Coronavírus

Atrasar a segunda dose de vacina COVID aumenta resposta imunológica? | Colunistas

Atrasar a segunda dose de vacina COVID aumenta resposta imunológica? | Colunistas

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Imagem de perfil de Bruna Scioute

O que é a vacina?

As vacinas são substâncias constituídas por agentes patogênicos (vírus ou bactérias), vivos ou mortos, ou seus derivados. Elas estimulam o sistema imune a produzir anticorpos (proteínas que atuam na defesa do organismo), os quais atuam contra os agentes patogênicos causadores de infecções.

 As vacinas são seguras e causam poucas reações adversas, sendo essas, geralmente, leves e de curta duração. Trata-se da principal forma de prevenção de inúmeras doenças.

Quando você entra em contato pela primeira vez com um antígeno (substância estranha), o organismo inicia a produção de anticorpos para combatê-lo, no entanto, esse processo é demorado e o você acaba por desenvolver a doença causada por aquele antígeno.

As vacinas atuam por meio do desenvolvimento da chamada “memória imunológica”. A introdução do agente patogênico (morto ou enfraquecido) ou seus derivados no organismo estimula o sistema imune a produzir anticorpos. Futuramente, quando o indivíduo se infectar com aquele agente, o organismo produzirá uma resposta imunológica de forma mais rápida para destruí-lo.

Porque é importante vacinar?

As vacinas são a principal forma de prevenção contra diversas doenças. Assim, elas não protegem apenas você que foi imunizado, mas toda a comunidade, pois você, ao não adoecer, também não se torna vetor de uma doença, transmitindo-a às demais pessoas.

Quanto maior a quantidade de pessoas imunizadas, maior a chance de uma doença não se desenvolver na comunidade. 

A vacina contra a COVID-19 é segura?

Essa é a maior dúvida que nos rodeia nos dias de hoje. Mas a segurança das vacinas é sempre a prioridade máxima e isso não é diferente no caso das vacinas contra a COVID-19. Todas elas passam por várias fases de ensaios clínicos antes de serem aprovadas para uso na população. Esses ensaios visam garantir a segurança da vacina e sua capacidade de proteger da doença (eficácia).

As vacinas contra a COVID-19 que foram e estão sendo desenvolvidas estão seguindo essas mesmas fases. Nenhum imunizante é aprovado ou disponibilizado nos países para uso na população em geral até que sua segurança tenha sido comprovada pelas agências reguladoras. Da mesma forma, a OMS não inclui nenhuma vacina em sua lista para uso emergencial até que tenha analisado todos os dados dos ensaios clínicos. Quando uma vacina contra a COVID-19 é aprovada, o monitoramento de segurança continua.

Quais são as vacinas disponíveis?

Coronavac

Pesquisadores do Instituto Butantan, que liderou os testes com a CoronaVac no Brasil, divulgaram que a eficácia geral da vacina foi de 50,4% em voluntários que receberam duas doses com intervalo de 14 dias. O instituto também informa que a vacina foi 78% eficaz na prevenção de casos leves de Covid-19 e 100% em evitar quadros moderados e graves.

O laboratório Sinovac informou ainda que um estudo clínico com a CoronaVac realizado no Brasil mostrou que o imunizante foi mais eficaz em um pequeno grupo que recebeu a segunda dose do fármaco com um intervalo maior, chegando à taxa de proteção de 70% com um período de três semanas entre as doses.

A Secretaria da Saúde recomenda que a segunda aplicação da Coronavac ocorra 28 dias depois da primeira.

Oxford /AstraZeneca

A vacina da Oxford/AstraZeneca, que tem no Brasil acordo com a Fiocruz, tem a segunda dose prevista para 12 semanas após a primeira.

A eficácia da vacina da Oxford/AstraZeneca é de 82,4% após a segunda dose.

Pfizer/Biontech

As doses da vacina da Pfizer/Biontech precisam ser mantidas congeladas a uma temperatura de -80 ºC, sendo necessário o uso de ultrafreezers. O seu transporte e armazenamento requer caixas próprias com 31 quilos de gelo seco, onde podem ficar armazenadas por até 30 dias, desde que o gelo seco seja trocado a cada cinco dias.

Por até 14 dias podem ser mantidas a 20ºC, temperatura atingida por um freezer comum. Depois de descongeladas, podem ser mantidas por até cinco dias em refrigeração entre 2ºC e 8ºC (geladeira comum). Isto dá uma vida útil de até 49 dias após a retirada do ultrafreezer.

Uma vez levada às geladeiras comuns ou refrigeradores, elas não poderão ser congeladas novamente. Para a aplicação, cada frasco com seis doses deverá ser diluído com soro fisiológico injetável, e pode permanecer à temperatura ambiente por até oito horas (duas antes da diluição e seis depois). O laboratório recomenda a aplicação com um conjunto de agulha e seringa chamado de “baixo volume morto”, para ter o menor desperdício possível do líquido e os vacinadores conseguirem extrair todas as seis doses de cada frasco.
Para o esquema vacinal completo, serão necessárias duas doses com um intervalo de 21 dias ou mais.

Porque tomar a segunda dose da vacina é tão importante?

Durante o ensaio da vacina da Pfizer/BioNTech, um participante vacinado e nove que receberam um placebo desenvolveram um caso grave de COVID-19 após a primeira dose. Isso sugere que os participantes desenvolveram proteção parcial logo 12 dias após a primeira dose. No entanto, todos os que receberam a vacina acabaram recebendo sua segunda dose apenas nove dias depois, de modo que não existem dados sobre quanto tempo duraria a proteção da dose única. Na ausência de evidências de apoio, nada definitivo pode ser concluído sobre a profundidade ou a duração da proteção após apenas uma única dose das vacinas atualmente autorizadas, ou escolhendo entre os intervalos estudados e mais longos entre as doses. Embora a eficácia das vacinas de mRNA contra covid-19 sintomático tenha superado as expectativas, os pesquisadores ainda não sabem quanto tempo dura essa proteção. No acompanhamento do ensaio de fase 1 da vacina da Moderna durante os 119 dias após a primeira dose, os anticorpos diminuíram em todos os participantes e os anticorpos neutralizantes – que não apenas ligam o vírus, mas também bloqueiam a infecção – caíram 50% a 75% nas pessoas com mais de 56 anos.

As vacinas funcionarão contra as novas cepas do vírus?

O SARS-CoV-2 é considerado um vírus bastante estável. Comparado com a maioria dos vírus de RNA (ácido ribonucleico), incluindo o HIV, o SARS-CoV-2 muda de modo muito mais lento à medida que se espalha. A maioria das mutações são pequenas. Muitas mutações não afetam a capacidade do vírus de se espalhar ou causar doenças.

No entanto, recentemente surgiram várias mutações que afetaram a capacidade do vírus de se espalhar e deixar pessoas doentes. Alguns estudos sugerem que algumas vacinas são menos eficazes contra a nova cepa do Sul da África. No entanto, até o momento, não há evidências definitivas que sugiram que as vacinas são menos eficazes contra a cepa dominante atual do vírus SARS-CoV-2, embora isso possa mudar no futuro. É necessário controlar a epidemia mundial, para reduzir o risco de que uma futura mutação escape ao efeito das vacinas existentes.

O que pode acontecer se a vacinação for incompleta?

Os vírus sofrem mutação natural devido a erros de cópia em seu código genético à medida que se multiplicam no corpo do hospedeiro ou devido à troca de códigos genéticos entre diferentes vírus que coinfectam o mesmo hospedeiro.

Mas eles também evoluem para escapar da imunidade do hospedeiro, especialmente se competirem contra uma resposta imunológica fraca, mas sustentada. O SARS-CoV-2 já pode estar baixo em indivíduos infectados e aproximadamente 40% a 45% dos infectados não apresentam nenhum sintoma. Em um paciente imunocomprometido – usando terapias para combater doenças autoimunes ou câncer – o vírus está presente por até 154 dias. Em tais situações, há maiores chances de que uma variante do vírus possa surgir e escapar da resposta imunológica e se espalhar rapidamente. Na verdade, suspeita-se que a nova variante altamente infecciosa do Reino Unido, que também está se espalhando nos EUA (e já chegou ao Brasil), pode ter se originado em um indivíduo cronicamente infectado.

Embora a evolução da resistência à vacina seja considerada muito rara por causa de vacinas eficazes e rigorosamente desenvolvidas, a modelagem matemática sugere que um vírus resistente pode surgir prontamente se a resposta imune for muito fraca para destruir todos os vírus no hospedeiro.

Vacinas apressadas e ineficazes podem produzir anticorpos que não reconhecem e se ligam mal aos vírus, o que pode fazer mais mal do que bem.

Mudar a dosagem para superar a escassez de suprimentos é um debate que desperta polêmica e está apenas começando. No entanto, tomar decisões erradas sem evidências científicas adequadas pode ser contraproducente.

AUTOR: BRUNA SANTOS SCIOUTE

INSTAGRAM: @bscioute

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências

Perguntas frequentes: vacinas contra a COVID-19 – OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde (paho.org)

Vacinas: o que são, como agem, reações, importância – Biologia Net

Cientista aponta riscos de adiar segunda dose da vacina contra covid-19 (projetocolabora.com.br)

9 perguntas e respostas sobre as vacinas contra a COVID-19 | MSF