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Atendimento humanizado: qual a importância e como oferecer?! | Colunistas

Mudanças de paradigmas ocorrem em todas as áreas mediante avanço de técnicas e do próprio tempo em si e não há motivos para que não se apresentem também no meio médico. Podemos perceber esse fenômeno nos dias atuais ante o esforço digno de Atlas empregado nas instituições de ensino de medicina para que as novas levas de médicos saiam de fábrica com humanização no kit básico. Mas o que é essa tal humanização?

Na prática todo mundo tem pelo menos uma ideia vaga para a descrever. Em alguns dicionários, logo após o óbvio “tornar humano” vem o interessante: “tornar benévolo, tornar afável”. Mesmo sem nos aprofundarmos em conjecturas sobre a natureza humana e esses atributos, é bem fácil perceber do que se trata quando aplicamos esse conceito na área da saúde: Se refere diretamente à uma forma de agir ante outro ser humano. Logo, humanização na medicina fala de tratamento ético e empático do profissional de saúde para com a pessoa enferma e seus relativos.

Então, voltando na dita mudança de paradigmas. É inegável que o papel do médico poucas décadas atrás ainda era visto de forma amplamente paternalista onde sua palavra era lei (doctors orders) e o paciente basicamente se apresentava com passividade em boa parte do processo de interação com o profissional da saúde.

“O médico sabe, o paciente não. O médico diz o que fazer, se o paciente quiser melhorar ele obedece.”

Quando colocado dessa forma é fácil perceber a incongruência desse modelo com a era da informação que vivemos hoje, onde não é incomum o paciente chegar ao consultório com um pre-diagnóstico provindo da internet e até mesmo uma ideia do que deveria ser a prescrição (principalmente em casos mais rotineiros). Mas não é apenas essa questão aparentemente boba do dr. Google que deve chamar a atenção do leitor, mas também o grande número de processos judiciários por má conduta médica que estão surgindo nas mesas de médicos surpresos e que estimulou a tão falada também, medicina defensiva.

Ou seja, um modelo atravancado, onde o paciente só é informado o essencial (e talvez nem isso), o médico se importa mais em olhar o hemograma que a pessoa enferma, e que acaba por ter baixa adesão ao tratamento e altos níveis de insatisfação está fadado ao fracasso não apenas terapêutico, mas também econômico e jurídico.

E é aí que entra o esforço das instituições de ensino em ensinar esses jovens médicos a se portarem de forma diferente. Eixos como psicologia médica surgem com força, levando leituras como: “O pequeno tratado das grandes virtudes” para debate entre alunos. Alunos esses que podem não dar o devido valor a tais conhecimentos ante todas as demais áreas do curso que parecem “ser mais medicina” mas que estão fadados (por muita repetição) a compreenderem a importância de olhar além da doença e procurar tratar a pessoa. Pessoa essa que costuma ter entes queridos que a amam e colocam uma grande carga de confiança e dependência sobre o profissional de saúde que está encarregado de diminuir seu sofrimento.

Pois bem, após reflexões conceituais, o que poderíamos observar na prática médica para nos aproximarmos desse modelo humanizado de atendimento?

  • Um bom começo, por mais simples que possa parecer, é etiqueta/educação básica: Olhar nos olhos, desejar bom dia/tarde/noite e se referir ao paciente pelo nome. Todos temos nomes, eles são parte integrante de nossa identidade e nos fazem sentir nós mesmos e não um quadro clínico ou próximo número na fila.
  • Ouvir o paciente. Tempos de consulta podem ser limitados e cabe ao médico saber direcionar a conversa com gentileza e sutileza para o que pode ser mais relevante. Mas é importante lembrar que o especialista no paciente é o próprio paciente, não o médico.
  • Entender a multifatoriedade biopsicossocial das condições apresentadas pelo paciente. Isso vai ajudar bastante para atuar na área de verdadeira necessidade.
  • Evitar sofrimento desnecessário ao paciente. Se é viável aferir dados a respeito das funções de oxigenação do paciente de outras formas, poupá-lo de mais uma agulhada da gasometria arterial é obviamente preferível. Notar que a conveniência não deve superar os melhores interesses do paciente.
  • Fazer prescrições dialogadas. O médico deve aliar o paciente para seu próprio tratamento. Explicar com paciência o que pode ser explicado sobre sua condição, buscar entender se, devido sua condição, o paciente realmente tem grandes chances de seguir o que foi proposto. Senão, procurar alternativas.
  • Evitar o “sinal da maçaneta” que ocorre quando a investigação de queixas do paciente não foi plena.
  • Ser aberto a respeito de erros. Estudos comprovam que falar abertamente sobre erros, se desculpar e propor soluções tende a diminuir o número de processos jurídicos por má conduta que os médicos recebem.

Enfim, há uma lista extensa de situações e momentos em que a humanização pode e deve ser parte integrante da interação médico-paciente. E a palavra chave para fazê-lo é empatia. Se colocar no lugar do paciente e ativamente vê-lo como pessoa.

Em certo nível, acredito que seja fácil pensar nisso tudo como exagero, ou inviável no dia-a-dia, mas não é nenhum dos dois. Médicos como House provavelmente estariam na cadeia antes que você possa soletrar sarcoidose. O caminho para a excelência médica passa necessariamente pela humanização, seja na rede pública, em uma estratégia de saúde da família, por exemplo, onde sua longitudinalidade será infinitamente mais produtiva em uma relação médico-paciente acertada, ou em seu consultório particular, quando o paciente que você atender se tornar sua maior fonte de marketing e a pesquisa do seu nome do Google não retornar processos e mais processos que poderiam ter sido evitados com simples conversas (alguns não podem, claro).

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