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As sequelas causadas pela covid-19 no sistema renal | Colunistas

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Vitória Oliveira

6 min há 14 dias

 

Introdução

As sequelas causadas pela COVID-19 no sistema renal é um acometimento importante em pacientes hospitalizados em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), apresentando morbidade significativa nos casos críticos. O novo coronavírus, além de causar danos no sistema respiratório, cardiovascular, nervoso e metabólico, também está relacionado com o distúrbio renal, a partir da manifestação de uma insuficiência renal aguda (IRA). Dessa maneira, um estudo mostrou que os pacientes hospitalizados que desenvolveram a insuficiência renal aguda eram mais velhos, com valores mais altos de índice de massa corporal (IMC), e com maior prevalência de diabetes mellitus, hipertensão e histórico de tabagismo.

A IRA pode levar a complicações causadas por encefalopatia, neuropatia, pericardite e a sobrecarga de volume por causa da dispneia e do edema pulmonar. A insuficiência renal aguda (IRA) é uma condição caracterizada por um declínio na taxa de filtração glomerular (TFG), em decorrência de um aumento da concentração de creatinina sérica e, em alguns casos, oligúria ou anúria.

As causas da IRA são frequentemente divididas em pré-renais, que podem ser resultado de hipoperfusão ou hipovolemia, incluindo diminuição da ingestão, vômito, diarreia, perda de sangue, insuficiência cardíaca, síndrome hepatorrenal e pós-renais, que são obstru­tivas, como nefrolitíase, malignidade e hiperplasia pros­tática benigna. A causa mais comum da IRA é a necrose tubular aguda e geralmente surge como consequência de outras síndromes e é um marcador significativo para gravidade de doenças. Logo, é uma patologia que teve ocorrências significativas nos pacientes de UTI da COVID-19.

A manifestação da IRA pelo SARS-CoV-2 nos rins

O mecanismo de manifestação da insuficiência renal aguda ocasionada pelo SARS-CoV-2 se dá por meio de danos estimulados da citocina, crosstalk de órgãos e efeitos sistêmicos. Ademais, os cientistas ainda estudam sobre os efeitos citopáticos, que é induzido pela resposta inflamatória sistêmica decorrente de uma tempestade de citocina. Também foram encontrados achados que confirmaram uma relação entre o dano alveolar e tubular – o eixo pulmão-rim.

Nesse sentindo, o vírus pode acessar a corrente sanguínea a partir da circulação pulmonar, acumulando-se nos rins e causando danos. Outrossim, muitos estudos enfatizam uma forte relação entre o SARS-CoV-2 e o sistema renina-angiotensina-aldosterona, estabelecendo que o SARS-CoV-2, através da proteína de superfície spike (S), tem a capacidade de se ligar à enzima conversora da angiotensina 2 (ECA-2), facilitando a entrada e replicação viral, sendo assim, nos rins a ACE2 é altamente expressa na borda das células tubulares proximais e nos podócitos, sugerindo um alto risco para os órgãos e podendo levar, por meio da IRA, a uma necrose tubular aguda.

Figura 1. Mecanismos de lesão renal aguda (IRA) durante a infecção por SARS-CoV-2
Fonte: Lesão renal aguda em pacientes criticamente enfermos com COVID-19. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32533197/#&gid=article-figures&pid=fig-3-uid-2

Riscos da covid-19 em doentes renais crônicos e transplantados

Nos casos de pacientes que já apresentam insuficiência renal, os riscos são maiores de desenvolver formas graves de COVID-19 e maior mortalidade, por decorrência da imunidade baixa e pela falta de produção de hormônios renais, que contribui na formação de glóbulos vermelhos. Nesse sentido, alguns estudos mostram que a glomerulopatia colapsante, lesão tubular aguda e a necrose tubular aguda (NTA) atuam como formas prevalentes de lesão renal nos casos de COVID-19, com doenças renais. Além disso, também existem as complicações em transplantados, devido ao seu estado de imunossupressão, tendo as manifestações clínicas, tratamento e o prognóstico da COVID-19 diferente da população em geral, pois um receptor de transplante exposto seria infectado em uma alta porcentagem de casos. Dessa forma, os receptores de transplante renal precisam de atenção especial e um diagnóstico precoce.

Tratamento

Ainda não há tratamento específico para a Insuficiência Renal Aguda induzida pela COVID-19. As indicações, o momento e as modalidades da terapia de substituição renal dependem de mais estudos com o foco na doença, sendo urgentemente necessários para prever os riscos e sugerir intervenções direcionadas, já que a IRA representa uma complicação importante e está associada a altos índices de mortalidade.

 Em casos graves de pacientes transplantados renais que adquiriram a COVID-19, dada a escassa experiência acumulada e a alta probabilidade de evolução entorpecida do quadro clínico em curto espaço de tempo, com o desenvolvimento de falência de múltiplos órgãos e necessidade de suporte ventilatório, a estratégia imunossupressora recomendava os corticosteroides sistêmicos em baixas doses, que têm duplo efeito benéfico nesses pacientes devido às suas propriedades imunomoduladoras, anti-inflamatórias e vasculares, que conferem proteção imunológica ao aloenxerto renal; inibição de citocinas pró-inflamatórias, redução do tráfego de leucócitos e manutenção da integridade e permeabilidade endotelial. Contudo, ainda são necessários mais estudos que relacionam o sistema renal e a COVID-19, para tratamentos específicos.  

Conclusão

Portanto, conclui-se que as sequelas da COVID-19 não são determinadas apenas pelas complicações do sistema respiratório, pois é estendida para outros sistemas do corpo humano, como o sistema renal exposto acima. Assim, é fundamental mais estudos sobre o tema, para o desenvolvimento de tratamentos eficazes e para a diminuição de sequelas e óbitos pelo comprometimento do sistema renal.

Autor: Vitória de Oliveira Souza

Instagram: @vitoriadeoli_

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

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GABARRE, Paul et al. Acute kidney injury in critically ill patients with COVID-19. Intensive care medicine, v. 46, n. 7, p. 1339-1348, 2020.

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PECLY, Inah Maria D. et al. Uma revisão da Covid-19 e lesão renal aguda: da fisiopatologia aos resultados clínicos. Brazilian Journal of Nephrology, 2021. PERICO, Luca; BENIGNI, Ariela; REMUZZI, Giuseppe. Should COVID-19 concern nephrologists? Why and to what extent? The emerging impasse of angiotensin blockade. Nephron, v. 144, n. 5, p. 213-221, 2020.

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