Alergologia e imunologia

ATUALIZAÇÃO SOBRE COVID-19: ASSOCIAÇÃO COM DOENÇAS TIREOIDIANAS | Colunistas

ATUALIZAÇÃO SOBRE COVID-19: ASSOCIAÇÃO COM DOENÇAS TIREOIDIANAS | Colunistas

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Introdução

Ao final de 2019, a doença altamente contagiosa causada pelo severe acute respiratory syndrome coronavirus-2 (SARS-COV-2), a COVID-19, começou a se alastrar pelo mundo, afetando, primariamente, o trato respiratório, em alguns pacientes, um estado de síndrome respiratória aguda grave, caracterizada por um rápido declínio da função pulmonar, principalmente em pacientes mais idosos com alguma comorbidade (em se tratando da variante inicial).

Além disso, pode se apresentar em grande parte dos casos como assintomática ou ainda como pneumonias de diferentes graus. Os achados clínicos costumam ser inespecíficos, como febre, tosse, mialgia, fadiga, cefaleia, acompanhados por sinais mais direcionados, como tosse produtiva, hemoptise, diarreia, ageusia e anosmia (perda do paladar e do olfato). Conforme acontece a evolução cronológica da doença, pode haver sinais de alerta, como febre alta, taquipneia, dispneia no repouso ou ao esforço.

Embora essa seja a consequência principal do SARS-COV-2, cada vez mais tem-se publicado a respeito de manifestações extrapulmonares da COVID-19, dentre as quais podemos citar: distúrbios neurológicos, urológicos, hematológicas, gastrointestinais, cutâneos, hepáticos e, ainda, endócrinos.

E a respeito do último ponto citado acima, o presente artigo se detém a relatar, em especial, distúrbios endócrinos tireoidianos relacionados ao COVID-19.

Fisiopatologia implicada na disfunção tireoidiana por COVID-19

            A relação entre doença tireoidiana e COVID-19 parece residir na fisiopatologia implicada pelo SARS-COV-2: a resposta ao vírus é extremamente variada. Em alguns pacientes, há apenas a produção de citocinas necessárias para o combate do patógeno. Em outras, há um evento desordenado chamado “tempestade de citocinas” no qual são produzidas quantidades altamente anormais de IL-6, TNF-α, GM-CSF, G-CSF e outras interleucinas como IL-2, IL-7 e IL-10.

Estudos recentes sobre doença tireoidiana e COVID-19

            Em virtude desse alto índice de citocinas inflamatórias, pôde-se estudar uma relação entre tireoidites (que podem ou não cursar com hiper ou hipotireoidismo) e a infecção pelo SARS-COV-2. Desse modo, em publicação recente da American Thyroid Association (ATA), citam-se 2 estudos realizados na Itália, um dos principais países afetados pela COVID-19 em 2020. O primeiro propôs-se a investigar a alteração da função tireóidea em pacientes com COVID-19 e o segundo a investigar a relação entre tireoidites subagudas com COVID-19.

Tireotoxicose relacionada ao COVID-19

            No primeiro artigo, intitulado Thyrotoxicosis in Patients with COVID-19: the

THYRCOV Study, foram excluídos do projeto previamente aqueles que: ou possuíam diagnóstico de doença tireoidiana prévia ou estivessem em uso de medicamentos que alteram a função tireóidea. Assim, entraram na pesquisa 287 pacientes participantes em condição estável (para evitar aqueles com síndrome da doença eutireoidiana), os quais puderam ter, primeiramente, os níveis de TSH avaliados, e, quando anormais, T4 e T3 livre avaliados, juntamente com outros parâmetros, como os níveis de citocinas IL-6. Os resultados foram 214 participantes sem alterações nos níveis de TSH, 58 com déficit de TSH, sugerindo hipertireoidismo e 15 com elevação de TSH, sugerindo hipotireoidismo. Além disso, foram verificados níveis de TSH em tendência inversa à idade e aos níveis de IL-6 circulante.

Tireoidite subaguda associada ao SARS-COV-2

            O segundo estudo comparativo, nomeado de SARS-CoV-2-related Atypical Thyroiditis, foi realizado com 2 grupos: grupo de 85 participantes com COVID-19 e grupo controle de 78 participantes. O projeto também teve como critério de exclusão aqueles pacientes que tivessem doenças tireoidianas pré-existentes, já descontados nos números acima. Os pacientes tiveram a avaliação da função tireoidiana (primeiramente TSH e, se anormal, também T4 e T3 livre) juntamente com o nível de citocinas pró-inflamatórias como a PCR.

            Assim, os resultados colhidos foram de que 13 participantes de 85 no grupo COVID-19 tiveram níveis de TSH elevados, enquanto houve apenas 1 participante de 78 no grupo controle que teve anormalidade da função tireoidiana. Os pacientes foram acompanhados, verificando-se que 6 dos 13 participantes com testes indicando tireotoxicose tiveram melhoria do quadro em até 2 meses depois, associada, ainda, à evidência de tireoidite pelo ultrassom e pela cintilografia com iodo.

Conclusão

            Ambos os estudos, assim como outros que vêm sendo realizados nessa linha de pesquisa, constataram relação entre doença tireoidiana inflamatória e a COVID-19. Apesar disso, são necessárias novas pesquisas, no intuito de apoiar, mais ainda, a evidência sobre a ciência.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências:

  1. LANIA, Andrea et al. Thyrotoxicosis in patients with COVID-19: the THYRCOV study. European journal of endocrinology, v. 183, n. 4, p. 381-387, 2020.
  2. MULLER, Ilaria et al. SARS-CoV-2-related atypical thyroiditis. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 8, n. 9, p. 739-741, 2020.
  3. KHOO, Bernard et al. Thyroid function before, during, and after COVID-19. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 106, n. 2, p. e803-e811, 2021.
  4. DWORAKOWSKA, Dorota; GROSSMAN, Ashley B. Thyroid disease in the time of COVID-19. Endocrine, v. 68, p. 471-474, 2020.
  5. XAVIER, Analucia R. et al. COVID-19: manifestações clínicas e laboratoriais na infecção pelo novo coronavírus. J Bras Patol Med Lab, v. 56, p. 1-9, 2020.