Cardiologia

Caso Eriksen: como a morte súbita pode ser abortada?

Caso Eriksen: como a morte súbita pode ser abortada?

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Sanar

7 min há 135 dias

No último sábado (12), o mundo se chocou com as imagens da parada cardíaca seguida de morte súbita do jogador Christian Eriksen em campo, durante partida da Dinamarca contra a Finlândia pela Eurocopa. A queda mobilizou os times, equipes médicas e comissão técnica em campo. Após alguns minutos, o público foi informado de que a parada cardíaca do meio-campista de 29 anos foi abortada, e o jogo prosseguiu normalmente.


Ao ter seus sinais vitais restabelecidos, boa parte do público imaginou tratar-se de algum episódio de mal estar – convulsão, desmaio, desidratação etc. Em seu Twitter, o professor José Alencar, autor dos livros Manual de ECG e Manual de Medicina Baseada em Evidências, logo chamou a atenção para o fato de que um mal súbito atingiu o jogador, e que a reversão do quadro foi possível devido à rapidez das ações, aos equipamentos disponíveis e outras condições do ambiente.

Coordenador da Pós Graduação em Medicina de Emergência da Sanar, o médico cardiologista explicou o acontecimento em vídeo no nosso canal do YouTube. Assista:

Professor José Alencar explica a morte súbita abortada. Assunto entrou em alta após a reversão da Morte Súbita Cardíaca (MSC) de Christian Eriksen, jogador da seleção da Dinamarca.

O que é morte súbita?

A Morte Súbita Cardíaca (MSC), ou parada cardíaca súbita, acontece quando há a interrupção inesperada da atividade cardíaca. A MSC é uma consequência associada a diversos fatores de saúde, e pode ou não ser precedida de determinados sintomas. Nestes casos, os sintomas se apresentam em até uma hora antes da parada cardíaca. Estudos apontam que a morte súbita acomete até 13% das pessoas no planeta; e responde por 50% das mortes por problemas do coração. Esses eventos estão frequentemente associados a pacientes com doença cardíaca estrutural.

Morte Cardíaca Súbita (MSC), mal súbito ou parada cardíaca súbita.
A Morte Cardíaca Súbita (MSC), mal súbito ou parada cardíaca súbita, é a interrupção rápida ou instantânea das funções do coração, mas pode ser abortada.

Quando o acontecimento é revertido, a MSC é chamada de morte súbita abortada. Nestes casos, as medidas corretivas devem ser tomadas imediatamente, garantindo a cardioversão e a ressuscitação do paciente. A cada minuto, as chances de sucesso do tratamento diminuem em torno de 7 a 10%.

Quem pode sofrer uma parada cardíaca?

Em seu texto, o professor José Alencar retomou os 4 fatores que podem levar à parada cardíaca:

  • Fibrilação ventricular;
  • taquicardia ventricular sem pulso;
  • atividade elétrica sem pulso; e
  • assistolia.

8 em cada 10 pessoas que sofreram com MSC possuem alguma doença cardíaca estrutural subjacente, principalmente doença cardíaca coronariana (DAC). Outras formas de doenças cardíacas estruturais, como insuficiência cardíaca, cardiomiopatia e miocardite, respondem por 10% dos casos.

Os homens têm três vezes mais probabilidade de sofrer com o mal súbito. As chances de desenvolvimento do quadro aumentam conforme a idade, atingindo principalmente indivíduos entre os 60 e os 70 anos, mas pode ocorrer em pessoas mais jovens, especialmente associadas a quadros de DAC.

Outros fatores, como a Síndrome de Brugada, podem acometer o mal súbito em corações normais, jovens e saudáveis.

Leia o comentário do professor José Alencar sobre o caso:

Professor José Alencar comenta a morte súbita do jogador Christian Eriksen.
Acesse o texto completo clicando aqui.

Ressuscitação e reversão

O professor aponta que, em países desenvolvidos, as chances de sobrevivência de um mal súbito são de 7.6%. A morte cerebral e a morte cardíaca definitiva ocorrem, em média, 5 minutos após a parada cardíaca. A associação com a convulsão pode ocorrer em casos de parada cardíaca por fibrilação ventricular – o músculo do coração, ao invés de pulsar, passa a tremer, induzindo convulsões ao cérebro.

As chances de sobrevivência são maiores quando o mal súbito acontece em locais de maior concentração de pessoas, com a presença de times médicos bem equipados por instrumentos como os desfibriladores externos automáticos (DEAs), capazes de conter os ritmos chocáveis, que respondem por 84% dos casos de morte súbita.

Massagem cardíaca.
Procedimentos de primeiros socorros, como massagens cardíacas, podem ser aplicados por qualquer pessoa e podem ser o diferencial que salva a vida do paciente.

As chances também aumentam com a ação de pessoas bem treinadas no suporte básico de vida. No caso Ericksen, foi fundamental a ação do capitão da Dinamarca, Simon Kjaer, que prestou os primeiros socorros ao jogador – efetuando massagens cardíacas e impedindo que o colega engasgasse com a própria língua. No esporte, ocorrem de 0,5 a 2,1 casos de MSC a cada 100 mil pessoas por ano.

Após a reversão da MSC, o paciente deve ser submetido a uma bateria de exames, que indiquem as condições, as cardiopatias e o quadro médico que levou ao mal súbito. Pode ser necessária ou não a realização de um cateterismo cardíaco.

Tratamento e a vida após o MSC

É recomendado a um paciente com quadro de parada cardíaca súbita revertida que receba um implante de um cardioversor-desfibrilador implantável (CDI). O CDI será o aparelho responsável por identificar possíveis arritmias, aplicando o tratamento efetivo adequado, interrompendo-as assim que se iniciarem.

Pacientes que não podem ou não querem implantar o dispositivo têm a opção do uso de drogas antiarrítmicas – não recomendadas por serem menos efetivas que o CDI.

Apesar de o CDI auxiliar o paciente em uma vida normal, algumas restrições devem ser observadas para evitar outra parada cardíaca. O exercício físico, apesar de ser um fator associado à redução de riscos de MSC, não pode ser realizado em rotinas extenuantes – para não sobrecarregar o coração, causando risco de novas paradas.

Da mesma forma, o consumo moderado de álcool ajuda a prevenir o mal súbito, mas seu consumo excessivo pode aumentar o risco – especialmente se associados a fatores psicossociais, de emoções muito intensas – especialmente o estresse.

Além disso, atividades físicas e de contato podem pôr em risco o CDI, deslocando o marcapasso e impedindo seu funcionamento adequado

Portanto, apesar de manifestar vontade de retornar aos campos assim que possível, atividades como o atletismo não são recomendadas a pacientes vítimas de MSC.

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Referências:

BRAGGION-SANTOS, Maria Fernanda; et. al. Morte Súbita Cardíaca no Brasil: Análise dos Casos de Ribeirão Preto (2006-2010). Acesso em 16 de maio de 2021.

LINK, Mark. Approach to sudden cardiac arrest in the absence of apparent structural heart disease. UpToDate, Inc., 2020. Acesso em: 13 de maio 2021.

PODRID, Philip. Overview of sudden cardiac arrest and sudden cardiac death. UpToDate, Inc., 2019. Acesso em: 13 de maio 2021.

PODRID, Philip. Pathophysiology and etiology of sudden cardiac arrest. UpToDate, Inc., 2020. Acesso em: 13 de maio 2021.

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