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CAUSOS CLÍNICOS | Colunistas

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                Qual o maior problema do mundo? “Comunicação!”, diria meu professor do internato de clínica médica da UFPB, Dr. Eduardo Gomes. Segundo ele, em países periféricos como o nosso, a falta de organização e educação resultam em problemas de comunicação que, frequentemente, terminam em prescrições não seguidas ou seguidas de maneira equivocada. Como exemplo, ele cita o caso de um paciente que fazia hemodiálise logo após receber o antibiótico venoso, perdendo assim a dose do remédio nos filtros da máquina. Foi só no momento em que a equipe se reuniu e discutiu o que era feito com o paciente que se percebeu a causa daquela infecção que “não passava com nada”. E qual foi o problema? Falta de comunicação na equipe.

Dessa forma, J. R. Whitaker Penteado afirma com acerto em seu livro A técnica da comunicação humana (que deixo de propósito como única referência desta coluna) que “na maioria dos conflitos humanos, existe um erro de comunicação” – se isso te lembrou dos debates políticos no Brasil e no mundo, saiba que não é mera coincidência.

Falo em comunicação porque esta coluna, das mais despretensiosas e fáceis de ler que já fiz, encerra três casos pitorescos (e tristes, sobretudo, o último) cujo fio condutor é a dificuldade de comunicação entre pacientes e profissionais de saúde. Afinal, mais do que descobrir a doença e prescrever remédios, precisamos estar atentos a todos os passos que envolvem o tratamento, sem considerar a entrega da receita como o ponto final do atendimento.

Antes de ser estudante de medicina, eu fui auxiliar e técnico de enfermagem na atenção básica. O que compartilho agora são “causos clínicos” que ouvi de médicos e outros profissionais que trabalharam comigo ao longo destes anos, os quais acentuam o papel da comunicação na prática médica.

                Os nomes e alguns detalhes pontuais foram alterados para preservação da identidade dos personagens que, na verdade, são pessoas reais.

NA HORA CERTA

                Depois de explicar pausadamente a posologia da medicação, Dr. Osvaldo entrega a receita a seu José dizendo:

                – Qualquer dúvida é só ler a receita.

                – Sei ler não, doutor.

                – Mas o senhor lembra o que eu falei?

                – Lembro não senhor.

                Já pensando nos muitos pacientes por atender e, desconfiando que seria difícil fazer o seu José entender quando deveria tomar seu remédio, Dr. Osvaldo pergunta se há alguém que possa se comprometer a lhe dar a medicação no horário. Mas, infelizmente, seu José é viúvo, não mora com os filhos e não há ninguém que possa ajudá-lo. Por sorte (ou não, conforme se verá) o Dr. tem uma ideia:

                – O senhor cria galinha em casa? – esqueci de dizer que esta e a próxima história se passaram em algum interior desse nosso Brasil.

                – Crio, sim senhor. O senhor quer? Pois eu lhe trago uma.

                – Não precisa não, obrigado. Mas gente pode fazer assim: como o senhor tem que tomar o remédio duas vezes ao dia, quando o galo cantar de manhã o senhor toma um comprimido. Mais tarde, quando as galinhas forem dormir, o senhor toma outro. Pode ser assim?

                Aí o seu José finalmente entendeu. Agradecido, cumprimentou o médico e saiu do consultório.

                Três dias depois, entretanto, volta seu José para a unidade de saúde, referindo que não havia melhorado de suas queixas iniciais. Depois de uma hora de espera ele consegue um “encaixe” e reencontra o dr. Osvaldo.

                – E aí, seu José? Melhorou não?

                – Melhorei não, senhor.

                – Mas o senhor usou o remédio bem direitinho, como eu lhe expliquei?

                – Usei sim, senhor.

                – Olhe, não é porque eu tô duvidando de sua palavra não, mas o senhor pode dizer como foi que o senhor usou o remédio?

                – Pois foi bem direitinho como o doutor explicou. De manhã, quando o galo cantava, eu dava o remédio pra ele. Aí de tarde, quando a galinhada ia dormir, eu dava o remédio pra galinha mais mansa que eu tenho, que é mais fácil dela engolir o comprimido do que as outras. Só que o remédio do galo eu só consegui dar no primeiro dia, porque agora é só o bicho me ver que sai correndo. Então eu acho que pra sarar só vou comer a galinha, porque o galo não tem jeito de eu dar o remédio não.

A “infertilidade”

Fazia um ano que Agenor e Gracinha tinham casado e nada de Gracinha engravidar. Os dois eram jovens, nunca tiveram nenhuma doença grave, suas famílias eram cheias de parentes que, por sua vez,  eram cheios de filhos, mas eles não iam além deles dois.

                Um dia, vencendo a vergonha, foram juntos no “doutor do postinho” em busca de respostas. A princípio, não havia nada de anormal com ambos. O médico, tranquilo, disse que era comum alguns casais passarem um ano sem engravidar, já que a chance de gravidez não era tão grande quanto se costuma supor. Dessa forma, ele pediu alguns exames de sangue para Gracinha, um espermograma para o Agenor e solicitou que retornassem com os resultados. Além de orientar que o casal tentasse manter ao menos duas relações sexuais por semana, ele também aconselho Agenor a não se masturbar para não “gastar sua munição”.

                – Eh, doutor! Isso é coisa de menino. Eu sou é homem, preciso dessas coisas não.

                Um mês e pouco depois voltava o casal. Os exames estavam normais, eles transavam até mais do que o mínimo necessário, mas seguiam do mesmo jeito. O médico, ainda sem muita preocupação, se concedeu o direito da demora permitida, já que se tratava de jovens e, até aquele momento, não parecia haver nada de estranho. Voltasse daí uns três meses.

                Contudo, dois meses mais tarde volta Gracinha sozinha. Ela diz o quanto se entristece ao pegar as crianças dos outros, sem ter a sua própria para dar carinho. Ademais, confessa que não aguenta mais tantas “tentativas”, e pergunta se não há uma pomada que possa usar para reduzir as dores que tem durante o ato sexual.

                Uma paciente jovem, hígida e com dispareunia? O médico pergunta mais, e Gracinha diz com os olhos marejados:

                – Doutor, já tem mais de um ano que  gente tá tentando e nada! Até com hemorroida eu já tô e nada de engravidar!

                Hemorroida? Mas ela não estava acima do peso, não havia outros casos na família, ela também não tinha qualquer problema vascular e, obviamente, nunca havia engravidado. Ademais, desde quando hemorroida era causa ou consequência de infertilidade? Será que ele poderia examiná-la?

                – Pode, doutor.

                Com a paciente naquela constrangedora posição denominada genupeitoral (“de quatro”, como se diz vulgarmente), o médico notou um mamilo hemorroidário pequeno e redutível (ou seja, que voltava para o reto quando recolocado) e sem outros sinais de gravidade. Até aí não havia muito segredo, mas, uma vez que a paciente não demonstrava timidez e se dispunha a encontrar uma solução, o médico lhe propôs a realização de um exame ginecológico (só então se dera conta que, por um esquecimento agravado pelo desejo de não incomodar, se esquecera de examiná-la). Seria chato, mas poderia trazer algumas respostas.

                – Pode, doutor. Agora. – disse ela já se encaminhando para a mesa ginecológica, com a vergonha abafada pelo desejo de uma solução.

                E tão logo o médico, com todo o cuidado do mundo e, mais constrangido que a própria paciente, afasta seus grandes lábios, encontra o que jamais esperava: hímen íntegro. E, com a tranquilidade de quem começa a obter o que tanto procurava, pede que Gracinha se vista e lhe faz mais algumas perguntas. Em poucos instantes estava resolvido o mistério.

                Agenor só fazia sexo anal com Gracinha, costume este que ele “aprendera” na infância em coito com animais sob a tutela de uns primos mais velhos. Gracinha já tinha posto em questão aquela prática, imaginando que não deveria ser bem daquele jeito que se fizesse filho. E acrescentou:

                – Mas o Agenor é cabeça dura, doutor. Só ele que tá certo.

                O médico pediu que ela chamasse Agenor o quanto antes para uma conversa. E assim aconteceu.

                Três meses depois o médico foi chamado às pressas para a entrada do postinho, onde encontrou um fusca zero quilômetro: presente do pai de Agenor, fazendeiro que buscava assim mostrar sua gratidão ao médico pelo neto que enfim crescia na barriga da nora.

                (Mas, por diversas razões, ninguém superou Gracinha em gratidão ao doutor)

Faça de tudo, doutor!

                Lauriane era uma agente de limpeza que trabalhava há muitos anos na unidade de saúde de seu bairro, na periferia de São Paulo. De família pobre e desestruturada, ela “aprendeu” a fumar já quando criança, acendendo os cigarros da mãe no fogão, já que o aparelho tinha acendimento elétrico e ela, por esse tempo, era tão pequena que nem acender um fósforo conseguia. Foi com as “puxadas” que ela dava “só pra acender o cigarro” da mãe que ela viciou. “É só uma tragada. Ela não vicia, não.”

                Daí teve um dia em que os funcionários da unidade, aproveitando um momento de tranquilidade no atendimento, aproveitaram para tomar café e jogar conversa fora. História vai, piada vem, e eis que  Lauriane sai com essa:

                “Meu irmão mais velho era meio errado, sabe? Não queria estudar nem nada, e desde novinho já ficava andando com a malandragem da rua. Quando já tava maior, mesmo sem trabalhar, aparecia com tênis novo, roupa nova, namorada bonita e minha mãe, besta, nem desconfiava de onde ele tirava tudo aquilo. Eu me preocupava, mas, já com duas crianças pra cuidar sozinha, nem da minha vida eu dava conta. E, como ele era mais velho, eu entreguei nas mãos de Deus.

                E teve um dia que ele tava parado na frente de casa conversando com aquele povo da rua que ficava à toa que nem ele, quando  passou dois cara numa moto e encheram ele de bala. Os outros dois que tava junto não levaram um tiro, mas ele levou pra lá de dez.

                Minha mãe berrava, e um vizinho levou eu, ela e o meu irmão pro hospital. O carro ficou molhado de sangue, dava pra ver que meu irmão não escapava, mas eu queria correr mais por causa da minha mãe, que era capaz de ter um troço quando soubesse.

                Chegando lá, os enfermeiros colocaram ele numa maca, mas já dava pra ver pela cara deles que não tinha o que fazer. Dali a pouco sai um médico da sala de emergência, chamando pelo acompanhante do meu irmão. Eu me levanto e minha mãe vem atrás, passa na minha frente e já pergunta:

                – Ele vai viver, doutor?

                – A senhora é a mãe?

                – Sou, sim senhor.

                – Infelizmente, senhora, tudo o que a gente pode fazer agora é ver se vocês concordam em fazer o procedimento pra doação de órgãos.

                – Sim, doutor! Pode fazer de tudo pra salvar meu filho! Só não deixa ele morrer, pelo amor de Deus, doutor!”

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

REFERÊNCIA

                A técnica da comunicação humana (J. R. Whitaker Penteado), 6ª edição, Livraria Pioneira Editora, São Paulo, 1977