Infectologia

Caso Clínico: Tricuríase | Ligas

Caso Clínico: Tricuríase | Ligas

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A tricuríase ou também chamada de tricurose é uma doença que acomete mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, sendo mais frequente em países subdesenvolvidos de regiões tropicais, em locais onde as condições de saneamento básico são precárias e o clima predominante é quente e úmido. Considerada uma doença negligenciada, a tricuríase é uma parasitose causada pelo verme nematódeo Trichuris trichiura – um parasita em forma de chicote que habita o intestino grosso do hospedeiro. É certo que a gravidade da tricuríase está, diretamente, relacionada à carga parasitária, podendo ser assintomática ou apresentar sinais e sintomas bastante específicos, como o prolapso retal.

Identificação do paciente

L.B.M, 12 anos, sexo masculino, natural de Sobral-CE. Atualmente, reside com a mãe e os três irmãos no bairro Suqueira, na cidade de Fortaleza-CE. Deixou a escola aos 7 anos para trabalhar como catador, a fim de auxiliar sua mãe na criação dos irmãos mais novos.

Fonte da história: Mãe do paciente.

Queixa principal

” Diarreia escura e amarelada”.

História da doença Atual (HDA)

O início dos sintomas ocorreu a cerca de um mês, quando o paciente relatou ter sentido enjoos pela primeira vez enquanto almoçava, seguidos de diarreia mucosa. Nenhum medicamento foi administrado ao indivíduo, apenas chá de boldo, o qual aliviava por algumas horas a constipação e a flatulência. Passadas 3 semanas, a diarreia persistiu com muco e, às vezes, sangue, sendo de quatro ou cinco vezes a frequência de evacuações ao dia.  Além disso, o paciente relatou fraqueza, flatulência constantes e tenesmo, o que o impedia de realizar suas refeições em alguns momentos.  Após uma semana, a piora dos sinais e sintomas foi considerável, de forma que se tornou impossível realizar seus afazeres, tendo isso o levado a procurar assistência médica na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima a sua casa.

Antecedentes pessoais, familiares e sociais

Antecedentes pessoais

O paciente em questão nasceu de parto natural a termo (38 semanas), não apresentou doenças crônicas ou algum desenvolvimento anormal durante a infância. Alega que aos 9 anos apresentou um quadro semelhante, mas obteve melhora com o tempo, mesmo sem tratamento.

Antecedentes familiares

A mãe é diabética e hipertensa, os irmãos do paciente, no entanto, não possuem doenças crônicas. Seus irmãos não apresentam sangue nas fezes, no entanto, queixam-se de evacuações frequentes. A mãe acrescentou que os 4 filhos dividem o mesmo quarto.

Antecedentes sociais

O paciente mora em Fortaleza-CE, com a mãe e 3 irmãos mais novos. Reside em um ambiente com condições de vida precárias, que, além de não haver saneamento básico, a coleta de lixo é feita de maneira inadequada. Mora com sua família em uma casa de alvenaria com 5 cômodos, possuindo, ainda, dois cachorros. A renda média mensal da família é de, aproximadamente, R$ 1.200 e seus hábitos alimentares, devido às condições de vida instáveis, não são adequados.

Exame físico

Ectoscopia: estado geral regular, normopnéico, hidratado, descorado +/4, acianótico, anictérico, afebril. Altura:150 cm. Peso: 25,5 kg, IMC: 11,33 kg/m².3.25

Sinais Vitais: PA = 110/70 mmHg, FC = 100 bpm; FR = 18 irpm; saturação de oxigênio = 95% em ar ambiente.

Aparelho digestivo:

  • Inspeção: abdome levemente distendido, simétrico, sem cicatrizes, sem abaulamentos e sem retrações.
  • Percussão: espaço de Traube livre.
  • Ausculta: ruídos hidroaéreos presentes em todos os quadrantes, sem sopros audíveis em topografia de artérias renais ou ilíacas.
  • Palpação: abdome distendido, indolor à palpação superficial e profunda, sem sinais de irritação peritoneal, fígado palpável, hepatimetria de 12 cm na LHC.

Aparelho Cardiovascular:

  • Inspeção: ictus cordis visível em 5ª EIE, na linha hemiclavicular.
  • Palpação: Ictus cordis palpável 5ª EIE, na linha hemiclavicular.
  • Ausculta: ritmo cardíaco taquicárdico regular, 2 tempos, bulhas normofonéticas, sem sopros.

Extremidades: pulsos cheios, tempo de enchimento capilar de 2 segundos, extremidades quentes. Foi identificada a presença de baqueteamento digital.

Fonte: MedBlues
Fonte: Farmácia Saúde

Suspeitas diagnósticas

Devido à história de vida do paciente, tendo um ambiente de trabalho propício para infecção por parasitas, e visto o baqueteamento digital, a tricurose foi a primeira suspeita diagnóstica. Desse modo, fora a Tricuríase, teve-se, também, como principais suspeitas diagnósticas a Amebíase, a Ancilostomíase e a Himenolepíase, que são parasitoses que também apresentam a diarreia sanguinolenta como sintoma.

Amebíase:

A ingestão de cistos viáveis de Entamoeba histolytica causa a infecção, mas o trofozoíto é a forma que promove a invasão da mucosa intestinal, e assim, a doença por esse parasita.

Os trofozoítos amebianos invadem a mucosa colônica e alcançam a submucosa, na qual se multiplicam e provocam lesões necróticas, formando uma úlcera. Esta pode ser puntiforme ou progredir através da lâmina própria para a muscular da mucosa, estendendo-se lateralmente sob a mucosa de aparência normal, caracterizando a úlcera em “botão de camisa”.

Os indivíduos, na sua maioria são portadores assintomáticos. Outros podem apresentar sintomas discretos, caracterizados por diarréia leve, com fezes líquidas, acompanhada por náuseas e cólicas esporádicas.

Entretanto, a manifestação clínica observada com maior frequência é a colite amebiana aguda. Em geral, ocorre início gradual com dor abdominal e diarreia com fezes líquidas contendo sangue e muco. Podem estar associados tenesmo, vômitos e flatulência. Os sintomas duram de uma a duas semanas. Poucos têm febre, contrastando com a disenteria bacteriana.

Ancilostomíase:

É causada por duas espécies de nematódeos: o Ancylostoma duodenale e o Necator americanus. A infecção ocorre por via percutânea, durante contato com solo contendo material fecal contaminado com larvas filarioides, ou por via oral, após ingestão dessas larvas. Durante a fase intestinal da infecção, os parasitas adultos aderem à mucosa duodenal, onde causam danos mecânicos e químicos. Os danos mecânicos resultam do envolvimento da mucosa pela cápsula bucal do parasita, que, para a sua nutrição, suga sangue da mucosa originando daí pequenas úlceras, edema e infiltrado leucocitário e aumento do peristaltismo. Os danos químicos ocorrem devido à ação de várias enzimas hidrolíticas derivadas do parasita.

Por causa das lesões mecânicas, surge diarreia, em geral leve, raramente com sangue, dores abdominais, às vezes no epigástrio anorexia, náuseas e vômitos, anemia, com melena presente nos casos graves.

Himenolepíase:

É uma helmintíase intestinal causada por cestóides das espécies Hymenolepis nana e Hymenolepis diminuta. A sua transmissão se dá pela ingestão de ovos embrionados. Os ovos liberam larvas que aderem à parede do intestino delgado, onde maturam até verme adulto.

Quase todos os indivíduos infectados são assintomáticos, no entanto, infestações graves podem causar inflamação intestinal e pequenas ulcerações devido à invasão das vilosidades da mucosa. Clinicamente, o paciente apresenta diarréia, às vezes com muco, dor abdominal em cólica, meteorismo, anorexia, perda de peso e cefaleia.

Exames complementares

O paciente foi encaminhado para realização de exame parasitológico de fezes e de hemograma, com o intuito de determinar a etiologia precisa da doença.

Para o exame parasitológico de fezes foram coletadas três amostras em dias alternados, sendo identificado uma grande quantidade de ovos nas fezes.

EPF: Aspecto geral sanguinolento e mucoso; presente nas 3 amostras; Protozoários negativo; Helmintos positivo para Trichuris trichiura.

Hemograma: apresentou uma discreta eosinofilia. Hemoglobina – 12g/dl de sangue, hematócrito – 40 %.

Diagnóstico

Após a realização do exame físico, foi atestada a suspeita de Tricuríase, confirmada no exame parasitológico de fezes com a presença dos ovos do parasita. A suspeita foi evidenciada pela diarreia sanguinolenta e a perda de peso, porém, são sinais comuns também à outras parasitoses. Entretanto, um sinal bem evidente da Tricuríase é o baqueteamento digital, que é um alargamento da ponta dos dedos e das unhas.

A Tricuríase é uma infecção causada pelo Trichuris trichiura amplamente distribuída em regiões com microclima quente e úmido e onde a higiene e as condições de vida são precárias. Em infecções leves, essa parasitose pode se apresentar de forma assintomática. No entanto, em infecções moderadas, ocasiona dores de cabeça, dor epigástrica e no baixo abdômen, diarreia crônica, náuseas e vômitos em grau variado; já em infecções intensas, pode estar associado à Síndrome Disentérica Crônica, a qual cursa com diarreia intermitente com presença abundante de muco e, às vezes, de sangue, dor abdominal, tenesmo, anemia e desnutrição grave com perda de peso. Além disso, em casos mais graves pode haver prolapso retal, em que parte do reto passa para fora do ânus, sendo essa complicação grave mais frequente em crianças.

O ciclo biológico do parasita é monoxeno e tem início com a ingestão dos ovos contendo a larva. Esses ovos migram até o intestino delgado, onde eclodem devido a exposição sequencial aos componentes do suco gástrico e do suco pancreático. As larvas, por sua vez, penetram no epitélio da mucosa intestinal da região duodenal e, posteriormente, ganham a luz do intestino e migram para o ceco e cólon, após passarem por quatro períodos larvais, chegando a fase adulta, os vermes se reproduzem e os ovos são excretados nas fezes. Essa movimentação do parasita e sua alimentação (composta de muco, células, hemácias e líquido intersticial) causam lesões ao epitélio e à lâmina própria, podendo ser observado o aumento da produção de muco, áreas de descamação na camada epitelial e infiltração de células mononucleares na lâmina própria, o que levou aos sintomas apresentados no paciente em questão.

Fonte: parasitologiaclinica.ufsc.br

Discussão do caso de Tricuríase

Após análise dos exames laboratoriais foi constatada infecção pelo parasita Trichuris Trichiura, o qual é o agente etiológico da tricuríase ou também chamada tricurose. Esse verme parasita o intestino grosso, sendo mais comum entre crianças. Em geral, a maioria das pessoas desenvolve a forma assintomática, porém, dependendo da quantidade de parasitas e do estado nutricional do indivíduo, a doença pode acarretar sinais e sintomas bastante incômodos e específicos. 

Uma das possíveis consequências do parasitismo intenso é o prolapso retal, sendo esse o sinal mais característico da doença. O prolapso retal ocorre pelo esforço contínuo decorrente do tenesmo, sendo, nesse caso, comum avistar vermes aderidos à mucosa do reto exteriorizada. O prolapso retal pode ser revertido por métodos cirúrgicos. Vale ressaltar que as condições sanitárias estão muito relacionadas com a transmissão da tricuríase, visto que ocorre por via fecal-oral, sendo a profilaxia da doença muito relacionada à educação em saúde e ao saneamento básico.

Fonte: ufrgs.br/parasito
Fonte: Tua Saúde

Conclusão

Após o diagnóstico de tricuríase deve-se proceder com tratamento medicamentoso a partir do uso de benzoimidazóis, os quais impedem a divisão celular através da inibição da tubulina-polimerase.

 As opções são:

  • Mebendazol 100 mg, 2 vezes por dia por 3 dias.
  • Albendazol 400 mg, 1 vez por dia por 3 dias.
  • Nitazoxanida 500 mg 2 vezes ao dia, por 3 dias, por via oral.

É importante salientar que o uso de Mebendazol e Albendazol deve ser evitado em gestantes, em razão do potencial teratogênico desses fármacos. Geralmente, nesses casos, o tratamento é adiado até depois do parto a fim de diminuir os riscos para o feto.

Em pacientes com infecção intensa, o tratamento medicamentoso pode prolongar-se até 7 dias.

Após o paciente ser tratado com Mebendazol (de acordo com o esquema acima) foi solicitado o retorno após três semanas para a realização de novos exames, com o intuito de atestar o fim da infecção. Caso haja ainda a presença de ovos nas fezes o tratamento será repetido.

Realizou-se com o paciente e a família educação sanitária, além de orientações de como manejar corretamente os alimentos e da importância de mantê-los protegidos contra insetos e poeira, pois as moscas podem transportar os ovos de Trichuris trichiura em suas patas.

Os objetivos de aprendizagem são:

  • Compreensão dos principais sinais e sintomas da tricuríase
  • Análise dos fármacos utilizados no tratamento da tricuríase.
  • Conhecimentos das medidas de prevenção e combate à tricuríase.
  • Compreender quais as principais hipóteses diagnósticas a partir dos sinais e sintomas apresentados pelo paciente.

Autores, revisores e orientadores

Liga: Núcleo de Desenvolvimento Médico de Sobral (NUDEMES)- @nudemesufc

Autores: Victória Layssa Carvalho Cordeiro Gondim – @victoria.layssa e Ester Tavares de Lima- @estertavares45

Revisor(a): Amanda Gomes de Oliveira – @amandag.oliveira

Orientador(a): Geilson Vasconcelos Lira – @quicksemio

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

Dr. PINHEIRO, Pedro. Tricuríase – Transmissão, sintomas e tratamento. MD.SAÚDE, [s.d]. Disponível em: https://www.mdsaude.com/doencas-infecciosas/parasitoses/tricuriase/#:~:text=Nestes%20casos%2C%20o%20quadro%20cl%C3%ADnico,outros%20sinais%20e%20sintomas%20poss%C3%ADveis. Acesso em: 15 de mar. de 2021.

Rodrigues, Andréa. Parasitas verminoses. SLIDE SHARE, 2014. Disponível em: https://pt.slideshare.net/andreamrodriguesguimaraes5/apresentao-slides-andra. Acesso em: 15 de mar. de 2021

Almeida, Eugênia. Diarréia por parasitas. SCIELO, 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292002000200004. Acesso em: 15 de mar. de 2021

Squeff, Fabiano. Trichuris trichiura : Abordagem diagnóstica e terapêutica. SIIC, 2003. Disponível em: https://www.siicsalud.com/des/expertoimpreso.php/20288. Acesso em: 15 de mar. de 2021

Lemos, Marcela. Tricuríase ( Trichuris trichiura) : sintomas, ciclo de vida e tratamento. TUA SAÚDE, 2020. Disponível em: https://www.tuasaude.com/tricuriase/. Acesso em: 15 de mar. de 2021

Teixeira, Isabelle. Tricuríase. PETDOCS, 2015. Disponível em: http://petdocs.ufc.br/index_artigo_id_493_desc__pagina_22_subtopico__busca_. Acesso em: 19 de mar. de 2021

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