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Casirivimabe e Imdevimabe no tratamento de COVID-19 | Colunistas

Casirivimabe e Imdevimabe no tratamento de COVID-19 | Colunistas

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Imagem de perfil de Natália Migliore

Uso emergencial aprovado pela Anvisa 

Em abril de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial dos anticorpos monoclonais casirivimabe e imdevimabe para o tratamento de COVID-19 em pacientes que possuem fatores de risco (1), os quais podem incluir, mas não são limitados a: idade avançada (65 anos ou mais); obesidade; doença cardiovascular, incluindo hipertensão; doença pulmonar crônica, incluindo asma; diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2; doença renal crônica, incluindo aqueles em diálise; doença hepática crônica. 

Os medicamentos foram estudados juntos para prevenção na piora de quadros de COVID-19 ao, possivelmente, limitar a quantidade de SARS-CoV-2 no corpo humano. Na época, os estudos foram realizados em pacientes não vacinados, portanto, há incerteza do benefício da medicação em um cenário em que grande parte da população de risco foi vacinada. Assim, é importante lembrar que essas drogas são apenas administradas em pacientes com alto risco de hospitalização e/ou de óbito em razão da doença (2).

Funcionamento da terapia imunológica 

Os anticorpos monoclonais são moléculas produzidas em laboratório projetadas para servir como anticorpos, podendo restaurar, melhorar ou imitar o ataque do sistema imunológico a patógenos. Casirivimabe e imdevimabe são uma combinação de dois anticorpos IgG1 humanos que têm como alvo o domínio de ligação ao receptor da proteína spike do SARS-CoV-2, impedindo, assim, a entrada viral nas células humanas através do receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2). Esses medicamentos são anticorpos, tais quais os produzidos pelo corpo ao se deparar com o SARS-CoV-2 e, assim, eles agem bloqueando a capacidade do vírus de infectar as células do nosso corpo (3,4).

Em fase 3 de ensaios clínicos, foi demonstrado que a administração de anticorpos monoclonais anti-SARS-CoV-2 a pacientes não hospitalizados de alto risco apresentado COVID-19 leve à moderada resultou em reduções de risco relativo variando de aproximadamente 70% a 85% (com redução do risco absoluto variando de 2% a 6%) na taxa de hospitalização ou óbito. Confirmou-se, então, que desenvolvimento de anticorpos endógenos contra SARS-CoV-2 logo após o início dos sintomas propicia melhores resultados, comparativamente à resposta tardia, sugerindo um benefício da imunoterapia passiva no tratamento de COVID-19 (5).

O tratamento é indicado, até 10 dias após o aparecimento dos sintomas, para adultos e pacientes pediátricos (com 12 anos ou mais e que pesem no mínimo 40 kg) de alto risco, com COVID-19 confirmada por laboratório e que não estejam internados devido à doença. 

Administração e disponibilidade 

A administração de ambos os anticorpos deve ser feita junta, por infusão intravenosa única realizada em ambiente hospitalar (6) durante 20 a 30 minutos, não podendo ser administrados por injeção intramuscular ou injeção subcutânea. De acordo com as Diretrizes Brasileiras para Tratamento Medicamentoso Ambulatorial elaboradas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), o medicamento deve ser utilizado, preferencialmente, nos três primeiros dias seguintes ao aparecimento de sintomas. 

Ainda segundo a Conitec, no Relatório de Recomendação disponibilizado em novembro de 2021, na época da avaliação dos anticorpos monoclonais, a incorporação desses não foi recomendada e, portanto, a medicação não está disponível no SUS. O documento também afirma que “a intervenção possui custo elevado, havendo limitações quanto à disponibilidade e implementação, com o medicamento sendo autorizado apenas para o uso hospitalar”. 

Contraindicações 

Casirivimabe e imdevimabe não são autorizados para pacientes hospitalizados devido a COVID-19 ou que necessitam de oxigenoterapia de alto fluxo ou ventilação mecânica. Não foi demonstrado benefício no tratamento com a terapia monoclonal citada em pacientes internados em decorrência da doença, podendo estar associado a piores resultados clínicos quando administrados a esses. 

Não se sabe o suficiente para que seja possível recomendar a intervenção para crianças com menos de 12 anos, sendo a utilização dessa medicação, portanto, contraindicada. 

Não existem evidências, também, para garantir que o casirivimabe e o imdevimabe sejam seguros para uso na gravidez.

Por fim, o medicamento não deve ser administrado em caso de alergia ao casirivimabe, imdevimabe ou a qualquer outro excipiente da fórmula. 

Neutralização para as variantes do SARS-CoV-2

A disseminação das diversas variantes do SARS-CoV-2 promove preocupação devido ao fato de aumentar a probabilidade de mutações na proteína spike, as quais podem levar a alterações antigênicas que desfavorecem a neutralização do vírus por meio das terapias com anticorpos monoclonais, por exemplo. 

Casirivimabe e imdevimabe, quando administrados juntos, conseguem neutralizar com eficiência a variante B.1.1.7 (Alfa) (7) e a variante B.1.617.2 (Delta) (8). No entanto, as variantes B.1.351 (Beta), P.2 (Zeta) foram parcialmente resistentes para o casirivimabe (7). 

No caso da variante P.1 (Gama), ‒ que ficou conhecida como “variante brasileira”, por ter sido inicialmente identificada em Manaus (9) ‒ foi identificado (10) que a terapia em questão no presente artigo gera inibição da entrada viral por meio do imdevimabe, porém, apresenta-se resistente ao casirivimabe.  

Por fim, a potência de neutralização do medicamento grandemente reduzida no caso da variante B.1.1.529 (Ômicron), sugerindo que essa, possivelmente, possui significante poder de evasão imunológica humoral (11). 

Referências

  1. Aprovado uso emergencial de anticorpos para tratamento de Covid-19. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Disponível em: <https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2021/aprovado-uso-emergencial-de-anticorpos-para-tratamento-de-covid-19>. Acesso em: 24 jan. 2022.
  2. GOVERNMENT OF CANADA, Health Canada. Drug Details. Disponível em: <https://covid-vaccine.canada.ca/info/casirivimab-imdevimab-en.html>. Acesso em: 24 jan. 2022.
  3. Coronavirus disease (COVID-19): Casirivimab and Imdevimab – monoclonal antibody therapy. Disponível em: <https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/coronavirus-disease-(covid-19)-casirivimab-and-imdevimab—monoclonal-antibody-therapy>. Acesso em: 24 jan. 2022.
  4. WEINREICH, D. M. et al. REGN-COV2, a Neutralizing Antibody Cocktail, in Outpatients with Covid-19. New England Journal of Medicine, v. 384, n. 3, p. 238–251, 21 jan. 2021. 
  5. LI, J. Z.; GANDHI, R. T. Realizing the Potential of Anti–SARS-CoV-2 Monoclonal Antibodies for COVID-19 Management. JAMA, 14 jan. 2022. 
  6. Casirivimabe e imdevimabe. Disponível em: <https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/medicamentos/casirivimabe-e-imdevimabe>. Acesso em: 26 jan. 2022. 
  7. WIDERA, M. et al. Limited Neutralization of Authentic Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 Variants Carrying E484K In Vitro. The Journal of Infectious Diseases, v. 224, n. 7, p. 1109–1114, 1 out. 2021. . 
  8. PLANAS, D. et al. Reduced sensitivity of SARS-CoV-2 variant Delta to antibody neutralization. Nature, v. 596, n. 7871, p. 276–280, 12 ago. 2021. 
  9. FARIA, N. R. et al. Genomics and epidemiology of the P.1 SARS-CoV-2 lineage in Manaus, Brazil. Science, 21 maio 2021. 
  10. FALCONE, M. et al. Efficacy of Bamlanivimab/Etesevimab and Casirivimab/Imdevimab in Preventing Progression to Severe COVID-19 and Role of Variants of Concern. Infectious Diseases and Therapy, v. 10, n. 4, p. 2479–2488, dez. 2021. . 
  11. CAO, Y. et al. Omicron escapes the majority of existing SARS-CoV-2 neutralizing antibodies. Nature, 23 dez. 2021. 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.