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Cafeína vista além da xícara de café | Colunistas

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Larissa Faria

13 minhá 100 dias

A cafeína é a mais conhecida do grupo de drogas das metilxantinas, substâncias alcaloides com grande efeito no sistema nervoso central. Além dela, fazem parte do grupo também a teofilina e a teobromina. Tais substâncias são encontradas em diversas plantas, sendo a maioria utilizada para o preparo de alimentos, bebidas ou medicamentos. Assim, ela é uma droga recreativa legal e o seu consumo o é o mais alto dentre as drogas usadas para automedicação.

Cafeína na história e sociedade

            A Lenda de Kaldi, no ano de 575, é a primeira referência do café. Nesta, um pastor de cabras na Etiópia observou que seu rebanho ficava sobre efeito estimulante após ingerir folhas e frutos de determinada planta. Em 1820, a cafeína foi descoberta a partir do café por Ferdinand Runge, que teve o interesse por café estimulado pelo amigo e escritor Wolfgang von Goethe. Hoje a cafeína é adicionada em refrigerantes, energéticos, analgésicos e pílulas estimulantes por exemplo. Naturalmente, ela é encontrada em diversas plantas, as quais são utilizadas para o preparo de café, chás e chocolate.

O café é a bebida mais amplamente consumida e conhecida dentre as que apresentam naturalmente cafeína. O grão de café é originário da Etiópia e teve seu uso difundido pelo norte da África até que chegou à Europa. O hábito de tomar café socialmente surgiu na cultura árabe e veio ao encontro do islamismo, já que a religião não permite o consumo de bebidas alcoólicas.

Estudiosos ingleses acreditavam, na época, que o café seria uma boa alternativa às bebidas alcoólicas e poderia ser a cura para alcoólatras. Já houve um tempo no qual o café superou o consumo de bebidas alcoólicas na Inglaterra devido à popularidade dele e ao alto custo de bebidas como o gim. O café popularizou-se por toda Europa e, posteriormente, pela América.

O café chegou ao Brasil em 1727, trazido da Guiana Francesa e plantado no Norte do Brasil, porém foi apenas por volta de 1760-1770 que ele começou a traçar um percurso importante para economia do país. Quando começou a ser cultivado no Rio de Janeiro, abrangendo também os estados de Minas Gerais e São Paulo – chegando ao Vale do Paraíba e, anos depois, ao Oeste Paulista –, o país estava se recuperando da crise da economia mineradora e, oportunamente, a indústria do café aproveitou a então mão de obra disponível.

A vinda da família real em 1805 trouxe para o Rio de Janeiro, então capital brasileira, um centro de consumo. Assim, a produção foi crescendo em ritmo acelerado, atingindo o ápice da produção e exportação cafeeira mundial em 1829. Havia-se consolidado a maturidade econômica da cafeicultura no Brasil, a qual perdurou por anos como principal atividade econômica brasileira. Em 1875, a produção no país correspondia a mais de 50% da mundial; entre 1897 e 1900, passava dos 70% e, em 1906, atingiu o máximo: 83%.

Em alguns lugares, como na Inglaterra, o chá é mais apreciado e consumido que o café. A origem do chá é tratada em diversas histórias e a primeira menção de consumo na Europa ocorreu em 1559. Na América do Sul é muito consumido o mate, uma variante do chá que é consumida gelada.

Já o cacau, utilizado para o preparo do chocolate, é oriundo da região amazônica na América do Sul. Antes da descoberta da América, ele já era cultivado pelos maias, incas e astecas, sendo visto como um presente dos deuses. Acreditavam que o cacau era um poderoso afrodisíaco e o consumiam numa mistura com milho e especiarias, muito diferente do chocolate conhecido hoje. Foi com a descoberta da América que Cortés o introduziu na corte espanhola, adicionando açúcar e baunilha, os quais deram o gosto adocicado à bebida derivada do cacau que foi denominada chocolate e conquistou enorme popularidade na Europa. Porém logo esta popularidade decaiu, devido ao seu alto valor de venda; com o passar do tempo, seu valor também diminuiu, tornando-o mais acessível para consumo, até que, após a modernização da indústria, sua produção foi refinada e ele passou a não ser consumido apenas como bebida.

Além do café, o guaraná e a planta do gênero Cola (Schott & Endl) são comuns na América do Sul e também possuem cafeína; ambos são muito utilizados na produção de bebidas, como refrigerantes e energéticos. O guaraná é a maior fonte de cafeína entre os recursos naturais, contendo de 2 a 6% de cafeína. A árvore de Cola, além da cafeína, contém também teobromina, outra metilxantina.

Hoje, economicamente, o café é uma das commodities mais valiosas do mundo. A produção de café concentra-se em duas espécies, Coffea arabica e Coffea canephora, comercialmente conhecidos como café arábica e café robusta. O primeiro é produzido principalmente na América do Sul e Central; já o segundo, na Ásia. O Brasil é produtor das duas espécies, sendo o maior produtor e exportador de café no mundo.

Os produtos que contêm metilxantinas estão entre os agropecuários mais exportados, sendo o quinto atrás da carne e dos laticínios. O consumo de produtos com cafeína é alto, sendo a média de consumo no mundo cerca de 70mg de cafeína por pessoa ao dia, sendo tal quantia consumida majoritariamente na forma de café ou chá. Os países escandinavos são o maior mercado consumidor de café no mundo, porém eles estão em último lugar quando se trata do consumo de chá. Já a Grã-Bretanha e a Irlanda são as campeãs no consumo de chá, chegando a consumirem até 10 vezes mais que os Estados Unidos e Canadá.

Constituição

A cafeína – 1,3,7-trimetilxantina – é um alcaloide e é formada pela substituição de três grupos metil na xantina. Já a teofilina e teobromina apresentam estruturas semelhantes, respectivamente, 1,3-dimetilxantina e 3,7-dimetilxantina. A molécula de cafeína possui caráter hidrofílico. Ela consegue atravessar a barreira hematoencefálica por ter adaptação desse caráter de acordo com o pH, podendo adquirir caráter lipofílico.

Farmacocinética

A principal via de administração da cafeína é a oral, através de consumos de alimentos e bebidas que a contenham. Porém, em medicamentos, ela pode causar náuseas e irritações gástricas quando administrada oralmente, sendo, muitas vezes, administrada por vias retal, intramuscular ou venosa. Possui maior absorção no estômago do que no intestino devido à presença de comida e, principalmente, de acidez.

A cafeína é completamente absorvida pelo trato intestinal em pouco tempo, cerca de 45 minutos após a ingestão. Quando consumida em café ou chá, atinge o pico de concentração no sangue em cerca de 30 minutos. Já, quando consumida em chocolates, refrigerantes e outras bebidas, este pico leva até 2 horas para ocorrer. Ela atinge todos os órgãos e fluidos corporais, inclusive o leite materno, atravessa as barreiras hematoencefálica e placentária sem dificuldades, além de possuir meia-vida no organismo de 3 a 5 horas, enquanto a teobromina e teofilina têm meias-vidas mais altas, chegando a mais de 7 horas. Após a ingestão de cafeína, a concentração nos níveis plasmáticos aumenta gradualmente juntamente aos efeitos dela.

Apenas menos de 2% da cafeína absorvida é excretada na urina, o restante é metabolizado via hepática. Teobromina e teofilina são os metabólitos produzidos. O metabolismo da cafeína é influenciado por diversos fatores no organismo, desde genética e alimentação apresentada até ao consumo de bebidas alcoólicas, e, curiosamente, fumantes a eliminam mais rápido do que não fumantes. A variação hormonal no organismo feminino altera o metabolismo da cafeína também, sendo registrado que mulheres grávidas apresentam mais lenta a excreção da substância. Recém-nascidos não conseguem metabolizá-la com eficácia, excretando cerca de 85% e tendo no organismo a meia-vida da cafeína aumentada para até 4 dias. Até o sétimo ou oitavo mês de vida, não é desenvolvida a capacidade de metabolizar a cafeína no organismo.

Efeitos no organismo

A cafeína tem estrutura semelhante à da adenosina, sendo um antagonista desta. A genética e o estilo de vida influenciam a sensibilidade apresentada pelo receptor de adenosina, o que influencia na resposta à cafeína em cada indivíduo.

Os efeitos das metilxantinas no sistema nervoso já são muito entendidos, muitos deles atuam bloqueando receptores de adenosina. No geral, isso ocorre ao inibir a neurotransmissão em muitas sinapses cerebrais.

Há quatro tipos de adenosina – A1, A2A, A2B e A3 – em que as metilxantinas atuam mais, bloqueando o A1 e A2A. O primeiro encontra-se no córtex, hipocampo, hipotálamo e cerebelo; já o segundo, principalmente no corpo estriado – composto pelo núcleo caudado, núcleo accumbens e putamen. O mecanismo de bloqueio das metilxantinas traz alterações nos níveis de dopamina no cérebro, o que eleva os níveis de dopamina e, consequentemente, reforça os efeitos das metilxantinas no cérebro.

Isso envolve mecanismos neurais complexos, apenas descobertos recentemente pela ciência. O receptor de adenosina participa de uma formação na qual ele e outros receptores se atacam, influenciando a operação um do outro. No estriado, esta operação tem efeitos de integração da atividade da dopamina e do glutamato sobre neurônios GABAérgicos.

O efeito das metilxantinas na atividade do estriado ainda é maior em presença de canabinoides – receptor CB1 –, localizado nos neurônios GABAérgicos. Assim, a sensibilidade aos receptores de cafeína aumenta. Isso ocorre por aumento na transmissão de receptores D2 de adenosina e maior liberação de acetilcolina, glutamato e dopamina.

Elevadas doses de cafeína trazem um efeito adicional na adenosina, em que a cafeína e as metilxantinas bloqueiam os receptores de benzodiazepina, sendo preciso 10 copos de café para bloquear 20% da benzodiazepina por exemplo. Já, no chocolate, ocorre naturalmente uma substância que possui semelhança com a anandamida e atua em receptores de canabinoides. Em contraposição, outros componentes do chocolate bloqueiam o metabolismo de anandamida.

A ação das metilxantinas sobre a glândula adrenal para liberação de epinefrina resulta na estimulação do sistema nervoso simpático. A maioria destes efeitos fora do sistema nervoso central resulta em ação muscular, como relaxamento da musculatura lisa e contração da esquelética. Altas doses de cafeína causam estimulação do reflexo da medula espinhal, o que pode gerar convulsões, muitas vezes, letais.

Devido aos diferentes efeitos que a cafeína pode ter no fluxo sanguíneo, ela é usada em analgésicos para dor de cabeça, pois diminui o fluxo sanguíneo cerebral e, consequentemente, a alta pressão sanguínea que ali ocorria, o que gera termina aliviando a dor de cabeça causada pela alta pressão sanguínea nos vasos cerebrais.

Quanto aos efeitos no desenvolvimento intelectual, muito se diz que a cafeína aumenta o rendimento, permitindo uma melhoria nas funções cognitivas e um melhor desenvolvimento. Porém há estudos que a apontam como não geradora de alterações cognitivas que possibilitem melhor desenvolvimento em determinadas tarefas desejadas, como resolução de problemas. A influência que a cafeína pode ter nestas atividades é por agir como um placebo, levando as pessoas a acreditarem que ela traz um incremento positivo na realização das tarefas desejadas.

Há também alguns pesquisadores que já encontraram a capacidade da cafeína em diminuir os efeitos do tédio, fadiga e frio na performance, melhorando-a nesse sentido por combater possíveis empecilhos a ela. Há também estudos mostrando um baixo consumo de cafeína como influenciador da atenção, do estado de alerta e da memória, melhorando-os.

Assim, há certa controvérsia sobre seus efeitos em potencializar o desenvolvimento cognitivo; embora apresentada em estudos sem alterações em funções cognitivas mais complexas, como resolução de tarefas, para funções mais simples, como melhoria no tempo de reação simples, há certa eficácia. Isso ocorre também devido aos estudos com funções mais elevadas existirem em menor quantidade. Por fim, o consenso científico é de que a cafeína administrada em doses baixas a moderadas (32 a 300mg, 0.5-4mg.kg−1) traz mudanças sobre as funções cognitivas básicas – atenção, vigilância e tempo de reação.

A atenção está relacionada com a capacidade de manter-se focado e selecionar as informações relevantes para a tarefa que se realiza, abstendo-se e desconsiderando o que for irrelevante. Nas tarefas que envolvem atenção, a cafeína demonstra papel positivo na atenção e, em tarefas que envolvem controle de alerta e orientação, ela afeta de forma positiva diferentes aspectos da atenção. A dose consenso para tais efeitos é cerca de 200 a 300mg de cafeína (~2,5-4,0 mg.kg-1).

Já quanto à vigilância, a cafeína desempenha impacto em tarefas de longa duração, muitas vezes chatas e tediosas, sendo estas tarefas as mais substancialmente afetadas, já que uma dose de 200mg é responsável por efeitos de várias horas no organismo de uma pessoa descansada. Estudos demonstram a consistência nas consequências da cafeína sobre a vigilância, mostrando que até mesmo doses pequenas – 32mg – podem gerar efeitos benéficos, independentemente de o indivíduo estar descansado ou não.

Quanto ao tempo de reação, estudos demonstram efeitos benéficos da cafeína também, como no tempo de reação de reconhecimento visual e no tempo de reação de escolha.

Em atividades físicas, a substância mostra-se com efeito moderado na ampliação de bons resultados para exercícios de longa duração, os quais exigem grande resistência física, como maratonas e competições extensas de ciclismo. Isso ocorre porque ela aumenta os níveis de ácidos graxos na corrente, proporcionando uma boa fonte energética para os músculos, que poupam, assim, o uso de glicogênio como fonte energética, não entrando rapidamente em estado de fadiga. Devido a esse efeito na performance física, atletas que possuem concentração de cafeína maior que 12mg/L de urina são banidos de competições pelo Comitê Olímpico Internacional.

O efeito de metilxantinas no sono ainda gera pequenas dúvidas sobre sua influência na redução do estado de alerta. Segundo estudos, o que parece acontecer é uma prolongação do tempo para se adormecer, consequentemente diminuindo o tempo total de sono.

Além disso, o consumo de cafeína antes de dormir pode afetar a qualidade do sono, dormindo menos profundamente e parecendo menos descansado quem a consome. Porém a tolerância que cada um tem à cafeína é variável. Dos poucos mecanismos do sono conhecidos, sabe-se que a adenosina possui função em certa ativação do sono, assim, a cafeína, ao bloquear os receptores de adenosina, pode também interferir nesse mecanismo de ativação do sono por meio de adenosina.

Autoria: LARISSA FARIA

Contato: larissahdfaria@gmail.com

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