saúde do homem (PNAISH), em vigência para atender a população masculina. A política traz como fundamental ampliar o acesso do público masculino aos serviços de saúde nos diferentes níveis de atenção, promover e respeitar a ética e os direitos dos homens, levando em consideração suas características socioculturais, políticas e econômicas. Como também os homens desconhecem a existência dessa política e isso pode ser enfatizado durante a pesquisa, pois de 25 participantes somente 2 conhecem a política.

[...] não, alguém conhece? [...] (E.10)

Vale destacar que a “pouca procura” desses serviços, ocorre porque a unidade de saúde tem mais programas voltados para as mulheres do que para os homens e isso é um dos motivos que segundo os participantes fazem com que o homem só procure quando está doente. Como percebido nestas falas:

[...] acho que as campanhas são voltadas para outros públicos como mulher, criança e idoso e acaba que o homem fica fora. [...] (E.9)

[...] atende mais saúde da mulher, idoso e criança, mas não se vê campanha forte para saúde do homem. Só vê novembro azul que é a próstata. [...] (E.8)

Ao serem questionados sobre como buscam o atendimento para cuidar de sua saúde pensando em evitar agravos:

[...] Só busco em emergência, como modo de prevenção eu não busco. [...] (E.25)

[...] até penso em buscar, mas não tenho iniciativa. Eu acabo buscando só quando estou muito doente. [...] (E.6)

[...] quando eu vejo que eu estou bem mal, quase morrendo aí eu procuro. [...] (E.16)

Outra situação presente no cotidiano do homem jovem em cuidar de sua saúde é o desconhecimento de suas particularidades. Para a maioria da população predomina o pensamento que o homem só sofre problemas de saúde relacionados à próstata, hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, tuberculose e entre outras doenças sejam elas crônicas ou não, mas sabe-se que assim como existem doenças específicas da criança, mulher e idoso, também existem doenças que acometem a população masculina.

[...] eu sou muito jovem para ter problemas de saúde. [...] (E.20)

[...] sou muito jovem para ter problema de próstata, só depois dos 50 anos. [...] (E.22)

Por não haver uma divulgação, conhecimento e uma disseminação maior sobre as doenças que podem acometer a população masculina, por diversos motivos e principalmente, pela higiene inadequada, faz com que, homens desconheçam as suas próprias particularidades e quando se deparam com alguma condição de saúde fora do habitual como as DCNT (Doenças Crônicas Não Transmissíveis), não procuram ajuda ou então acham que não é algo que demande atenção e logo vai passar. Além disso muitos homens não conhecem o seu próprio órgão genital fazendo com que, também não reconheçam, inicialmente quando está acontecendo algo de errado.

[...]eu nunca tive uma necessidade especifica de sexo masculino. [...] (E.18)

Em contrapartida a visão da vulnerabilidade, tem-se a invulnerabilidade que é entendida quando um indivíduo não se encontra em estado vulnerável, ou seja, de fragilidade. Para muitos homens isso já se tornou uma verdade absoluta, onde alguns dizem se ater a todos os conhecimentos necessários para sua saúde a ponto de saberem que não estão vulneráveis e quando perguntado aos participantes se se sentiam vulneráveis em relação a sua saúde algumas respostam foram:

[...] no momento não porque me sinto saudável ao ponto de não precisar procurar um atendimento médico. [...] (E.8)

[...] não me sinto não, tranquilo. [...] (E.16)

Práticas adotadas pelos homens jovens para prevenção de infecções sexualmente transmissíveis

Os homens jovens universitários estão num período da vida de descobertas e por isso muitos se expõem a diversos fatores de risco para contrair determinadas doenças. Quando relacionado a vulnerabilidade individual, o fato de ter ou não a consciência dos riscos que se corre pode leva-lo a adquirir infecções sexualmente transmissíveis, lembrando que o cuidar para essa população é feminino, que são jovens para adquirir doenças e passam na maior parte do tempo na universidade onde as festas estão presentes de forma efetiva.

Mesmo com todas as campanhas realizadas atualmente sobre os benefícios do uso de preservativos, muitos jovens ainda possuem a visão que só há necessidade de sua utilização para a prevenção da gravidez.

[...]Uso sempre preservativos. Não quero ter outro filho surpresa. [...] (E.1)

Alguns homens consideram difícil introduzir o uso do preservativo no relacionamento pois, traz a ideia de infidelidade e pode causa uma preocupação a suas parceiras. Prevenir-se e proteger-se, são sinônimos muitos conhecidos quando o assunto é sexo, seja ele vaginal, oral ou anal. Essa prática pode vir de diversas maneiras e uma das principais é a utilização de preservativos, que é o método mais barato e de fácil acesso, com distribuição gratuita nos serviços de saúde, além de evitar a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis.

Porém nem todos os jovens usam preservativos, mesmo sabendo dos riscos que estão se expondo.

[...] não mesmo sabendo que estamos vulneráveis. [...] (E.17)

[...] nem todas as vezes. Na hora eu esqueço de pegar e vai assim mesmo. [...] (E.13)

Pode-se perceber que durante algumas falas os participantes trazem que o fato de se ter um compromisso é motivo de não se utilizar um preservativo, ou seja, se existe confiança o cuidado diminui, e passa não ser necessário o uso de preservativos.

Questões relacionadas ao gênero, poder, cultura e senso comum se tornam definitivas na decisão do uso de preservativos, definindo desta forma os relacionamentos e as medidas preventivas.

Além disso, como a mulher procura pelos serviços de saúde, muitos jovens, por acreditarem que suas parceiras estão se cuidando, não se preocupam em utilizar o preservativo e realizar o autocuidado.

[...] mas agora que estou em um relacionamento sério não uso, é mais difícil de usar. [...] (E.4)

[...] quer dizer às vezes eu uso preservativo, às vezes não uso. [...] (E.16)

Outra situação apontada pelos jovens participantes ó que o uso de preservativo pode ser ruim e desconfortável, apesar de compreender que o uso é correto.

[...] sei que é correto o uso de camisinha, mas é muito ruim. [...](E.15)

[...] não uso camisinha pois é desagradável. [...] (E. 23)

As falas trazem que o homem jovem universitário acredita ser impossível ou pouco possível adquirir uma IST, entretanto a realidade retratada no último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde brasileiro evidencia que o crescimento de aids na juventude continua sendo uma preocupação importante.

[...] não uso camisinha pois é desconfortável, mas também não corro risco a uma IST. Eu me cuido. [...] (E. 23)

DISCUSSÃO

Os discursos que os homens jovens universitários trazem sobre suas necessidades de saúde, refletem a questão gênero em relação ao cuidado, desde os primórdios sempre houve uma divisão de trabalhos onde coube ao homem a caça para trazer o sustento para a sua família o que reforça ainda mais a ideia de que o homem não foi “ criado” para se cuidar, e a mulher, o trabalho era mais restrito ao lar, proteção da família e cuidar dos filhos, onde manteve-se até a atualidade essa forma de pensamento, assumindo uma naturalidade entre a relação mulher-cuidado.15

Socialmente e culturalmente existem barreiras impostas, onde ser homem é, não demonstrar sinais de fraqueza e insegurança o que acaba atrapalhando a sua procura pelos serviços de saúde e faz com que o homem não tenha um hábito de recorrer a especialistas e se tiver que fazer isso terá que quebrar uma barreira imposta.16,17,18

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem é um grande avanço, visto sobre uma perspectiva onde o homem tem ganho um espaço nas políticas públicas e garantido a ele direitos sobre o cuidado de sua saúde, sendo um dos principais objetivos dessa política promover ações de saúde que contribuam significativamente para a compreensão da realidade singular masculina nos seus diversos contextos socioculturais.17

Diante aos discursos e a literatura, é perceptível que existem muitos desafios a serem vencidos como: a visão do homem sobre o cuidar da saúde como forma preventiva, aos serviços de saúde para que se adequem as necessidades dessa população, tanto em relação aos programas como também em treinamentos de funcionários para o acolhimento e o horário de funcionamento dessas unidades. Pois, promover saúde é algo que deve ser implementado e construído de forma comunitária e em conjunto para que não avance para doenças mais graves que necessitam de cuidados mais invasivos.19,18

No entanto, se faz necessário a implementação de mudanças nos serviços de saúde, principalmente no sentido de ampliar a equidade integralidade das ações prestadas ao homem e isso só se torna eficaz se as suas necessidades forem compreendidas e entendidas.19-23

Para tanto, só ocorre à compreensão se houver entendimento do que está afetando a saúde e que podem ser prevenidas de forma simples como o fato de ser realizada uma simples higiene de forma adequada para se evitar o crescimento de microrganismos.

Logo, é importante a educação sobre a saúde do homem nos ambientes educacionais, orientações aos usuários dos serviços de saúde sobre suas particularidades, no pré-natal, onde as mães são orientadas como cuidar do filho homem. Enfim através das unidades de saúde com a divulgação sobre o autoexame, higiene adequada para que haja o conhecimento das particularidades e ao mesmo tempo com estímulo ao autocuidado.

Através dos discursos, pode-se observar que a maior preocupação relacionada ao uso de preservativo está voltada para a gravidez. A prevalência da preocupação com prevenção de gravidez sobre a preocupação com prevenção de DST/aids é grande, entre a população jovem, os quais também têm a prevenção de gravidez como foco principal do uso do preservativo no seu relacionamento.20-22

Existe uma multiplicidade de fatores de vulnerabilidade, individuais e sociais, que podem comprometer o uso constante do preservativo entre os jovens como: como esquecimento, diminuição do prazer, incômodo e até mesmo por conhecerem a fidelidade de sua parceira, uma vez, ser fiel parece ser uma condição feminina, pois muitas vezes para elas, a fidelidade é uma questão de amor e autoestima.21-23

É importante, que ocorra a desconstrução desse pensamento, que muitas vezes é construído por falta de conhecimento e por se basear em experiências vividas por outras pessoas e por isso faz-se necessário que se reforce ainda mais, que há, além da camisinha outros métodos para se prevenir a gravidez e que além da gravidez a camisinha é a única forma de prevenção contra as infeções sexualmente transmissíveis que tem por principal via de contaminação o ato sexual desprotegido, reforçando também os agravos se as mesmas não forem prevenidas da forma correta.

CONCLUSÃO E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

A área da saúde muito tem a refletir sobre a temática, para tanto, ao escolher o objeto deste estudo, tinha-se em mente, desenvolver uma pesquisa que pudesse levantar e discutir questões para a área de atuação da enfermagem no contexto do homem jovem universitário e de suas vulnerabilidades.

Cabe ressaltar que o presente estudo apresentou limitações próprias de uma investigação qualitativa, uma vez que essa metodologia não objetiva mensuração e generalização dos fatos investigados. E pelo fato de ter sido desenvolvido em apenas uma universidade pública, portanto, pode não refletir a realidade de jovens de outras universidades, que vivem em um contexto social e histórico diferente.

Esse estudo traz contribuições para âmbito da prevenção, ao entender que através da disseminação do conhecimento é possível esclarecer a respeito das diversas dúvidas associadas ao contexto das IST e também ao cuidado com a própria saúde, vivido por esses jovens e assim, impactar de forma positiva na cadeia de transmissões através da adoção de novas condutas de saúde e sexuais mais eficazes e seguras.

Diante dos relatos obtidos, percebe-se que o homem jovem universitário está exposto a múltiplos fatores que podem torná-lo vulnerável em alguns aspectos de sua saúde. Dentre eles encontram-se a visão do cuidado como um papel feminino, o ambiente universitário, o comportamento vulnerável, levando-o a exposição de doenças e até ao risco de vida.

Propõe-se aos profissionais de enfermagem uma reflexão sobre a saúde do homem jovem, diante ao fato de que os homens de maneira geral morrem mais cedo que as mulheres. Portanto, este estudo, traz a importância da educação em saúde como um pilar ideal para fortalecer o vínculo deste jovem com os serviços de saúde, evitando o contato de emergência, que acontece somente quando ocorre o evento adverso.

Faz-se necessário pensar nesse homem jovem, em seu contexto social e cultural, fortalecendo sua inclusão ao serviço de saúde no nível de atenção primária afim de esclarecer suas dúvidas, e possíveis vulnerabilidades. É importante que os serviços de saúde adentrem nas universidades, considerando-as como um espaço de articulação intersetorial a fim de promover uma reinserção social de enfrentamento às IST, assim como de outros agravos que acometem a essa população. Através dos achados apresentados é possível identificar o desafio e pontuar a importância de se pensar em prevenção como a atual resposta em educação em saúde nesse contexto.

As IST foram e ainda são tratadas de forma generalizada, com exceção do HIV que se destaca nas políticas de prevenção. Essa falta de visibilidade das infecções e das suas respectivas formas de transmissão, dos sintomas e das consequências para a saúde, provoca uma luta com algo desconhecido por esses jovens e demanda dúvidas e incertezas de forma que estes não conseguem visualizar e identificar o perigo que os cerca.

Por fim, conclui-se que seja necessário investir na educação em saúde dessa população. A melhor maneira e a mais eficaz de vencer essa luta é através do conhecimento.

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