Revistas Científicas

Atualização do PRISMA statement 2020: o principal guideline para revisões sistemáticas da literatura

Atualização do PRISMA statement 2020: o principal guideline para revisões sistemáticas da literatura

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7 minhá 10 dias

Por Dra Luiza Riccio*

Durante a carreira médica, frequentemente nos deparamos com a possibilidade de escrever um artigo científico, e não sabemos por onde começar. Alguns têm a oportunidade de fazer uma Iniciação Científica, mas é fato que, na formação médica, nem sempre temos acesso a todas as ferramentas necessárias para nos habituarmos à escrita científica. 

Realizar uma pesquisa original exige a elaboração de um projeto bem fundamentado, aprovação no Comitê de Ética, disponibilidade de recursos e acesso a materiais e/ou pacientes. Diante deste longo e difícil percurso, a principal porta de entrada para a produção de artigos geralmente acaba sendo uma revisão da literatura. Inclusive, faz todo o sentido, dentro do raciocínio científico, que este seja o primeiro passo quando pensamos em desenvolver uma pesquisa sobre algum tema. Antes de delinear um projeto, precisamos revisar as informações disponíveis na literatura, identificar as lacunas no conhecimento e, a partir daí, elaborar a pergunta que vai direcionar a pesquisa. 

Este processo de produção de conhecimento científico é tão importante que, atualmente, as revisões sistemáticas da literatura e metanálises estão no topo da pirâmide da qualidade das evidências científicas (Figura 1). Mas o que caracteriza uma revisão sistemática? Qual seria a diferença de uma revisão simples da literatura? A revisão sistemática foi definida como aquela realizada a partir de uma pergunta formulada de maneira clara e objetiva, utilizando métodos sistemáticos e explícitos para identificar, selecionar e analisar criticamente pesquisas relevantes, além de coletar e analisar os dados obtidos dos estudos selecionados. Métodos estatísticos podem, ou não, ser utilizados para analisar e agrupar os resultados dos estudos incluídos, o que caracteriza uma metanálise.

Figura 1. Pirâmide da hierarquia da qualidade da evidência científica.

FONTE: Yetley et al., 2017

Podemos citar, como grande referência na realização de revisões sistemáticas e metanálises, o Grupo Cochrane. Composto por pesquisadores voluntários de todo o mundo, este grupo realiza revisões de alta qualidade, publicadas na Biblioteca Cochrane (https://www.cochranelibrary.com/). As revisões são realizadas para responder a perguntas específicas, e são constantemente atualizadas para incluir novos estudos publicados.

Para garantir a metodologia adequada das revisões sistemáticas e metanálises, em 2009, foi elaborado o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: The PRISMA Statement, publicado no BMJ. O PRISMA statement é um guideline para que os autores reportem com transparência o motivo da realização da revisão, o que foi realizado e os resultados encontrados.

O primeiro guideline para metanálises foi elaborado em 1994, publicado no Lancet e denominado QUOROM Statement (QUality Of Reporting Of Meta-analyses), incluindo metanálises e ensaios clínicos randomizados. Em 2009, os critérios do QUOROM foram revisados, atualizados de acordo com os avanços na ciência das revisões sistemáticas e renomeados de PRISMA, a partir de um encontro de especialistas que durou três dias, em Ottawa, Canada. Os resultados desta reunião estão disponíveis no site: http://www.prisma-statement.org/. O PRISMA passou a incluir as revisões sistemáticas e adotou a terminologia utilizada pela Cochrane.

O PRISMA statement consiste em um checklist de 27 itens e um fluxograma para ilustrar toda a estratégia de busca realizada na literatura. Estudos observacionais associaram o uso do PRISMA à publicação de revisões sistemáticas mais completas, embora a adesão dos pesquisadores ao guideline ainda possa ser melhorada.

Após ter sido amplamente utilizado na última década, o PRISMA statement passou por uma revisão e atualização, sendo publicado o PRISMA 2020 statement no BMJ no final de março de 2021. A atualização foi justificada pelos avanços na metodologia da revisão sistemática e mudanças na terminologia. Além disso, a estrutura e apresentação dos itens foi modificada para facilitar a sua implementação. 

Muitas inovações na elaboração das revisões sistemáticas aconteceram desde a publicação do PRISMA em 2009. Dentre elas, podemos citar: o uso de processamento de linguagem e machine learning para identificar evidências relevantes; novos métodos de síntese dos resultados quando não é possível realizar uma metanálise; e novos métodos para avaliar os riscos de viés nos resultados dos estudos selecionados. Além disso, foram identificadas algumas fontes de viés nas revisões sistemáticas, levando ao desenvolvimento de novas ferramentas para avaliar como essas revisões foram conduzidas. A terminologia usada para descrever o processo de revisão também evoluiu, como no caso da avaliação da qualidade das evidências, cujo termo considerado mais adequado mudou de “quality” para “certainty”. 

O panorama das publicações também passou por constantes mudanças, incluindo diferentes meios para o registro e disseminação dos protocolos das revisões sistemáticas e compartilhamento de dados e materiais, como a disponibilização de preprints e bancos de dados de acesso público. O PRISMA 2020 vem, então, acompanhar essas mudanças e substituir a versão original, de 2009. A Figura 2 mostra o fluxograma do PRISMA 2020.

Figura 2. Fluxograma do PRISMA 2020.

The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic  reviews. - Abstract - Europe PMC

As principais mudanças no PRISMA 2020 foram:

  • Inclusão de um checklist para os Abstracts.
  • O tópico “Protocolo e Registro” saiu do início dos Métodos para uma seção separada, incluindo detalhes das informações fornecidas no registro.
  • Recomendação da inclusão da estratégia completa de busca em todos os bancos de dados, e não apenas em um deles.
  • Modificação da seção “Seleção dos Estudos” para enfatizar o relato de quantos revisores selecionaram cada um dos estudos, se eles trabalharam de maneira independente e se algum método automatizado foi utilizado no processo.
  • Inclusão de um subitem na seção “Seleção dos Estudos”, para que os autores citem o motivo da exclusão de artigos que, aparentemente, atenderiam aos critérios de seleção.
  • Inclusão de um subitem para que os autores relatem como os desfechos foram definidos, quais os resultados buscados e os métodos de seleção, quando apenas parte dos resultados dos estudos incluídos foi utilizada.
  • Divisão da seção “Síntese dos Resultados” em seis subitens, para que os métodos de síntese sejam descritos em detalhes.
  • Inclusão de quatro subitens para a seção “Síntese dos Resultados”, para que sejam descritos os riscos de viés, a análise estatística, as causas de heterogeneidade dos resultados e a apresentação dos resultados de análises de sensibilidade.
  • Inclusão de novos itens para que sejam descritos os métodos de avaliação do nível de certeza das evidências.
  • Recomendação da declaração de eventuais conflitos de interesse.
  • Recomendação de indicar se os dados, análises e materiais utilizados na revisão estão disponíveis publicamente e onde encontrá-los.

Diante do exposto, o PRISMA 2020 statement é uma importante ferramenta para a elaboração de revisões sistemáticas da literatura e metanálises de alta qualidade. Sua utilização é recomendada para todos que estão fazendo revisões da literatura, e o checklist e o fluxograma são de grande utilidade para o processo de seleção dos estudos, de análise dos dados e de escrita do artigo.

Publicação

Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, Boutron I, Hoffmann TC, Mulrow CD, Shamseer L, Tetzlaff JM, Akl EA, Brennan SE, Chou R, Glanville J, Grimshaw JM, Hróbjartsson A, Lalu MM, Li T, Loder EW, Mayo-Wilson E, McDonald S, McGuinness LA, Stewart LA, Thomas J, Tricco AC, Welch VA, Whiting P, Moher D. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021 Mar 29;372:n71. doi: 10.1136/bmj.n71. PMID: 33782057

*Dra Luiza Riccio é professora Sanar, com graduação em Medicina na EBMSP, Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia no HC-FMUSP e Doutorado em andamento na FMUSP. Participou de Colaboração Científica no INSERM/Université Paris-Descartes, França, e é revisora em periódicos científicos.

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