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Como a pandemia tem afetado os recém-nascidos? | Colunistas

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Letícia de Paula

6 minhá 11 dias

De acordo com estudos da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a pandemia da COVID-19 está afetando a qualidade do atendimento a recém-nascidos doentes e com baixo peso, resultando em sofrimento e mortes desnecessárias. Isso ocorre uma vez que, em alguns países, na suspeita ou confirmação de infecções pelo vírus Sars-CoV-2, os recém-nascidos são separados de suas mães. Segundo a OPAS, até 125 mil vidas de recém-nascidos poderiam ser salvas com a cobertura total dos cuidados maternos-canguru, que é um método que envolve o contato pele a pele precoce e prolongado com um dos pais e a amamentação exclusiva. Para os bebês prematuros ou com baixo peso ao nascer, o método canguru pode reduzir a mortalidade infantil em 40%, a hipotermia em mais de 70% e as infecções graves em 65%. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as mães continuem dividindo o quarto com seus bebês desde o nascimento e sejam capazes de amamentar e praticar o contato pele a pele, mesmo quando houver suspeita ou confirmação de infecções por COVID-19, e devem receber apoio para garantir práticas adequadas de prevenção de infecções, visto que é de grande importância que os recém-nascidos tenham contato próximo com os pais após o nascimento.

A pandemia da COVID-19

A COVID-19 é uma doença causada por infecção viral pelo vírus Sars-CoV-2, que surgiu no final de 2019 e causou mudanças em todo o mundo, como isolamento social, uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) e a divisão dos chamados grupos de risco (idosos, hipertensos, doentes crônicos, gestantes e puérperas).

O pós-parto

Nessa prolongada crise de saúde pública, as gestantes merecem um parto seguro e humanizado que priorize a saúde física e emocional da mãe e do bebê. No pós-parto, a recomendação é de que o recém-nascido a termo de uma mãe com confirmação ou suspeita de COVID-19 deve ficar no alojamento juntamente com a mãe, mas o berço e o leito materno devem estar separados por uma distância de 1 metro. Se o recém-nascido for prematuro e necessitar de internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), deve-se manter as precauções de contato e realizar a testagem para o vírus Sars-CoV-2 nas primeiras 48 horas.

Para melhorar o atendimento a puérpera e ao recém-nascido durante a pandemia, a OMS recomenda companhia durante o trabalho de parto e parto e cuidados neonatais imediatos, como colocar os recém-nascidos pele a pele com as mães.

Infecções neonatais

As infecções neonatais por SARS-CoV-2 são raras e, até o momento, não há evidências científicas de infecção intrauterina causada por transmissão vertical. Entretanto, é preciso mais pesquisas, visto que alguns relatos de caso sugerem que não há transmissão vertical da COVID-19, porém outros estudos já encontraram anticorpos IgM (que são os anticorpos de fase aguda da infecção) em neonatos, entretanto, deve-se levar em consideração a probabilidade de uma falsa positividade.

Para a prevenção da infecção nos recém-nascidos, cada país adotou um protocolo diferente, por exemplo: na China, todos os neonatos são separados de suas mães infectadas por pelo menos 14 dias; já os Estados Unidos aconselha uma separação temporária entre a mãe infectada e seu filho, avaliando caso a caso e usando uma decisão compartilhada entre o paciente e a equipe clínica.

Amamentação em tempos de pandemia

Para as puérperas, a amamentação é um momento essencial para o fortalecimento do vínculo mãe-bebê, mas as medidas de prevenção a uma possível transmissão da COVID-19 podem dificultar esse binômio e trazer prejuízos para ambos. No entanto, já há relatos de que foram encontrados anticorpos para o vírus Sars-CoV-2 no leite materno, mas ainda é preciso melhores evidências científicas.

A OMS recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida, pois o leite materno possui todos os nutrientes necessários para o desenvolvimento da criança e, além disso, possui anticorpos e outros fatores de proteção, que protegem a criança de determinadas infecções. No entanto, em algumas doenças maternas, podem funcionar como possível fonte de infecção para a criança, como os casos de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), vírus T-linfotrópicos humanos (HTLV), herpes vírus e sarampo. No entanto, até o presente momento, não há comprovação de que o mesmo aconteça com o Sars-CoV-2, portanto, prevalece a recomendação de iniciar ou continuar o aleitamento materno, visto que são muitos os seus benefícios.

Conclusão

Torna-se evidente, portanto, que a pandemia da COVID-19 tem impactado nos cuidados aos recém-nascidos. Dessa forma, é imprescindível a adoção de protocolos que priorizem a saúde física e mental das puérperas e neonatos, bem como o atendimento humanizado, como o incentivo à amamentação e o contato pele a pele; a fim de que a taxa de mortalidade infantil de crianças com baixo peso ao nascimento ou prematuras decline. Além disso, são necessários novos estudos com maiores níveis de evidência sobre a infecção por Sars-CoV-2 em neonatos. 

Autora: Letícia de Paula Santos.

Instagram: @leticiapaula.santos

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

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