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Bronquiolite em crianças: Riscos e os tratamentos mais adequados | Colunistas

Bronquiolite em crianças: Riscos e os tratamentos mais adequados | Colunistas

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Introdução

A bronquiolite é, normalmente, uma doença aguda, de origem inflamatória que ocorre preponderantemente em pacientes pediátricos (em especial naqueles recém-nascidos, lactentes e pré-escolares), a inflamação ocorre, principalmente, na árvore brônquica, mais especificamente nas regiões terminais (aquelas com brônquios mais finos).

Sistema respiratório e sua divisão. Fonte: Infoescola

A doença se caracteriza por alguns achados micro e macroscópicos como:

  • Edema no pulmão: responsável por tornar o lúmen dos bronquíolos menores;
  • Necrose das células da região: responsável pela produção excessiva de muco do processo patológico;
  • Quadro inflamatório localizado.

A diminuição do lúmen, associada à produção excessiva de secreções é o que causa a restrição da passagem do ar, levando a um quadro dispneico do paciente (respiração cansada). Por isso, muitas vezes o primeiro achado junto ao cansaço da criança é o chiado no peito (tecnicamente chamado sibilância), semelhante ao quadro da asma.

A grande parcela dos casos de bronquiolite origina-se de quadros infecciosos virais, ocorrendo preponderantemente em meses mais frios. O principal responsável pelo quadro de bronquiolite em crianças é o vírus sincicial respiratório, com ampla vantagem sobre o segundo colocado, o rinovírus humano.

Estima-se que de 8 em cada 10 crianças com a doença o patógeno responsável é o VSR e o período com o maior número de casos bronquiolites são os primeiros 24 meses de vida.

Além dos dois principais, outros vírus que cursam com o quadro de bronquiolite são:

  • O vírus influenza;
  • Coronavírus;
  • Enterovírus;
  • Adenovírus.

É possível que haja também um quadro de dupla infecção, podendo ocorrer em 30% dos pacientes. A principal associação é entre o vírus sincicial respiratório junto e o rinovírus.

Fatores de risco

Os principais fatores de risco para o desenvolvimento da bronquiolite em crianças vão ser:

  • Prematuridade: bebê que nasce com 36 semanas ou menos;
  • Paciente imunodeficiente: doenças autoimunes, HIV, neoplasias;
  • Baixo peso: PIG – Pequeno para a idade gestacional;
  • Alteração anatômica do sistema respiratório: má-formação congênita;
  • Exposição a agentes externos: fumaça de cigarro, de chaminé, de carros, poeira, dentre outros agentes irritativos;
  • Doença pulmonar previa: em especial a fibrose cística e a bronco displasia;
  • Idade menor que 12 meses: sistema imunológico em adaptação;
  • A ausência do aleitamento materno: causa comprometimento imunológico;
  • Sexo masculino: provavelmente devido a questões anatômicas da árvore brônquica – menor tamanho;
  • Convívio em ambientes fechados e aglomerações, em especial, creches, hoteizinhos e escolas (favorece a circulação dos patógenos.

Diagnóstico da Bronquiolite

O diagnóstico é eminentemente clínico e deve ser realizado a partir de uma boa anamnese e um exame físico cuidadoso. O paciente vai apresentar um quadro semelhante a uma síndrome gripal: tosse, febre, rinorreia (corrimento nasal normalmente translúcido), obstrução nasal (sensação de nariz entupido), irritabilidade e choro fácil, recusa alimentar, anorexia.

Em seguida, ocorre uma piora desse quadro. A tosse intensifica, a febre torna-se mais duradoura e aparecem novos sinais. Além disso surgem a dispneia (o famoso cansaço) e a taquipneia (aquela respiração acelerada), sibilância (o chiado no peito).

Em pacientes com piores prognósticos também pode ocorrer, cianose periférica (os lábios, as mãos e os pés ficam roxinhos) e aumento da dificuldade respiratória (batimento de asa de nariz, tiragem intercostal e uso de musculatura acessória), além de demência e letargia. A febre normalmente é menor que 39º e ocorre em aproximadamente 30% dos casos.

Ao exame físico o paciente pode apresentar sinais de desidratação devido à baixa ingestão de alimentos e líquidos, alterações de estado geral e irritabilidade. Os principais achados vão ocorrer no exame do sistema respiratório, pois normalmente ele vai estar alterado com aumento do diâmetro anteroposterior do tórax, hipertimpanismo, e ausculta respiratória com sons de estertores, sibilos e roncos, além do aumento da frequência respiratória.

Teste etiológico para Bronquiolite

O teste de detecção viral não é recomendado nos surtos de bronquiolite e nem no primeiro ano de vida. Só deverá ser utilizado quando esses dois critérios forem excluídos.

Quando utilizado, a técnica é a detecção por PCR. Ela é utilizada para diferenciar os tipos virais, pois alguns quadros podem ser melhor manejados tendo conhecimento do agente etiológico. Ademais, os pacientes imunocomprometidos também devem realizar o exame, para prevenir complicações sistêmicas.

Complicações mais comuns

As complicações da bronquiolite podem ocorrer tanto de forma aguda ou crônica.

  • Agudas: consistem no surgimento de pneumonias secundárias, normalmente de origem bacteriana – pois as bactérias aproveitam-se da infecção viral para se proliferar na região, causando uma infecção secundária.
  • Bronquiolite obliterante: uma complicação muito rara que se assemelha, basicamente a um quadro crônico de bronquiolite, em que a criança permanece, constantemente com o quadro clínico da doença. Nesse caso, os sintomas respiratórios não cessam e a obstrução aumenta, podendo causar surgimento de cianos por diminuição de oxigênio no sangue.
  • Hiper-reatividade brônquica: ocorre após a resolução da doença, normalmente o paciente vai mantendo a presença de chiado no peito.

Manejo e tratamento da Bronquiolite

O tratamento farmacológico consiste:

  • No uso de sintomáticos, analgésicos e antitérmicos, principalmente em quadros leves e com acompanhamento ambulatorial ou domiciliar.
  • Na oferta de oxigênio (oxigenoterapia), para aqueles que apresentam desconforto respiratório e que estejam com uma redução da saturação de O2, e exacerbação do quadro clínico da doença, a oferta pode se dar através de cânulas nasais, máscaras ou campânulas.
  • No uso de broncodilatadores (os medicamentos mais utilizados em pacientes com bronquiolite mesmo sem evidências científicas robustas), os mais utilizados são os beta-2-agonistas de curta e longa duração, além de medicações alfa-adrenérgicas.
  • No uso de corticosteroide (bastante utilizado), onde se supõe que possa agir na inflamação uma das bases fisiopatológicas da doença, contudo os corticosteroides não vêm apresentando eficácia comprovada, sendo muitas vezes semelhante ao uso de placebos, em estudos realizados sobre o tema, a exemplo da revisão sistemática da Cochrane, com 2500 participantes.
  • Dentre a terapia antiviral alguns estudos com a droga ribavirina vem ocorrendo e atualmente ela está liberada para uso em pacientes com infecção pelo vírus sincicial respiratório, nos Estados Unidos, contudo, não existem evidências que justifiquem firmemente o uso dessa droga em pacientes com bronquiolite.

É válido ressaltar também que atualmente não existe esquema de vacinação que protege contra a bronquiolite. Contudo, em alguns casos, pacientes específicos como recém-nascidos prematuros e que apresentem displasia bronco pulmonar ou doença cardíaca congênita, podem fazer uso de uma imunoglobulina hiper imune. Essa imunoglobulina vai agir contra o vírus sincicial respiratório, evitando a possibilidade de um pior prognóstico para esses pacientes.

O tratamento não farmacológico consiste:

  • Na elevação da cabeça do paciente em um ângulo entre 30º e 45º;
  • No alívio da congestão nasal e da rinorreia com lavagem nasal com soro fisiológico (usando-se uma seringa), e com a aspiração nasal, higienização das mãos para evitar a proliferação viral e se possível, em caso de internação, isolamento em quarto privativo ou caso necessidade de quarto compartilhado, os leitos devem distar 2 metros um do outro;
  • Na reidratação do paciente, principalmente de forma oral, em domicílio ou ambulatorialmente. (em pacientes com frequência respiratória acima de 60 IRPM é necessário avaliar a possibilidade de reidratação via parenteral).

Por fim, a bronquiolite é um quadro, normalmente, autolimitado e de bom prognóstico, porém devido às complicações que podem ocorrer toda atenção é necessária no manejo desses pacientes.

Autor: Saulo Borges de Brito

Instagram: @sauloborges.medstudies

Referência

  1. PEDIATRIA, Sociedade Brasileira D. Tratado de pediatria (volume 2). [Barueri – SP]: Editora Manole, 2021. 9786555767483. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555767483/. Acesso em: 11 abr. 2022.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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