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As células T podem ajudar a manter a imunidade duradoura contra o covid – 19?|Colunistas

As células T podem ajudar a manter a imunidade duradoura contra o covid – 19?|Colunistas

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Cássia Bassetto Lorenzoni

7 min há 47 dias

Introdução

Desde a ascensão da pandemia de covid – 19, a imunidade mediada por anticorpos neutralizantes contra o agente etiológico foi preconizada pela tradição da imunologia, parte por conta da sensibilidade dos testes diagnósticos de IgM e IgG, parte pela segurança da imunização coletiva (de rebanho). No entanto, evidências mais recentes enfatizam que o sistema imunológico é um ente complexo, coordenado e integrado, ou seja, a construção da sua memória contra dado patógeno fundamenta-se em todas as instâncias celulares, não somente na derradeira troca de classe de imunoglobulinas.

Assim, as células T vem ganhando especial destaque em se tratando de contribuições para a geração de memória imunológica duradoura. Com isso, é possível relacionar que linfócitos TCD4 (helper) auxiliem como verdadeiras sentinelas em infecções por coronavírus, detectando a infecção e definindo rotas de combate a ela; enquanto que a resposta mediada por linfócitos TCD8 (citotóxicos) constitui um braço importante da imunização – juntamente às imunoglobulinas, sendo, pois, também de grande valia ao combate à pandemia em voga. Nesse sentido, cabe compreender sua dinâmica e a diferente resposta deflagrada em contexto de vacinação pelos principais imunizantes que há no mercado contra o SARS-CoV-2.

Células T e memória

Por se tratar de uma pandemia recente, não há estudos longitudinais acerca da imunogenicidade do SARS-CoV-2. Contudo, pesquisas anteriores com o agente etiológico da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) – surgida há 12 anos – comprovam que, embora o nível de anticorpos específicos para SARS em indivíduos recuperados seja indetectável 6 anos após a infecção, as células T de memória específicas para SARS persistiram por pelo menos 6 anos após o contato inicial, o que traz boas projeções para a cobertura contra um vírus de mesma família.

Em um ensaio clínico de Fase I envolvendo uma vacina de DNA SARS que codifica e induz a transcrição da proteína S (spike do capsídeo viral), respostas de células T específicas para SARS foram percebidas em indivíduos vacinados, sugerindo que a proteína S é suficiente para induzir respostas mediadas por células T.

Em consonância com isso, os resultados de estudos atuais mostram a persistência a longo prazo das respostas das células T contra a proteína S, bem como outras proteínas estruturais, incluindo as proteínas M e N dos coronavírus. A esse respeito, foi, de certa forma, previsível que respostas de células T que reconheçam proteínas destes outros vírus promovam um reconhecimento cruzado do vírus causador da COVID-19 e apresentem uma resposta pré-montada, incorrendo em formas mais brandas ou assintomáticas da doença.

Resposta de células T deflagrada por vacinas contra SARS-CoV-2

Vacina de vírus inativado: Coronavac e Covaxin

Diz respeito às vacinas que utilizam a tecnologia de vírus inativado, na qual o vírus inteiro é utilizado, porém sem potencial replicante e dependente de adjuvantes para induzir inflamação.

No organismo, o vírus é fagocitado pelas APCs, que expõem alguns de seus fragmentos na superfície de sua membrana. Então, os linfócitos T são ativados pelas APCs e há recrutamento de outras células do sistema imunológico.

O linfócito B, entra em contato com o vírus in natura mediante seus receptores BCR o que permite que ele exponha fragmentos do patógeno em sua superfície. O linfócito TCD4 de perfil Th2 entrará, então, em contato com esse linfócito B, preconizando a sua diferenciação em plasmócitos que culmina na produção, maturação da afinidade e troca de isotipo de imunoglobulinas. Haverá proliferação de linfócitos B que vão se diferenciar em plasmócitos e vão produzir os anticorpos.

Assim, a imunidade induzida por esse tipo de tecnologia é predominantemente humoral, havendo déficit, portanto, do braço Th1 de imunidade mediada por células TCD8, no entanto há participação incisiva de linfócitos TCD4 perfil Th2 na resposta e constituição de memória.

Vacina de vetor viral: AstraZeneca, Jansen e Sputnik V

Trata-se do emprego do vetor viral não replicante, que baseia-se na inserção dos genes que codificam a proteína S dentro de um outro vírus, o qual atua como um “carreador” de informação.

Essas vacinas são capazes de induzir ambas as respostas, Th1 e Th2. Mediante ao processo inflamatório gerado, as citocinas vão atuar sobre esses linfócitos TCD4, diferenciando-os, em Th1 e Th2.

Nesse sentido, a novidade aqui fundamenta-se na atuação de células TCD8 na ponta da resposta imune, a chamada resposta adquirida celular, altamente contribuinte para a memória a longo prazo e a resposta ao patógeno.

Vacina de mRNA: Pfizer – BioNTech  e Moderna

Nesse caso de imunizante, a introdução de RNA mensageiro no hospedeiro induz a síntese de proteínas S do capsídio do Sars-CoV-2, que por si só geram inflamação e consequente ativação do sistema imunológico contra o epítopo.

Esse mecanismo gera resposta imune coordenada, ocorrendo simultaneamente produção de anticorpos neutralizantes, ativação de células TCD4 e TCD8 específicas para o vírus e liberação de citocinas imunomoduladoras como IFNγ. Assim, também trata-se, nesse caso, de uma imunização completa (humoral e celular) e estímulo de memória duradoura induzida por linfócitos T.

Conclusão

Vide o exposto, constata-se que ignorar o papel das células T na imunidade duradoura é uma miopia imunológica, dado que as células T CD4 e CD8 podem gerar memória imunológica de longa duração contra covid – 19. Fica evidenciado que as células T específicas para SARS-CoV-2 podem ser relevantes no controle da doença, mesmo na ausência de anticorpos neutralizantes.

Considerando, portanto, o papel de protagonismo que as células T estão assumindo por conta de sua eficácia perene no combate às infecções, será fundamental buscar que as vacinas em desenvolvimento sejam capazes de gerar tanto respostas humoral quanto mediadas por células. Felizmente esta promoção de resposta de anticorpos e de células T pode ser alcançada por diversas das vacinas em circulação atualmente, assegurando ótima cobertura.

Autora: Cássia Bassetto Lorenzoni

Instagram: @cassialorenzoni

Referências:

Citocinas http://jararaca.ufsm.br/websites/imunologia/b46d81ad56d0fa0c196d351ba7e53ed8.htm

COVID 19: a vez das células T? https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/noticias/1982-covid-19-a-vez-das-celulas-t

COVID-19 vaccine BNT162b1 elicits human antibody and TH1 T cell responses https://www.nature.com/articles/s41586-020-2814-7

Imunidade celular e proteção contra COVID – 19 https://www.unasus.gov.br/especial/covid19/markdown/251

SARS-CoV-2-specific T cell immunity in cases of COVID-19 and SARS, and uninfected controls https://www.nature.com/articles/s41586-020-2550-z

Memory T cell responses targeting the SARS coronavirus persist up to 11 years post-infection https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0264410X16002589?via%3Dihub

A vacina Covaxin gera alta resposta imunológica? https://www.sanarmed.com/a-vacina-covaxin-gera-alta-resposta-imunologica-colunistas

A terceira geração de vacinas no covid – 19 https://www.sanarmed.com/a-terceira-geracao-de-vacinas-no-covid-19colunistas


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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