Como é a vida do médico (ou da médica) residente?

Como é a vida do médico (ou da médica) residente?

Caio Nunes
7 min43 days ago

(Texto escrito por Caio Nunes – radiologista pela USP e professor do SanarMed)

Como é a vida do médico residente? “Uma droga” é o que a maioria pensa. Mas calma lá, não é bem assim. Continue a leitura que eu vou te contar como é a vida do residente médico. Ah! É claro que essa história não se aplica a todas as universidades nem realidades, mas aposto que muito pontos são comuns ao chamado ‘homo residentus’.

O começo

Era madrugada de uma quinta feira – 6 da manhã – quando eu recebi um telefonema da preceptora da USP:

Olá, Caio tudo bem? Você já recebeu o assunto da prova de física?

Eu tinha sido aprovado em Radiologia na USP e estava há um mês do início oficial da Residência. Eu estava morando em Salvador, cidade que não tinha horário de verão. Acordei meio atônito e respondi meio grosseiramente (admito):

– Que material ? Prova? Oi ? 

– Sim… temos uma prova de física na primeira semana da Residência, sobre física da Radiologia. Você não sabia?

Agradeci o lembrete e fui checar meu e-mail. E não é que tinha uma série de artigos para ler? Medo e ansiedade de novo, logo para mim que estava tranquilo e achava que mares calmos viriam após a aprovação.

Esse episódio traduz um pouco do que é começar uma nova Residência. Todos ficam se perguntando ‘como será’ ou ‘o que fazemos de diferente’, principalmente quando você muda de instituição ou vai para uma área que não tem muito a ver com a graduação de medicina (ex: oftalmo, otorrino, radioterapia e etc).

Primeira semana de Residência

Geralmente na primeira semana as Residências fazem uma ambientação e mostram como funcionam os serviços do hospital, apresentando a burocracia, prontuários, senhas, crachás. Apresentam também as divisões dos rodízios (enfermarias, ambulatórios, e no caso de radiologia as áreas específicas de atuação).

Explicam a parte ética e os códigos a serem seguidos na instituição. Mas não se engane! O residente é uma mão de obra (tipo um interno que tem carimbo) e o trabalho começa logo.

Em algumas especialidades, como Clínica e Cirurgia, o residente já assume pacientes e responsabilidades no primeiro dia. Não tem motivo para se assustar: você fez um internato legal e não tem muita diferença do que você já fazia – exceto pelo fato que sua responsabilidade agora é de médico formado!

Na primeira semana você conhece os/as colegas que são de um grupo bem heterogêneo. Há muitos ex-alunos da própria USP, mas muita gente de vários cantos do Brasil, inclusive muitos nordestinos (como eu!).

Na USP fazemos também uma entrevista social para pleitear uma moradia dentro do complexo. Curiosidade: o nome ‘médico residente’ vem do fato de, antigamente, todos os médicos residirem no hospital (meu pai, por exemplo, morava no hospital Santa Izabel em Salvador). Naquela época era meio “loucura”, residentes podiam ser chamados qualquer dia e horário. Hoje não é mais assim, mas algumas poucas Residências dão esse benefício de morar no complexo (nada luxuoso, mas era um quarto duplo que quebrava muito o galho). Isso ajuda bastante principalmente quem vem de fora de São Paulo e não tem grana para pagar aluguel próximo, já que na região de pinheiros onde fica o Hospital das Clínicas da USP é tudo muito caro.

Leia o artigo “Bolsa de Residência Médica: valor, o que você precisa saber“.

Aprendizados

Residência é um momento de muito aprendizado, em todas as esferas. Na parte técnica é incrível estar em uma grande instituição e ter acesso a casos, professores de altíssimo nível, recursos de tecnologia, exames e procedimentos. Acredito que a grande diferença entre fazer em uma instituição grande é ter essa oportunidade de treinar coisas que em outros locais não será possível.

O aprendizado, no entanto, tem outras esferas. Lidar com pessoas de outros estados, outros pontos de vista, trabalhar em equipe, mudar de cidade, conhecer novas pessoas, tudo isso faz parte dos aprendizados. Esqueça que medicina é somente a parte técnica! Trabalhar em outros ares te dá a chance de ver como tudo pode ser diferente: o atendimento, a gestão, a organização e etc.

E é claro que aprendemos coisa “pequenas” e pitorescas como: sumário de urina em São Paulo é urina tipo 1.

Empregos e oportunidades

Ao fazer residência sua rede de contatos profissionais amplia muito. É nessa etapa que fazemos as mais importantes conexões profissionais. Os chefes da radiologia eram também chefes em outros serviços de famosos hospitais em São Paulo. Isso se repetia em todas as áreas. Ou seja: mostre seu trabalho e seja bom. Você será convidado para trabalhar nesses locais, com certeza.

Caso queira voltar para sua cidade/estado de origem aproveite para retomar conexões quando estiver próximo de terminar a Residência, isso ajuda muito no seu retorno. Aproveite o máximo dos cursos, congressos e oportunidades que a Residência te dá.

Vida social na Residência?

Existe vida social na Residência? Claro que sim. Mesmo com as 60 horas de carga horária da Residência Médica – no papel são 60 horas, mas na maioria das vezes cumprimos mais horas. Rs rs – é possível sim sair, fazer amigos e manter uma vida normal (ou quase isso).

O residente é work hard and play hard sabe? Os colegas da residência sempre tentam marcar encontros, churrascos e eventos de integração.

Alguns programas de residência tentem a ser desumanos (cof cof ortopedia e neurocirurgia cof cof) pela extenuante carga de trabalho e alguns episódios de assédio moral são frequentes (infelizmente isso acontece). Mas a despeito de tudo isso muita gente ainda dá seus plantões por fora para complementar renda (lembrete: Residência deve ser dedicação exclusiva).

Recomendo que você não se exceda em fazer grana na Residência. Esse momento é único e não volta. Você terá uma longa vida pela frente para recuperar seus investimentos, então viva!

Pós-Residência

A Residência passa rápido. Três, quatro anos de residência podem parecer muito, mas passam num piscar de olhos, porque é muito intenso. Sem perceber, você entrou um semi-interno e saiu um médico especialista. Sem perceber, você amadureceu profissionalmente e o mundo se abre em oportunidades.

Ao fim da Residência é hora de novas escolhas: doutorado? Empregos? Ensinar? Primeiro relaxe, aproveite e contemple o final dessa jornada Homus Residentus. Você evoluiu e o mundo sabe disso. Comemore, conte para todos, pegue seu certificado, registre o seu título e continue fazendo aquilo que nos traz mais energia: cuidar do outro.

Não há respostas certas nem caminhos claros a partir daqui e isso não é ruim, aproveite a jornada pois ela é desafiadora e incrível. As lembranças que ficam, os amigos que fazemos, os ensinamentos dos mestres… E lembre-se que nada é mais importante do que se divertir fazendo o que gosta, pois todo o resto acaba vindo por consequência: sucesso, realização, grana. Apenas faça acontecer.

😀

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