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Caso clínico: doença de Bowen pigmentada em vulva | Colunistas

Caso clínico: doença de Bowen pigmentada em vulva | Colunistas

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Imagem de perfil de Rafaelly Castro

A doença de Bowen foi descrita por John Bowen, em 1912 (1), como uma patologia pré-cancerosa, caracterizada pela displasia do epitélio e presença de queratinócitos atípicos com maturação desordenada, porém com membranas basais integras, afastando-se, assim, do diagnóstico de carcinoma epidermóide invasivo. A etiologia tem sido relacionada a diferentes agentes, dentre eles o Papilomavírus Humano, principalmente o subtipo HPV-16.

Atualmente, a doença de Bowen tem sido relacionada ao carcinoma de células escamosas in situ ou o carcinoma intraepitelial, e sua incidência é maior em pessoas acima de 60 anos e caucasianos (2), como na paciente do caso relatado.

Caso clínico

Paciente M.A.C.S., sexo feminino, 86 anos, branca, viúva, natural e residente em Sorocaba-SP, ensino fundamental incompleto e atuou como funcionária doméstica. Seus antecedentes pessoais são: 10 partos normais, hipertensão arterial sistêmica, osteoporose, hipotireoidismo, ex-tabagista e duas cirurgias ginecológicas prévias (vulvectomia há 5 anos para ressecção de carcinoma espinocelular e reabordagem há 4 anos devido a recidiva da lesão).

Acompanhada no ambulatório de patologias do trato genital inferior do Conjunto Hospitalar de Sorocaba há 3 anos, com queixas iniciais de prurido vulvar e presença de “mancha” (sic) em grande lábio esquerdo há 3 meses. Ao exame físico, lesão hipercrômica de aproximadamente 1,5 cm em grande lábio esquerdo, plana, de limites definidos, indolor. Sem outras alterações. À época foi solicitado biópsia da lesão, que apresentou desarranjo estrutural dos queratinócitos basais e parabasais, com polimorfismo, células disqueratócicas e apoptóticas solitárias, fechando diagnóstico para doença de Bowen.

Como conduta, optou-se pela condução expectante com nova avaliação em 6 meses e uso de propionato de clobetasol tópico duas vezes por semana para tratamento do prurido. Nos últimos três anos, paciente manteve lesão vulvar hipercrômica com formato e tamanho inalterados e resolução da queixa de prurido. Por isso, foi mantida conduta expectante.

A lesão na doença de Bowen

Classicamente, a lesão típica da doença de Bowen se apresenta eritematosa, isolada, bem delimitada, descamativa ou crostosa, assintomática e tende a ter um crescimento lento, ultrapassando meses e anos (2). Estas lesões são localizadas mais comumente em áreas de grande exposição ao sol, como face, pescoço e membros, no entanto, tem se notado também incidência em região genital externa, como glande e prepúcio em homens e vulva em mulheres, como no caso descrito neste relato, que têm recebido também a denominação de eritroplasia de Queyrat.

Diagnóstico e tratamento da doença de Bowen

O diagnóstico é realizado clinicamente na presença de lesões insidiosas, assintomáticas, com crescimento lento, em apresentação única, caráter eritematoso, descamativo e bem delimitado (1,2). Quanto aos exames complementares, o exame anatomopatológico é o padrão-ouro, junto ao exame clínico, e é confirmada a doença de Bowen quando há alteração da arquitetura normal da epiderme e diferenciação regular, ou polimorfismo dos queratinócitos, queratinização maciça de células isoladas, aumento das mitoses e presença de células multinucleadas (3). Por essa razão, há espessamento da epiderme local. No entanto, há preservação da membrana basal, como encontrado na biópsia do caso relato.

A escolha terapêutica deve ser realizada levando em consideração a idade do paciente, a quantidade e tamanho de lesões, além do local afetado. As principais estratégias para resolução são: conduta cirúrgica com excisão para lesões de menos de 15 mm e lesões para as quais não possa ser excluído invasão na biópsia (a principal abordagem adotada), crioterapia pra baixo risco, uso de 5-fluorouracil em creme como quimioterapia tópica, curetagem e eletrocautério, radioterapia e aplicação laser de ablação com dióxido de carbono, argônio e neodímio (4).

Além disso, a abordagem expectante pode ser optada para pacientes com comorbidades, idade avançada, como a paciente relatada no caso, já que as lesões típicas da doença de Bowen apresentam um caráter de progressão lenta e baixo risco de invasão e malignização.

As recidivas são comuns na doença de Bowen e acontecem, em média, 5 anos após excisão cirúrgica, exceto na ressecção com margens amplas(5), assim é necessário seguimento dos pacientes após tratamento ao menos anualmente. Já nos tratamentos com crioterapia e lazer, as chances de recidiva são reduzidas.

Prevenção da doença de Bowen

Parte da prevenção para doença de Bowen pode ser feita com vacinação contra HPV, já que este foi associado à etiologia da doença. A vacina quadrivalente profilática contra os tipos de HPV 6, 11, 16 e 18 é preconizada pela Sociedade Brasileira de Imunologia atualmente para população feminina de 9 a 14 anos e masculina de 11 a 14 anos, no esquema de duas doses, além de pessoas entre 9 e 26 anos com imunodeficiência (6). Outras estratégias de prevenção descritas foram a cessação do tabagismo e otimização do estado imune.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Referências

  1. Neubert, T., & Lehmann, P. Bowen’s disease – a review of newer treatment options. Therapeutics and clinical risk management. 2008; 4(5), 1085–1095.
  2. Padma M, Martyn L, Sandeep V. Bowen’s disease. BMJ 2020; 368 doi:https://doi.org/10.1136/bmj.m813 (Published 20 March 2020)
  3. WOLFF, Klaus et al. Lesões pré-cancerosas e carcinomas cutâneos – Carcinoma espinocelular in situ. In: Dermatologia de Fitzpatrick: atlas e texto. 8. ed. Porto Alegre. AMGH, 2019. P: 227-229. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788580556247/cfi/266!/4/4@0.00:43.0 Acesso em 10 out. 2020.
  4. N.H.COX et al. Guidelines for management of Bowen’s disease. British Journal of Dermatology, 141, 633–641
  5. Fonseca-Moutinho JA. Neoplasia intraepitelial vulvar: um problema atual. Rev. Bras. Ginecol. Obstet. 2008 Aug. [cited 2020 Oct 12]; 30( 8 ): 420-426.
  6. Zardo GP et al. Vacina como agente de imunização contra o HPV. Ciência & Saúde Coletiva, 19(9):3799-3808, 2014. DOI: 10.1590/1413-81232014199.015320