Neurologia

Com reprogramação celular, pesquisadores identificam causas de deficiência intelectual grave

Com reprogramação celular, pesquisadores identificam causas de deficiência intelectual grave

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Sanar

4 min há 262 dias

Uma investigação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) apontou uma das causas para uma deficiência intelectual grave e rara. O achado abre novas perspectivas para um maior entendimento sobre doenças neurológicas, além do desenvolvimento de novos medicamentos

O estudo, publicado na revista Molecular Psychiatry, começou com uma pesquisa de campo em Brejo dos Santos, uma pequena cidade do sertão da Paraíba com alta incidência de rara doença, identificada como deficiência intelectual autossômica recessiva. A condição também causa quadros psiquiátricos, como alucinação, mania de perseguição e comportamento repetitivo.

Há anos os pesquisadores investigam os fatores que motivam o alto número de casos na cidade, onde é comum o casamento consanguíneo. Como relatou reportagem da Agência FAPESP, numa única família, quatro dos dez filhos nasceram com a doença.

Uma minuciosa investigação genética revelou, em 2012, que a deficiência intelectual autossômica recessiva era causada pela mutação de um único gene (IMPA1). Agora, os pesquisadores descobriram que essa alteração genética está associada à ausência de uma enzima, o que causa a formação anormal de neurônios.  

“A deficiência intelectual pode ser causada por vários fatores genéticos e outros tantos ambientais. Na questão genética o mais comum é que seja causado por mutações em mais de um gene. Não é o caso dos pacientes que estudamos”, explicou à Agência FAPESP uma das autoras do estudo, Thalita Figueiredo. “Para manifestar a doença, a criança precisa receber um alelo com a mutação de sua mãe e outro de seu pai. O risco de isso acontecer é de 25% em cada gestação”.

Reprogramação celular

Para descobrir como a mutação no gene IMPA1 desencadeava o problema, os pesquisadores coletaram amostras de sangue de indivíduos adultos de uma mesma família, com e sem a doença, e realizaram o sequenciamento genético completo do exoma, parte do genoma onde ficam os genes codificadores de proteína e, portanto, onde há mais chance de ocorrerem mutações causadoras de doenças.

Figueiredo explica que o IMPA1 é responsável por produzir uma enzina que está envolvida no metabolismo do inositol, que é um tipo de vitamina B fundamental para várias funções celulares. “Outro aspecto importante dessa enzima é que ela é inibida pelo lítio, principal medicamento utilizado como estabilizador de humor em pacientes com transtorno bipolar”, explicou a pesquisadora.

Uma nova etapa do estudo foi realizada por meio de reprogramação celular. Os pesquisadores transformaram células de sangue e de pele de pacientes com a forma grave da doença em células-tronco pluripotentes. Depois as converteram em neurônios do hipocampo, região cerebral relacionada à memória e comportamento.

“Com a reprogramação celular, foi possível investigar em laboratório os efeitos da mutação genética na formação dos neurônios. É possível acompanhar desde o início com as células-tronco, depois com uma estrutura parecida com o tubo neural até se tornar um neurônio maduro, ou seja, na mesma fase que os pacientes estão, pois são todos adultos”, relatou a autora.

A ciência a favor da prevenção

Apesar da necessidade de investigações maiores e mais completas, os resultados contribuem para ampliar o conhecimento sobre o desenvolvimento do cérebro humano e abre caminho para que, no futuro, novos modelos ajudem a decifrar as causas genéticas das mais diferentes doenças neurológicas.  

“É claro que são necessários mais testes que confirmem isso, mas seria possível fazer a suplementação de inositol um pouco antes de a mulher ficar grávida para que não haja um problema tão grave na neurogênese. No caso dos indivíduos adultos com a doença rara, isso não deverá ter efeito, pois já são células maduras”, comemora a autora.

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