Vulnerabilidade de idosos e relação com a presença de dor

Vulnerabilidade de idosos e relação com a presença de dor

Autores:

Leticia Masson,
Fabiana Meneghetti Dallacosta

ARTIGO ORIGINAL

BrJP

versão impressa ISSN 2595-0118versão On-line ISSN 2595-3192

BrJP vol.2 no.3 São Paulo jul./set. 2019 Epub 23-Set-2019

http://dx.doi.org/10.5935/2595-0118.20190038

INTRODUÇÃO

No Brasil observa-se alta prevalência de dor em indivíduos acima de 60 anos, e embora a dor não apareça como fator direto de dependência e morte, causa interferência em diversos aspectos da vida e relaciona-se com limitações funcionais1.

A vulnerabilidade eleva a suscetibilidade ao adoecimento e causa impactos na vida do idoso, podendo ser definida como redução da capacidade de autodeterminação, com déficit de poder, inteligência, educação, recursos, força ou outros atributos2. Esse tema tem sido alvo de estudos diversos, mas são poucas pesquisas abordando a influência da dor na vulnerabilidade do idoso. Sabe-se que a dor crônica afeta a autonomia do idoso, comprometendo as atividades de vida diária (AVD) e afetando a qualidade de vida3.

Na presença da dor, o idoso tende a tornar-se mais vulnerável, pois sofrerá prejuízos para a realização das AVD, assim como restringirá a convivência social, aumentando o isolamento e comprometendo o estado funcional. A dor e as situações crônicas de saúde também aumentam a chance de complicações como ansiedade, depressão, abuso de substâncias e isolamento social, que por sua vez, trazem impacto na qualidade de vida dos idosos4. Identificar a presença e o impacto da dor em idosos tem sido um desafio, pois a dor é subjetiva e envolve mecanismos físicos, psíquicos e culturais, considerada pela Associação Internacional de Estudos da Dor (IASP) como uma experiência desagradável, sensitiva e emocional, associada ou não à lesão real ou potencial dos tecidos, podendo ser aguda ou crônica quando dura mais de seis meses ou ultrapassa o período esperado de recuperação5.

Dessa forma, este estudo objetivou analisar a vulnerabilidade de idosos e relacionar com a presença de dor.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, realizado com indivíduos acima de 60 anos, residentes no munícipio de Ouro, Santa Catarina. O município tem 477 hipertensos e 107 diabéticos cadastrados na Estratégia Saúde da Família e no programa Hiperdia. A coleta de dados foi realizada no primeiro semestre de 2018, por meio de visitas domiciliares e dentro da Unidade de Saúde, através da aplicação dos questionários pelos pesquisadores. Os critérios de inclusão foram idade acima de 60 anos, ter cadastro na Unidade de Saúde e residir em Ouro/SC. Como critérios de exclusão foram pessoas que não conseguiam se comunicar para responder os questionários ou que não aceitaram participar do estudo.

Para a realização do cálculo amostral foi considerada uma população total de 584 indivíduos (hipertensos e/ou diabéticos). O nível de confiança adotado foi de 95%, e erro amostral de 5%. Considerando a população homogênea, o cálculo amostral foi de 174 indivíduos.

Foram utilizados dois instrumentos, um para a análise da vulnerabilidade, Vulnerable Elders Survey (VES13), e um questionário para a análise da dor (Índice de Incapacidade Relacionada com a Dor). O VES13 conta com 13 itens que englobam a autopercepção da saúde, presença de limitações físicas e declínio funcional, classificando os idosos em dois grupos: vulneráveis (VES13≥3) e não vulneráveis (VES13<3). Esse questionário foi desenvolvido com o objetivo de identificar os idosos vulneráveis e foi validado no Brasil por Maia et al.6, mostrando-se confiável e de fácil aplicabilidade.

O Índice de Incapacidade relacionado com a dor, o Pain Disability Index (PDI), é um instrumento que avalia e mensura o grau de interferência da dor em sete AVD, através de uma escala de Likert de zero a 10, sendo que no número zero a dor não tem interferência na atividade e no número 10 tem uma interferência total. Esse instrumento tem sido de vasta utilização devido a sua facilidade de aplicação e boas propriedades psicométricas e foi validado para o português por Azevedo et al.7

Aqueles que aceitaram participar responderam os questionários apenas uma vez, após preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), com o parecer n. 2.670.513.

Análise estatística

Os dados foram analisados através dos testes t de Student para a análise dos dados numéricos e do Qui-quadrado para os dados categóricos. Para a correlação das variáveis quantitativas foi utilizado o de Pearson. Foi utilizado programa estatístico SPSS.

RESULTADOS

Participaram do estudo 176 indivíduos, com média de idade 68,3±6,8 anos, 65 homens (36,9%), 111 mulheres (63,1%), 167 brancos (94,9%), 170 com filhos (96,6%), 173 (98,3%) com renda entre um e dois salários mínimos, 123 (69,9%) casados ou vivendo com companheiro(a), 162 (98,3%) com baixa escolaridade (inferior a oito anos de estudo). A tabela 1 apresenta as demais características da população pesquisada.

Tabela 1 Características sociodemográficas e clínicas dos idosos residentes em Ouro, SC (n=176) 

Características n (%)
Diabéticos 28 (15,9)
Faz uso de fármacos para diabetes 26 (92,8)
Hipertensos 95 (54)
Faz uso de fármacos para hipertensão 93 (9,8)
Participam do grupo Hiperdia na ESF 15 (8,5)
Tabagistas 12 (6,8)
Ex-tabagistas 30 (17)
Faz uso de álcool 35 (19,9)
Sedentários 55 (31,3)
Praticam exercício físico eventualmente 107 (60,8)
Tem alimentação saudável 127 (72,2)

ESF = Estratégia Saúde da Família.

A autopercepção da saúde, de acordo com o questionário VES13, mostrou que 65,9% consideram sua saúde “boa”, 15,9% “regular”, 6,8% “ruim”, 6,3% “muito boa” e 5,1% “excelente”. Em relação à vulnerabilidade, 48 (27,3%) foram considerados vulneráveis e 128 não vulneráveis (72,7%) (Tabela 2).

Tabela 2 Grau de dificuldade para as atividades instrumentais de vida diária, de acordo com o questionário VES13 

Atividades - grau de dificuldade Nenhuma
n (%)
Pouca
n (%)
Média
n (%)
Muita
n (%)
Incapaz
n (%)
Curvar-se, ajoelhar-se ou agachar-se 66 (37,5) 36 (20,5) 13 (7,4) 42 (23,9) 19 (10,8)
Levantar/carregar objetos com 5kg 117 (66,5) 14 (8) 09 (5,1) 25 (14,2) 11 (6,3)
Elevar/estender braços acima do ombro 101 (57,4) 18 (10,2) 14 (8) 24 (13,6) 19 (10,8)
Escrever/segurar pequenos objetos 167 (94,9) 01 (0,6) 04 (2,3) 04 (2,3) -
Andar 400 metros 108 (61,4) 26 (14,8) 15 (8,5) 26 (14,8) 01 (0,6)
Realizar tarefas domésticas pesadas 113 (64,2) 23 (13,1) 17 (9,7) 20 (11,4) 03 (1,7)

Na tabela 3 observa-se a análise da vulnerabilidade de acordo com o questionário VES13. Não houve associação da vulnerabilidade com o estado civil (p=0,11), nem com a escolaridade (p=0,25).

Tabela 3 Vulnerabilidade de acordo com o VES13 

Variáveis Vulneráveis
n (%)
Não vulneráveis
n (%)
Valor de p*
Sexo
Feminino
Masculino

36 (75)
12 (25)

75 (58,5)
53 (41,4)
<0,05
Idade (anos)
60-79
>80

44 (91,6)
04 (8,4)

118 (92,1)
10 (7,9)
0,56
Hipertensos
Sim
Não

35 (72,9)
13 (27)

60 (46,8)
68 (53,1)
<0,05
Diabéticos
Sim
Não

13 (20,8)
35 (79,2)

15 (11,8)
113 (88,2)
<0,05

*Teste Qui-quadrado.

Em relação à escala de dor, os domínios com maiores pontuações foram incapacidades para as atividades relacionadas à família e domésticas, e atividades relacionadas ao trabalho. Os domínios com menores pontuações foram relacionados à incapacidade para vida sexual e cuidados pessoais (banhar-se, vestir-se etc.) (Tabela 4).

Tabela 4 Grau de incapacidade para atividades devido à presença de dor 

Atividades Nenhuma incapacidade Ligeira incapacidade Moderada incapacidade Grave incapacidade Incapacidade total
Familiares/domésticas 73 (41,5%) 10 (5,7%) 37 (21,0%) 28 (15,9%) 28 (15,9%)
Momentos de lazer 132 (75%) 04 (2,3%) 21 (11,9%) 08 (4,5%) 11 (6,3%)
Atividades sociais 132 (75%) 05 (2,8%) 22 (12,5%) 07 (4,0%) 10 (5,7%)
Ocupação 93 (52,8%) 04 (2,3%) 36 (20,5%) 26 (14,8%) 17 (9,7%)
Atividade sexual 176 (100%) - - - -
Cuidados pessoais 135 (76,7%) 07 (4,0%) 17 (9,7%) 12 (6,8%) 05 (2,8%)
Atividades vitais 135 (76,7%) 09 (5,1%) 14 (8,0%) 10 (5,7%) 08 (4,5%)

Relacionando a escala de dor com a idade, observou-se que houve correlação fraca e inversa (r=-0,1; p=0,02), de modo que os mais velhos tiveram menor pontuação na escala de dor. Os hipertensos tiveram pontuação maior na escala de dor (p=0,05), assim como aqueles considerados vulneráveis (p=0,00). Não houve diferença na escala de dor em relação ao sexo (p=0,10).

Na tabela 5 observa-se a análise da pontuação da escala de dor com sexo, vulnerabilidade e presença de doenças crônicas não transmissíveis.

Tabela 5 Análise da pontuação da escala de dor com sexo, vulnerabilidade e presença de doenças crônicas não transmissíveis 

Variáveis Pontuação na escala de dor Valor de p*
Sexo
Feminino
Masculino

12,7±6,4
11,2±5,1
0,10
Vulneráveis
Sim
Não

17,2±6,1
10,3±4,8
0,00
Diabéticos
Sim
Não

13,0±6,5
12,0±5,9
0,44
Hipertensão
Sim
Não

13,0±6,5
11,2±5,2
0,05

*Teste t de Student.

DISCUSSÃO

Os principais resultados deste estudo mostraram importante associação da incapacidade pela dor com a vulnerabilidade e a presença de hipertensão. Estudos sugerem que a dor está associada principalmente com o sexo feminino, idade avançada e baixo nível socioeconômico, porém, neste estudo, os mais jovens tiveram maiores queixas de incapacidade pela dor8.

As atividades relatadas pelos idosos como de maior dificuldade referem-se a curvar-se, ajoelhar-se ou agachar-se e elevar/estender os braços acima do ombro. Menor dificuldade foi relatada para escrever ou segurar pequenos objetos. Tais dificuldades não parecem interferir na autopercepção da saúde, pois 65,9% consideraram sua saúde como boa. Sabe-se que a autopercepção da saúde depende de variáveis sociodemográficas, morbidades e suporte social, assim como a capacidade funcional está associada à prática de atividade física, estado nutricional e o número de doenças crônicas não transmissíveis. Dessa forma, a percepção da saúde é individual e afetada por diversos fatores9.

A mobilidade prejudicada é um dos eventos que mais interferem na saúde dos idosos, associada à redução de força e potência muscular, incapacidade e dependência na realização de atividades da vida diária10. A incapacidade de realizar as atividades diárias limita a autonomia dos idosos, reduz a qualidade de vida e aumenta o risco de dependência, cuidados e morte prematura11.

Na população pesquisada a maior prevalência foi de não vulneráveis, destacando-se que os vulneráveis foram majoritariamente do sexo feminino. O envelhecimento, apesar de ser um processo universal, apresenta uma forte relação com o sexo, onde as mulheres tendem a ter uma expectativa de vida maior que as dos homens, apresentando características importantes na velhice que as tornam mais vulneráveis. Embora o sexo feminino possua maior expectativa de vida que o sexo masculino, a proporção de anos vividos com doença também é maior12.

Quanto às doenças crônicas não transmissíveis, estima-se que 85% dos idosos apresente pelo menos uma, e elas constituem importante risco à saúde13. Com o aumento da longevidade da população, a agregação de vários fatores de risco pode comprometer a qualidade de vida dos idosos, e quando comorbidades estão presentes, a possibilidade de declínio é maior, visto que a capacidade de compensar um problema é afetada pela condição de acúmulo de doenças2.

No que se refere à situação conjugal, viúvos têm mais probabilidade de serem vulneráveis, pois, a morte de um familiar pode ser algo negativo para a saúde, levando ao isolamento social14, mas isso não foi observado neste estudo.

Apesar do percentual de idosos que apresentaram dificuldades em realizar as AVD não ter sido expressivo neste estudo, ratifica-se a importância de estimular a população idosa à prática de atividades físicas capazes de promover melhoria da aptidão física. Os exercícios físicos regulares retardam a degeneração dos músculos, ligamentos, ossos e articulações, além de proporcionar músculos mais fortes, articulações flexíveis e manter o equilíbrio e a coordenação, permitindo maior mobilidade e independência, e a prática de exercícios ajuda o idoso a manter-se flexível, ativo e em boa forma12.

Nesta pesquisa observou-se que a dor gerou incapacidade principalmente em assuntos relativos à família, trabalho e atividades domésticas. Sabe-se que a dor é um dos principais fatores que limitam o idoso a manter uma vida normal, e causa prejuízo na realização das AVD, restringe a convivência social e compromete o estado funcional1.

Algumas limitações do estudo incluem o corte transversal, por analisar um espaço de tempo determinado, e o fato de não ter sido analisado a presença de dor crônica, mas sim a incapacidade decorrente da dor.

CONCLUSÃO

Neste estudo, a vulnerabilidade apresentou relação com o sexo feminino, presença de hipertensão e diabetes; enquanto a incapacidade relacionada à presença de dor foi maior nos idosos mais jovens, nos hipertensos e naqueles considerados vulneráveis.

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