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Aspectos semiológicos do tamponamento cardíaco | Colunistas

Aspectos semiológicos do tamponamento cardíaco | Colunistas

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O tamponamento cardíaco é decorrente do grande acúmulo de sangue ou de outros líquidos no pericárdio, o que dificulta a fase diastólica do ciclo cardíaco (atrapalha a fase de enchimento do coração). Esse quadro clínico pode ocorrer devido a traumas ou inflamações, por exemplo, e coloca a vida do paciente em risco. A taxa de mortalidade varia de acordo com a região, dependendo dos recursos disponíveis e do atendimento.

Possíveis Causas

O tamponamento cardíaco pode ocorrer por diversos mecanismos: medicamentos (trombolíticos e anticoagulantes), pós-radioterapia, cirurgia cardíaca recente (sangramento ou síndrome pós-pericardiotomia), trauma torácico, neoplasias, uremia, doenças auto-imunes (colagenoses), dissecção aórtica, infarto agudo do miocárdio (síndrome de Dressler ou ruptura de parede do ventrículo esquerdo), infecções e pericardites.

Assim, o tamponamento cardíaco pode ocorrer devido a uma complicação de uma doença infecciosa. Um exemplo disso é a pericardite após uma cirurgia cardíaca, que pode evoluir para um derrame pericárdico e tamponamento cardíaco. Nesses casos, o diagnóstico e o tratamento precoce são de extrema importância, visto que existe uma associação entre o tamponamento e as altas taxas de morbidade e mortalidade.

Sinais e Sintomas

Os sintomas de tamponamento cardíaco vão desde sintomas inespecíficos, como mal-estar e fraqueza, a sintomas de dor torácica/dor no peito, anorexia e dispnéia. Os sinais clínicos observados são: hipotensão arterial, taquicardia, com aumento da pressão venosa, estase jugular e diminuição do débito cardíaco, hipofonese de bulhas cardíacas, pulso paradoxal e aumento da frequência respiratória.

Exames Complementares

A clínica (exame físico) do tamponamento cardíaco é determinante para o seu diagnóstico, de forma que uma boa e rápida análise do paciente constitui o principal ponto para diminuir a morbimortalidade. Porém, alguns exames de imagem auxiliam para dar um diagnóstico mais preciso, por exemplo, a ecocardiografia 2D, que é excelente para a visualização da injúria e é o método mais importante para a detecção do tamponamento cardíaco.

Outros exames, como a radiografia, dão informações sobre o prognóstico do paciente. Os exames laboratoriais, como o hemograma, tipagem sanguínea, coagulograma e saturação de oxigênio no sangue arterial, são necessários para conduzir o caso do paciente com mais segurança.

Se o paciente estiver estável, o eletrocardiograma (ECG), ecocardiograma transtorácico, ecocardiograma transesofágico e tomografia computadorizada (TC) podem ser usados para o diagnóstico de injúrias. No caso dos tamponamentos por traumas, utiliza-se a ultrassonografia FAST (Avaliação Focalizada com Sonografia para Trauma). Já a ressonância magnética não tem tanta importância nos casos agudos, visto a demora para realizar esse exame.

Tríade de Beck

Essa tríade de Beck possui a função de identificar os principais sinais do tamponamento cardíaco, que possui diagnóstico clínico, utilizando de três critérios:

  • Estase jugular;
  • Hipotensão;
  • Abafamentos das bulhas cardíacas.

Estase Jugular

No tamponamento cardíaco, ocorre aumento da Pressão Venosa Jugular (PVJ) e isso gera a estagnação (estase) do sangue nas veias jugulares. Esse aumento da pressão venosa acontece justamente porque o sangue venoso não consegue manter o seu fluxo normal, pois, ao chegar no átrio direito, não consegue “achar espaço”; uma vez que a fase diastólica do ciclo cardíaco estará dificultada, devido ao líquido no pericárdio exercendo pressão contrária a este movimento. Isso aumentará a pressão interna das veias jugulares (não exclusivamente delas, mas são elas as que conseguimos visualizar com maior facilidade, por serem mais superficiais).

Hipotensão Arterial

O aumento de líquido no pericárdio prejudica o bombeamento do coração, visto que a fase de enchimento é comprometida. O resultado é a diminuição da pré-carga, diminuição do débito cardíaco, diminuição da função cardíaca e a diminuição da pressão arterial.

Abafamento de Bulhas Cardíacas

O abafamento do som das bulhas cardíacas no exame físico ocorre devido a barreira entre o coração e o estetoscópio, que é o líquido no pericárdio. Dessa forma, o líquido do tamponamento cardíaco funcionará como um empecilho, dificultando a ausculta do fechamento das valvas cardíacas.

Choque Obstrutivo

O choque é uma síndrome clínica causada por um desarranjo sistêmico de perfusão dos tecidos, o que gera hipóxia celular, alterações metabólicas e disfunções de órgãos. Existem quatro tipos de choques: cardiogênico, hipovolêmico, distributivo e obstrutivo. Assim, o tipo de choque causado pelo tamponamento cardíaco é o choque obstrutivo. Esse tipo de choque ocorre por um bloqueio mecânico do fluxo sanguíneo da circulação pulmonar ou sistêmica, promovendo diminuição do retorno venoso, enchimento ventricular inadequado e diminuição do débito cardíaco.

Conduta

O tratamento do tamponamento cardíaco consiste em pericardiocentese ou toracotomia imediata. Dessa forma, o tratamento básico é a drenagem urgente do líquido no pericárdio. A toracotomia imediata aumenta as chances de sobrevivência do paciente que teve parada cardíaca, devido ao tamponamento cardíaco. Já a pericardiocentese é indicada para derrames pericárdicos >20mm na diástole, no entanto, apesar de todos os derrames pericárdicos significativos serem de importância clínica, a pericardiocentese é necessária apenas para  pacientes  com  comprometimento  hemodinâmico.

Conclusão

Os médicos devem estar atentos para a identificação dos componentes da tríade de Beck, pois o rápido reconhecimento dos sinais clínicos do tamponamento cardíaco pode salvar vidas. Além disso, é importante que os médicos tenham as habilidades necessárias para aliviar o quadro do paciente e evitar um choque obstrutivo.

Autora: Letícia de Paula Santos.

Instagram: @leticiapaula.santos 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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