Coronavírus

Como a COVID-19 afeta o cérebro

Como a COVID-19 afeta o cérebro

Compartilhar

Já está bem claro que a COVID-19 pode afetar o cérebro daqueles que contraem a doença. No entanto a ciência ainda busca elucidar os mecanismos pelos quais o sistema nervoso central torna-se alvo do vírus. Pretendemos trazer neste post uma breve discussão sobre o tema.

O início dos relatos de sintomas neurológicos

Assim que a pandemia pelo novo coronavírus começou, os médicos estavam lutando para manter os pacientes respirando, e o foco do tratamento esteve posto sobre tratar danos pulmonares e circulatórios.

Mas logo as evidências começaram a chamar a atenção: sintomas neurológicos faziam parte da manifestação da COVID-19. Algumas pessoas estavam experimentando delirium, estavam desorientadas e agitadas.

Em abril, um grupo de cientistas japoneses publicou relato de caso de inflamação e edema cerebral em paciente com COVID-19. Outro relato descreveu paciente com deterioração da bainha de mielina.

A lista de sintomas neurológicos foi crescendo, e até o presente momento inclui AVC e até perda de memória.

O que apontam os estudos

Em junho, um estudo no Reino Unido buscou analisar dados clínicos de 125 pacientes que tiveram COVID-19 associado a sintomas neurológicos e/ou psiquiátricos. Destes, 62% apresentaram prejuízos no suprimento sanguíneo cerebral, relacionados à AVC’s.

Já 31% apresentaram estado mental alterado, como confusão ou diminuição do nível de consciência, algumas vezes acompanhado por quadro de encefalite. Dez pessoas com estado mental alterado desenvolveram psicose.

Importante notar que nem todos que apresentaram tais alterações estiveram sob cuidados intensivos.

Outro estudo parecido, publicado também em Junho, compilou dados detalhados de 43 relatos de casos de complicações neurológicas associadas à COVID-19.

Um padrão começava a ficar claro: os sintomas mais comum eram encefalite e acidentes vasculares, com os casos mais graves progredindo para encefalomielite aguda disseminada, podendo levar a sintomas parecidos com os da doença Esclerose Múltipla.

Alguns dos pacientes mais afetados apresentavam sintomas respiratórios leves mostrando, nestes casos, que o cérebro foi o principal alvo da doença.

Mas as complicações podem ser de natureza mais branda. Estas incluem acometimento de nervos periféricos, se mostrando como Síndrome de Guillain–Barré, ou acometimento psicológico causando ansiedade e desordem de estresse pós-traumático.

Vale ressaltar que sintomas semelhantes também foram vistos naqueles acometidos por outros coronavírus, como na SARS e MERS. Porém, devido o menor número de acometidos, os dados nesse cenário foram mais escassos.

Com que frequência o cérebro é acometido na COVID-19?

A comunidade científica ainda não sabe qual a frequência do acometimento neurológico. Um estudo buscou estimar a prevalência usando dados dos outros coronavírus.

Até a presente data do estudo no qual se baseia o presente post, havia 28,2 milhões de casos confirmados de COVID-19. Tomando como base a estimativa de prevalência, algo em torno de 10.000 a 50.000 pessoas experimentaram sintomas neurológicos.

O problema com tal estimativa é que leva-se em conta principalmente pacientes hospitalizados. Nestes, a prevalência pode chegar até 50%. No entanto, há poucos dados sobre os pacientes com doença leve ou assintomática.

Muitas dúvidas restam sobre sintomas neurológicos na COVID-19

Os dados são ainda escassos, o que dificulta elucidar o porquê de algumas pessoas manifestarem sintomas neurológicos, e outras não. Também não se sabe qual será o impacto, a longo prazo, de tais sintomas. Estes serão passageiros, ou se tornarão crônicos?

Inflamação ou infecção viral direta?

A questão, porém, mais importante para os cientistas é descobrir o mecanismo pelo qual a doença afeta o cérebro. Já sabe-se quais os principais padrões de acometimento, mas, são eles resultados da invasão direta do vírus, ou consequência do processo inflamatório?

A resposta à pergunta é de importância crucial. Isto porque o tratamento será direcionado de acordo com a mesma: se infecção viral direta, o tratamento deve focar em antivirais, mas se inflamação exacerbada, precisa-se atacá-la com anti-inflamatórios.

A crucialidade da questão se deve ao dano que pode ser causado em face de tratamento equivocado. Se o vírus não está presente, é inútil fornecer antivirais. Por outro lado, se ele está, pode ser perigoso fornecer terapia anti-inflamatória.

Qual a porta de entrada do vírus no cérebro?

Já que a perda do olfato é sintoma comum, os neurologistas questionaram se o nervo olfatório constituía rota de entrada do vírus ao sistema nervoso central. Todavia, as evidências apontam que não.

Um estudo anatomopatológico de post-mortems em 67 indivíduos que morreram por COVID-19 mostrou que as regiões mais afetadas pelo vírus não eram regiões associadas ao trato olfatório. A presença do vírus foi detectada em níveis baixos e principalmente em regiões cerebrais ao redor de vasos sanguíneos.

Outros estudos apontam que a presença do vírus no SNC é mais rara que em outras partes do corpo. Testes de PCR raramente detectam presença de RNA viral, apesar da sua alta sensibilidade. Outros estudos falharam em encontrar partículas virais no fluido cerebroespinhal.

Uma possível explicação seria a baixa expressão do receptor ACE2 no tecido cerebral, utilizado pelo vírus para entrar na célula.

Conclusão sobre os efeitos neurológicos da covid-19

Apesar de existirem doenças virais que invadem o cérebro, para o SARS-CoV-2 permanece ainda a dúvida de tal acometimento e, se invade, em qual extensão o faz.

Os sintomas neurológicos podem ser resultados da hiperestimulação do sistema imune. Elucidar o mecanismo de dano cerebral da COVID-19 é crucial e impacta no tratamento oferecido aos pacientes acometidos.

Confira o vídeo:

Posts relacionados:

Compartilhe com seus amigos: