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Astenopia digital: A Síndrome Visual Relacionada a Computadores e outras telas | Colunistas

Astenopia digital: A Síndrome Visual Relacionada a Computadores e outras telas | Colunistas

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Introdução

A semana começa na segunda-feira. Você acorda e assiste as sete horas de aula EAD e quando termina é o momento de estudar as matérias do dia. Você pesquisa, lê e faz os seus resumos no computador até que é hora de descansar assistindo série ou entrando nas redes sociais. Essa rotina parece com a sua? Qualquer semelhança é mera coincidência. Todavia, ao chegar ao final do dia você alguma vez já sentiu os olhos um pouco ressecados, vermelhos ou então teve dor de cabeça? Esses sintomas estão cada vez mais frequentes e acredita-se que possam estar associados à Síndrome Visual Relacionada a Computadores (SVRC) ou, como vem sendo renomeada, astenopia digital.

Epidemiologia e nomenclatura

Com o desenvolvimento da tecnologia da informação e da internet das coisas, o indivíduo se torna cada vez mais intrínseco aos aparelhos eletrônicos. Em meio à pandemia de COVID-19 e a necessidade de isolamento social, isso ficou ainda mais claro diante da participação da telemedicina e adaptação de aulas, congressos e serviços para o meio online. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), foi constatado um aumento de 7,39 milhões no número de acessos móveis à internet, ao se comparar os anos de 2019 e 2020.

Concomitantemente a isso, a Sociedade Brasileira de Oftalmologia estimou que até 90% das pessoas que utilizam computador, por mais de três horas diárias, apresentam algum sintoma relacionado à SVRC. No entanto, se anteriormente o foco das pesquisas era o computador, com a atual diversidade de aparelhos, o quadro ganhou um aspecto mais geral, de maneira que passa a ser chamado de astenopia digital ou fadiga ocular digital.

Definição

A Síndrome Visual Relacionada a Computadores ou a astenopia digital é, portanto, a condição caracterizada por um distúrbio/desconforto visual decorrente do uso de dispositivos digitais. Isso se deve ao elevado estresse na região ocular, incluindo brilho, disfunção de acomodação, disparidade de fixação, secura, fadiga e desconforto.

São relatados predominantemente sintomas oculares, dentre eles o lacrimejamento, a vista cansada ou borrada, diplopia e ardor ou vermelhidão nos olhos. Já com relação aos sintomas não localizados, é possível destacar torcicolo, fadiga generalizada, cefaleia e lombalgia.

A causa desses sintomas não está clara. Todavia, acredita-se que um ou mais fatores possam estar relacionados ao seu aparecimento, como erro de refração não corrigido, anomalias de acomodação e vergência, alteração do padrão de piscar, exposição excessiva à luz intensa, distância de trabalho mais próxima e tamanho de fonte menor. No entanto, para destrinchar melhor as hipóteses, primeiro é essencial relembrar a estrutura ocular e o mecanismo de acomodação visual.

Anatomia e fisiologia

O sistema visual, juntamente com a audição, forma a base da comunicação. Ele é responsável pela captação da luz visível e distinção da luz em dois aspectos: brilho/luminosidade e comprimento de onda/cor. A luz que penetra nos olhos é focalizada, pela córnea e pelo cristalino, na retina, onde é captada pelos fotorreceptores. A informação é então processada pelos interneurônios e conduzida pelos axônios das células ganglionares da retina, através dos nervos ópticos, a partir dos quais a informação prosseguirá pelas vias visuais até ser interpretada no córtex visual.

Contudo, para garantir uma imagem nítida, existem alguns mecanismos que tornam possível enxergar objetos que estejam mais próximos ou distantes e, dentre eles, destacam-se duas estruturas capazes de influenciar no foco da imagem: o cristalino e a íris. O cristalino é a lente do olho humano e tem a capacidade de mudar de forma e variar o seu poder de refração, enquanto a íris é responsável por regular a quantidade de luz que entra no olho através da pupila e, assim, controlar a profundidade da imagem e a quantidade e aberração esférica produzida pelo cristalino.

Para compreender esse mecanismo é preciso saber que o cristalino é mantido no lugar devido aos ligamentos suspensores, que se fixam à parede do olho no corpo ciliar. Dessa maneira, ao observar nitidamente um alvo, o seu foco encontra-se na retina e a informação está sendo processada. No entanto, quando o olho se dirige a um alvo próximo, a luz é inicialmente focalizada atrás da retina e precisa ser ajustada para garantir a qualidade da imagem. Por isso, os músculos do corpo ciliar se contraem, de modo a reduzir a tensão sobre os filamentos suspensores e aumentar a convexidade do cristalino. Esse novo formato aumenta a intensidade de refração da luz, trazendo a imagem ao foco na retina. Associado a isso, a íris auxilia estimulando a constrição da pupila, de modo a adaptar a profundidade de campo e projetar a luz na porção central do cristalino, gerando menor aberração esférica e melhor qualidade da imagem.

Etiologia

Dessa forma, apesar de ainda contraditórios e muitas vezes sem uma relação direta de causalidade, os estudos buscam compreender se a síndrome está relacionada aos efeitos no sistema acomodativo/vergência, na superfície ocular (incluindo o ato de piscar) ou em uma combinação de ambos. Por isso, serão apresentadas as principais hipóteses em discussão.

Acomodação

Alguns estudos analisados apontam que o uso dos dispositivos digitais pode interferir na precisão, facilidade e amplitude de acomodação.

Com relação à precisão, foi constatado um atraso no processo de acomodação ao se ler um texto em um tablet de 30-40 cm por 12 e 30 minutos, se comparado ao ler um texto impresso à mesma distância. Quando essa diferença ocorre, é possível a manifestação de visão embaçada e olhos doloridos e cansados, encontrados na astenopia digital. No entanto, não foi encontrada diferença ao comparar o atraso por uso de smatphone e o atraso por uso de tablet em uma leitura de 10 minutos a 25 cm de distância. Outro estudo não constatou diferença entre ler um texto impresso e um texto no e-reeder, ambos a 50 cm, mas outro, mesmo sem identificar atraso, encontrou sintomas de fadiga ocular na leitura com e-reeder à essa distância.

A facilidade de acomodação, por sua vez, está relacionada à capacidade de focar a uma variedade de distâncias e a sua redução, na leitura de textos impressos, é relacionada à visão borrada. Nessa perspectiva, alguns estudos apontam que houve redução da facilidade de acomodação com o uso de smartphones e relacionam isso ao fato desses aparelhos serem comumente utilizados durante a realização de outras atividades, o que demanda ajuste rápido da acomodação, por conta do revezamento entre focar na tela e, depois, em um ponto mais distante. Já com relação à amplitude de acomodação, alguns trabalhos relataram diminuição dessa capacidade após o uso de aparelhos digitais, incluindo smartphones, tablets e computadores. No entanto, esses dados sobre a facilidade e a amplitude não apresentam causalidade direta com o uso dos dispositivos e poderiam estar relacionados apenas ao trabalho de perto.

Vergência

A vergência, juntamente com a acomodação e miose, formam a tríade para o trabalho de perto e a insuficiência de convergência é um dos sintomas mais comuns do esforço associado a esse trabalho, resultando na exoforia de perto. Nesse cenário, a pesquisa ainda está escassa, mas um estudo constatou redução do ponto próximo de vergência após o uso de dispositivos digitais, que, no entanto, foi recuperada após 10 minutos de descanso, tanto no uso de smatphone quanto no uso do computador.

Superfície ocular

A lubrificação do olho é essencial para garantir a sua homeostasia e o movimento de piscar garante a distribuição da lágrima por todo o olho. Todavia, tem sido investigada a hipótese de que o uso desses aparelhos digitais possa estar associado à redução do padrão de picar.

Um estudo com crianças de 10 a 12 anos constatou que crianças que usavam smartphones eram duas vezes mais propensas a ter a síndrome do olho seco. Além disso, o maior tempo de uso desses aparelhos também foi relacionado a uma maior propensão de desenvolvimento dessa síndrome.

A alteração do padrão de piscar e da lubrificação ocular levariam, portanto, aos sintomas de desconforto, ressecamento, queimação, ardor, olhos doloridos e visão borrada. Porém, determinados estudos apresentaram o mesmo padrão de piscada quando atividades nas mesmas condições foram efetivadas ao se utilizar smartphone e texto impresso. Nesses cenários, não foi necessariamente o instrumento utilizado que promoveu alteração do padrão, mas sim a tarefa em questão. Portanto, o padrão de picar poderia estar relacionado com a complexidade e demanda da tarefa, sendo essencial um aprofundamento nessa hipótese.

Existem também suspeitas com relação ao impacto que a utilização desses aparelhos pode provocar na produção e volume lacrimal, mas os dados sobre essa questão permanecem contraditórios.

Tratamento

Segundo a Sociedade Brasileira de Oftalmologia, o tratamento para a SVRC ou astenopia digital é formado por um conjunto de medidas preventivas. Nesse sentido, a resolução da tela, o contraste e a iluminação ambiente podem ser ajustados para um maior conforto. Uma opção benéfica é a colocação de filtro protetor à frente do monitor, que garante a redução da reflexão da luz ambiente na tela e aumenta o contraste da imagem, facilitando a focalização. Além disso, taxas maiores de renovação da tela (80 a 120 Hz) podem ser ajustadas nas configurações de vídeo do computador e estão associadas a um maior conforto ocular.

Paralelamente a isso, a posição do computador também é importante à ergonomia e conforto cervical. Por isso, o ideal é que a tela fique entre 70 a 100 cm do usuário, em um nível de 10 a 20 graus abaixo dos olhos, de maneira a proporcionar menos estresse postural. Somado a isso, para melhorar os sintomas de olho seco é importante buscar piscar ao longo da tarefa e é possível, sob prescrição médica, utilizar algum lubrificante ocular indicado.

Como o tempo de uso também está relacionado aos sintomas, recomenda-se a realização de pausas durante o uso dos dispositivos. Assim, podem ser feitas pausas de 5 a 10 min a cada hora de uso, mas caso o tempo de uso ultrapasse 4 horas, o ideal seria interrupções com duração maior.

Conclusão

Diante disso, é possível concluir que a astenopia digital é uma síndrome decorrente do estresse ocular proporcionado pelo uso excessivo dos aparelhos digitais e é cada vez mais frequente nesses usuários. Entretanto, por ser recente, ainda existem muitas divergências com relação à sua etiologia, sendo essencial o investimento em pesquisas na área. O seu tratamento, por sua vez, é composto por um conjunto de medidas preventivas que visam proporcionar um maior conforto de acomodação, lubrificação ocular e postura, de maneira a permitir que a tecnologia intrínseca ao transhumano possa ser desfrutada de um modo mais adequado.

Autora: Maria Beatriz Neves

Instagram: @quick.med_

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

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Jaiswal, S., Asper, L., Long, J., Lee, A., Harrison, K., & Golebiowski, B. (2019). Ocular and visual discomfort associated with smartphones, tablets and computers: what we do and do not know. Clinical and Experimental Optometry. doi:10.1111/cxo.12851 

Bahkir, Fayiqa Ahamed; Grandee, Srinivasan Subramanian Impact of the COVID-19 lockdown on digital device-related ocular health, Indian Journal of Ophthalmology: November 2020 – Volume 68 – Issue 11 – p 2378-2383 doi: 10.4103/ijo.IJO_2306_20

BERNE, Robert M.; LEVY, Matthew N.; KOEPPEN, Brune M.; STANTON, Bruce A. Berne & Levy: fisiologia. 7 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.

Pereira, Maurício. Síndrome Visual Relacionada a Computadores. Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), 2019. Disponível em: https://www.sboportal.org.br/imprensa/sindrome-visual-relacionada-a-computadores. Acesso em 24/06/2021, às 15h e 52 min