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Como a imunidade contra o vírus SARS-CoV-2 é desenvolvida? | Colunistas

Como a imunidade contra o vírus SARS-CoV-2 é desenvolvida? | Colunistas

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Em dezembro de 2019, surgiu, na China, a Covid-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, que, posteriormente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou ser uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) e caracterizou como pandemia. Frente a isso, os cientistas ao redor do mundo passaram a dedicar esforços no estudo do novo coronavírus na busca por vacinas e tratamentos para a Covid-19. Desse modo, gradualmente, as particularidades sobre a doença e seu agente foram sendo reveladas, incluindo como a imunidade ao vírus SARS-CoV-2 é desenvolvida.

O que é o sistema imune?

O sistema imune é a parte do nosso corpo responsável pela defesa contra os microrganismos que podem nos infectar, como os vírus e as bactérias. Esse sistema está distribuído por todo nosso corpo, sendo dividido em sistema imunológico inato e imunológico adaptativo. Entretanto, apesar da divisão, ambas as partes atuam em conjunto.

Imunidade inata

A imunidade inata constitui a primeira linha de defesa do organismo e se caracteriza pela rápida resposta à agressão, independentemente da existência de um estímulo prévio. Além disso, é composta por barreiras físicas, químicas e biológicas, células especializadas e moléculas solúveis. As barreiras físicas compreendem a pele, a saliva, a secreção nasal, as lágrimas e os pelos, que impedem a entrada dos patógenos no organismo. Quando essas barreiras não são suficientes, o patógeno invasor se depara com a linha de defesa biológica.

A presença do patógeno no interior do organismo inicia um processo inflamatório, no qual ocorre vasoconstrição arteriolar passageira e, posteriormente, vasodilatação arteriolar e capilar, associadas com o aumento da velocidade do fluxo sanguíneo regional. Consequentemente, ocorre o aumento da permeabilidade vascular, que, em conjunto com a redução da velocidade do fluxo sanguíneo, favorecem, respectivamente, a exsudação e a estase, promovendo o edema intersticial e a redução acentuada ou a parada do fluxo sanguíneo local. Após isso, ocorre a marginação leucocitária, onde os leucócitos ativados ao entrarem em contato com o endotélio, também ativado, são estimulados a saírem da luz vascular para o interstício tecidual, caracterizando a diapedese, que ocorre predominantemente na região venular. O principal mecanismo da imunidade inata utilizada para eliminar esse tipo de patógeno é a fagocitose e as principais células fagocitárias são os macrófagos, neutrófilos e células dendríticas.

Imunidade adaptativa

A imunidade adaptativa compreende a linha de defesa específica adquirida após o contato com os patógenos, como através das vacinas, por exemplo. O sistema imunológico adaptativo possui memória e arquiva as características dos patógenos para combater outros possíveis ataques. A resposta imune específica é ativada pelos antígenos, que são normalmente encontrados na superfície dos patógenos e são exclusivos e únicos de cada patógeno. A ativação da imunidade adaptativa estimula a produção de células que atacam diretamente o patógeno ou indiretamente, através da produção de proteínas específicas chamadas anticorpos, que se ligam ao antígeno e levam o patógeno até os locais onde serão destruídos.

Desenvolvimento da imunidade contra o SARS-CoV-2

O desenvolvimento da resposta imune na Covid-19 ocorre de modo semelhante ao que acontece nas demais infecções virais. Na fase inicial, a imunidade inata atua no controle das infecções virais através dos interferons tipo I (IFN-a e IFN-b), pelos macrófagos e pelas células NK. As células infectadas produzem interferons tipo I que, ao interagirem com uma célula não infectada, têm a propriedade de protegê-la contra a infecção, além de colaborar com a resposta imune adaptativa. O IFN-g também promove a ativação dos macrófagos e das células NK, as quais, pela liberação de granzima e perfurina, destroem as células infectadas. A atividade das células NK e sua produção de IFN-g, que aumenta o potencial microbicida dos macrófagos, também é estimulada pela IL-12, produzida por macrófagos e outras células apresentadoras de antígenos.

Já a imunidade adaptativa contra os antígenos virais ocorre com a ativação de células TCD8+, que exercem citotoxicidade pelo reconhecimento de antígenos virais via MHC classe I, e consequente liberação de granzima e de perfurina com lise das células infectadas e também dos vírus. Além disso, ocorre a ativação das células TCD4+, que atuam no recrutamento e na ativação de macrófagos e colaboram com as células B na produção de anticorpos.

Os anticorpos têm papel importante no combate às infecções virais, já que os vírus são agentes intracelulares, que para propagarem a infecção rompem as células infectadas, ficando livres até a penetração em outra célula. Nessa fase extracelular os anticorpos podem se ligar aos vírus e, por meio do mecanismo de neutralização, impedir que eles penetrem uma célula não infectada. Alternativamente, ao se ligarem, os anticorpos permitem a ação das células NK, atuando como adjuvantes no mecanismo de citotoxicidade celular.

O que sabemos sobre a imunidade contra o SARS-CoV-2 

Na Covid-19, o principal alvo na resposta imune formada são os domínios de ligação do receptor (RBD), presentes na glicoproteína S, a mais proeminente na superfície do envelope do SARS-CoV-2, que são responsáveis pela ligação do vírus com as células através de sua interação com o receptor ECA2.

Estudos iniciais com plasma de doadores mostraram que cerca de 1/3 dos participantes apresentava atividade neutralizante baixa ou mesmo considerada não existente. A investigação também revelou que as pessoas infectadas produziam anticorpos contra diferentes epítopos da proteína S, sendo que os anticorpos com afinidade pela porção RBD apresentaram a maior atividade neutralizante encontrada no plasma dos doadores. Outras análises permitiram a classificação dos diversos anticorpos neutralizantes em quatro classes principais, de acordo com sua capacidade de ligação ao RBD em suas diferentes conformações e interação com o receptor ECA2.

Apesar de se acreditar que mutações em epítopos da proteína S poderiam afetar a capacidade de ligação dos anticorpos produzidos e, com isso, a eficácia de sua atividade neutralizante, os estudos até o momento mostram que mutações que afetam uma classe tipicamente não afetam as demais classes. Isso sugere que o desenvolvimento de estratégias terapêuticas que visem o uso de múltiplas classes de anticorpos pode ser mais eficiente do que de anticorpos monoclonais, especialmente os anticorpos das classes 1 e 3, cujas atividades não se sobrepõem.

Em relação à imunidade celular, estudos com pools de epítopos de SARS-CoV-2 realizados com sangue doado de voluntários que se recuperaram de Covid-19 e com sangue de indivíduos não expostos ao SARS-CoV-2 identificaram que células TCD4+ e células TCD8+ reagiram a alguns dos epítopos em 50% dos expostos e 20% dos não expostos.

Percebeu-se também que nos indivíduos não expostos, as células T conseguiram reconhecer epítopos não somente da proteína S, mas também de outras porções do vírus. Além disso, análises diversas sugeriram que essas células eram derivadas de células de memória de exposições a diversos coronavírus causadores de resfriados comuns.

Entretanto, o significado clínico dessa reação cruzada ainda é desconhecido e os epítopos reconhecidos pelas células T também em indivíduos não expostos são somente uma pequena porção dos envolvidos na resposta ao SARS-CoV-2.

Conclui-se, desse modo, que a resposta imune natural à infecção por SARS-CoV-2 é policlonal, com classes diferentes apresentando características distintas, e que a existência de diferentes classes pode ser importante para uma resposta eficiente na presença de mutações.

Autora: Maria Fernanda Lima

Instagram: @fxrnandasouza

Referências

DEPARTAMENTO DE PATOLOGIA. Inflamação e reparo. Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Disponível em: <http://patologia.medicina.ufrj.br/index.php/histopatologia-geral/396-anotacoes-teoricas/anotacoes-sobre-inflamacao>.

MACHADO, P. R. L., et al. Mecanismos de resposta imune às infecções. Anais brasileiros de Dermatologia. Rio de Janeiro, v. 79, n. 6, p. 647-664, nov/dez. 2004. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/abd/a/3VZ9Fz6BH9HDGnPhkN3Ktbd/>.

MENDES, I. C. M. CROI 2021: como funciona a resposta imune contra o SARS-CoV-2?. PEBMED, 2021. Disponível em: <https://pebmed.com.br/croi-2021-como-funciona-a-resposta-imune-contra-o-sars-cov-2/>.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. OMS pré-qualifica primeiro anticorpo monoclonal para tratar COVID-19 grave. PAHO. Disponível em: <https://www.paho.org/pt/noticias/11-2-2022-oms-pre-qualifica-primeiro-anticorpo-monoclonal-para-tratar-covid-19-grave>.

YAOCHITE, J. N. U; ANDRADE, M. F. de. Imunidade aos agentes infecciosos. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP. Disponível em: <https://www.fcav.unesp.br/Home/departamentos/patologia/HELIOJOSEMONTASSIER/ed-11-mecanismos-de-imunidade-contra-agentes-infecciosos.pdf>.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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