Cardiologia

Caso Clínico: Endocardite Infecciosa | Ligas

Caso Clínico: Endocardite Infecciosa | Ligas

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LACMED

5 min há 47 dias

Homem de 27 anos dá entrada em emergência com história de duas semanas de febre, tosse produtiva e dor torácica pleurítica. Tem apresentado calafrios de forma intermitente e sudorese noturna. Apresenta diminuição do apetite e perda ponderal de 3 kg. Nega contato com pessoas doentes. O paciente tem percebido ocasionalmente sangue ao urinar. Não usa medicamentos e nega antecedentes médicos. Faz uso diário de heroína injetável, fuma tabaco e maconha, mas não ingere bebida alcoólica. Está desempregado e não fez viagem recente.

Ao exame físico, o paciente encontrava-se emagrecido e com aparência de doente. Temperatura axilar de 38,5 °C, FC = 115 bpm e PA = 92 x 65 mmHg. As mucosas estavam secas, a dentição em mal estado e estava anictérico. Ausculta repiratória apresentava roncos na região apical direita e base pulmonar à esquerda. Apresentava jugulares túrgidas a 45°. O ritmo cardíaco era regular e taquicárdico, bulhas normofonéticas e um sopro holossistólico intenso, no bordo inferior do esterno à esquerda. Abdome indolor com peristalse presente. Sua pele revelava lesões maculares eritematosas esparsas e indolores na palma da mão direita e marcas de agulha em ambos os braços.

No exame laboratorial apresentava leucocitose (19000 cel/mm3 com 78 % de segmentados e 11 % de bastões). Exame radiológico do tórax revelava imagens esparsas em forma de cunha no lobo superior direito e lobo inferior esquerdo. O ECG apresentava taquicardia sinusal com intervalo PR normal.

Pergunta-se:

a) Quais os dados do caso supracitado levariam a pensar em Endocardite Infecciosa?

Adultos jovens e usuários de drogas ilícitas IV são um importante grupo de risco para EI. Os sintomas iniciais incluem perda ponderal, febre, calafrios e sudorese associados. Comprometimentos renais, como glomerulonefrite, também estão entre os principais achados, bem como fenômenos embólicos observados sob a forma de eritema. Entre as alterações cardiovasculares descritas, destaca-se o sopro consistente com um possível foco infeccioso na tricúspide. Hemograma evidenciando leucocitose com desvio à esquerda, indicando bacteremia, e as alterações radiológicas indicando embolia séptica para o pulmão, fecham o diagnóstico.

b) Qual o agente etiológico mais provável para o caso?

Staphylococcus aureus, identificado como o principal agente agressor em usuários de drogas injetáveis. A infecção pode ocorrer via corrente sanguínea devido ao compartilhamento de agulhas contaminadas.

c) Quais os métodos diagnósticos que lançamos mão nesta condição?

  • Deve ser considerada a ecocardiografia no caso de bacteremia por S. aureus.
  • Na ecografia, três achados são considerados critérios maiores: vegetação, abscesso e deiscência da prótese valvular.
  • A ETT é recomendada como exame imagiológico de primeira linha. Já a ETE é recomendada em todos os doentes com suspeita clínica de EI e com ETT negativa.
  • Hemocultura é importante para determinar se há microrganismos infecciosos presentes no paciente. Técnicas automatizadas de cultivo, sorologias específicas e PCR permitem uma identificação direta de espécies patogênicas, mesmo em casos de difícil isolamento e reconhecimento.

d) Quais as possibilidades terapêuticas para nosso paciente?

  • No caso de Staplylococcus sensíveis à meticiclina: Flucloxacilina ou Oxacilina 12g/dia, IV, em 4-6 doses. Duração de 4-6 semanas.
  • Doentes com alergia à penicilina ou Staphylococcus resistentes à meticilina: Vancomicina 30-60mg/kg/dia, IV, em 2-3 doses. Duração de 4-6 semanas.

Autores e revisores:

Autor: Julia Resende de Oliveira

Co-autor: Ana Carolina Donin

Revisor: Iandy Taricone de Souza Mateus

Professor Orientador: Maurício Pinto de Mattos

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

Habib, G.; Lancellotti, P.; Antunes, M.J.; Bongiorni, M.G.; … & Zamorano, J.L. ESC Guidelines for the management of infective endocarditis: the task force for the management of infective endocarditis of the European Society of Cardiology (ESC). Endossado pela European Association for Cardio-Thoracic Surgery (EACTS) e European Association of Nuclear Medicine (EANM). Eur Heart J., v.36, p.3075-3123, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26320109/

Kumar, V.; Abbas, A.K.; Fausto, N.; Aster, J.C. Robbins e Cotran: Bases Patológicas das Doenças. 8ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

Sobreiro, D.I.; Sampaio, R.O.; Siciliano, R.F.; Brazil, C.V.A.; … & Strabelli, V. Diagnóstico Precoce da Endocardite Infecciosa: Desafios para um Prognóstico Melhor. Arq Bras Cardiol., v.112, p.201-203, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/abc/v112n2/pt_0066-782X-abc-112-02-0201.pdf

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