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COMO A PLASTICIDADE DO VÍRUS SARS-COV-2 PREOCUPA NA DOENÇA COVID-19? | Colunistas

COMO A PLASTICIDADE DO VÍRUS SARS-COV-2 PREOCUPA NA DOENÇA COVID-19? | Colunistas

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Jéssica N. Borba

6 minhá 10 dias

A etimologia da palavra plasticidade vem da união de: plástico + idade. Esse termo se refere à capacidade de adaptação às condições ambientes, assim como algo plástico é algo possível de ser moldado. Nesse sentido entenderemos a preocupação da marcante plasticidade do genoma do coronavírus para a COVID-19 como um possível sinal de resistência e uma propensão do SARS-COV-2 para trocar de hospedeiro.

Nesse contexto, você já deve ter ouvido e visto notícias durante o curso da pandemia de síndrome respiratória aguda grave do coronavírus 2 (SARS-CoV-2) sobre as novas variantes genéticas virais, em que as comunidades clínicas, científicas e de saúde pública lidaram em um contexto totalmente atípico e desconhecido até então. Embora vários cientistas tenham desacreditado, no início, sobre a importância de alteração genéticas virais, como a do D614G, após o surgimento da nova “variante do Reino Unido” – a linhagem B.1.1.7 –, houve uma preocupação generalizada.

Mas, antes, você sabe a origem biológica do coronavírus?

Coronavírus pertence à família Coronaviridae, que compreende duas subfamílias, cinco gêneros, 26 subgêneros e 46 espécies de vírus. SARS-CoV-2 pertence ao gênero Betacoronavírus, subgênero Sarbecovírus, uma espécie de coronavírus relacionada à síndrome respiratória aguda. Sua classificação, realizada pelo International Committee on Taxonomy of Viruses (ICTV), foi feita principalmente pelas características moleculares e filogenéticas e não pelas reais doenças que causa.

Estima-se que o morcego-ferradura (Rhinolophus sinicus) é o seu hospedeiro principal e que o pangolim malaio (Manis javanica) é o hospedeiro secundário. SARS-CoV-2 é um envelope viral, aproximadamente esférico e seus vírions têm diâmetros médios de 80-120 nm. Tem um tamanho grande de RNA não segmentado, cujo genoma codifica quatro principais proteínas: pico (S), envelope (E), membrana (M) e nucleoproteína (N).

E quanto à alteração mencionada acima, o que seria Spike D614G?

D614G é uma substituição de ácido aspártico por glicina na posição 614 da glicoproteína de pico. Tal mudança de sequência se chama mutação, o que difere dos termos variante e cepa. Os genomas com sequências alteradas são constantemente chamados de variantes, porém, ao observar  duas variantes, elas podem diferir por uma mutação ou muitas. . Simplificando, uma variante é uma cepa quando tem um fenótipo comprovadamente diferente (por exemplo, uma diferença na antigenicidade, transmissibilidade ou virulência).

A mutação D614G foi detectada pela primeira vez em um nível significativo no início de março de 2020, se espalhou para o domínio global no mês seguinte e inicialmente parecia surgir de forma independente. Essa hipótese levou muitos a duvidar que a mutação D614G fosse adaptativa, apesar dos dados in vitro mostrarem seus efeitos na ligação ao receptor. Uma recente análise genética e filodinâmica populacional de mais de 25.000 sequências do Reino Unido descobriu que os vírus com 614G pareciam se espalhar mais rápido e semear clusters filogenéticos maiores do que os vírus com 614D.

E o que se sabe sobre Spike N453Y e Mink?

Muitas sequências de SARS-CoV-2 da Holanda e da Dinamarca tinham uma mutação Y453F no domínio de ligação ao receptor do pico, que pode mediar o aumento da afinidade de ligação para o vison ACE2 (enzima de conversão da angiotensina 2), relatados em 214 casos de coronavírus humano em 2019 (COVID-19) associados a fazendas de visons. Onze indivíduos do surto dinamarquês tinham uma variante denominada cluster 5, com três mutações adicionais (del69_70, I692V e M1229I). A aparente adaptação do SARS-CoV-2 ao vison foi preocupante, pois a evolução contínua do vírus em um reservatório animal poderia potencialmente levar a eventos de transbordamento recorrentes do novo SARS-CoV-2 do vison para humanos e outros mamíferos.

E quanto à famosa linhagem B.1.1.7 (N501Y)?

A linhagem B.1.1.7 (também chamada de 501Y.V1) é um cluster filogenético em rápida expansão no sudeste da Inglaterra. Ele havia acumulado 17 mutações definidoras de linhagem antes de sua detecção no início de setembro, o que sugere significativa evolução anterior, possivelmente em um hospedeiro cronicamente infectado. Três meses depois, essa variante era responsável por aproximadamente 28% dos casos de infecção por SARS-CoV-2 na Inglaterra, e há sugestões de que ela está se espalhando 56% mais rapidamente do que outras linhagens.

De encontro com o D614G, que poderia notadamente ter se beneficiado de eventos casuais iniciais, a linhagem B.1.1.7 se expandiu quando os casos de SARS-CoV-2 se espalharam e aparentemente alcançou o domínio ao superar a competição de uma população existente de variantes circulantes. Isso é fortemente sugestivo de seleção natural de um vírus que é mais transmissível em nível populacional.

Conclusão

Diante do exposto, pode-se entender que, a cada mudança do vírus, são geradas também novas linhagens, o que preocupa quanto à potencialidade de uma resistência viral e ao uso de muitos hospedeiros diferentes. Portanto, faz-se necessário frequentes novos estudos para uma melhor compreensão dos fatores clínicos e epidemiológicos relacionados à doença.

Além disso, avaliar uma nova variante do SARS-CoV-2 deve incluir o questionamento sobre o alcance por meio da seleção natural ou por eventos fortuitos, como também se está havendo seleção de mutações com efeitos na transmissibilidade ou na virulência, por exemplo. É válido salientar que as condutas já adotadas pelas autoridades em saúde pública, como uso de máscaras, distanciamento físico e limitações em grandes aglomerações, devem permanecer eficazes, apesar do controle de uma variante mais transmissível provavelmente exigir uma aplicação mais rigorosa.

Autora: Jéssica N. Borba

Instagram: @jessborba_/

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

ALMEIDA, Luciene. Variantes genéticas do SARS-CoV-2 – o que significam? Newslab. Publicado em 12 de janeiro de 2021. Disponível em:<https://newslab.com.br/variantes-geneticas-do-sars-cov-2-o-que-significam/>. Acessado em 15 de abr. de 2021.

Khalil OAK, Khalil SS. SARS-CoV-2: Taxonomia, Origem e Constituição / SARS-CoV-2: taxonomy, origin and constitution. Rev Med (São Paulo). 2020 set.-out.;99(5):473-9. Acessado em 15 de abr. de 2021.

Rambaut A, Loman N, Pybus O, et al; COVID-19 Genomics Consortium UK. Caracterização genômica preliminar de uma linhagem emergente de SARS-CoV-2 no Reino Unido definida por um novo conjunto de mutações de pico. Virological.org. Postado em 16 de dezembro de 2020. Disponível em:<https://virological.org/t/preliminary-genomic-characterisation-of-an-emergent-sars-cov-2-lineage-in-the-uk-defined- por-um-conjunto-de-mutações-espiga / 563>. Acessado em 15 de abr. de 2021.

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